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Red

O Fio de Seda e a Queda de Marfim

A noite do jantar de formalização da data do casamento não era apenas um evento social em Figure Eight; era uma coroação. A mansão dos Romano estava banhada por uma luz âmbar, o cheiro de gardênias frescas misturando-se ao aroma de um banquete que custaria o salário anual de qualquer Pogue. Para todos os presentes, era a celebração da união perfeita. Para Dahlia, era o velório da sua própria relevância.

Ela observava a cena da periferia da sala de jantar, um copo de vinho tinto na mão, o líquido escuro girando como uma tempestade contida. Sofia estava deslumbrante em um vestido de seda marfim, sentada entre Ward e o pai, rindo de alguma piada de Rafe. Rafe, por sua vez, representava o papel da vida dele. Ele estava charmoso, atento, o braço descansando casualmente no encosto da cadeira de Sofia, mas Dahlia notava o tremor quase imperceptível em seus dedos e o modo como ele evitava olhar para o canto da sala onde ela estava.

A cada brinde, a cada menção à "nova era das empresas Romano-Cameron", a bile subia pela garganta de Dahlia. O anúncio oficial da data — daqui a exatos dez dias — foi recebido com aplausos.

— Aos noivos! — exclamou Ward, levantando sua taça de cristal. — E ao império que eles construirão juntos.

Dahlia não brindou. Ela apenas bebeu, sentindo o gosto metálico da inveja e do desdém. Ela não podia permitir. Não era apenas sobre Rafe, embora o desejo possessivo por ele queimasse como ácido em suas veias. Era sobre o fato de que Sofia, a irmã que sempre precisara de ajuda para escolher a cor do batom, agora detinha as chaves de tudo o que Dahlia valorizava: o poder real.

O jantar se arrastou como uma tortura refinada. Dahlia sentia o olhar de Rafe a queimando de tempos em tempos — um olhar carregado de culpa e uma fome sombria que ele não conseguia esconder dela. Quando os convidados finalmente começaram a se dispersar para o terraço para os charutos e o conhaque, Dahlia subiu as escadas, precisando do isolamento do seu quarto antes que gritasse.

Ela estava parada diante do espelho, arrancando os brincos de diamante com uma força desnecessária, quando ouviu uma batida suave na porta.

— Lia? Sou eu. Posso entrar?

Dahlia fechou os olhos por um segundo, recompondo a máscara.

— Entre, Sofia.

A irmã mais velha entrou, fechando a porta atrás de si. Ela parecia flutuar no vestido de noiva experimental, mas havia uma sombra de hesitação em seu rosto perfeito.

— Você saiu tão cedo da mesa — disse Sofia, aproximando-se da penteadeira. — Eu senti sua falta lá embaixo.

— Eu estava com dor de cabeça, Sofia. O brilho excessivo do futuro dos Cameron é um pouco ofuscante — respondeu Dahlia, sem se virar.

Sofia suspirou e colocou a mão no ombro da irmã.

— Lia, escute... eu sei que as coisas mudaram rápido. Com o anúncio da herança e da gestão das empresas... eu senti que você ficou infeliz. Eu sei que você sempre foi a mais interessada nos negócios do papai.

Dahlia soltou uma risada seca, virando-se finalmente para encarar a irmã.

— Infeliz? Essa é uma palavra gentil, Sofia. Eu diria que estou apenas... impressionada com a audácia do papai em entregar décadas de trabalho para alguém que mal sabe ler um balanço patrimonial, só porque você vai dormir com um Cameron.

O rosto de Sofia empalideceu, a mágoa substituindo a preocupação.

— Isso é injusto. Eu estou me esforçando. E Rafe vai estar ao meu lado. Ele conhece o lado operacional, ele tem visão...

— Rafe tem visão? — Dahlia deu um passo à frente, sua voz baixando para um tom perigoso. — Rafe é uma bomba relógio, Sofia. Ele não quer o império, ele quer a aprovação do pai dele. E você é apenas o degrau que ele está usando para subir. Você realmente acha que ele te ama?

— Ele me ama do jeito dele! — exclamou Sofia, a voz subindo. — E eu vim aqui porque me importo com você. Eu ia te oferecer um cargo de consultoria, Lia. Eu queria que trabalhássemos juntas. Mas você está sendo tão... amarga.

— Consultoria? — Dahlia sentiu a raiva explodir, uma onda de calor que nublou sua visão. — Você quer me dar as migalhas do banquete que eu deveria estar presidindo? Você não tem ideia do que está fazendo, Sofia. Você é fraca. Você sempre foi a boneca de porcelana da família, e agora quer brincar de CEO?

Sofia deu um passo atrás, chocada com a agressividade da irmã.

— Eu não sou fraca. Eu estou tentando manter esta família unida! Você sempre foi assim, Dahlia. Escondida nas sombras, julgando todo mundo, agindo como se fosse superior porque é "observadora". Mas a verdade é que você está apenas com inveja porque, pela primeira vez, eu sou o centro das atenções e você não é nada.

— Nada? — Dahlia avançou, encurralando Sofia em direção à porta aberta que dava para o corredor das escadas. — Eu sou a única que conhece o homem com quem você vai casar. Eu conheço o Rafe que frequenta o *Red*. Eu conheço o Rafe que treme quando eu o toco. Você acha que tem o controle? Você não tem nada além de um pedaço de papel e um noivo que me deseja todas as noites!

Sofia parou na beira da escadaria de mármore, o rosto contorcido em descrença e horror.

— Do que você está falando? O *Red*? Você... você e o Rafe?

— O que você acha, Sofia? — Dahlia sorriu, um sorriso cruel e desprovido de qualquer empatia. — Enquanto você planejava o arranjo das flores, ele estava me implorando para não parar. Ele nunca será seu. O império nunca será seu. Você é apenas uma fraude marfim.

— Você é um monstro — sussurrou Sofia, as lágrimas começando a rolar. — Você está mentindo. Você quer me destruir porque não suporta me ver feliz. Saia da minha frente, Dahlia. Eu vou contar ao papai. Eu vou acabar com isso agora.

Sofia tentou passar por Dahlia para descer as escadas, o corpo trêmulo de indignação.

— Você não vai a lugar nenhum — disse Dahlia, a voz fria como o vácuo.

— Me solta! — gritou Sofia, empurrando o ombro da irmã para abrir caminho.

Foi um movimento instintivo. A inveja acumulada por anos, o desprezo pela fraqueza da irmã e a necessidade visceral de impedir aquele casamento culminaram em um único impulso. Quando Sofia tentou desviar, Dahlia não apenas bloqueou o caminho; ela usou o peso do próprio corpo e as mãos espalmadas para desferir um empurrão violento no peito de Sofia.

— Se você quer tanto o chão, Sofia, então fique com ele! — sibilou Dahlia.

O tempo pareceu desacelerar. O salto de Sofia prendeu na borda do tapete persa. Seus olhos se arregalaram, fixos nos de Dahlia, um pedido mudo de socorro que foi ignorado. O corpo de marfim oscilou para trás, perdendo a batalha contra a gravidade.

— Lia! — o grito de Sofia foi curto, cortado pelo som seco do primeiro impacto contra os degraus de mármore.

Dahlia ficou parada no topo da escada, as mãos ainda estendidas no ar, observando a irmã rolar. O som era horrível — o baque surdo da carne contra a pedra, o rasgar da seda cara, o estalo metálico do corrimão. Sofia parou no meio do lance de escadas, o corpo dobrado de forma antinatural, o vestido marfim agora manchado por um fio escuro que começava a brotar de sua têmpora.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração ofegante de Dahlia.

— Sofia? — sussurrou ela, a adrenalina começando a baixar e sendo substituída por um pavor gélido.

Lá embaixo, na sala de estar, o som da queda não passara despercebido. Passos rápidos ecoaram pelo mármore do andar térreo.

— O que foi isso? — a voz de Ward Cameron soou alta e autoritária.

Dahlia recuou um passo, as costas batendo contra a parede do corredor. Ela olhou para as próprias mãos, que ainda formigavam. O que ela tinha feito? Ela queria impedir o casamento, queria o poder, mas a visão da irmã imóvel na escada era uma realidade que ela não tinha processado totalmente.

— Sofia! Meu Deus, Sofia! — o grito veio de Rafe.

Dahlia caminhou lentamente até a beirada, olhando para baixo. Rafe estava ajoelhado ao lado de Sofia, as mãos pairando sobre ela, sem saber onde tocar. O pai de Dahlia vinha logo atrás, o rosto transfigurado em horror puro.

Rafe levantou os olhos. Ele viu Dahlia no topo da escada. Por um segundo eterno, os olhos deles se encontraram. Não havia apenas choque nos olhos de Rafe; havia um reconhecimento terrível. Ele sabia do que Dahlia era capaz. Ele vira a escuridão nela no *Red*, e ele sabia, com a intuição de um homem que também carregava monstros, que aquilo não fora um acidente.

— Dahlia? — a voz do pai era um fio quebrado. — O que aconteceu? Ela tropeçou?

Dahlia sentiu a máscara vacilar, mas não cair. Ela forçou os olhos a lacrimejarem, levou a mão à boca e soltou um soluço sufocado, caindo de joelhos no topo da escada.

— Ela... ela estava correndo — disse Dahlia, a voz trêmula, interpretando o papel da irmã devastada. — Ela estava animada para mostrar o vestido... eu tentei segurá-la, eu gritei para ela tomar cuidado... mas ela escorregou. Foi tão rápido... meu Deus, foi tão rápido!

Rafe continuava olhando para ela. A expressão dele era uma máscara de dor, mas sob ela, Dahlia viu a engrenagem girar. Ele tinha uma escolha: denunciar a mulher que ele desejava e destruir o que restava de sua própria sanidade, ou proteger o segredo dela e garantir que o império Romano continuasse ao alcance de suas mãos, mesmo que de uma forma muito mais sangrenta.

— Chamem uma ambulância! — gritou Ward, já ao telefone. — Agora!

Rafe voltou a atenção para Sofia, limpando o sangue do rosto dela com o punho da camisa.

— Ela está respirando — disse ele, a voz estranhamente calma, quase mecânica. — Mas está inconsciente.

Dahlia desceu os degraus devagar, um a um, como se estivesse em transe. Ela parou alguns degraus acima de onde Rafe estava. O cheiro de sangue e perfume de gardênia era inebriante.

— Ela vai ficar bem, Rafe? — perguntou ela, a voz carregada de uma falsa esperança que fez o estômago de Rafe revirar.

Rafe não olhou para ela desta vez. Ele apenas segurou a mão fria de Sofia.

— O casamento não vai acontecer em dez dias, Dahlia — disse ele, tão baixo que apenas ela podia ouvir. — Você conseguiu o que queria.

— Eu não queria isso, Rafe — mentiu ela, aproximando-se o suficiente para que seu vestido roçasse no ombro dele. — Eu só queria que a verdade aparecesse.

— A verdade está espalhada neste mármore — rebateu ele, finalmente encarando-a. Havia um brilho de ódio puro em seus olhos, mas também uma submissão inevitável. — E agora, nós dois estamos manchados por ela.

Os paramédicos invadiram a casa minutos depois, transformando a mansão em um caos de luzes vermelhas e azuis. Sofia foi levada em uma maca, o rosto pálido como a morte, o vestido de noiva agora um trapo inútil. O pai de Dahlia seguiu na ambulância, em estado de choque.

Dahlia e Rafe ficaram sozinhos no hall de entrada, sob a luz do lustre de cristal que agora parecia frio e impessoal. O sangue de Sofia ainda manchava o degrau de mármore entre eles.

— O que acontece agora? — perguntou Dahlia, cruzando os braços, a fachada de fragilidade desaparecendo assim que a porta se fechou.

Rafe caminhou até ela, parando a centímetros de distância. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, os dedos ainda sujos com o sangue da irmã.

— Agora — começou ele, a voz carregada de uma promessa sombria —, nós esperamos. Se ela acordar e se lembrar... nós estamos mortos. Mas se ela não acordar...

— Se ela não acordar — completou Dahlia, os olhos brilhando com a frieza de um diamante —, o império precisará de uma nova gestora. E você precisará de uma noiva que realmente entenda quem você é.

Rafe soltou uma risada amarga, encostando a testa na dela.

— Você é um demônio, Dahlia Romano.

— E você é o homem que vai me ajudar a governar este inferno — respondeu ela, selando o pacto com um beijo rápido e gelado, enquanto, ao longe, o som da sirene desaparecia na noite de Outer Banks.

O casamento fora cancelado. O império estava em suspenso. E Dahlia, observando a mancha de sangue no mármore, soube que finalmente tinha deixado de ser a sombra. Ela era o incêndio, e Figure Eight estava apenas começando a queimar.

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