RAVE! ONE SHOTS
Engrenagens, Nanquim e o Estalo da Madeira
O som do lápis deslizando sobre o papel era o único ruído no fundo da biblioteca da faculdade, um espaço que PK havia reivindicado como seu santuário particular. Ele estava concentrado, a língua levemente para fora entre os lábios, finalizando o sombreamento nos olhos de um robô gigante que parecia saído diretamente de um clássico da Gainax. Liam Peekers, naquela época, ainda não sabia que era um alienígena Arkops; ele era apenas um garoto canadense de estilo *scene*, com o cabelo preto repicado e franja cobrindo um dos olhos, vestindo uma camiseta de banda que cheirava a energético e chiclete.
— Nada mal. A perspectiva nos propulsores está um pouco fora de centro, mas o traço é limpo.
PK deu um pulo na cadeira, quase derrubando seu estojo de nanquim. Ele olhou para cima e deu de cara com um jovem de feições angulares, cabelos castanhos claros que já desafiavam a gravidade em dois chifres naturais e um olhar cinzento que carregava uma mistura irritante de arrogância e inteligência. Tord Larsson.
— Ei! Não chega assim por trás de um artista, cara! — PK exclamou, fechando o caderno por instinto, embora suas bochechas estivessem levemente coradas. — E o que você entende de robôs, afinal?
Tord puxou uma cadeira, sentando-se ao contrário com uma facilidade invejável. Ele apontou para o caderno.
— Mais do que você imagina. E eu reconheço essa influência. Você gosta de animes?
Os olhos de PK brilharam instantaneamente, a irritação sendo substituída por um entusiasmo vulcânico.
— Se eu gosto? Eu amo! Eu passo metade das minhas noites assistindo maratonas e a outra metade desenhando *mechas*. Você também?
— Gosto das máquinas. E das histórias de conquista — Tord respondeu com um sorriso de lado, um brilho perigoso nos olhos que PK, na sua inocência juvenil, achou apenas "estiloso". — Meu nome é Tord.
— Liam. Mas pode me chamar de PK.
A amizade surgiu com a força de uma explosão termonuclear. Nos meses seguintes, eles se tornaram inseparáveis. Enquanto os outros estudantes se preocupavam com festas de fraternidade, Tord e PK discutiam engenharia robótica, assistiam a animações japonesas obscuras em fitas VHS piratas e trocavam teorias sobre dominação global (que PK achava serem apenas piadas de humor ácido de Tord).
O primeiro contato físico real não foi planejado. Foi em um passeio aleatório por um parque industrial abandonado — o lugar favorito de Tord para "pensar". Eles estavam sentados no topo de um tanque de metal enferrujado, observando o pôr do sol cinzento da cidade universitária. PK estava falando sem parar sobre um novo sintetizador que queria comprar, gesticulando freneticamente, quando Tord se virou e, sem aviso, selou seus lábios nos dele.
Foi um beijo rápido, desajeitado e com gosto de cigarro e menta. Quando se separaram, PK estava estático, o rosto da cor de um tomate maduro.
— Por que... por que você fez isso? — PK gaguejou, o coração martelando contra as costelas.
Tord deu de ombros, embora suas orelhas estivessem vermelhas.
— Foi um experimento. Curiosidade científica.
— E... qual foi o resultado? — PK perguntou, a voz quase sumindo.
— Inconclusivo — Tord mentiu, embora sua mente estivesse em turbilhão. — Precisamos de mais dados.
E assim começou o "experimento". Para Liam, era o início de algo intenso, um romance de filme que ele guardava com um carinho sagrado. Para Tord, era uma exploração de novas sensações, algo que ele tentava rotular como "passatempo" para não admitir que o garoto canadense estava começando a ocupar espaço demais em seus planos para o futuro.
A tensão atingiu o ápice em uma noite chuvosa de quinta-feira. PK cruzou o campus correndo, escondendo algo sob a jaqueta, e praticamente arrombou a porta do dormitório de Tord.
— Tord! Olha o que eu consegui na loja de importados! — PK anunciou, ofegante.
Ele jogou um volume grosso sobre a cama de Tord. Era um mangá *hentai* de luxo, com uma capa que deixava muito pouco para a imaginação.
— Liam... — Tord levantou uma sobrancelha, olhando do livro para o amigo. — Você sabe que isso é pornografia, certo?
— É arte anatômica, Tord! — PK defendeu-se, sentando-se na cama e abrindo o livro. — Olha os detalhes das sombras. É fascinante. Vem ver.
Tord sentou-se ao lado dele. Eles começaram a folhear as páginas em um silêncio que rapidamente se tornou desconfortável. O papel era de alta qualidade, e as ilustrações eram... explícitas. A cada página, a respiração de PK ficava mais curta, e Tord sentia um calor incômodo subindo pelo seu pescoço.
— O artista realmente sabe como desenhar... expressões — Tord comentou, a voz uma oitava mais grave.
PK olhou para o lado e percebeu que Tord estava visivelmente afetado. O volume sob a calça do norueguês era impossível de ignorar.
— Tordie... — PK sussurrou, fechando o mangá. — Você parece... animado.
Tord desviou o olhar, cerrando os punhos.
— É apenas uma reação biológica, Liam. Ignore.
— Eu posso ajudar com isso — PK disse, a coragem vindo de algum lugar profundo e desconhecido. — Eu quero ajudar.
Tord hesitou. Sua mente lógica dizia para parar, que aquilo complicaria as coisas, que ele precisava manter o controle. Mas os hormônios da juventude e a proximidade de PK — o cheiro de suor doce e a energia caótica que emanava dele — foram mais fortes.
— Tem certeza? — Tord perguntou, a voz rouca. — Isso não é um anime, PK.
— Eu sei o que eu quero, Tord.
PK tomou a iniciativa. Para a surpresa de Tord, o garoto que geralmente era o "seguidor" assumiu o controle com uma determinação feroz. PK empurrou Tord para trás, fazendo-o deitar na cama estreita do dormitório.
— Eu amo isso — PK murmurou entre beijos que desciam pelo pescoço de Tord. — Eu amo você, Tord.
Tord não respondeu com palavras, mas suas mãos agarraram o cabelo de PK, puxando-o para mais perto. Naquela primeira vez, PK foi o ativo, e ele foi de uma gentileza surpreendente no início, explorando o corpo de Tord como se estivesse mapeando um território sagrado.
— Você é tão bonito, Tord — PK dizia, os olhos brilhando com uma intensidade que quase assustava o norueguês. — Suas cicatrizes, seu rosto... tudo.
Tord sentia-se vulnerável, uma sensação que ele detestava, mas que, sob as mãos de PK, tornava-se suportável.
— Menos conversa, Liam — Tord ofegou, arqueando as costas quando PK encontrou um ponto sensível. — Apenas... continue.
Mas, à medida que o ato progredia, a natureza Arkops de PK — mesmo que ele ainda não soubesse dela — começou a aflorar através de seus instintos. A gentileza deu lugar a uma energia descontrolada, uma fome que parecia impossível de saciar. PK movia-se com uma força e uma velocidade que desafiavam o físico de um garoto de dezoito anos.
— PK... devagar... — Tord tentou dizer, mas suas palavras foram abafadas por um gemido quando PK o segurou pelos quadris com uma força que certamente deixaria hematomas.
— Eu não consigo! — PK exclamou, o suor pingando de seu rosto. — É bom demais, Tord! Eu nunca quero parar!
O ritmo tornou-se frenético. A cama de metal da faculdade, projetada para suportar apenas o peso de um estudante estudioso e seus livros, começou a protestar. O rangido do metal contra o chão de madeira era rítmico e alto.
— Liam, o barulho... — Tord tentou alertar, mas ele mesmo estava perdido demais no prazer para se importar de verdade.
No ápice do momento, quando PK soltou um grito de triunfo e Tord se agarrou aos lençóis como se sua vida dependesse disso, houve um som seco e violento. *CRA-CK*.
A estrutura central da cama cedeu. O colchão afundou no meio, e os pés de metal da cabeceira se dobraram para dentro com um estrondo que ecoou por todo o corredor dos dormitórios.
Eles ficaram ali, ofegantes, emaranhados em um monte de metal retorcido e lençóis bagunçados.
— Ops — PK sussurrou, os olhos arregalados.
— Ops? — Tord sibilou, tentando se desvencilhar dos escombros. — Você destruiu a propriedade da universidade, seu idiota!
Passos pesados foram ouvidos no corredor. O guarda noturno da faculdade estava batendo nas portas.
— O que está acontecendo aí? Que barulho foi esse? — a voz grossa do guarda se aproximava.
— Merda! — PK pulou para fora da cama, vestindo as calças na velocidade da luz. — Eu tenho que ir! Se me pegarem aqui, eu perco a minha bolsa!
— E eu fico com a cama quebrada?! — Tord exclamou, mas já era tarde.
PK abriu a janela do dormitório, deu um beijo rápido e molhado na bochecha de Tord e saltou para a escada de incêndio, sumindo na chuva.
Segundos depois, o guarda abriu a porta com a chave mestra. Ele encontrou Tord Larsson sentado no chão, vestindo apenas uma camisa aberta, cercado pelos restos mortais de sua cama, segurando um livro de física e com a expressão mais cínica do mundo.
— Algum problema, oficial? — Tord perguntou, sem mover um músculo da face.
— O que aconteceu com a sua cama, rapaz? — o guarda perguntou, iluminando o desastre com a lanterna.
— Falha estrutural — Tord respondeu, impassível. — Eu estava estudando a lei da gravidade e a resistência dos materiais. Claramente, a faculdade economizou no aço.
O guarda resmungou algo sobre "jovens de hoje em dia" e saiu, deixando Tord sozinho no escuro, com o coração ainda acelerado e a marca das mãos de PK em seus quadris como prova de que o "experimento" tinha ido longe demais.
***
De volta ao presente, na sala da casa de Edd, o silêncio que se seguiu à história de Tord era quase palpável. Tom estava sentado na poltrona, com uma caneca de Smirnoff parada a meio caminho da boca, os globos oculares negros fixos em Tord com uma mistura de choque e puro divertimento.
— Então... — Tom finalmente falou, a voz carregada de sarcasmo. — Deixa eu ver se eu entendi. O "Líder Vermelho", o homem que enfrentou exércitos e construiu robôs gigantes, tem medo de deixar o PK ser o ativo de novo porque ele... quebrou a sua cama na faculdade?
Tord, que estava sentado no sofá com os braços cruzados e uma expressão de pura indignação, bufou.
— Não foi apenas "quebrar a cama", Thomas! Ele quase demoliu o quarto! O PK não tem noção da força que tem quando fica animado. É como tentar transar com um trator desgovernado movido a açúcar e música *emo*.
Tom soltou uma gargalhada alta, batendo o joelho.
— Isso é hilário! O grande Tord Larsson, reduzido a escombros por um canadense de um metro e sessenta e oito.
— Ri agora, testemunha de Jeová — Tord sibilou, apontando o dedo para Tom. — Mas eu vi como ele te olhou na noite em que você se transformou. Se ele decidir que é a vez dele de mandar na situação, você vai descobrir que os seus chifres não são a única coisa que vai acabar quebrada nesta casa.
Tom parou de rir por um segundo, considerando a possibilidade. Ele lembrou da força que PK demonstrou quando eles lutaram contra os Arkops no espaço.
— Ele é... intenso — admitiu Tom, limpando o canto do olho. — Mas eu acho que eu aguento.
— Foi o que eu pensei na época — Tord resmungou, voltando a olhar para o teto. — E eu tive que dormir no chão por três semanas até a reposição da cama chegar. Paul e Patryk ainda fazem piadas sobre como eu "estudei mecânica" demais naquele semestre.
PK apareceu na porta da sala, segurando uma bandeja com três canecas de chocolate quente e um sorriso radiante.
— Do que vocês estão falando? — PK perguntou, sentando-se alegremente entre os dois. — Ouvi meu nome e algo sobre mecânica.
Tom e Tord se olharam. Houve um momento de comunicação silenciosa onde, pela primeira vez na vida, eles estavam em total acordo.
— Nada, estrela cadente — disse Tom, pegando sua caneca e dando um beijo na têmpora de PK. — O Tord só estava me contando sobre as "falhas estruturais" da juventude dele.
— Ah, sim! — PK riu, os olhos brilhando com a lembrança. — Aquela cama era horrível, não era, Tordie?
Tord suspirou, aceitando sua caneca e bebendo um gole longo.
— Era, Liam. Era péssima.
Ele olhou para a cama nova, feita de titânio e pistões hidráulicos, que ele mesmo tinha projetado para o trisal. Ele tinha certeza de que aquela aguentaria. Mas, olhando para o brilho travesso nos olhos de PK, Tord sentiu que, talvez, ele devesse reforçar os parafusos da base mais uma vez. Por via das dúvidas.