RAVE! ONE SHOTS
Fome Púrpura e o Despertar do Monstro
A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas da cortina do quarto de Tom, mas não trazia o conforto habitual. Para Thomas, o ar parecia subitamente espesso, carregado de um cheiro que só ele conseguia sentir — uma mistura de ozônio residual da transformação de PK na noite anterior e algo mais doce, mais visceral. Ele se revirou nos lençóis, sentindo um calor que não vinha do clima de Londres. Era um incêndio interno, uma combustão lenta que começava na base de sua coluna e se espalhava como veneno por cada músculo.
Ele conhecia aquela sensação. De tempos em tempos, a parte "monstro" de seu DNA decidia reivindicar o controle. Normalmente, eram apenas algumas horas de irritabilidade, chifres que teimavam em brotar e uma fome insaciável por Smirnoff. Mas hoje era diferente. O toque de PK na noite passada, aquela conexão Arkops elétrica e profunda, parecia ter agido como um catalisador, despertando algo que deveria ter permanecido adormecido por mais alguns meses.
Tom sentou-se na cama, soltando um rosnado baixo. Suas unhas estavam mais compridas, pontiagudas, e o branco de seus olhos — que já era negro — parecia pulsar com veias de um roxo fluorescente.
— PK... — ele murmurou, a voz saindo mais grave, um som gutural que arranhava sua garganta.
Ele tateou o lado vazio da cama, procurando pelo corpo quente e caótico do namorado canadense, mas encontrou apenas um pedaço de papel dobrado sobre o travesseiro. Com os dedos trêmulos e garras começando a rasgar a fronha, ele abriu o bilhete.
"Tive que sair cedinho, Tommie! Meus pais ligaram dizendo que a nave... quer dizer, o sótão deles inundou e precisam de ajuda. Volto à noite! Tordie está lá embaixo. Não se matem enquanto eu estiver fora. Amo vocês! — PK."
Tom amassou o papel em um punho cerrado. A frustração atingiu-o como um soco. Ele precisava de PK. Precisava daquela energia elétrica para acalmar o monstro que rugia dentro de si. O desespero começou a subir por seu peito, uma necessidade física de contato, de fricção, de algo que o fizesse esquecer o calor insuportável que emanava de sua própria pele.
Lá embaixo, na cozinha, Tord estava terminando de fritar alguns ovos, assobiando uma marcha militar qualquer. Ele se sentia estranhamente bem. A noite anterior tinha sido... reveladora. Ver PK em sua forma verdadeira e compartilhar aquele momento com Tom tinha suavizado as arestas de seu humor habitual.
O som de algo pesado caindo no andar de cima fez Tord parar. Depois, um arranhar rítmico, como se um animal grande estivesse tentando cavar o chão de madeira.
— Thomas? — Tord chamou, franzindo a testa. — Se você quebrou o meu rádio de novo, eu juro que vou...
Ele não terminou a frase. O som de passos pesados e desequilibrados descendo a escada o fez se virar. Tom apareceu na porta da cozinha, e Tord quase deixou cair a espátula.
O britânico estava transformado. Não era a forma de monstro completa, mas uma versão intermediária e aterrorizante. Chifres negros e curvos brotavam de seu cabelo espetado; seus dentes eram presas afiadas que mal cabiam em sua boca, e uma aura púrpura parecia emanar de seus poros. Ele respirava de forma pesada, o peito subindo e descendo violentamente sob o moletom azul que parecia prestes a rasgar nos ombros.
— Pelas barbas de Marx... — Tord murmurou, deixando o sarcasmo de lado por um segundo. — Você está péssimo, Tom. É o seu... momento do mês?
— Cadê... o PK? — Tom rosnou, avançando um passo. Suas mãos estavam fechadas em garras, cravando-se nas palmas. — Onde ele está, Tord?
Tord recuperou a compostura, cruzando os braços e exibindo um sorriso de canto, embora seus instintos de soldado estivessem gritando "perigo".
— Ele saiu, *min venn*. Foi visitar os pais. Você não leu o bilhete? — Tord deu um passo à frente, provocador. — Que azar, não é? Logo hoje que você parece um animal no cio, o nosso pequeno alienígena não está aqui para... apagar o seu fogo.
Tom soltou um rugido baixo, um som que vibrou nas janelas da cozinha. Ele avançou com uma velocidade sobre-humana, prensando Tord contra o balcão. A mão de Tom, grande e quente como brasa, apertou o pescoço de Tord, não para sufocar, mas com uma possessividade desesperada.
— Não brinque comigo, Larsson — Tom sibilou, seu rosto a centímetros do de Tord. O cheiro de álcool e fumaça que sempre emanava de Tom agora estava misturado a um odor almiscarado e selvagem. — Eu sinto... eu sinto tudo. Está queimando.
Tord sentiu uma descarga de adrenalina. Ele sabia que deveria estar preocupado, talvez até sacar uma arma, mas o estado de Tom era... fascinante. E o jeito que Tom o olhava, com aqueles olhos negros e púrpuras cheios de uma fome primitiva, fazia algo despertar no próprio Tord.
— Ah, Thomas... — Tord provocou, sua voz baixando para um tom sedutor enquanto sua mão robótica subia pelo peito de Tom, sentindo o coração dele martelando como um tambor de guerra. — Você está desesperado. Que patético. O grande e sério Tom, reduzido a um bicho carente só porque o namorado saiu por algumas horas.
— Cale a boca... — Tom encostou a testa na de Tord, fechando os olhos enquanto lutava para não perder o controle total. — Dói. Tudo dói.
Tord soltou uma risada curta, sentindo o calor que emanava do corpo de Tom.
— É uma pena que o PK não esteja aqui, não é? Ele adoraria ver você assim. Ele provavelmente deixaria você fazer o que quisesse. Mas eu? — Tord inclinou a cabeça, expondo o pescoço. — Eu não sou o PK, Thomas. Eu não sou tão bonzinho.
— Então seja você — Tom implorou, a voz quebrando. Ele soltou o pescoço de Tord e segurou os ombros dele com força, os dedos cravando na carne. — Eu não aguento mais. Tord, por favor... eu preciso que isso pare. Me ajude.
O olhar de Tord vacilou. Ele viu o desespero real nos olhos de Tom, uma vulnerabilidade que o monstro não conseguia esconder. Por um momento, a ideia de fazer aquilo sem PK parecia errada, uma quebra do pacto silencioso que o trisal tinha formado.
— Thomas, não podemos — Tord disse, tentando soar firme, embora sua própria respiração estivesse acelerando. — O PK... ele deveria estar aqui. Não seria certo com ele.
— Ele entenderia! — Tom gritou, a aura púrpura brilhando intensamente. — Ele sabe o que eu sou! Tord, eu estou implorando... eu nunca te pedi nada. Se você não me ajudar, eu vou destruir esta casa. Eu vou me destruir.
Tom desceu as mãos para a cintura de Tord, puxando-o para frente com uma urgência bruta. Ele começou a distribuir beijos desajeitados e famintos pelo pescoço de Tord, usando as presas para marcar a pele de forma superficial, deixando trilhas de calor por onde passava.
— Por favor... — Tom murmurou contra a pele de Tord. — Seja você. Só desta vez. Eu não aguento o vazio.
Tord fechou os olhos, sentindo a vontade de ceder lutar contra seu orgulho. Mas quando Tom soltou um gemido baixo, quase um choro, e o apertou com tanta força que os ossos de Tord estalaram levemente, o norueguês desistiu de lutar. A necessidade de Tom era contagiante, um vácuo que exigia ser preenchido.
— Droga, Thomas... — Tord murmurou, passando os braços pelo pescoço do britânico e puxando-o para um beijo agressivo, carregado de dentes e urgência. — Se você contar isso para o Edd, eu te mato.
Eles não chegaram ao quarto. O desejo de Tom era uma força da natureza que não aceitava atrasos. Ele empurrou Tord contra a mesa da cozinha, derrubando os pratos e os papéis de aluguel que ele mesmo tinha organizado com tanto cuidado.
— Me use, Tord — Tom ordenou, a voz agora totalmente monstruosa, profunda e vibrante. — Agora!
Tord, o homem que comandava exércitos e nunca se curvava a ninguém, sentiu um arrepio de prazer ao ver Tom tomar as rédeas daquela forma. Havia algo inebriante em ser o objeto de desejo de uma criatura tão poderosa e fora de controle. Ele se abriu para Tom, deixando que as garras do britânico rasgassem sua camisa, expondo a pele pálida e as cicatrizes de guerra ao ar frio da cozinha.
A relação entre eles sempre foi baseada em conflito, em uma queda de braço eterna por dominância. Mas ali, naquele momento de crise biológica, a dinâmica mudou. Tom era o predador, movido por um instinto que não conhecia limites, e Tord, pela primeira vez, encontrou prazer em ser a presa que saciaria aquela fome.
— Você é um monstro de verdade, não é? — Tord ofegou, sentindo as mãos de Tom o manipularem com uma força que beirava a violência, mas que era exatamente o que ele queria.
— E você é meu — Tom respondeu, cravando os dentes no ombro de Tord enquanto o tomava com uma intensidade que fez o norueguês ver estrelas.
O ato em si foi caótico. Não havia a delicadeza que PK trazia para a cama. Era uma colisão de dois egos gigantescos sob o pretexto de uma necessidade física. Tom se movia com uma cadência desesperada, cada investida enviando ondas de calor púrpura através de ambos. Tord agarrava-se às costas de Tom, suas unhas e sua mão metálica deixando marcas profundas na pele parda do outro, respondendo a cada estocada com insultos que rapidamente se transformavam em gemidos de rendição.
— Mais... — Tord pedia, a voz falhando, a cabeça jogada para trás contra a madeira da mesa. — Não para, seu idiota... mais!
Tom não parou. Ele estava perdido no frenesi, o "cio" transformando cada sensação em algo amplificado mil vezes. O prazer era tão intenso que ele sentia como se estivesse explodindo por dentro. Ele olhou para baixo e viu Tord — o homem que ele odiou por anos, o homem que quase destruiu o mundo — entregue a ele, com os olhos revirados e a boca aberta em um grito mudo de êxtase.
Naquele momento, o monstro dentro de Tom encontrou sua paz. A fome começou a diminuir, substituída por uma satisfação densa e pesada. Quando o ápice finalmente chegou, foi como uma supernova. Tom rugiu, a aura púrpura iluminando a cozinha inteira em um clarão ofuscante, enquanto Tord se arqueava sob ele, o corpo tremendo em espasmos de puro esgotamento.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração pesada de ambos. Tom desabou sobre Tord, sua forma de monstro começando a regredir lentamente. Os chifres diminuíram, as presas voltaram ao tamanho normal e a luz púrpura se apagou, deixando-os na penumbra da manhã.
Tord estava exausto, o corpo dolorido e marcado, mas havia um brilho de satisfação em seus olhos cinzentos. Ele passou a mão pelo cabelo bagunçado de Tom, sentindo o suor e o calor que ainda emanava dele.
— Você... — Tord tentou falar, mas sua voz era apenas um sussurro rouco. — Você é um animal, Thomas. Literalmente.
Tom levantou a cabeça, os olhos negros voltando ao normal, embora ainda estivessem nublados pelo cansaço. Ele olhou para o estrago que tinham feito na cozinha — a mesa riscada, a comida espalhada, as roupas rasgadas.
— Tord... eu... — Tom começou, a culpa começando a surgir.
— Não ouse pedir desculpas — Tord o interrompeu, puxando-o para um beijo curto e calmo. — Foi necessário. E, admito... você não é tão ruim nisso quando não está tentando me matar.
Eles ficaram ali por um tempo, emaranhados um no outro sobre a mesa da cozinha, processando o que tinha acontecido. A tensão que sempre existiu entre eles tinha sido drenada, substituída por uma intimidade crua e honesta.
— O PK vai nos matar quando vir esta cozinha — comentou Tom, escondendo o rosto no pescoço de Tord.
— Deixe que ele tente — Tord riu baixinho, sentindo o peso reconfortante de Tom sobre si. — Eu digo que foi um experimento científico que deu errado. Tecnicamente, não é mentira.
Horas depois, quando PK finalmente voltou para casa, ele encontrou a cozinha impecavelmente limpa (ou o mais limpa que Tom e Tord conseguiram deixar após esconderem as marcas de garras com adesivos e mudarem a mesa de lugar). Tom e Tord estavam sentados no sofá, assistindo televisão em um silêncio suspeitamente pacífico.
PK parou na porta, estreitando os olhos. Ele sentiu o cheiro no ar — o cheiro de ozônio, de hormônios e de algo que definitivamente não era apenas Smirnoff.
— Oi, voltamos! — PK anunciou, caminhando até o sofá e se jogando entre os dois. — Como foi o dia? Seguiram o meu bilhete?
Tom limpou a garganta, desviando o olhar. Tord apenas deu um sorriso misterioso, passando o braço pelos ombros de PK.
— Foi... produtivo, Liam. O Thomas teve um pequeno problema de saúde, mas eu cuidei dele.
PK olhou para Tom, notando uma pequena marca de mordida que o moletom azul não conseguia esconder totalmente no pescoço. Ele olhou para Tord e viu o mesmo brilho de satisfação que ele mesmo costumava ter após uma noite agitada.
Um sorriso largo e cúmplice surgiu no rosto de PK. Ele se inclinou e deu um beijo em cada um.
— Que bom. Fico feliz que vocês estejam aprendendo a se ajudar na minha ausência. Mas da próxima vez... — PK sussurrou, a voz carregada de promessas — eu quero participar do "experimento científico" também.
Tom e Tord se entreolharam, e pela primeira vez, não houve discussão. Houve apenas a certeza de que, entre monstros, alienígenas e líderes mundiais, o caos era a única linguagem que todos falavam fluentemente. E eles estavam perfeitamente bem com isso.