Red
Cinzas no Pântano
A brisa salgada de Outer Banks costumava trazer uma sensação de liberdade, mas naquela tarde, para Kiara Carrera, ela trazia apenas o cheiro acre da podridão moral. O hospital ficara para trás, mas a imagem de Dahlia Romano — fria, intocável e terrivelmente vitoriosa — continuava queimando em sua retina. Kiara não era de Figure Eight por escolha, e cada fibra de seu ser Pogue gritava que algo estava muito errado na mansão Romano.
Ela caminhou pelo cais de madeira da marina, onde o *Pogue Life* estava atracado. Seus amigos não estavam lá; John B e os outros estavam ocupados tentando manter o que restava de suas vidas em ordem, mas Kiara não conseguia descansar. Ela sabia que a queda de Sofia não fora um acidente. Ela vira o modo como Rafe e Dahlia se olhavam: não era o olhar de dois cunhados enlutados, era o olhar de dois cúmplices que haviam acabado de dividir o saque.
— Você não sabe quando parar, não é, Carrera? — A voz veio das sombras de um dos hangares de barcos.
Kiara estacou, o coração disparando. Dahlia Romano emergiu da penumbra, vestindo um conjunto de seda escura que parecia absorver a luz do entardecer. Ela não parecia uma herdeira em luto; parecia uma predadora que acabara de marcar seu território.
— Eu sei reconhecer um crime quando vejo um, Dahlia — retrucou Kiara, cruzando os braços e tentando manter a voz firme. — A Sofia não caiu daquelas escadas sozinha. E o Rafe... ele é um monstro, mas você? Você é o que o mantém acordado à noite.
Dahlia soltou uma risada curta, um som cristalino e desprovido de alma. Ela caminhou até a beira do cais, parando a poucos metros de Kiara.
— Você tem uma imaginação fértil, Kiara. É por isso que você se dá tão bem com os Pogues. Vocês vivem de fantasias de tesouros e justiça. Mas a justiça é um conceito para quem não pode pagar por algo melhor.
— Você acha que o dinheiro do seu pai vai te proteger para sempre? — perguntou Kiara, dando um passo à frente. — Eu vi o jeito que você olhou para ela no hospital. Você não está triste. Você está aliviada. E eu vou provar que você teve algo a ver com isso. Eu vou falar com o xerife Shoupe. Eu vou contar sobre o *Red*.
Dahlia inclinou a cabeça, um brilho perigoso surgindo em seus olhos castanhos.
— O xerife Shoupe come na mão do Ward Cameron há anos. E agora, ele come na minha. Você realmente acha que a palavra de uma Pogue rebelde vale mais do que a minha? — Dahlia deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal de Kiara. — Você é um incômodo, Kiara. Uma mosca zumbindo em volta de um banquete. E moscas costumam ser esmagadas.
— Isso é uma ameaça? — desafiou Kiara, o queixo erguido.
— É um conselho — disse Dahlia, sua voz baixando para um sussurro gélido. — Fique no seu lado do pântano. Deixe os adultos resolverem os negócios de Figure Eight. Se você continuar cavando, pode acabar encontrando a sua própria cova.
Dahlia virou as costas e caminhou em direção ao seu carro esporte, deixando Kiara tremendo de raiva e uma estranha premonição no cais.
***
Horas depois, a noite caiu sobre o *Cut* com uma densidade sufocante. Kiara não conseguia tirar as palavras de Dahlia da cabeça. Ela precisava de provas. Sabia que Rafe costumava esconder seus "negócios" no antigo barco de pesca de seu pai, o *Phantom*, que agora estava atracado em uma parte isolada do pântano, longe dos olhos curiosos da polícia.
Sem dizer nada aos meninos, Kiara pegou um pequeno bote a motor e navegou silenciosamente pelos canais escuros. A lua estava escondida atrás de nuvens pesadas, e o som dos grilos era a única companhia. Quando ela finalmente avistou a silhueta do *Phantom*, sentiu um arrepio na nuca. O barco parecia abandonado, mas uma luz fraca brilhava na cabine.
Ela atracou seu bote e subiu a bordo com cuidado. O cheiro de diesel e maresia era forte. Kiara começou a revistar a cabine, procurando por qualquer coisa — registros, drogas, vestígios de sangue. Ela encontrou uma pasta de couro sob o assento do capitão. Ao abri-la, seus olhos se arregalaram. Eram documentos da *Romano Land Holdings*, assinados por Rafe, mas com datas que precediam o acidente de Sofia.
— Eu sabia — sussurrou ela, sentindo o triunfo correr por suas veias. — Eles planejaram tudo.
— Você realmente deveria ter ouvido o meu conselho, Kiara.
Kiara deu um pulo, derrubando a pasta. Dahlia Romano estava parada na porta da cabine, segurando uma lanterna pequena que iluminava apenas a metade inferior de seu rosto, fazendo-a parecer uma aparição demoníaca. Atrás dela, a silhueta alta e instável de Rafe Cameron bloqueava a saída.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Kiara, a voz falhando.
— O que *você* está fazendo aqui, Kiara? — rebateu Rafe, entrando na cabine. Ele parecia agitado, os olhos dilatados e um sorriso maníaco nos lábios. — Invadir propriedade privada é um crime sério em Outer Banks.
— Crime sério é o que vocês fizeram com a Sofia! — gritou Kiara, tentando passar por ele, mas Rafe a segurou pelo braço com uma força brutal.
— Solte ela, Rafe — ordenou Dahlia, sua voz calma contrastando com a violência da cena. Ela caminhou até a pasta caída e a recolheu com elegância. — A Kiara decidiu que queria ser uma heroína hoje. E heroínas, infelizmente, costumam ter finais trágicos.
— Você não vai se safar dessa, Dahlia — sibilou Kiara, lutando contra o aperto de Rafe. — Meus amigos sabem onde eu estou.
— Mentira — disse Dahlia, sorrindo com uma frieza que fez o sangue de Kiara congelar. — Você não disse a ninguém. Você queria a glória só para você. Queria ser a pessoa que derrubou os Cameron e os Romano. Tão previsível. Tão Pogue.
Rafe empurrou Kiara contra a parede da cabine.
— O que fazemos com ela, Dahlia? — perguntou ele, olhando para a namorada com uma dependência doentia. — Ela viu demais.
Dahlia olhou para Kiara como se estivesse decidindo o que fazer com um móvel velho. Não havia ódio em seu olhar, apenas um pragmatismo aterrorizante.
— O pântano é um lugar perigoso à noite, Rafe — disse Dahlia, guardando a pasta. — Vazamentos de combustível acontecem o tempo todo em barcos velhos como este. Uma faísca... e tudo vira cinzas.
Os olhos de Kiara se arregalaram.
— Você enlouqueceu? Você vai me matar?
— Eu não vou te matar, Kiara — disse Dahlia, aproximando-se e tocando o rosto de Kiara com as costas da mão. — O fogo vai. Eu estarei no *Red* em trinta minutos, com dez testemunhas que dirão que eu nunca saí de lá. E o Rafe... bem, o Rafe estará comigo, sendo o noivo devastado que ele é.
— Dahlia, por favor... — implorou Kiara, o pânico finalmente se instalando.
— Shh — sussurrou Dahlia. — Você queria justiça, não queria? Pois aqui está ela. A justiça de quem manda na ilha.
Dahlia fez um sinal para Rafe. Ele pegou um galão de combustível que estava no canto da cabine e começou a espalhar o líquido pelo chão de madeira, ignorando os gritos de Kiara. O cheiro de gasolina tornou-se insuportável.
— Vamos, Rafe — disse Dahlia, saindo da cabine. — Temos um brinde a fazer.
Rafe deu um último olhar para Kiara, uma mistura de pena e loucura, antes de sair e trancar a porta da cabine por fora.
— Não! Rafe! Dahlia! — Kiara esmurrou a porta, o desespero tomando conta. Ela ouviu o som de um motor de popa se afastando. Eles a haviam deixado ali, trancada em uma bomba-relógio.
Do lado de fora, Dahlia e Rafe estavam no pequeno bote que haviam usado para chegar ali. Dahlia segurava um sinalizador na mão. Ela olhou para o *Phantom*, a estrutura de madeira velha brilhando fracamente sob a luz da lanterna que ela deixara acesa lá dentro.
— Você tem certeza disso? — perguntou Rafe, a voz tremendo levemente.
— Você quer passar o resto da vida na cadeia, Rafe? — Dahlia perguntou, sem olhar para ele. — Ou quer ser o dono de Figure Eight ao meu lado?
Rafe engoliu em seco e assentiu.
Dahlia ergueu o braço. O sinalizador disparou com um assobio agudo, traçando um arco de fogo no céu noturno antes de atingir o convés do *Phantom*, onde o combustível fora derramado.
A explosão foi imediata e devastadora.
Uma bola de fogo laranja e vermelha rasgou a escuridão do pântano, iluminando as árvores e a água com um brilho infernal. O estrondo ecoou por quilômetros, um som de destruição que pareceu sacudir a própria fundação da ilha. O *Phantom* foi envolto em chamas em segundos, a madeira velha servindo de combustível perfeito.
Dahlia observou o incêndio com uma calma perturbadora. O reflexo das chamas dançava em seus olhos castanhos, transformando-os em poças de ouro derretido.
— Pronto — disse ela, a voz firme. — O incômodo foi removido.
— Ela está... ela se foi? — perguntou Rafe, olhando para a pira funerária flutuante.
— Ninguém sobrevive a isso, Rafe. Agora, ligue o motor. Temos uma festa para comparecer.
Eles se afastaram rapidamente, deixando para trás apenas o som do fogo crepitando e o cheiro de morte.
***
No *Red*, a música estava no ápice. Dahlia entrou no clube dez minutos depois, vestindo um novo conjunto que ela mantivera no carro, sem um fio de cabelo fora do lugar. Rafe a seguia, sua máscara de arrogância Cameron firmemente no lugar, embora suas mãos ainda tremessem nos bolsos.
Eles se sentaram no camarote central, pedindo a garrafa mais cara de champanhe. Dahlia fez questão de cumprimentar o gerente e vários conhecidos, garantindo que sua presença fosse notada e registrada.
— Um brinde — disse ela, levantando a taça para Rafe.
— A quê? — perguntou ele, a voz rouca.
— Ao novo mundo — respondeu Dahlia. — Onde os Pogues aprendem o seu lugar e os Romano ficam com o que é deles por direito.
Eles brindaram sob as luzes neon vermelhas, a cor que agora definia a vida de Dahlia.
Enquanto isso, no pântano, o fogo começava a diminuir, deixando para trás apenas a carcaça enegrecida do barco. A equipe de resgate e os bombeiros, alertados pelo estrondo, chegariam em breve, mas Dahlia sabia que não encontrariam nada além de cinzas e destroços.
Ela se recostou no sofá de veludo, sentindo a adrenalina finalmente se transformar em uma satisfação fria. Kiara Carrera fora uma distração, um erro de cálculo que fora corrigido. Sofia continuava em silêncio no hospital. Ward estava encurralado. E Rafe... Rafe era dela, corpo e alma, unido a ela por um crime que nenhum dos dois poderia confessar.
Dahlia fechou os olhos por um momento, deixando a batida da música envolver seus sentidos. Ela pensou na máscara de renda preta que guardava em casa. Ela não precisava mais dela no clube. A verdadeira máscara era a que ela usava durante o dia, a máscara da filha perfeita, da irmã devotada, da salvadora da família.
Atrás dessa máscara, ela era a verdadeira governante de Outer Banks.
— Você está bem? — perguntou Rafe, tocando a mão dela sob a mesa.
Dahlia abriu os olhos e sorriu para ele. Era um sorriso que teria aterrorizado qualquer um que conhecesse a verdade, mas para Rafe, era o único farol em sua escuridão.
— Estou maravilhosa, Rafe — disse ela. — Pela primeira vez na vida, o silêncio é exatamente como eu imaginei.
Lá fora, a tempestade que ameaçava cair finalmente desabou, lavando as cinzas do pântano e escondendo os segredos daquela noite sob as águas turvas de Outer Banks. Mas para Dahlia Romano, a chuva era apenas o som dos aplausos para a sua performance final. Ela vencera. E o preço da vitória, embora tingido de sangue e fogo, era um que ela estava mais do que disposta a pagar.
Afinal, em Figure Eight, algumas pessoas só enxergam o que querem ver. E ninguém queria ver o monstro que Dahlia se tornara. Eles preferiam a mentira bonita. E Dahlia, com sua taça de champanhe e seu sorriso de seda, era a mentira mais bonita que aquela ilha já vira.