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Red

O Gosto Amargo da Herança

O ar dentro do *Red* era saturado, uma névoa de perfume caro, suor e a eletricidade estática de desejos proibidos. Naquela noite, o camarote privado no andar superior, isolado por cortinas de veludo tão densas que abafavam o som da música eletrônica lá embaixo, tornou-se o epicentro de uma colisão inevitável.

Dahlia sentia o toque de Rafe como uma marca de ferro em brasa. Ele não era gentil; seus movimentos eram urgentes, quase violentos, como se ele estivesse tentando arrancar a verdade dela através da pele. A máscara de renda preta ainda estava em seu rosto, mas o vestido de seda vermelha jazia esquecido no chão de carvalho escuro.

— Você é um veneno, Dahlia — sussurrou Rafe contra o pescoço dela, a voz rouca, as mãos apertando sua cintura com uma força que deixaria hematomas. — Eu deveria te odiar por isso.

Dahlia inclinou a cabeça para trás, soltando um suspiro trêmulo que era metade prazer, metade triunfo. Ela sentia o coração dele martelando contra suas costas, um ritmo frenético e descontrolado que ela mesma havia provocado.

— Mas você não odeia, Rafe — respondeu ela, virando-se nos braços dele para encará-lo. Os olhos dele, por trás da máscara veneziana que já estava torta, brilhavam com uma lucidez perigosa. — Você adora o fato de que eu sou a única coisa real na sua vida de aparências.

Rafe a beijou novamente, um beijo que tinha gosto de uísque e desespero. Naquela penumbra, as identidades se dissolviam. Ele não era o herdeiro Cameron, nem o noivo de Sofia; ela não era a irmã invisível, nem a filha perfeita. Eram apenas dois predadores reconhecendo-se na escuridão. Eles se perderam um no outro durante horas, em um pacto silencioso de destruição mútua que parecia ser a única forma de ambos se sentirem vivos.

***

A manhã seguinte em Figure Eight chegou com uma claridade ofensiva. O sol refletia nas águas calmas do canal, e o som dos pássaros parecia um escárnio para quem tinha passado a noite mergulhado no pecado.

Dahlia desceu para o café da manhã usando um robe de seda pérola, o cabelo impecavelmente alinhado, embora seus olhos carregassem uma sombra que nenhuma maquiagem poderia esconder totalmente. Ela encontrou a mesa posta no terraço. Seu pai, Ward Cameron e Sofia já estavam lá, mergulhados em papéis e tablets.

Rafe chegou instantes depois. Ele parecia terrivelmente pálido sob a luz do dia, mas mantinha a postura rígida. Ele evitou olhar diretamente para Dahlia, concentrando-se em servir-se de café preto.

— É uma decisão lógica, Ward — disse o pai de Dahlia, limpando os óculos. — A fusão dos ativos imobiliários dos Romano com a logística dos Cameron criará um monopólio no lado norte da ilha.

— Exatamente — concordou Ward, com aquele sorriso predatório que Rafe herdara. — E com o casamento, não há necessidade de manter as administrações separadas. Sofia, querida, você já revisou os termos da transferência de custódia das ações?

Sofia, que parecia mais radiante do que nunca, assentiu com entusiasmo.

— Sim, papai. O advogado disse que, assim que assinarmos os papéis na recepção, eu assumo a vice-presidência da *Cameron Development* e a gestão total das propriedades Romano. Rafe cuidará da parte operacional, mas a palavra final sobre o patrimônio será minha.

Dahlia, que estava prestes a levar uma torrada à boca, parou o movimento no ar. O silêncio que se seguiu em sua mente foi ensurdecedor.

— Tudo? — perguntou Dahlia, a voz saindo mais fria do que ela pretendia. — Você vai herdar a gestão de tudo, Sofia?

Sofia olhou para a irmã, brilhando de orgulho.

— Sim, Lia! O papai e o Ward decidiram que é melhor consolidar tudo em uma única linha sucessória. Como eu sou a primogênita e estou me unindo ao Rafe, faz sentido que o império seja unificado sob o meu nome. Você continuará com a sua mesada e o fundo fiduciário, claro, mas a responsabilidade... o poder de decisão... será meu e do Rafe.

Dahlia sentiu uma pontada aguda de algo que raramente admitia: inveja pura e corrosiva. Não era pelo dinheiro — ela sempre tivera luxo —, mas pelo peso. Pela relevância. Durante anos, ela tinha sido a observadora, a mente mais afiada daquela casa, a única que realmente entendia as nuances dos negócios e a podridão dos Cameron. E, no final, o prêmio ia para Sofia, simplesmente porque ela era a primeira e porque aceitara ser a peça de decoração no tabuleiro de Ward.

Ela olhou para Rafe. Ele estava com os olhos fixos na xícara, mas Dahlia notou o modo como ele apertava a alça de porcelana. Ele sabia. Ele sabia que, no papel, ele seria submisso à esposa.

— Que conveniente — disse Dahlia, com um sorriso que não alcançou os olhos. — O império Romano entregue de bandeja para os Cameron, com a Sofia segurando o laço de fita.

— Dahlia, por favor, não comece — pediu o pai, franzindo a testa.

— Não estou começando nada, papai — disse ela, levantando-se. A cadeira arrastou no piso de pedra com um som estridente. — Só estou admirando a eficiência da transação. É um belo negócio, Sofia. Você ganha um marido e duas fortunas. Só espero que você saiba o que fazer com a parte que vem... nas entrelinhas.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Sofia, o sorriso vacilando.

Dahlia olhou diretamente para Rafe. O desafio em seus olhos era cortante.

— Quero dizer que algumas coisas são difíceis de gerenciar, Sofia. Especialmente aquilo que se esconde no escuro.

Rafe finalmente levantou o olhar. Havia um aviso ali, mas também um reconhecimento doentio. Ele viu a inveja dela, viu a ambição que ela tentava mascarar com sarcasmo, e isso o excitou tanto quanto a noite anterior.

— Dahlia tem razão em uma coisa — disse Rafe, a voz gélida. — Gerenciar o que é nosso exige... estômago.

— Bom, eu tenho certeza de que a Sofia dará conta — interveio Ward, tentando dissipar a tensão. — Agora, Rafe, precisamos discutir o terreno em Figure Eight que será o presente de casamento.

Dahlia não ficou para ouvir. Ela caminhou em direção ao jardim, sentindo o sangue ferver. Ela sempre soubera que era a mais inteligente, a mais capaz, mas ver a confirmação de que seria apenas uma nota de rodapé na história da "Grande Fusão Romano-Cameron" despertou algo sombrio.

Ela estava perto da piscina quando ouviu passos rápidos atrás de si.

— Você não consegue se segurar, não é? — a voz de Rafe era um sussurro agressivo. Ele a alcançou, segurando seu braço e puxando-a para trás de uma sebe de camélias, longe da vista do terraço.

— Me solta, Rafe — sibilou ela, embora não lutasse contra o aperto.

— O que foi aquilo lá dentro? — perguntou ele, encurralando-a contra a parede de pedra. — Estava com inveja da sua irmã? Percebeu que, enquanto você brinca de mistério em clubes noturnos, ela está ficando com o mundo inteiro?

Dahlia riu, um som carregado de veneno.

— Ela não está ficando com o mundo, Rafe. Ela está ficando com uma casca vazia. Você acha que eu quero a vice-presidência daquela empresa de fachada? O que me irrita é a cegueira. Eles dão o poder para ela porque acham que ela é fácil de controlar. E dão a você o papel de cão de guarda porque acham que você é leal.

— E eu não sou? — Rafe se aproximou, o rosto a centímetros do dela.

— Você passou a noite em um camarote comigo enquanto ela dormia sonhando com rosas brancas — disse Dahlia, a voz baixando para um tom perigosamente sedutor. — Você não sabe o que é lealdade, Rafe. Você só conhece a fome. E agora, você vai ser o marido da mulher que detém as chaves do cofre. Como se sente sendo o empregado da sua esposa?

O rosto de Rafe se transformou. A arrogância deu lugar a uma fúria crua. Ele odiava aquela verdade. Ward sempre o fizera sentir que ele tinha que conquistar seu lugar, e agora, ser colocado sob a tutela financeira de Sofia era um golpe em seu ego frágil.

— Eu não sou empregado de ninguém — rosnou ele.

— É sim. No papel, você é — provocou Dahlia, sentindo o poder retornar a ela ao ver a instabilidade dele. — Mas não se preocupe. Eu não conto para ninguém que o grande Rafe Cameron é, na verdade, um dependente dos Romano.

Rafe a prensou com mais força contra a parede, a respiração errática.

— Você quer o que ela tem? É isso? Quer o controle? Quer o sobrenome?

— Eu quero o que eu mereço, Rafe. E eu mereço muito mais do que ser a madrinha silenciosa em um altar de mentiras.

— Você é louca — disse ele, mas seus olhos desceram para os lábios dela.

— E você está perdidamente nas minhas mãos — rebateu ela. — Porque, no final do dia, Sofia pode ter as ações, o título e a conta bancária. Mas sou eu quem tem você. E nós dois sabemos qual dessas coisas é a mais perigosa.

Rafe não respondeu com palavras. Ele a beijou com uma raiva possessiva, um beijo que era uma tentativa de silenciá-la e, ao mesmo tempo, uma rendição. Dahlia correspondeu, sentindo a inveja de Sofia se transformar em um combustível negro. Se ela não teria o império legalmente, ela o destruiria por dentro, começando pelo homem que deveria ser o pilar daquela união.

Eles se separaram quando ouviram a voz de Sofia chamando por Rafe do terraço.

— Vá — sussurrou Dahlia, limpando o canto da boca com o polegar. — Vá brincar de noivo perfeito. A vice-presidente está esperando.

Rafe a encarou por mais um segundo, uma mistura de ódio e adoração em seu olhar, antes de se afastar e caminhar de volta para a luz do sol, vestindo sua máscara de herdeiro impecável.

Dahlia ficou nas sombras, observando-o. Ela olhou para a mansão, para a irmã que sorria sem saber que seu mundo estava sendo corroído pelos alicerces. A inveja ainda estava lá, um gosto amargo na língua, mas agora havia um plano.

Se Sofia herdaria os negócios, Dahlia herdaria o caos. E, em Outer Banks, o caos sempre fora muito mais lucrativo do que a ordem.

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