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Red

O Silêncio das Gardênias Murchas

A ala VIP do hospital de Outer Banks cheirava a antisséptico e a flores que já deveriam ter sido jogadas fora. O bip constante das máquinas era a única trilha sonora daquele quarto, um metrônomo irritante que marcava o tempo que Sofia Romano passava entre este mundo e o próximo.

Dahlia estava sentada na poltrona de couro ao lado da cama, observando o peito da irmã subir e descer de forma mecânica. Sofia parecia uma boneca de cera, a pele translúcida e os cabelos espalhados pelo travesseiro como fios de ouro que perderam o brilho.

— Você sempre teve o hábito de ser o centro das atenções, Sof — sussurrou Dahlia, a voz desprovida de qualquer emoção. — Mas nunca imaginei que faria isso ficando em silêncio por três semanas.

Ela se levantou e caminhou até a janela, observando o pôr do sol sobre o pântano. O mundo lá fora continuava girando, mas dentro daquelas quatro paredes, o destino dos Romano e dos Cameron estava suspenso por um fio de nylon.

A porta do quarto se abriu com um clique suave. Dahlia não precisou se virar para saber quem era. O cheiro de tabaco e colônia cara, misturado a uma aura de instabilidade, preencheu o ambiente.

— Os médicos dizem que não houve mudança — disse Rafe, fechando a porta atrás de si. Ele caminhou até o pé da cama, olhando para a noiva com uma expressão que oscilava entre a náusea e o alívio.

— Os médicos dizem o que o dinheiro do meu pai manda eles dizerem — rebateu Dahlia, virando-se para ele. — Ela está estável. O cérebro dela é um labirinto trancado, Rafe. E enquanto a chave não aparecer, o império continua sangrando.

Rafe soltou uma risada seca, passando a mão pelo rosto cansado. Ele parecia mais magro, os olhos mais encovados, mas havia uma agitação elétrica em seus movimentos que Dahlia reconhecia bem.

— Sangrando? Ward está tendo um colapso. O contrato de fusão tinha uma cláusula de sucessão imediata em caso de incapacidade da Sofia, mas o seu pai está bloqueando tudo. Ele quer esperar que ela "milagrosamente" acorde.

Dahlia deu um passo em direção a ele, seus olhos brilhando com uma intensidade predatória.

— Meu pai é um homem sentimental, Rafe. Ele ainda acredita em contos de fadas. Mas nós sabemos que o mundo real é feito de concreto e assinaturas. E, neste momento, a única pessoa que pode assinar os documentos de gestão provisória, na ausência da Sofia e com a saúde debilitada do meu pai, sou eu.

Rafe arqueou uma sobrancelha, aproximando-se dela até que suas respirações se misturassem.

— Você? A irmãzinha que ninguém levava a sério? Ward nunca vai aceitar isso. Ele quer o controle total. Ele quer que eu assuma através de uma procuração de noivado que ele está tentando falsificar agora mesmo.

— Ward é um dinossauro — disse Dahlia, a mão subindo pelo peito de Rafe, sentindo o coração dele acelerar sob a camisa. — Ele acha que o poder é algo que se herda ou se rouba com força bruta. Ele não entende que o poder é algo que se seduz.

— E o que você sugere, Dahlia? — perguntou ele, a voz baixando para um tom perigoso. — Que eu traia meu próprio pai para te colocar no trono?

— Eu sugiro que você escolha o lado vencedor — sussurrou ela, os lábios roçando a orelha dele. — Ward vai te descartar assim que conseguir o que quer. Ele sempre fez isso. Mas eu... eu preciso de um parceiro. Alguém que não tenha medo de sujar as mãos. Alguém que já tenha sangue debaixo das unhas, assim como eu.

Rafe segurou o rosto dela com força, os olhos azuis faiscando de uma mistura de ódio e desejo absoluto.

— Você a empurrou. Eu vi nos seus olhos naquele dia. E agora você está aqui, agindo como se fosse a dona do tabuleiro.

— Eu não a empurrei, Rafe — mentiu ela, a voz firme como aço. — Eu apenas deixei que a gravidade fizesse o trabalho que você não teve coragem de fazer. Você queria se livrar desse compromisso tanto quanto eu queria a minha herança. Nós apenas... colaboramos com o destino.

Rafe a beijou com uma ferocidade que cheirava a desespero. Era um beijo de conspiradores, um pacto selado em um quarto de hospital enquanto a terceira ponta do triângulo jazia em coma a poucos centímetros deles. Quando se separaram, Rafe estava arfando.

— O que você quer que eu faça? — perguntou ele.

— Ward tem uma reunião com os acionistas amanhã na mansão Cameron — explicou Dahlia, recuperando a compostura e ajeitando o robe de seda. — Ele vai tentar passar a gestão da *Romano Land Holdings* para a *Cameron Development* alegando a incapacidade da Sofia. Eu estarei lá. E você vai confirmar que Sofia me confidenciou, antes do "acidente", que queria que eu assumisse os negócios caso algo acontecesse.

— Ele vai saber que é mentira — disse Rafe.

— Ele pode desconfiar, mas os acionistas precisam de estabilidade. Se o noivo e a irmã da herdeira estão de acordo, Ward não tem base legal para intervir sem uma batalha judicial de anos. E ele não tem esse tempo. As dívidas de jogo do seu pai estão começando a aparecer, Rafe. Eu sei sobre as contas nas Bahamas.

Rafe estacou, a expressão tornando-se gélida.

— Como você sabe disso?

— Eu sou observadora, lembra? — Dahlia deu um sorriso de canto. — Enquanto todos olhavam para a beleza da Sofia, eu olhava para os livros contábeis que Ward deixava abertos no escritório. Seu pai está desesperado por essa fusão para cobrir buracos. Ele é vulnerável. E nós vamos usar isso.

***

A mansão Cameron estava envolta em uma névoa densa na manhã seguinte. A sala de reuniões, com suas paredes forradas de carvalho e troféus de caça, parecia um tribunal. Ward Cameron estava na cabeceira da mesa, o rosto uma máscara de autoridade inabalável.

— A situação da Sofia é trágica, todos sabemos — começou Ward, a voz ressonando com uma falsa gravidade. — Mas os negócios não podem parar. Como noivo e futuro membro da família, Rafe está preparado para assumir a gestão interina dos ativos Romano, integrando-os à nossa estrutura para garantir a segurança dos investimentos.

Os acionistas, homens de terno cinza e expressões cautelosas, assentiram. O pai de Dahlia, sentado em uma cadeira de rodas ao lado, parecia alheio, os olhos perdidos em algum ponto no tapete.

— Com todo o respeito, Sr. Cameron — a voz de Dahlia cortou o ar como uma navalha. Ela estava parada na porta, usando um terno preto sob medida, o cabelo preso em um coque severo. — Acho que há um equívoco sobre os desejos da minha irmã.

Ward apertou os olhos, a mandíbula travando.

— Dahlia, este não é o lugar para você. Volte para o hospital e cuide da sua irmã.

— Este é exatamente o meu lugar — disse ela, caminhando até a mesa e colocando uma pasta de couro sobre a madeira polida. — Sofia e eu conversamos longamente sobre o futuro da empresa. Ela sabia das dificuldades financeiras que a *Cameron Development* vem enfrentando. Ela não queria que o patrimônio dos Romano fosse usado para tapar buracos de má gestão.

Um burburinho percorreu a mesa. Ward levantou-se, as mãos apoiadas na mesa.

— Do que você está falando, menina? Isso é um absurdo!

— Rafe? — Dahlia olhou para o noivo da irmã, que estava sentado ao lado de Ward.

O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. Ward olhou para o filho, esperando o apoio habitual, a lealdade cega que ele sempre exigira. Rafe hesitou por um segundo, seus olhos encontrando os de Dahlia. Ele viu ali a promessa de um poder que seu pai nunca lhe daria. Ele viu a liberdade de ser o monstro que realmente era, sem precisar se esconder atrás de uma fachada de "bom filho".

— Ela tem razão, pai — disse Rafe, a voz clara e firme.

Ward vacilou, como se tivesse levado um soco físico.

— O quê? Rafe, o que você está dizendo?

— Sofia me disse que, se algo acontecesse, Dahlia deveria ser a voz dos Romano — continuou Rafe, levantando-se e caminhando para o lado de Dahlia. — Ela confia na visão da irmã. E, honestamente, dada a instabilidade recente dos nossos próprios ativos, acho que uma gestão independente sob o nome Romano é o que os acionistas precisam para se sentirem seguros.

— Você está me traindo? — rosnou Ward, o rosto ficando vermelho de fúria. — Depois de tudo o que eu fiz por você?

— Você nunca fez nada *por mim*, pai — rebateu Rafe, a arrogância Cameron brilhando em seu rosto. — Você fez tudo para manter o seu nome. Agora, eu estou cuidando do meu futuro. E o meu futuro está com a Dahlia.

Dahlia abriu a pasta e distribuiu documentos aos acionistas.

— Aqui estão os termos de uma gestão compartilhada entre eu e o Rafe, mantendo as empresas Romano como uma entidade separada, mas com acordos de cooperação técnica. É a única forma de evitar um processo de auditoria externa que, tenho certeza, o Sr. Cameron gostaria de evitar.

Ela olhou significativamente para Ward ao dizer a última frase. O xeque-mate estava dado. Ward sabia que, se ela pedisse uma auditoria, suas falcatruas nas Bahamas seriam expostas.

A reunião terminou com a assinatura dos termos. Ward saiu da sala sem dizer uma palavra, a derrota emanando dele como um perfume podre. Os acionistas, práticos como sempre, apertaram a mão de Dahlia, reconhecendo a nova ordem.

Quando a sala finalmente ficou vazia, restando apenas Dahlia, Rafe e o pai dela, que havia adormecido na cadeira, o clima mudou.

— Você conseguiu — disse Rafe, encostando-se na mesa. — Você é a rainha de Figure Eight agora. E eu sou o quê? O seu carrasco?

Dahlia caminhou até ele, desfazendo o nó da gravata dele com movimentos lentos.

— Você é o meu sócio, Rafe. E o meu segredo mais perigoso. — Ela olhou para o pai, garantindo que ele continuava dormindo. — Mas não se esqueça... o trono só está vago enquanto a Sofia estiver dormindo.

— E se ela acordar? — perguntou Rafe, segurando a cintura dela.

Dahlia olhou para o nada, um brilho gélido em seus olhos castanhos.

— O hospital de Outer Banks é um lugar antigo, Rafe. Quedas de energia acontecem. Erros médicos acontecem. E pessoas em coma... às vezes elas simplesmente param de lutar.

Rafe sentiu um calafrio, mas não se afastou. A ambição de Dahlia era contagiante, uma droga que ele não queria parar de usar.

— Você mataria a sua própria irmã? — sussurrou ele.

Dahlia sorriu, um sorriso que nunca chegaria aos seus olhos.

— Eu faria qualquer coisa para não voltar a ser a "irmãzinha invisível". E você, Rafe? O que você faria para nunca mais ter que se ajoelhar diante do seu pai?

Rafe não respondeu com palavras. Ele a puxou para um beijo possessivo, ali mesmo, na sala de reuniões onde o destino de Outer Banks acabara de ser reescrito.

***

Mais tarde naquela noite, Dahlia voltou ao hospital. Ela dispensou a enfermeira e ficou sozinha com Sofia. O quarto estava na penumbra, apenas a luz dos monitores iluminando o rosto da irmã.

Dahlia pegou a mão de Sofia. Estava fria.

— Você teve a sua chance, Sof — disse ela, a voz suave como uma canção de ninar. — Você teve o amor do papai, o noivo de ouro e o futuro brilhante. Mas você foi descuidada. Você tropeçou na própria perfeição.

Ela observou o tubo de oxigênio, o fio de seda que mantinha Sofia ligada à vida. Seria tão fácil. Um puxão, um desligamento, um suspiro final.

Mas Dahlia não fez nada. Ainda não. Ela gostava do poder que a incerteza lhe dava. Ela gostava de ver Rafe oscilar entre a culpa e o desejo. Ela gostava de ver Ward Cameron definhar na dúvida.

Ela se inclinou e beijou a testa da irmã.

— Durma bem, querida. Enquanto você sonha, eu estou construindo o mundo que você nunca teve coragem de governar.

Ao sair do quarto, Dahlia encontrou Kiara Carrera no corredor. A Pogue parecia fora de lugar naquele hospital luxuoso, os olhos inchados de choro e uma expressão de desconfiança pura.

— O que você está fazendo aqui, Dahlia? — perguntou Kiara, bloqueando o caminho.

— Visitando a minha irmã, Kiara. O que mais eu faria? — respondeu Dahlia, a voz carregada de uma falsa doçura.

— Eu sei que você está tramando algo — disse Kiara, dando um passo à frente. — Eu vi você e o Rafe hoje cedo. Vocês pareciam... satisfeitos demais para quem tem uma noiva em coma.

Dahlia deu um passo em direção a Kiara, a diferença de altura e classe social parecendo desaparecer diante da aura de perigo que Dahlia emanava.

— Kiara, você é uma garota legal. Mas você vive em um mundo de lealdades Pogues e ideais românticos. Em Figure Eight, nós não temos amigos. Temos ativos e passivos. A Sofia é, neste momento, um passivo. E eu sou a única que sabe como liquidar essa conta.

— Você é doente — sibilou Kiara.

— Não — corrigiu Dahlia, passando por ela com a elegância de uma pantera. — Eu sou apenas a Romano que sobreviveu. Diga ao John B e aos outros que o tempo das brincadeiras acabou. Outer Banks tem novos donos.

Dahlia caminhou pelo corredor, o som de seus saltos ecoando como tiros no silêncio do hospital. Ela entrou no elevador e, ao ver seu reflexo no espelho, viu a mulher de máscara preta do *Red*. A máscara agora era invisível, mas estava lá, fundida à sua pele.

Ela pegou o celular e enviou uma mensagem para Rafe: *"O quarto está limpo. O plano continua. Te encontro no Red à meia-noite."*

A resposta veio em segundos: *"Estarei lá. Rainha."*

Dahlia guardou o celular, um sorriso triunfante iluminando seu rosto. Sofia Romano continuava em coma, uma bela adormecida em um castelo de vidro. Mas Dahlia não estava esperando pelo príncipe. Ela já tinha o monstro ao seu lado, e o reino, finalmente, era seu.

O vermelho do clube noturno a esperava. O vermelho do sangue na escada a assombrava. Mas era o vermelho do poder que a movia. E, em Outer Banks, Dahlia Romano acabara de provar que a cor mais perigosa de todas era a da ambição que não conhece limites.

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