Voltar ao resumo

Rintama high 2

O Silêncio das Ruínas e o Quarto Ano do Inferno

A sexta-feira chegou com um sol pálido que não conseguia aquecer o concreto frio da Escola Secundária Anaktos. Para Mizi, o mundo tinha se tornado um lugar estranhamente silencioso. Ela não tentava mais. Não tentava se aproximar, não tentava lançar cantadas baratas, não tentava sequer cruzar o olhar com Sua. Na lógica distorcida e ferida da líder da Mukuro, se Sua a via como um lixo vazio, então o silêncio era a única coisa digna que ela poderia oferecer.

Sua, por outro lado, mantinha sua muralha de gelo intacta. Se Mizi não estava tentando falar, por que diabos ela, Sua, iria atrás? O que Mizi fizera no banheiro com Elena fora uma estupidez monumental, um erro catastrófico que Sua não pretendia perdoar tão cedo. Mas, no fundo de seu peito, onde a poesia melancólica se transformava em um peso real, Sua sentia falta do ruído. Sentia falta do furacão rosa que desestabilizava sua paz. Só que ela nunca admitiria. Jamais.

Elena, a garota popular, já caminhava pelos corredores com a cabeça erguida novamente. Na Anaktos, onde gangues se espancavam e segredos eram moedas de troca, um sexo rápido no banheiro já era notícia velha. Ela continuava linda, continuava popular, e a poeira do escândalo havia baixado, deixando apenas o vazio deixado pela ausência de brilho nos olhos de Mizi.

A semana seguinte começou estranha. Na segunda-feira, Mizi não apareceu.

— Ela deve estar de ressaca de novo — comentou Till, batucando na mesa durante a aula de literatura. — Aquela maluca não tem limites.

Ivan, no entanto, franziu o cenho. Ele olhou para o celular. Nenhuma mensagem.

Na terça-feira, o lugar de Mizi continuava vazio. Nenhuma postagem nas redes sociais, nenhuma notificação de briga no Pátio Sul, nada. Kael e os membros da Mukuro vagavam pelos corredores como baratas tontas, sem ordens, sem direção.

— Ivan, você falou com ela? — perguntou Hyuna na hora do almoço, a preocupação vincando sua testa.

— Não. Ela não atende, não visualiza. É como se tivesse evaporado — Ivan respondeu, a voz carregada de uma ansiedade que ele tentava esconder sob o habitual desdém.

Sua, sentada na ponta da mesa, virou a página de seu livro com um pouco mais de força do que o necessário. Ela ouvia cada palavra, cada suposição. Seu coração dava pequenos saltos descompassados. "Ela está fazendo isso para chamar atenção", pensava Sua. "É só mais um show."

Mas na quarta-feira, o silêncio se tornou ensurdecedor.

Na quinta-feira, o ambiente na escola mudou. O boato de que algo estava errado começou a suplantar as fofocas sobre o banheiro. Ivan estava visivelmente abalado. Ele e Mizi eram uma unidade. Como ela podia simplesmente sumir sem dizer uma palavra para ele?

Na sexta-feira da segunda semana de ausência, o golpe final veio durante a aula de história. O professor entrou na sala com uma expressão grave, segurando alguns papéis. O burburinho cessou imediatamente.

— Antes de começarmos — disse o professor, pigarreando —, gostaria de comunicar que a aluna Mizi não faz mais parte do corpo discente da Escola Anaktos. Ela foi formalmente retirada da instituição pela família.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som do livro de Sua caindo no chão.

— O quê? — Ivan levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando com um ruído estridente. — Como assim "retirada"? Ela não me disse nada!

— Sinto muito, Ivan. Os documentos foram assinados e ela já não reside mais no endereço cadastrado — o professor respondeu de forma burocrática.

A sala explodiu em caos.

— Que porra é essa? — Till gritou, socando a mesa. — Ela simplesmente vazou? Sem avisar ninguém? Que caralho de líder de gangue faz isso?

Hyuna e Luka trocaram olhares de puro choque. Luka, o nerd que sempre tinha uma explicação lógica, parecia ter perdido a fala. Hyuna sentiu os olhos arderem. Mizi era a alma daquele lugar, o caos que dava sentido à ordem.

Ivan saiu da sala sem pedir permissão, os passos pesados ecoando pelo corredor. Ele estava furioso, triste e, acima de tudo, perdido. Sua melhor amiga o tinha abandonado no meio das ruínas que ela mesma criara.

Sua permaneceu sentada. Suas mãos tremiam sobre o colo. Ela sentia um vazio abismal se abrir em seu estômago. Mizi tinha ido embora. O furacão rosa tinha se dissipado, deixando apenas o silêncio que Sua tanto alegava desejar. Mas agora que o silêncio era real, ele era insuportável. Ela queria gritar, queria correr atrás dela, queria perdoar a idiotice do banheiro se isso significasse ter Mizi de volta irritando seus dias. Mas agora não havia mais Mizi. Nada.

A escola se tornou um inferno desorganizado. Sem a Mukuro para manter o equilíbrio, as gangues menores entraram em guerra total. A Anaktos sangrava, e os corredores pareciam mais escuros.

Os meses passaram como um borrão doloroso. O final do ano se aproximava, e o grupo tentava se recompor. Ivan e Sua mal se falavam em casa, o fantasma de Mizi pairando entre eles. Till estava mais agressivo, Hyuna mais silenciosa. Eles pensavam que, ao menos, o sofrimento teria um fim com a formatura. Iriam para a faculdade, sairiam daquele buraco e, quem sabe, esqueceriam a garota que partiu seus corações de formas diferentes.

Mas a administração da Anaktos tinha uma última surpresa cruel.

Na última semana de aula, um comunicado oficial foi colado em todos os quadros de avisos.

— Não... não pode ser verdade — murmurou Luka, lendo o papel com os olhos arregalados.

— O que foi agora, Luka? — Hyuna perguntou, aproximando-se com cansaço.

— Eles adicionaram um quarto ano.

— O quê? — Till empurrou os outros para ler. — "Devido às novas diretrizes educacionais e à necessidade de nivelamento técnico, o Ensino Médio da Escola Anaktos passará a ter quatro anos obrigatórios a partir do próximo ciclo."

— VAI TOMAR NO CU! — Till berrou, chutando um armário. — Quarto ano? A gente vai ter que ficar mais um ano nessa porra de prisão?

— Isso é um pesadelo — disse Hyuna, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu não aguento mais essa escola. Eu não aguento mais esses corredores.

Ivan chegou logo atrás, lendo o aviso em silêncio. Ele deu uma risada seca, sem vida.

— Mais um ano — disse Ivan. — Mais um ano esperando por alguém que não vai voltar.

Sua aproximou-se por último. Ela leu o aviso e sentiu uma exaustão que vinha dos ossos. Ela olhou para o grupo — seus amigos, as sobras do que um dia foi um círculo vibrante.

— A gente vai enlouquecer aqui dentro — Sua disse, a voz desprovida de qualquer emoção, mas seus olhos roxos mostravam o desespero.

— Pelo menos a gente vai enlouquecer junto — comentou Luka, tentando ser positivo, embora sua voz tremesse.

— Grande merda, Luka — resmungou Till. — A gente vai ter que estudar as mesmas matérias inúteis, ver as mesmas caras de bosta e lidar com as mesmas gangues de merda. E agora sem a Mizi para quebrar a cara de ninguém.

— O vocabulário técnico e o nivelamento são apenas desculpas — Luka analisou, voltando ao seu modo nerd. — Eles querem manter o controle sobre as hierarquias das gangues por mais tempo. Somos o experimento deles.

— Experimento o caralho — Ivan disse, virando as costas. — Eu vou pra casa.

As férias chegaram, mas não trouxeram alívio. O pensamento do "Quarto Ano" era uma nuvem negra sobre a cabeça de todos. Ivan passou o verão tentando rastrear Mizi, mas a família dela tinha feito um trabalho de limpeza impecável. Era como se ela nunca tivesse existido.

Sua passou os dias trancada em seu quarto, lendo e relendo os poemas que Mizi costumava zombar. Ela se sentia uma hipócrita. Tinha tido a chance de falar, de perdoar, de entender o desespero da outra, mas escolhera o gelo. E o gelo a tinha deixado sozinha.

O primeiro dia do Quarto Ano chegou com uma chuva torrencial.

O grupo se reuniu na entrada, todos com olheiras, todos com a expressão de quem estava indo para o matadouro.

— Prontos para o inferno, parte quatro? — perguntou Hyuna, tentando forçar um sorriso carismático que não alcançava seus olhos.

— Eu só quero que um meteoro atinja essa escola — Till resmungou, ajeitando a jaqueta da Gnash, que agora parecia apertada demais.

— Vamos logo — disse Sua, começando a caminhar. — Quanto mais cedo entrarmos, mais cedo esse ano de merda acaba.

Eles caminharam pelo corredor principal. O silêncio da escola era diferente agora. Não era o silêncio de Mizi tentando se desculpar, era o silêncio de uma ausência definitiva.

Ao passarem pelo armário que costumava ser de Mizi, todos pararam por um segundo, instintivamente. O armário estava limpo, sem adesivos, sem marcas de taco de beisebol.

— Ela realmente foi embora, né? — perguntou Till, a voz subitamente pequena.

— Foi — respondeu Ivan, a voz dura. — E a gente ficou.

Eles entraram na sala de aula. O professor já estava lá, organizando os novos livros de "Nivelamento Avançado".

— Bom dia, turma do quarto ano — disse o professor, sem entusiasmo. — Por favor, sentem-se. Temos muito o que cobrir este ano.

Ivan sentou-se no fundo. Sua sentou-se na frente. Till, Hyuna e Luka ocuparam o meio. O arranjo de sempre, mas com um buraco no centro que nada parecia preencher.

A aula começou, mas ninguém estava prestando atenção. Eles olhavam para as janelas, para o relógio, para qualquer lugar que não fosse o lugar vazio no fundo da sala.

— Eu odeio essa escola — sussurrou Till para Ivan.

— Eu também, Till. Eu também.

A manhã se arrastou. O sentimento de exaustão antecipada era real. Eles tinham dezoito, dezenove anos, e ainda estavam presos em uniformes escolares, vivendo sob hierarquias de giz que não faziam mais sentido.

No intervalo, eles foram para o Pátio Sul. O lugar estava deserto, a chuva ainda caindo fina.

— O que a gente vai fazer este ano? — perguntou Luka. — Sem a Mukuro, as outras gangues vão tentar nos recrutar ou nos esmagar.

— Deixa eles tentarem — disse Ivan, os olhos brilhando com uma frieza que lembrava a de Sua. — Eu não tenho mais paciência para joguinhos.

— A gente se protege — Hyuna declarou, colocando a mão no ombro de Ivan. — Somos o que sobrou.

Sua olhou para o muro grafitado onde o símbolo da Mukuro estava começando a desbotar. Ela sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas a limpou rapidamente antes que alguém visse.

— Ela era um furacão idiota — Sua murmurou para si mesma.

— O quê? — perguntou Hyuna.

— Nada. Só estava pensando que o quarto ano vai ser muito silencioso.

— Silencioso e uma bosta completa — completou Till.

Eles ficaram ali, sob a chuva, as sobras de uma era que tinha terminado de forma abrupta e cruel. O quarto ano da Anaktos tinha começado, e a única certeza que tinham era que, sem Mizi, eles teriam que aprender a sobreviver no frio que ela deixou para trás.

— Ei, Ivan — chamou Till, depois de um tempo.

— O quê?

— Você acha que ela... você acha que ela está bem?

Ivan olhou para o céu cinzento, a chuva batendo em seu rosto.

— Eu acho que a Mizi está em algum lugar causando um problema colossal — Ivan disse, com um pequeno e triste sorriso. — Ela não sabe viver de outro jeito.

— É — concordou Till. — Tomara que ela esteja quebrando a cara de alguém por nós.

Eles voltaram para dentro, para a sala de aula, para os livros e para o tédio. O quarto ano seria longo, exaustivo e cheio de matérias que eles odiavam, mas enquanto caminhavam juntos pelos corredores, o eco dos passos de Mizi parecia ainda ressoar, um lembrete de que, mesmo ausente, o furacão rosa ainda governava o coração daquelas ruínas.

— Vamos logo, seus merdas — disse Hyuna, recuperando um pouco da voz. — A gente tem uma aula de física para fingir que entende.

— Foda-se a física — resmungou Till, mas ele seguiu o grupo.

A porta da sala se fechou, e a Escola Anaktos continuou sua rotina implacável, moendo os sonhos de seus alunos, um ano de cada vez. O quarto ano tinha apenas começado, e a saudade era a matéria mais difícil do currículo.