Rintama high 2

Hierarquias de Giz e Jaquetas de Couro O sinal da Escola Secundária Anaktos não era apenas um aviso de que as aulas haviam terminado; era o gongo que anunciava o início das hostilidades silenciosas nos corredores. Naquele prédio monumental, onde as sombras das escadarias pareciam esconder segredos de gerações, a geografia não era medida por salas, mas por territórios de gangs. No topo da cadeia alimentar, embora muitos se recusassem a admitir por puro machismo barato, estava a Mukuro. E no comando da Mukuro, sentada preguiçosamente em cima de uma mesa de carvalho na biblioteca — o lugar mais improvável para uma líder de gangue —, estava Mizi. Seus cabelos rosa longos, com as pontas tingidas de um azul vibrante, caíam como uma cascata bagunçada sobre os ombros. Ela balançava as pernas, a saia preta curta revelando a atitude de quem não dava a mínima para o código de vestimenta. A gravata preta estava tão frouxa que era quase um adereço de pescoço. — Eu juro, Ivan, se aquele idiota da gangue "Presas de Ferro" vier falar comigo sobre "diplomacia" de novo, eu vou enfiar aquele óculos dele no rabo — Mizi bocejou, os olhos dourados brilhando com um sarcasmo sonolento. — Que porra de nome é esse, aliás? Presas de Ferro? Parece nome de pet shop para tubarão. Ivan, sentado na cadeira ao lado, não desviou os olhos do pirulito que desembalava com uma precisão quase cirúrgica. Ele era alto, de cabelos pretos impecáveis e uma pele tão pálida que parecia brilhar sob as luzes fluorescentes. — Pelo menos eles têm um nome temático — Ivan comentou, enfiando o doce na boca. — A sua gangue se chama Mukuro. Soa como algo que um vilão de anime gritaria antes de explodir. — Vai se foder, Ivan — Mizi riu, dando um empurrão de leve no ombro dele. — É um nome clássico. E você adora, não finge que não. Eles eram o enigma da escola. Amigos inseparáveis desde o 9º ano, agora no 3º, circulavam pelos corredores como uma unidade impenetrável. A maioria dos alunos jurava que eles eram o casal de ouro: a líder rebelde e o garoto enigmático. Mal sabiam que, entre sussurros e piadas internas, o que os unia era o segredo de serem exatamente o oposto do que o mundo esperava. Mizi não tinha o menor interesse em caras, e Ivan... bem, Ivan estava ocupado demais tentando não encarar o fundo da sala. Lá no fundo, em um universo paralelo que distava apenas cinco fileiras de carteiras, estava o grupo que Ivan e Mizi ignoravam olimpicamente — ou fingiam ignorar. Sua, com seus cabelos pretos curtos e olhos roxos que pareciam carregar todo o peso do mundo, estava imersa em um livro de poesia melancólica. Ela era o oposto do irmão, Ivan. Enquanto ele era irritante e doce, ela era silenciosa e amarga. Eles mal se falavam em casa, e na escola, fingiam que eram estranhos. Ao lado dela, Till batucava freneticamente na mesa. O cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal, e seus olhos verdes disparavam faíscas de puro estresse. Ele fazia parte da Gnash, uma gangue de baderneiros liderada por um veterano brutamontes chamado Kael, mas Till mal sabia o nome dos próprios "companheiros". Ele só queria que o ensaio da banda começasse logo. — Dá pra parar com a bateria imaginária, Till? — Sua murmurou, sem tirar os olhos da página. — Tá dando gatilho na minha enxaqueca. — Foi mal, porra — Till resmungou, mas não parou totalmente, apenas diminuiu o ritmo. — Esse lugar me deixa pilhado. Olha ali a Mukuro e o esquisito do seu irmão. Eles acham que são donos do mundo. — Deixa eles — disse Hyuna, aproximando-se com um sorriso carismático que parecia iluminar até os cantos mais escuros da biblioteca. — Mizi é foda, você tem que admitir. Ser mulher e manter aqueles caras da Mukuro na linha não é pra qualquer um. Hyuna era a personificação do "descolado". Cabelos marrons longos, pele morena e olhos azuis que capturavam qualquer um. Ela já tinha sido convidada para liderar pelo menos três gangues diferentes, incluindo a Gnash, mas recusou todas. Preferia sua liberdade e seu grupo de amigos. Logo atrás dela, Luka vinha ajustando os óculos, com uma pilha de livros de física nos braços. Ele era o observador silencioso, o nerd que sabia de tudo, mas falava pouco. — A estrutura de poder da escola é fascinante — Luka comentou, sentando-se à mesa com o grupo. — Mas é instável. Se a Mukuro entrar em conflito com os "Corvos de Prata" do setor leste, o equilíbrio acaba. — Você analisa demais, Luka — Hyuna riu, bagunçando o cabelo loiro dele. — Às vezes é só sobre quem bate mais forte. Luka corou levemente sob o toque de Hyuna, mas manteve a compostura. Ele a adorava, e todos no grupo — exceto talvez a própria Hyuna, ou assim eles achavam — sabiam disso. Enquanto isso, na "fronteira" invisível da sala, Ivan sentiu um peso no peito. Ele olhou para Till por um breve segundo. O garoto de cabelo cinza estava com a cara amarrada, discutindo algo com Sua. Ivan sentia uma vontade absurda de ir até lá e dizer algo idiota apenas para ver Till explodir. Era o seu jeito de demonstrar afeto: irritando até o limite. Mas ele não podia. Ele e Mizi tinham uma reputação de isolamento a manter. — Você tá olhando de novo — Mizi sussurrou, o tom brincalhão escondendo uma lealdade profunda. — Não estou — mentiu Ivan, voltando-se para o pirulito. — Está sim. O emo revoltado faz seu tipo, né? — Mizi deu uma risadinha abafada. — Se quiser, eu mando a Mukuro sequestrar ele pra você. — Nem brinca com isso. Você é impulsiva demais, ia acabar causando uma guerra de gangues por causa de um garoto que nem sabe meu nome — Ivan revirou os olhos. — Ele sabe seu nome, Ivan. Todo mundo sabe. Você é o "irmão estranho da Sua" ou o "namorado da Mizi". Escolha o seu veneno. — Prefiro "o cara que vai te dar um soco se você não calar a boca". A conversa foi interrompida quando a porta da biblioteca foi escancarada. Três garotos com jaquetas cinzas — os membros da Gnash — entraram, parecendo nervosos. Eles ignoraram Till e foram direto para a mesa de Mizi. — Mizi — o líder do trio, um cara alto chamado Vahn, disse com a voz tremendo levemente. — Houve um problema no pátio sul. Os caras da "Sombra Rubra" estão pichando o muro da Mukuro. Mizi fechou os olhos por um momento, como se estivesse pedindo paciência a uma divindade que não existia. — E por que caralhos vocês estão aqui me contando isso em vez de estarem lá limpando o chão com a cara deles? — Ela perguntou, a voz doce, mas carregada de uma ameaça letal. — Eles são muitos, e o líder deles, o tal do Drake, disse que você é só uma "garotinha brincando de casinha". O silêncio que se seguiu na biblioteca foi absoluto. Até Sua parou de ler. Hyuna inclinou a cabeça, interessada. Till parou o batuque. Mizi pulou da mesa com uma agilidade de gato. Ela estalou o pescoço e deu um sorriso que não chegava aos olhos. — Garotinha? — Ela repetiu, ajeitando a gravata frouxa. — Ivan, quer ver uma coisa engraçada? — Eu tenho escolha? — Ivan suspirou, levantando-se e limpando o farelo de doce da calça. — Nenhuma. Mizi começou a caminhar em direção à saída, mas parou ao passar pela mesa do grupo de Sua. Seus olhos dourados encontraram os verdes de Till por um milésimo de segundo, e depois os roxos de Sua. — Sua, avisa aos nossos pais que o Ivan vai chegar tarde hoje — Mizi disse, com um tom sarcástico. — Ele vai estar ocupado me ajudando a enterrar alguns corpos. Sua nem levantou a cabeça. — Não sou sua secretária, Mizi. E Ivan sabe o caminho de casa. Ivan deu um sorrisinho de canto para a irmã, um raro momento de reconhecimento, e seguiu Mizi. Assim que eles saíram, Till bufou. — Aquela garota é louca. Ela vai se meter em briga de novo. — E você vai lá ver, não vai? — Hyuna provocou, arqueando uma sobrancelha. — O quê? Por que eu iria? — Till cruzou os braços, o rosto ficando levemente vermelho. — Porque você faz parte de uma gangue, tecnicamente — Luka interveio, ajustando os óculos. — E porque você está curioso para saber se o Ivan realmente vai lutar ou se só vai ficar olhando com aquela cara de tédio. — Vão se foder todos vocês — Till levantou-se abruptamente. — Eu só vou porque... porque eu odeio a Sombra Rubra. Aqueles caras são uns babacas. — Aham, claro — Hyuna riu, levantando-se também. — Vamos lá, pessoal. O show vai começar e eu não quero perder a Mizi quebrando dentes. O pátio sul estava tenso. Cerca de dez membros da Sombra Rubra, liderados por Drake — um brutamontes que parecia ter repetido o terceiro ano umas cinco vezes —, estavam diante do muro grafitado com o símbolo da Mukuro. Mizi chegou caminhando calmamente, com Ivan logo atrás, as mãos nos bolsos. — Então — Mizi começou, parando a poucos metros de Drake —, eu ouvi dizer que você tem opiniões interessantes sobre a minha gestão. Quer compartilhar com o grupo ou prefere escrever um ensaio sobre isso enquanto eu uso sua cabeça como bola de basquete? — Olha só, a princesinha apareceu — Drake cuspiu no chão. — Você e seu namorado esquisito deveriam estar em casa. Esse muro agora é nosso. Ivan deu um passo à frente, um sorriso irritante brincando em seus lábios. — Na verdade, eu sou só o apoio moral. Mas, se você chamar ela de princesa de novo, eu vou ter que intervir, e eu sou péssimo com sangue. Suja muito a roupa, entende? — Cala a boca, seu merda! — Drake avançou para dar um soco em Ivan, mas não chegou nem perto. Mizi foi mais rápida. Com um movimento impulsivo e preciso, ela desferiu um chute lateral que atingiu o estômago de Drake, fazendo-o dobrar de tamanho. Antes que ele pudesse reagir, ela agarrou o colarinho dele e o puxou para baixo, sussurrando no seu ouvido: — Eu não brinco de casinha, Drake. Eu sou a dona da porra da vizinhança toda. A briga estourou. Os membros da Mukuro, que estavam escondidos nas sombras, avançaram. Ivan, apesar de dizer que odiava confusão, movia-se com uma elegância letal, desviando de golpes e acertando pontos estratégicos com uma precisão irritante. Do alto da escadaria, o grupo de Hyuna observava. — Caralho — Till murmurou, os olhos fixos em Ivan. O jeito que o garoto de preto se movia era... hipnotizante, de uma forma que ele odiava admitir. — Ele realmente sabe brigar. — Eu disse — Luka comentou, calmo. — Eles não são apenas fachada. Hyuna assobiou, impressionada. — Mizi está se divertindo. Olha o sorriso dela. No meio do caos, Mizi parou por um segundo para limpar um respingo de tinta (ou sangue, ela não tinha certeza) da bochecha. Ela viu o grupo de Hyuna no topo da escada. Viu Till olhando para Ivan com uma expressão que era uma mistura de ódio e admiração. Ela piscou para Ivan, que estava ocupado imobilizando um cara o dobro do seu tamanho. — Ei, Ivan! — Mizi gritou no meio do barulho. — O seu "crush" tá assistindo! Tenta não parecer um completo idiota! Ivan quase tropeçou. Ele olhou para a escadaria e encontrou o olhar de Till. Por um segundo, o tempo pareceu parar. Till desviou o olhar imediatamente, xingando algo que parecia ser "idiota", mas suas orelhas estavam vermelhas. Ivan sorriu. Talvez a escola não fosse tão chata afinal. — Mizi! — Ivan gritou de volta, chutando o oponente para longe. — Foca na briga, porra! — Eu estou focada! — Ela riu, acertando mais um soco em Drake. — Mas a vida é curta demais pra não criar um pouco de caos romântico no meio de uma guerra de gangues! A briga terminou tão rápido quanto começou. A Sombra Rubra recuou, deixando Drake para trás, gemendo no chão. Mizi limpou as mãos na saia, suspirando. — Que tédio. Achei que eles iam durar mais. Ela caminhou até a base da escadaria, onde o grupo de Hyuna estava descendo. — E aí? — Mizi perguntou, sarcástica como sempre. — Gostaram do show ou querem reembolso? — Nota oito — Hyuna disse, piscando para ela. — Faltou um pouco mais de drama no final. — Na próxima eu trago fogos de artifício — Mizi brincou. Sua passou por Ivan sem dizer nada, mas parou por um segundo ao lado dele. — Você tem sangue na gola. Mãe vai te matar. — Valeu pelo aviso, "irmãzinha" — Ivan respondeu, com o tom irritante de sempre. Till estava por último, tentando parecer desinteressado. Quando ele passou por Ivan, o garoto mais alto inclinou-se em sua direção. — Gostou da vista, Till? — Ivan sussurrou, a voz carregada de provocação. Till parou, os olhos verdes faiscando. — Você é um babaca, Ivan. Um babaca exibido. — E você não parou de olhar por um segundo — Ivan deu um passo para trás, sorrindo vitorioso. Till rosnou um palavrão e apressou o passo para alcançar os outros. Mizi se aproximou de Ivan, passando o braço pelo pescoço dele. — Missão cumprida. Defendemos o território e você flertou com o emo. Podemos ir dormir agora? — Eu não flertei com ninguém — Ivan mentiu, mas o sorriso em seu rosto dizia o contrário. — Claro que não. E eu sou a Rainha da Inglaterra — Mizi bocejou, começando a caminhar em direção ao portão da escola. — Vamos, Ivan. Amanhã tem prova de matemática e eu pretendo dormir durante toda a explicação. Enquanto o sol se punha sobre a Escola Anaktos, as sombras das gangs se alongavam, escondendo os segredos, os desejos e as rebeldias de um grupo de adolescentes que, entre socos e livros de poesia, tentavam apenas encontrar o seu lugar naquele campo de batalha chamado ensino médio. O Silêncio das Sombras e o Gosto do Sangue A manhã na Escola Secundária Anaktos nasceu com uma atmosfera pesada, como se o próprio ar soubesse que algo estava fora de esquadro. No fundo da sala de aula, a cadeira ao lado de Ivan estava vazia. Para qualquer observador casual, era apenas uma ausência; para quem conhecia a rotina milimétrica da dupla, era um eclipse. Mizi nunca faltava. Mesmo quando estava com febre, ou quando a gangue Mukuro exigia sua presença em algum beco de madrugada, ela aparecia para a primeira aula, mesmo que fosse apenas para babar sobre os livros de geografia com um sorriso sarcástico no rosto. Ivan encarava o celular pela décima vez em cinco minutos. Nenhuma resposta. Nenhuma visualização. A última mensagem dela era da noite anterior, uma piada idiota sobre o cabelo de Till, e depois disso, o silêncio. Ele sentia uma inquietação crescendo no peito, uma sensação de que as engrenagens da escola estavam começando a ranger. Na outra extremidade da sala, o grupo de amigos de Sua também notou. Hyuna arqueou a sobrancelha, olhando para o lugar vazio. Luka ajustou os óculos, anotando algo em seu caderno que provavelmente era uma probabilidade estatística sobre a ausência da líder da Mukuro. Till, por sua vez, tentava não olhar para Ivan, mas falhava miseravelmente. Ele percebeu que o garoto pálido não estava com seu habitual pirulito na boca. Ivan estava sério. Quase sombrio. — A Mizi faltou? — sussurrou Hyuna para o grupo. — Isso é tipo ver um cometa passar. Acontece uma vez a cada cem anos. — Talvez ela esteja doente — sugeriu Luka, embora seu tom indicasse que ele não acreditava nisso. — Ou talvez a Mukuro esteja lidando com algo grande. — Se fosse algo da gangue, o Ivan não estaria aqui — rebateu Sua, sem tirar os olhos de seu livro, embora sua voz tivesse um rastro de dúvida. — Eles são grudados. Se ela sumiu, ele deveria ser o primeiro a saber. Till apenas bufou, cruzando os braços sobre a jaqueta da Gnash. — Que se foda. Menos barulho na sala. Mas o barulho veio de fora. E não era o tipo de barulho que Till gostava. A porta da sala foi aberta com um estrondo que fez o professor de história recuar dois passos, deixando o giz cair. Não eram membros da Mukuro, nem da Gnash. Eram os "Lâminas de Obsidiana", a gangue que disputava o território norte com a Mukuro, mantendo um empate técnico e sangrento há meses. No comando estava Krow, um veterano de ombros largos, cicatriz no supercílio e uma aura de violência pura. Ele ignorou completamente a autoridade do professor e caminhou até o fundo da sala, parando diante da mesa de Ivan. O silêncio que se instalou foi absoluto. Era o tipo de silêncio que precede um desastre natural. — Onde ela está, gracinha? — Krow perguntou, a voz rouca e carregada de escárnio. Ivan levantou o olhar lentamente. Ele parecia cansado, mas não intimidado. — Se você está falando da Mizi, eu não sou o GPS dela, Krow — respondeu Ivan, a voz calma demais para a situação. — Ela não veio hoje. Krow soltou uma risada seca, inclinando-se sobre a mesa de Ivan, invadindo seu espaço pessoal de forma agressiva. — Não fode comigo. Todo mundo sabe que você é o cachorrinho de madame dela. Se ela não está aqui, é porque está tramando alguma coisa. Onde a Mukuro está se escondendo? — Eu já disse — Ivan repetiu, cada palavra saindo como um suspiro de tédio. — Eu não sei. Ela não atende o celular. Agora, se você puder sair da frente, você está bloqueando a luz. Eu gosto de ver o que o professor está escrevendo, embora seja inútil. O movimento foi tão rápido que poucos conseguiram acompanhar. Krow agarrou Ivan pelo colarinho e o jogou contra a parede do fundo da sala. O baque foi surdo e pesado. — Você acha que eu estou brincando? — Krow rugiu, desferindo o primeiro soco no estômago de Ivan. Ivan dobrou-se, o ar escapando de seus pulmões em um som agoniado. Ele caiu de joelhos. Na sala, ninguém se mexeu. O professor, um homem magro que claramente temia pela própria vida, desviou o olhar para a janela. Os outros alunos, aterrorizados com a reputação da Obsidiana, grudaram-se em suas cadeiras. Till sentiu seus dedos enterrarem-se na madeira da própria mesa. Seus olhos verdes estavam arregalados, fixos na cena. "Faz alguma coisa", uma voz gritava em sua cabeça. Mas ele sabia como as coisas funcionavam. Intervir em um assunto de outra gangue, especialmente contra um líder como Krow, era assinar uma sentença de morte ou iniciar uma guerra que a Gnash não estava pronta para lutar. Ele olhou para Hyuna, esperando um sinal, mas ela estava com a mandíbula travada, os olhos cheios de ódio, mas imóvel. Luka estava pálido. Sua mantinha os olhos fixos no livro, mas suas mãos tremiam tanto que as páginas faziam barulho. — Levanta — ordenou Krow, puxando Ivan pelos cabelos pretos. — Me diz onde ela está ou eu vou transformar seu rosto em uma poça de sangue. — Eu... não... sei — Ivan cuspiu, o sangue já começando a escorrer do canto da boca. Krow desferiu um soco direto no rosto de Ivan. Depois outro. E mais um. O som da carne atingindo a carne ecoava na sala como chicotadas. Ivan não revidava. Ele não tinha a força física de Mizi, e sem ela ali para ser seu escudo ou seu ímpeto, ele parecia aceitar o castigo com uma resignação assustadora. Till sentiu o estômago revirar. Ele odiava Ivan. Odiava o jeito que ele se achava superior, odiava o jeito que ele o irritava. Mas ver o garoto ser espancado daquela forma, sem que ninguém — nem mesmo sua própria irmã — movesse um dedo, era insuportável. Till começou a se levantar, mas sentiu a mão de Hyuna em seu pulso. — Não — ela sussurrou, os olhos azuis nublados. — Se você for, eles matam você também. Não é nossa briga, Till. — É covardia, porra! — Till sibilou, mas permaneceu parado, odiando a própria impotência. Krow finalmente soltou Ivan, que desabou no chão, encostado na parede, o rosto inchado e a camisa social branca manchada de vermelho. O líder da Obsidiana limpou o sangue de suas juntas na própria calça e cuspiu ao lado de Ivan. — Escuta aqui, seu lixo. Quando a sua namoradinha aparecer, diz pra ela que eu quero falar com ela. Urgente. Se ela não me procurar até amanhã, eu vou terminar o que comecei com você, mas dessa vez na frente de toda a escola. Krow e seus capangas saíram da sala com a mesma arrogância com que entraram. O silêncio que ficou era pior do que o barulho da briga. Ivan permaneceu no chão, respirando com dificuldade. O professor pigarreou, tentando retomar a aula como se nada tivesse acontecido, uma tentativa patética de normalidade que ninguém comprou. Sua fechou o livro com força e se levantou. Ela caminhou até o irmão, mas não o tocou. Ficou apenas parada ali, olhando para ele com uma mistura de desprezo e uma dor que ela se recusava a nomear. — Você é um idiota — ela disse, a voz fria. Ivan deu um sorriso dolorido, revelando os dentes manchados de sangue. — É de família... — ele murmurou. Sua deu as costas e saiu da sala. Ela não ia ajudá-lo. Naquele mundo, a fraqueza era um pecado, e Ivan tinha acabado de demonstrar a maior de todas: a dependência de alguém que não estava lá para salvá-lo. Till observou Ivan se arrastar para cima, tentando se sentar na cadeira. Ninguém foi ajudá-lo. Nem os colegas, nem os seguidores da Mukuro que estavam em outras salas. Sem Mizi, a aura de proteção de Ivan havia evaporado. O resto do dia passou como um borrão de agonia para Ivan. Cada movimento fazia suas costelas protestarem, e o gosto de ferro em sua boca era um lembrete constante de sua vulnerabilidade. Ele checou o celular novamente. Nada. "Mizi, onde diabos você está?", ele pensou, sentindo um medo real começar a suplantar a dor física. Não era medo de apanhar de novo. Era medo de que algo tivesse acontecido com a única pessoa que realmente o via. Ao final das aulas, Ivan saiu da escola cambaleando. Ele precisava ir até a casa dela. Ele precisava saber. Mas, ao chegar ao portão, viu o carro preto de luxo estacionado. O motorista de seu pai estava lá, esperando. — Merda — Ivan praguejou baixinho. Ele havia esquecido. O jantar de negócios. Seu pai era um homem de aparências e de punhos de ferro, de uma forma diferente de Mizi, mas igualmente letal. Se ele faltasse àquele jantar, ou se chegasse parecendo que tinha passado por um moedor de carne, as consequências seriam desastrosas não só para ele, mas para o pouco de paz que Sua ainda tinha em casa. Ele entrou no carro, tentando esconder o lado inchado do rosto nas sombras do banco traseiro. — Direto para casa, senhor? — perguntou o motorista, olhando pelo retrovisor com uma expressão neutra. Eles eram pagos para não fazer perguntas. — Sim. E rápido. Enquanto o carro se afastava, Ivan viu Till parado na calçada, observando o veículo partir. Por um momento, seus olhos se cruzaram. Não houve provocação, não houve sarcasmo. Apenas um reconhecimento silencioso de que as coisas tinham mudado. A noite na mansão da família de Ivan e Sua foi um exercício de tortura psicológica. Ivan passou camadas de maquiagem que pegara escondido no quarto da irmã para esconder os hematomas, torcendo para que a iluminação baixa da sala de jantar fizesse o resto do trabalho. Seu pai falava sobre ações, sobre expansão, sobre como a imagem da família era o ativo mais precioso que eles possuíam. Sua comia em silêncio, a postura impecável, agindo como se o irmão nem existisse ao seu lado. Ivan mal conseguia engolir. Cada garfada era um lembrete das costelas machucadas. Mas o que mais doía era o celular vibrando no bolso com notificações de membros da gangue Mukuro, perguntando sobre Mizi, perguntando por que ele não tinha revidado, perguntando se a gangue estava desmoronando. Ele não respondeu a ninguém. A escola toda já comentava. A notícia de que Ivan tinha apanhado e Mizi não tinha aparecido para "limpar o chão" com o agressor correu como pólvora. No submundo das gangues escolares, isso era visto como um sinal de fraqueza terminal. Se a líder não protegia seu braço direito, ela não era mais líder. Quando o jantar finalmente acabou e Ivan pôde se trancar em seu quarto, ele desabou na cama, soltando um gemido de dor que segurava há horas. Ele pegou o celular e viu que Mizi ainda não tinha visualizado as mensagens. — Porra, Mizi... — ele sussurrou para o teto escuro. — Onde você se meteu? Ele pensou em Till. Pensou no jeito que o garoto de cabelo cinza o olhou na sala de aula. Havia algo ali que Ivan não conseguia decifrar. Não era apenas pena. Era algo mais profundo, algo que parecia uma corda esticada prestes a romper. Naquela noite, Ivan não dormiu. Ele ficou olhando para a janela, esperando ver uma sombra rosa e azul pulando seu muro, esperando ouvir uma piada sarcástica que fizesse tudo voltar ao normal. Mas a única coisa que veio foi o silêncio frio da madrugada e a certeza de que, no dia seguinte, Krow estaria esperando. E Mizi, pela primeira vez em anos, não estaria lá para segurar sua mão ou dividir o fardo do mundo. Ele estava sozinho. E na Escola Anaktos, estar sozinho era o mesmo que estar morto. Além disso, uma dúvida amarga corroía seu peito: e se Mizi não estivesse apenas faltando? E se o silêncio dela fosse o sinal de que o jogo tinha mudado de patamar, e ele fosse apenas um peão que foi deixado para trás no tabuleiro? Ivan fechou os olhos, o gosto de sangue ainda presente em sua boca, e desejou, pela primeira vez na vida, que o amanhã nunca chegasse. O Eclipse de Sangue no Pátio Sul A manhã seguinte na Escola Secundária Anaktos não cheirava a café ou a livros novos; cheirava a ferro e a tempestade iminente. Ivan entrou pelos portões sentindo cada fibra de seu corpo gritar. A maquiagem escondia as manchas arroxeadas, mas não conseguia camuflar a rigidez de seus movimentos. Ele parecia um boneco de porcelana remendado, pronto para quebrar ao primeiro toque. Mizi ainda não tinha dado sinal de vida. O celular dele estava uma tumba digital. Ao entrar na sala, o ar pareceu fugir. Till estava lá, sentado em sua mesa, batucando furiosamente. Quando Ivan passou, o ritmo do batuque falhou por um milésimo de segundo. Till o encarou, os olhos verdes varrendo o rosto pálido de Ivan como se procurassem as rachaduras na máscara. Ivan, fiel ao seu papel de irritante profissional, apenas deu um aceno de cabeça quase imperceptível e sentou-se. Não demorou dez minutos. A porta da sala não foi apenas aberta; ela foi chutada. Krow entrou com a confiança de um carrasco, seguido por três de seus cães de guarda das Lâminas de Obsidiana. O professor de matemática, que estava no meio de uma equação, simplesmente soltou o apagador e recuou para o canto, como um animal acuado. — Onde ela está, seu pedaço de lixo? — Krow rugiu, caminhando direto para a mesa de Ivan. — Eu mandei ela me procurar. Ela acha que pode me dar um bolo? Ivan nem se deu ao trabalho de levantar. Ele olhou para Krow com um desdém que beirava o suicídio. — Eu já disse ontem, Krow. Eu não sou a secretária dela. Se ela não quer te ver, provavelmente é porque você é feio demais para a estética dela. Krow rosnou, a veia em sua testa saltando. Ele agarrou a gola da camisa de Ivan, levantando-o da cadeira. — Você quer morrer hoje, é isso? Eu vou acabar com... — KROW! — Um grito vindo do corredor interrompeu a ameaça. Um dos membros da Obsidiana apareceu na porta, ofegante, o rosto pálido de terror. — Krow! No pátio sul! Agora! É a Mizi... ela enlouqueceu! O aperto no colarinho de Ivan afrouxou instantaneamente. Krow soltou o garoto, que caiu de volta na cadeira, tossindo. Sem dizer uma palavra, a gangue de Obsidiana saiu em disparada. A sala inteira congelou por um segundo, e então, como se um gatilho tivesse sido puxado, todos se levantaram. O caos era magnético. — Ivan! — Hyuna gritou, já correndo em direção à porta. — Vamos! Ivan não precisou ser chamado duas vezes. Apesar da dor nas costelas, ele correu. Till, Sua e Luka estavam logo atrás. A escola inteira parecia estar convergindo para o pátio sul. Professores tentavam barrar os corredores, mas eram empurrados pela maré de adolescentes sedentos por ver a queda — ou a ascensão — da Rainha da Mukuro. Quando chegaram à sacada que dava para o pátio, a cena era digna de um pesadelo. Lá embaixo, no centro de um círculo humano de gritos e apostas, estava Mizi. Mas não era a Mizi sarcástica e sonolenta que eles conheciam. Seus cabelos rosa e azul estavam empastados de suor e poeira. Sua camisa social estava rasgada, revelando hematomas, e o rosto... o rosto estava coberto de sangue. Não apenas o dela. Ela estava enfrentando cinco líderes de gangues menores que haviam se aliado na ausência dela para tentar tomar o território da Mukuro. — Puta que pariu... — Till murmurou, os olhos arregalados. — Ela está sozinha. Mizi estava por cima de um deles, um cara chamado Riku, desferindo socos rítmicos e brutais. O som da carne batendo era audível mesmo com a gritaria. — MIZI! PARE! — gritou um dos membros da Mukuro que tentava furar o bloqueio, mas ele foi jogado para trás por membros das outras gangues que formavam uma parede humana. Dois dos líderes avançaram contra ela simultaneamente. Eles a puxaram pelos ombros, arrancando-a de cima de Riku. Mizi rosnou, chutando o ar, mas um chute certeiro atingiu seu estômago. Ela dobrou-se, e um soco direto no rosto a fez cambalear. — Ela vai morrer — Luka disse, a voz trêmula por trás dos óculos. — A proporção é injusta. Mas Mizi não sabia o que era rendição. Com um grito gutural, ela se impulsionou para a frente, agarrando o braço do cara que a tinha chutado. Em um movimento fluido e cruel, ela girou o corpo e houve um estalo seco. O braço dele dobrou em um ângulo impossível. O grito de dor dele cortou o ar do pátio. Outro líder, um brutamontes de quase dois metros, avançou e conseguiu derrubá-la no chão. Ele montou sobre ela e começou a desferir golpes pesados. A cabeça de Mizi batia contra o concreto a cada impacto. — NÃO! — Ivan gritou, tentando pular o parapeito da sacada, mas Till o segurou pelo braço. — Se você for lá agora, você morre, Ivan! Olha o tamanho daquela confusão! — Till gritou de volta, o rosto vermelho de tensão. Lá embaixo, quando todos achavam que Mizi tinha apagado, ela cravou as unhas no rosto do agressor, atingindo os olhos dele. O homem urrou, perdendo o equilíbrio. Mizi trocou de posição com uma agilidade sobrenatural, ficando por cima. Ela não deu um soco; ela deu uma marretada com as duas mãos unidas. O cara desmaiou instantaneamente, a cabeça quicando no chão. Mizi se levantou, cambaleando. Ela parecia um demônio de cabelos coloridos. Seus olhos dourados estavam injetados de sangue. Ela viu um dos líderes tentando fugir em direção ao prédio da biblioteca. — Onde você pensa que vai, seu merda? — ela gritou, a voz rouca. Ela o alcançou na porta da biblioteca, no andar de baixo. Ela agarrou o cabelo dele e o arrastou como se ele não pesasse nada. O pátio inteiro silenciou enquanto observava a brutalidade. Ela abriu a porta pesada de madeira e metal, colocou a cabeça do garoto no vão e começou a bater a porta contra o crânio dele. Um estrondo. Dois estrondos. Os gritos de dor dele eram lancinantes. — Mizi, chega! Você vai matar ele! — gritou Hyuna da sacada.Mizi parou por um segundo, olhando para cima. Aquele breve momento de distração foi o erro fatal. Os últimos dois líderes, que estavam observando de longe, avançaram por trás. Um deles a empurrou com toda a força contra a parede de pedra da biblioteca. Mizi tentou se virar, mas o segundo desferiu um chute lateral com a bota reforçada diretamente em sua têmpora. O corpo de Mizi foi arremessado. Sua cabeça atingiu a quina viva da parede de pedra com um som oco e aterrorizante. O tempo pareceu parar. O sangue jorrou instantaneamente, pintando o cinza da pedra de um vermelho vivo e quente. Mizi deslizou pela parede, os olhos dourados perdendo o foco até se revirarem. Ela caiu no chão, imóvel, em uma poça que crescia a cada segundo. O silêncio que se seguiu durou apenas um batimento cardíaco. E então, o inferno abriu suas portas. — MIZIIIIII! — O grito de Ivan rasgou a escola. Ele se soltou de Till com uma força que ninguém sabia que ele tinha e saltou da sacada, caindo de forma desajeitada no pátio, mas levantando-se imediatamente. — MATEM ELES! — gritou um veterano da Mukuro, perdendo completamente o controle. — MATEM TODOS ELES! A contenção acabou. Os membros da Mukuro avançaram como lobos famintos contra as outras gangues. Cadeiras começaram a voar das janelas dos andares superiores. Alunos que nem faziam parte de gangues começaram a brigar por puro pânico ou adrenalina. Um professor tentou intervir, gritando por ordem, mas foi atingido por um soco perdido e caiu, sendo pisoteado pela multidão. No meio do pátio, Ivan chegou ao corpo de Mizi. Ele caiu de joelhos, sujando as calças social de sangue. — Mizi... Mizi, acorda! — Ele tremia violentamente, as mãos pairando sobre o ferimento na cabeça dela, com medo de tocar. — Por favor, Mizi, brincadeira idiota, acorda! Till, Hyuna e Luka chegaram logo atrás, formando um pequeno círculo de proteção ao redor deles enquanto a guerra explodia ao redor. Till distribuía socos em qualquer um que chegasse perto, seu rosto cinza manchado de respingos de sangue alheio. Sua estava parada a poucos metros, os olhos roxos arregalados, o livro de poesia caído no chão, esquecido. — Ivan, a gente precisa tirar ela daqui! — Hyuna gritou, chutando um membro da Obsidiana que tentava se aproximar com um pedaço de pau. — Ela está perdendo muito sangue! Luka, agindo por puro instinto de sobrevivência, tirou o próprio casaco escolar. — Pressiona isso no corte! Ivan, faz pressão agora! Ivan obedeceu, as mãos mergulhadas no vermelho quente. Ele olhou para cima, para o caos que consumia a Anaktos. O corredor da biblioteca estava um cenário de guerra; armários eram derrubados, vidros estourados. A escola que um dia foi um monumento de giz e regras agora era apenas uma jaula de animais feridos. Till olhou para Ivan. O garoto pálido estava chorando silenciosamente, a maquiagem escorrendo e revelando a violência que sofrera no dia anterior. A vulnerabilidade de Ivan naquele momento atingiu Till como um soco no peito. — Luka, ajuda o Ivan a carregar ela! — Till ordenou, assumindo a liderança. — Hyuna, abre caminho! Eu vou na frente. Se alguém encostar neles, eu juro por Deus que não sai vivo daqui. — E você, Sua? — Hyuna perguntou, olhando para a garota estática. Sua olhou para o irmão. Olhou para Mizi, que parecia uma boneca quebrada. Ela fechou os punhos. — Eu vou atrás — Sua disse, a voz subitamente firme. — Ninguém toca nas minhas costas. Eles começaram a se mover pelo pátio, um pequeno comboio de desespero no meio do massacre. Ivan e Luka carregavam Mizi, cujos pés arrastavam levemente no chão. O sangue de Mizi deixava um rastro no asfalto, uma linha vermelha que marcava o fim da inocência daquela escola. A Mukuro e as outras gangues continuavam a se destruir. O som de sirenes começou a ecoar à distância, mas ninguém parava. O ódio acumulado de meses de hierarquias de giz tinha finalmente transbordado. Ao chegarem ao portão lateral, Till derrubou um garoto que tentou barrar a passagem. Ele se virou para Ivan, que estava ofegante, o rosto manchado de lágrimas e sangue. — Ivan, corre! Leva ela pro hospital da esquina, agora! Ivan olhou para Till. Por um segundo, em meio ao barulho de ossos quebrando e gritos, houve um entendimento. — Obrigado, Till — Ivan sussurrou. — Vai logo, porra! Antes que eu me arrependa! — Till gritou, virando-se para enfrentar a horda que vinha atrás deles. Ivan e Luka atravessaram o portão. Hyuna e Sua ficaram na retaguarda com Till, formando uma barreira humana contra o caos. Enquanto Ivan corria pela rua, sentindo o peso de Mizi em seus braços, ele só conseguia pensar em uma coisa. Se Mizi morresse, a Mukuro morreria. A escola morreria. E ele... ele deixaria de existir. Porque sem o brilho impulsivo daquela garota de cabelos rosa, o mundo de Ivan era apenas um deserto de silêncio e pirulitos amargos. — Fica comigo, Mizi — ele implorava, a voz falhando. — Fica comigo, sua idiota sarcástica. Você ainda tem que ver o Till me dar um soco. Você não pode perder isso. Mas Mizi não respondeu. O único som era o das sirenes que finalmente cercavam a escola Anaktos, enquanto a fumaça de um incêndio começava a subir de uma das janelas do segundo andar. A era das gangues tinha atingido seu ápice sangrento, e ninguém sabia quem, ou o quê, restaria quando a poeira baixasse. O Retorno da Rainha de Vidro e Ferro O silêncio que se seguiu ao massacre no pátio sul não foi de paz, mas de decomposição. Durante dois dias, a Escola Secundária Anaktos permaneceu com os portões acorrentados, enquanto a perícia limpava manchas de sangue que pareciam ter penetrado permanentemente no concreto. Mas, se as paredes estavam sendo limpas, a estrutura social da escola estava apodrecendo. Mizi não acordava. Os boatos corriam pelos grupos de mensagens como uma praga: "Ela morreu", "Ela está em coma vegetativo", "A Mukuro acabou". Ivan, o único que poderia dar uma resposta real, era um fantasma. Os pais de Mizi, figuras tão rígidas e impiedosas quanto o sistema que governavam, proibiram qualquer visita. Ivan foi barrado na recepção do hospital três vezes. Na última, o segurança quase quebrou seu braço, e ele apenas sorriu com aquele jeito melancólico e irritante, antes de se retirar para o escuro de seu quarto. Sem Mizi, a Mukuro era um corpo sem cabeça, debatendo-se em espasmos de violência desorganizada. As outras gangues, como abutres sentindo o cheiro de carniça, começaram a bicar as bordas do território. Na segunda-feira, quando as aulas deveriam ter retornado ao normal, a escola era um hospício. Dois professores pediram demissão antes do almoço, alegando que o ambiente era "insalubre para a vida humana". Na terça-feira, o caos atingiu o ápice. No corredor principal, membros da Gnash e das Lâminas de Obsidiana trocavam insultos e empurrões, enquanto alunos comuns se encolhiam contra os armários. Till estava encostado em uma pilastra, com os braços cruzados e uma expressão de puro asco. Ele olhava para o lugar vazio onde Ivan costumava ficar. — Isso aqui vai desmoronar — murmurou Luka, ajustando os óculos que tinham uma pequena rachadura na armação. — A entropia social da Anaktos atingiu o ponto de não retorno. Sem a Mizi para equilibrar o medo e o respeito, só resta o medo. E o medo é barulhento. — Eu só queria que essa porra toda queimasse de uma vez — rosnou Till, embora seus olhos verdes vasculhassem a entrada da escola com uma ansiedade que ele não admitiria nem sob tortura. — Você está procurando por ele — disse Hyuna, aproximando-se com um suspiro cansado. — O Ivan não vem, Till. Ele está destruído. Eu vi a Sua hoje cedo, ela disse que ele nem sai da cama. Sua, que estava sentada no chão lendo um livro com as páginas manchadas de poeira, nem levantou a cabeça, mas sua voz soou cortante. — Meu irmão é um fraco. Ele se ancorou em uma pessoa que não pode mais segurá-lo. Agora ele está afundando junto. O barulho no corredor aumentou. Krow, o líder da Obsidiana, estava chutando a porta de um armário que ostentava um adesivo da Mukuro. — CADÊ A PRINCESA ROSA? — ele gritava, rindo para seus seguidores. — OUVIRAM DIZER QUE ELA VIROU UM VEGETAL? EU VOU LÁ NO HOSPITAL DESLIGAR A TOMADA SÓ PRA VER SE ELA ACORDA! A risada de Krow foi interrompida pelo som de um impacto. Não um soco, mas o som de passos. Passos rítmicos, confiantes, o som de saltos batendo no piso de linóleo com uma cadência que todos ali conheciam de cor. O corredor, que segundos antes era uma cacofonia de gritos, mergulhou em um vácuo de silêncio absoluto. Lá estava ela. Mizi caminhava pelo centro do corredor. A saia preta estava curta como sempre, a blusa social branca impecavelmente passada, e a gravata preta pendurada de forma tão frouxa que parecia um desafio às leis da física. Mas algo estava diferente. Onde antes havia um sarcasmo brincalhão, agora havia uma frieza predatória. Ela tinha uma mão na boca, roendo as unhas com uma intensidade nervosa, enquanto a outra mão estava escondida atrás das costas, com os dedos cruzados. Seus olhos dourados não brilhavam mais com diversão; eles eram duas esferas de âmbar fixas em um alvo invisível. Ela não olhou para os lados. Ela não cumprimentou ninguém. Ela apenas andava, e o mar de alunos se abria diante dela como se ela fosse uma divindade da guerra. Krow, que estava rindo um segundo atrás, empalideceu. Ele tentou manter a postura, cruzando os braços. — Olha só... a morta-viva apareceu — ele disse, mas sua voz falhou levemente no final. Mizi parou a dois passos dele. Ela tirou a mão da boca, revelando as unhas roídas e um pequeno rastro de sangue onde ela havia cutucado a cutícula. Ela inclinou a cabeça para o lado, e o movimento fez o curativo branco em sua têmpora, escondido sob o cabelo rosa, tornar-se visível. — Krow — ela disse. A voz não era alta, mas cortou o corredor como uma navalha. — Eu ouvi algo sobre tomadas. Você quer repetir? Krow deu um passo atrás, instintivamente. — Eu... eu só estava brincando, Mizi. A gente achou que você... — Que eu tinha morrido? — Ela deu um sorriso que não chegou aos olhos. Era um sorriso quebrado, perigoso. — Eu tentei. Mas o inferno me mandou de volta porque eu ainda não tinha terminado de limpar o lixo da minha escola. Ela deu mais um passo à frente, invadindo o espaço dele. Mizi era menor que ele, mas naquele momento, ela parecia ocupar todo o corredor. — A Mukuro não está sem líder — ela continuou, a voz subindo de tom, carregada de uma autoridade que fez os membros de sua gangue, que estavam escondidos nas sombras, se empertigarem imediatamente. — E se eu ouvir mais um pio sobre o meu estado de saúde ou sobre o meu território, eu não vou bater uma porta na cabeça de vocês. Eu vou arrancar a porta e usar como caixão. Entendido? Krow não respondeu. Ele apenas acenou com a cabeça, humilhado diante de toda a escola, e se retirou para o fundo do corredor com sua gangue, como cães chutados.Mizi permaneceu parada por um momento, respirando fundo. O tremor em suas mãos era visível para quem olhasse de perto, mas ela o escondia cruzando os braços. Seus olhos varreram a multidão até encontrarem o grupo de Hyuna. Ela viu Till. Viu Hyuna. Viu Sua. Mas seu olhar travou no espaço vazio ao lado deles. — Onde ele está? — perguntou Mizi, caminhando até eles. — Mizi, você devia estar no hospital — disse Hyuna, com uma preocupação genuína. — Você quase morreu, garota! — Eu perguntei onde ele está, Hyuna — Mizi repetiu, a impulsividade voltando à tona, mas temperada com uma urgência sombria. — Ele está em casa — respondeu Sua, fechando o livro. — Ele não come, não dorme e não fala. Ele acha que você é um fantasma. Mizi soltou um palavrão baixo e virou as costas para o grupo, começando a andar em direção à saída. — Ei! — gritou Till. — Você acabou de chegar! As aulas vão começar! Mizi parou e olhou por cima do ombro. O vento do corredor balançou suas pontas azuis. — Foda-se as aulas, Till. Eu tenho um idiota para resgatar das profundezas da própria autocomiseração. Ela saiu pelos portões da frente, ignorando os gritos dos inspetores. Vinte minutos depois, Mizi estava escalando o muro da mansão da família de Ivan. Ela conhecia cada pedra solta, cada ponto cego das câmeras. Ela pulou no jardim e correu para a janela do segundo andar, subindo pela trepadeira com uma agilidade que desafiava seu ferimento na cabeça. Ela abriu a janela do quarto de Ivan e entrou. O quarto estava escuro, cheirando a cortinas fechadas e ao açúcar rançoso de pirulitos velhos. Ivan estava deitado de lado, encarando a parede. Ele não se moveu quando ouviu o barulho. — Se for você, Sua, saia daqui antes que eu jogue um abajur na sua cabeça — ele murmurou, a voz rouca e sem vida. — Eu adoraria ver você tentar, mas acho que sua pontaria sempre foi uma bosta — disse Mizi. Ivan congelou. O tempo pareceu parar no quarto escuro. Ele se virou lentamente, como se tivesse medo de que o movimento fosse dissipar uma alucinação. Lá estava ela, sentada no parapeito da janela, a luz do sol de terça-feira criando uma aura ao redor de seu cabelo rosa bagunçado. Ela estava pálida, com um curativo na cabeça e olheiras profundas, mas era ela. — Mizi? — A voz dele quebrou. — Não, é o Papai Noel. Eu vim cedo este ano porque soube que você foi um garoto muito chorão. Ivan sentou-se na cama, os olhos pretos arregalados, as lágrimas começando a transbordar sem que ele percebesse. — Você... os médicos disseram que você não acordava. Meus pais me proibiram... eu tentei ir lá, Mizi. Eu juro que tentei. Mizi pulou do parapeito e caminhou até a cama. Ela não disse nada. Apenas o puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dele. Ivan desmoronou, escondendo o rosto no ombro dela, os ombros sacudindo em soluços silenciosos que ele guardava há dois dias. — Eu sei, seu idiota — ela sussurrou, apertando-o mais forte. — Eu sei. Mas eu estou aqui agora. E eu estou com uma fome do caralho. Você tem algum doce que não esteja vencido? Ivan soltou uma risada entre os soluços, limpando o rosto com a manga da camisa. — Você quase morre e a primeira coisa que pede é comida? Você é inacreditável. — Eu sou a líder da Mukuro, Ivan. Eu preciso de glicose para manter o reinado de terror — ela se afastou um pouco, olhando-o nos olhos. — A escola está um caos. O Krow estava falando merda. Eu tive que dar um showzinho básico no corredor só pra eles não esquecerem quem manda naquela porra. — Você foi para a escola antes de vir aqui? — perguntou Ivan, incrédulo. — Prioridades, Ivan. Eu precisava marcar território antes de vir buscar meu braço direito. Ivan sorriu. O primeiro sorriso real em dias. Ele se levantou, sentindo o corpo ainda dolorido, mas a alma subitamente leve. — O que a gente vai fazer agora? — ele perguntou, pegando um pirulito de cereja da mesa de cabeceira e entregando a ela. Mizi desembalou o doce com os dentes e o colocou na boca, os olhos dourados brilhando com a velha chama de impulsividade e sarcasmo. — Agora? Agora nós vamos voltar para lá. Você vai colocar uma camisa limpa, vai esconder esses olhos inchados e nós vamos mostrar para aquela escola que se eles quiserem guerra, eles vão ter a porra de uma guerra mundial. — E as aulas? — Ivan provocou, já caminhando em direção ao banheiro para se lavar. — Foda-se as aulas — Mizi riu, sentando-se na cama dele e balançando as pernas. — Nós somos o 3º ano. Nós somos a Mukuro. E eu estou com vontade de quebrar alguns dentes antes do intervalo. Enquanto Ivan se arrumava, Mizi olhou pela janela. Ela sabia que a briga no pátio sul tinha sido apenas o começo. As outras gangues não iam desistir tão fácil, e a escola Anaktos estava à beira de uma explosão que nem mesmo ela sabia se poderia conter. Mas, olhando para Ivan, ela sentiu que, enquanto eles estivessem juntos, o caos era apenas um cenário para a diversão deles. Eles saíram pela janela, dois vultos de preto e rosa sob o sol da tarde. Ao chegarem na escola, o clima mudou novamente. A presença de Mizi e Ivan caminhando lado a lado pelo portão principal foi como um choque elétrico no sistema nervoso da Anaktos. Till, que estava no pátio fumando escondido atrás de uma árvore, parou com o cigarro a meio caminho da boca. Ele viu Ivan. Viu que o garoto não estava mais curvado, mas caminhava com aquela arrogância silenciosa que Till tanto odiava e, secretamente, admirava. Ivan olhou na direção de Till e, por um breve segundo, tirou o pirulito da boca e piscou. Till sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar, xingando baixo. — Eles voltaram — murmurou Hyuna, aparecendo ao lado de Till com um sorriso de satisfação. — O equilíbrio foi restaurado. — Equilíbrio o caralho — resmungou Till. — Isso é o pavio de uma bomba maior ainda. — Talvez — disse Luka, aproximando-se com Sua. — Mas pelo menos agora a bomba tem estilo. Mizi e Ivan entraram no prédio principal. O corredor silenciou novamente, mas desta vez não era um silêncio de medo puro, era um silêncio de expectativa. Mizi parou no meio do saguão, colocou as mãos nos quadris e olhou para todos os membros das gangues que a observavam. — Só pra avisar — ela gritou, sua voz ecoando por todos os andares. — O recreio acabou. Quem quiser continuar brincando de gangue, é bom estar pronto para sangrar. Porque a Mukuro está de volta. E eu estou de mau humor. Ela olhou para Ivan e sorriu. — Vamos, Ivan. Temos uma aula de literatura para perder. Eles subiram as escadas, deixando para trás uma escola que, pela primeira vez em dias, sentia que tinha um pulso novamente. Um pulso acelerado, violento e perigosamente vivo. A guerra na Anaktos estava longe de terminar, mas a rainha tinha recuperado sua coroa, e seu cavaleiro das sombras estava, finalmente, de volta ao seu lado. O Eco do Taco e o Perfume de Cereja A segunda-feira na Escola Secundária Anaktos amanheceu com um brilho estranhamente comum. Não havia cheiro de fumaça, nem o som de sirenes, nem o eco de ossos quebrando nos corredores. O pátio sul, que na semana anterior parecia um abatedouro, estava limpo, ocupado por alunos que discutiam banalidades sobre a prova de biologia ou o novo álbum de alguma banda de k-pop. A hierarquia, embora invisível, estava mais consolidada do que nunca: ninguém ousava olhar torto para qualquer membro da Mukuro, e o nome de Mizi era sussurrado com uma mistura de reverência e pavor sagrado. Mizi caminhava pelo corredor principal com a preguiça de um felino que acaba de caçar. Seus cabelos rosa e azul estavam presos em um rabo de cavalo alto e desleixado, e o curativo na têmpora tinha sido substituído por uma pequena cicatriz que ela exibia como uma medalha. A saia curta balançava conforme ela andava, e a gravata preta, como sempre, estava frouxa o suficiente para ser apenas um detalhe estético. Ao seu lado, Ivan mantinha as mãos nos bolsos da calça social, um pirulito de uva na boca e aquela expressão de tédio existencial que só ele conseguia sustentar. — Eu estou te falando, Mizi — Ivan disse, tirando o doce da boca para gesticular —, se você continuar batendo a cabeça dos outros nos armários, a diretoria vai acabar cobrando a manutenção de você. O metal está ficando todo amassado. Mizi soltou uma risada sarcástica, empurrando o ombro dele com o seu. — Ah, cala a boca, Ivan. Eu fiz um favor para a escola. Aqueles armários eram velhos, eu só dei uma "texturização" moderna neles. E além do mais, o Drake e o Krow não vão aparecer por aqui por pelo menos um mês. A odontologia da cidade agradece. Eles pararam perto da escadaria, o lugar onde a luz do sol batia mais forte. Ivan suspirou, encostando-se na parede e fechando os olhos por um segundo. — Pelo menos está calmo agora. Eu não aguentava mais o cheiro de antisséptico toda vez que eu ia te ver naquela enfermaria improvisada. — Admite que você sentiu minha falta, seu esquisito — Mizi provocou, cutucando a costela dele. — Eu senti falta da paz — Ivan mentiu descaradamente, abrindo um olho para encará-la. — Sem você, a escola é um caos desorganizado. Com você, é um caos sob gestão. É bem diferente. Enquanto os dois trocavam suas habituais farpas de amizade, o grupo de Hyuna observava a cena de uma distância segura, perto dos bebedouros. Till batucava nervosamente na alça de sua mochila, os olhos verdes fixos em Ivan. O garoto de cabelo cinza parecia mais estressado que o normal, se é que isso era possível. — Eles parecem... estranhamente normais hoje — comentou Luka, ajustando os óculos e observando Mizi e Ivan. — Como se não tivessem quase causado uma guerra civil na semana passada. — É o estilo deles, Luka — disse Hyuna, cruzando os braços e exibindo um sorriso carismático. — A Mizi não é do tipo que guarda rancor ou fica remoendo. Ela bate, resolve e volta a dormir. É por isso que ela é a melhor líder que essa escola já viu. Sua, segurando um livro de poesias russas, olhou para o irmão. A relação entre eles continuava gélida, um acordo tácito de não interferência que funcionava perfeitamente para ambos. — Ivan parece menos tenso — Sua observou em voz baixa. — O que é irritante. Ele é mais suportável quando está preocupado com alguma coisa. De repente, para a surpresa de todos, Mizi parou de falar com Ivan e olhou na direção do grupo. Ela deu um sorriso largo, daqueles que indicavam que uma ideia impulsiva acabara de brotar em sua mente, e fez um sinal com a mão para que eles se aproximassem. Ivan franziu o cenho, olhando para ela. — O que você está fazendo? — perguntou ele. — Socializando, Ivan. Você deveria tentar. Faz bem para a pele. O grupo de Hyuna hesitou por um momento, mas a curiosidade e o magnetismo de Mizi eram difíceis de ignorar. Eles caminharam até a dupla. Till ia por último, chutando o chão, tentando desesperadamente não fazer contato visual com Ivan. — E aí, bando de nerds e rebeldes sem causa — Mizi cumprimentou, a voz brincalhona. — Sobreviveram à semana de terror? — A gente que deveria perguntar isso para você, Mizi — Hyuna riu, batendo levemente no braço da outra. — Você parecia um demônio naquele corredor. Foi foda. — Eu sei, eu sei — Mizi deu de ombros, fingindo modéstia. — Mas chega de falar de violência. O intervalo vai começar e eu estou com um humor excelente. Ivan, sentindo o clima estranho, decidiu intervir da única forma que sabia: sendo irritante. — O Till parece que vai ter um colapso nervoso se ficar parado aqui por mais cinco segundos — Ivan comentou, olhando diretamente para o garoto de cabelo cinza. — Algum problema, Till? O rock 'n' roll está muito alto hoje? Till levantou a cabeça bruscamente, as orelhas ficando vermelhas. — Vai se foder, Ivan. Eu só estou... com sono. — Sei — Ivan deu um passo em direção a ele, diminuindo a distância. — Se quiser, eu te empresto um pirulito. O açúcar ajuda a manter os olhos abertos. — Eu não quero a porra do seu pirulito! — Till rosnou, mas não se afastou, o que fez Hyuna e Luka trocarem olhares cúmplices. Mizi estava prestes a fazer um comentário sarcástico sobre a tensão óbvia entre os dois, quando algo no final do corredor capturou sua atenção. A garota popular, aquela de cabelos brancos como seda e olhos vermelhos, estava passando. Ela caminhava com uma elegância que parecia flutuar sobre o chão sujo da escola, carregando alguns livros contra o peito. O sol da janela batia em seus cabelos, fazendo-os brilhar como vidro. O mundo de Mizi parou. O sarcasmo sumiu. A impulsividade assumiu o controle total de seu sistema nervoso. — Com licença, pessoal — Mizi disse, a voz subitamente mais aguda. — Eu tenho um assunto urgente para tratar. Ivan suspirou, já sabendo o que viria. — Mizi, não...Mas ela já tinha ido. O grupo de Hyuna assistiu, em choque, enquanto a temida líder da Mukuro — a mulher que tinha quebrado o braço de um cara com um taco de beisebol há poucos dias — corria pelo corredor como uma adolescente apaixonada. Mizi alcançou a garota de branco com facilidade. Sem hesitar, e com uma ousadia que fez Luka quase derrubar os óculos, Mizi estendeu a mão e deu um tapa sonoro e brincalhão na bunda da garota. — E aí, gracinha! — Mizi exclamou, com um sorriso radiante. O grupo na escadaria ficou paralisado. — Ela... ela acabou de fazer o que eu acho que ela fez? — perguntou Till, boquiaberto. — Ela bateu na bunda da garota mais popular e "pura" da escola — confirmou Luka, limpando as lentes dos óculos como se não acreditasse no que via. — E ela está... sorrindo? A garota de branco deu um pulinho de susto, virando-se rapidamente. Ao ver Mizi, seu rosto, antes pálido, ficou instantaneamente tingido de um rosa profundo. Mas ela não gritou, não chamou a diretoria e nem pareceu ofendida. Pelo contrário, um sorriso tímido e cúmplice surgiu em seus lábios. — Mizi! — a garota exclamou, a voz doce e levemente repreensiva. — Você não pode fazer isso no meio do corredor! — Quem vai me impedir? O Drake? — Mizi riu, aproximando-se e colocando o braço ao redor dos ombros da garota, puxando-a para perto. — Você está linda hoje, sabia? Esse perfume de cereja está me deixando tonta. A garota de branco baixou a cabeça, escondendo o rosto entre os fios brancos do cabelo, mas deixou-se levar. As duas começaram a caminhar lado a lado em direção ao pátio, conversando animadamente, com Mizi gesticulando e fazendo a outra rir a cada passo. De volta à escadaria, o silêncio era pesado. — Então... — Hyuna começou, quebrando o gelo. — A Mizi é... — Lésbica — Ivan completou, voltando a colocar o pirulito na boca com uma naturalidade irritante. — Muito lésbica. Tipo, nível catastrófico. — E todo mundo na escola acha que você e ela... — Luka apontou para Ivan. — Pois é — Ivan deu de ombros. — As pessoas veem o que querem ver. É mais fácil para a reputação dela se pensarem que ela namora um cara "misterioso" do que se souberem que ela gasta metade do tempo dela escrevendo poemas ruins para garotas de cabelo branco. Sua olhou para o irmão, uma faísca de algo que parecia respeito surgindo em seus olhos roxos. — E você? — perguntou Sua. — Qual é o seu segredo, Ivan? Ivan olhou para Till por um segundo a mais do que o necessário. O garoto de cabelo cinza ainda estava olhando para o corredor onde Mizi tinha sumido, parecendo processar a nova informação. — Eu não tenho segredos, Sua — mentiu Ivan, com um sorriso de canto. — Eu sou apenas um entusiasta de doces. O sinal para o intervalo tocou, um som estridente que parecia marcar o início de uma nova era na Anaktos. — Bom — disse Hyuna, ajeitando a jaqueta —, já que a nossa líder nos abandonou por uma loira platínica, o que vocês acham de a gente almoçar junto? Till olhou para Ivan, depois para o chão. — Eu não vou sentar com o esquisito do pirulito — resmungou Till, embora já estivesse começando a caminhar na mesma direção que os outros. — Ah, você vai sim, Till — Ivan disse, alcançando-o e passando o braço pelos ombros dele, imitando o gesto de Mizi. — Eu ouvi dizer que a cantina tem pudim hoje. E eu sei que você adora coisas doces, por mais que tente fingir que vive de raiva e rock pesado. — Tira a mão de mim, porra! — Till tentou se soltar, mas não com muita convicção. Luka, Hyuna e Sua seguiram os dois, rindo da interação caótica. Lá no pátio, sob a sombra de uma grande árvore, Mizi e a garota de branco estavam sentadas juntas. Mizi falava sem parar, descrevendo alguma cena engraçada com as mãos, enquanto a garota a observava com um olhar que era pura admiração. Em um momento, Mizi pegou uma mecha do cabelo branco da garota e a enrolou no dedo, aproximando-se para sussurrar algo no ouvido dela que a fez gargalhar e dar um empurrãozinho de leve no ombro de Mizi. Mizi olhou para o lado e viu seu grupo de amigos — e agora, o grupo de Ivan também — sentando-se em uma mesa próxima. Ela ergueu o polegar para Ivan, um sinal rápido de "está tudo sob controle". Ivan apenas revirou os olhos e voltou sua atenção para Till, que estava ocupado demais tentando abrir um pacote de salgadinho para perceber que Ivan estava guardando o melhor pedaço de seu pudim para ele. A Escola Anaktos finalmente estava em paz. Ou, pelo menos, no tipo de paz que só existe quando os segredos são compartilhados, as gangs estão sob controle e a líder mais temida da escola está ocupada demais tentando impressionar uma garota para se preocupar em quebrar o nariz de alguém. — Sabe, Ivan — disse Hyuna, abrindo seu refrigerante —, acho que este vai ser o melhor ano de todos. Ivan olhou para Mizi, depois para Till, e finalmente para o sol que brilhava no pátio. — É — ele concordou, sentindo o gosto doce da uva em sua língua. — Pode ser que sim. Pelo resto do intervalo, Mizi não saiu do lado da garota de branco. Elas caminharam pelo pátio, dividiram um lanche e, em certo momento, Mizi até deixou a garota usar sua gravata frouxa, apenas para ver como ficava. O resto da escola observava, alguns confusos, outros chocados, mas ninguém ousava dizer uma palavra. Afinal, Mizi ainda era a dona do taco de beisebol, e agora, ela tinha algo muito mais precioso para proteger do que apenas um território. A hierarquia de giz tinha sido apagada. A nova regra da Anaktos era simples: Mizi estava feliz, Ivan estava (relativamente) sociável, e quem tentasse estragar isso teria que lidar com a Mukuro, a Gnash e um par de olhos dourados que não aceitavam "não" como resposta. O Despertar da Rainha e a Dança das Sombras A manhã na Escola Anaktos tinha aquele cheiro peculiar de desinfetante industrial e hormônios à flor da pele. O sol entrava pelas janelas altas do corredor do terceiro ano, iluminando a poeira que dançava no ar, mas o clima geral era de uma ressaca coletiva. Depois da carnificina da semana anterior e da demonstração pública de afeto — ou possessão — de Mizi com a garota de cabelos brancos, a escola parecia estar em um estado de choque hipnótico. Mizi chegou atrasada, como de costume. Seus cabelos rosa e azul estavam mais bagunçados que o normal, e ela bocejava com tanta vontade que parecia querer engolir o mundo. Ivan já estava lá, encostado no armário dela, girando um pirulito de cereja entre os dedos com uma destreza irritante. — Você está com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão de glitter — comentou Ivan, sem desviar os olhos do movimento do pirulito. — E você está com a cara de quem precisa de um hobby que não seja me vigiar — rebateu Mizi, abrindo o armário e jogando a mochila lá dentro de qualquer jeito. — Estou com sono, Ivan. Um sono que atravessa a alma. — Imagino o motivo. A escola inteira só fala da "Rainha e sua Princesa de Neve". Mizi soltou um ruído que era metade risada, metade suspiro, e começou a caminhar em direção à sala, sendo seguida por seu fiel e sarcástico escudeiro. Quando o sinal do intervalo tocou, a tensão na cantina era palpável. Pela primeira vez em três anos, os grupos não estavam mais tão segregados. Na mesa central, Hyuna, Luka, Till e Sua já estavam sentados. A presença deles ali, esperando por Mizi e Ivan, era o sinal definitivo de que a hierarquia de giz tinha sido pulverizada. Mizi se aproximou da mesa e se jogou na cadeira ao lado de Sua, apoiando a cabeça na mesa com um estrondo abafado. Ivan sentou-se à frente dela, entre Till e Luka. — Onde está a sua... namorada? — perguntou Hyuna, arqueando uma sobrancelha e tentando conter o riso. — A garota de branco. Achei que vocês estivessem grudadas agora. Mizi levantou a cabeça lentamente. Seus olhos dourados estavam nublados pelo cansaço, mas brilharam com uma faísca de diversão ácida. Ela olhou para o fundo da cantina, onde a garota de cabelos brancos estava sentada com suas amigas. As duas trocaram um olhar rápido. A garota desviou os olhos imediatamente, o rosto ficando vermelho, enquanto Mizi apenas deu um aceno de cabeça desinteressado. — Acabou — disse Mizi, a voz rouca. — Como assim "acabou"? — Till quase engasgou com o suco. — Vocês pareciam um comercial de perfume ontem! Mizi deu de ombros, pegando um pedaço do sanduíche de Ivan sem pedir permissão. — A gente transou — disparou ela, com a naturalidade de quem comenta sobre a previsão do tempo. O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que dava para ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes acima deles. Luka limpou os óculos freneticamente. Hyuna arregalou os olhos. Till ficou boquiaberto, processando a informação com a velocidade de um computador antigo. Sua, que raramente demonstrava surpresa, apenas levantou o olhar do seu livro, observando Mizi com uma curiosidade renovada. Ivan, por outro lado, continuou chupando seu pirulito, impassível. — Eu sabia — murmurou Ivan. — Você tem aquela aura de quem não dormiu porque estava ocupada demais sendo impulsiva. — Pois é — continuou Mizi, ignorando o choque dos outros. — E foi bom, tipo, muito bom. Ela é uma gracinha, sério. Mas aí veio o problema. Ela começou a falar de "nós", de datas, de conhecer os pais... ela queria algo sério, entende? Um compromisso com flores e mensagens de bom dia. — E você não quis? — perguntou Luka, ainda chocado com a franqueza da líder da Mukuro. — Não é que eu seja babaca — explicou Mizi, gesticulando com o sanduíche roubado. — Eu não sou como esses caras que só transam e descartam por esporte. Eu realmente pensei, por um segundo, que poderia ter algo com ela. Ela é linda, é gente boa... mas sla. Faltou aquele estalo. Sabe quando você gosta da música, mas não quer comprar o álbum inteiro? — Você é um desastre, Mizi — riu Hyuna, relaxando na cadeira. — A garota deve estar arrasada. — Eu fui honesta! — Mizi se defendeu, recuperando um pouco da sua energia habitual. — Eu disse que não era o que eu estava procurando agora. Ela chorou um pouco, eu me senti mal, mas é melhor assim do que mentir. Ela se espreguiçou, o movimento fazendo sua camisa social subir um pouco, revelando a pele natural e a postura descontraída de quem não carregava o peso do mundo nas costas, apesar de liderar uma gangue. — Mas quer saber? — Mizi continuou, mudando o tom de voz para algo mais baixo e perigoso. — Acho que o meu erro foi ter olhado para o lado errado do corredor por tanto tempo. Nesse momento, Mizi esticou o braço e o passou por cima dos ombros de Sua, puxando a garota de cabelos pretos para mais perto de si. O gesto foi possessivo, mas carregado de um charme sarcástico que só Mizi possuía. Ivan, que estava no meio de uma provocação silenciosa contra Till, parou o que estava fazendo. Ele olhou para Mizi e viu o olhar que ela estava dando para sua irmã. Era um olhar que Ivan conhecia bem: o olhar de Mizi quando ela decidia que queria um brinquedo novo, mas com uma pitada de seriedade que o deixou em alerta. Mizi olhou fixamente para Ivan, um sorriso de canto brincando em seus lábios, uma expressão que dizia claramente: "Vou comer sua irmã e você não pode fazer nada para impedir". — A Sua... — começou Mizi, inclinando a cabeça para perto do rosto da garota pálida — ... sempre chamou mais a minha atenção, para falar a verdade. Ela tem esse mistério melancólico que me dá vontade de desvendar página por página. Sua não se afastou. Ela permaneceu imóvel sob o braço de Mizi, seus olhos roxos encontrando os dourados da outra. Houve um desafio silencioso ali, uma faísca que não tinha nada a ver com a doçura da garota de branco, mas sim com a fricção entre o fogo e o gelo. — Você é ridícula, Mizi — disse Sua, a voz calma, mas sem o habitual desdém. — Sou? — Mizi soprou a palavra perto do ouvido dela. — Ou você só está com medo de que eu realmente consiga te fazer fechar esse livro e olhar para mim? — Mizi, larga a minha irmã — disse Ivan, embora não houvesse raiva real em sua voz, apenas o cansaço de quem lidava com a impulsividade da melhor amiga há anos. — Por que, Ivan? — Mizi riu, apertando o ombro de Sua. — Você está com ciúmes? Ou está com medo de que eu descubra que a Sua é muito mais divertida do que você quando as luzes se apagam? — Eu vou te matar — murmurou Ivan, voltando a focar em seu pirulito, mas com as orelhas levemente vermelhas. Till, que estava assistindo a tudo com uma mistura de horror e fascinação, finalmente recuperou a voz. — Vocês são todos loucos. Esse grupo é um manicômio. — Bem-vindo à família, Till — disse Hyuna, batendo nas costas dele. — Aqui, a gente não tem segredos, só dramas de proporções épicas. O restante do intervalo passou em uma atmosfera de camaradagem caótica. Mizi não tirou o braço dos ombros de Sua, e Sua, por sua vez, não fez menção de sair. Elas trocavam palavras ocasionais, Mizi sempre provocando e Sua devolvendo com observações secas que faziam Mizi rir alto. Ivan tentava ignorar o flerte descarado da amiga com sua irmã, focando em irritar Till o máximo possível. — Sabe, Till — disse Ivan, inclinando-se para o lado —, se você continuar franzindo a testa desse jeito, vai ficar com rugas antes dos vinte. E aí, como vai manter essa imagem de emo revoltado? — Me deixa em paz, Ivan! — Till exclamou, empurrando o ombro de Ivan, mas sem usar força de verdade. — Por que você não vai encher o saco do Luka? — Porque o Luka é observador demais. Ele percebe coisas que você prefere ignorar. Luka apenas sorriu por trás dos óculos, observando a dança de tensões ao redor da mesa. Ele olhou para Hyuna, que estava rindo de alguma coisa que Mizi disse, e sentiu aquele calor familiar no peito. Ele não precisava de gangues ou de lutas; ter aquele grupo ali, unido por fios invisíveis de afeto e caos, era o suficiente. Quando o sinal para o retorno às aulas tocou, o grupo se levantou. Mizi deu um beijo rápido e estalado na bochecha de Sua antes de soltá-la, fazendo a garota de cabelos pretos piscar, surpresa. — Vejo você na saída, "poetisa" — Mizi piscou para ela. Mizi e Ivan caminharam na frente, em direção à sala de história. — Você não vai mesmo parar até criar um incidente diplomático na minha família, não é? — perguntou Ivan, enquanto subiam as escadas. — Ivan, meu querido — Mizi disse, recuperando sua postura de líder da Mukuro, mas com um brilho malicioso nos olhos —, a vida é curta demais para não perseguir o que a gente quer. E sua irmã... ela é um desafio que eu estou morrendo de vontade de aceitar. — Ela vai te destruir, Mizi. A Sua não é como a garota de branco. Ela morde de volta. Mizi soltou uma gargalhada que ecoou pelo corredor vazio. — É exatamente disso que eu estou falando. Eles entraram na sala e se sentaram no fundo, nos seus lugares habituais. Mizi abriu o caderno, mas em vez de anotar o que o professor dizia, começou a desenhar rosas negras com pontas roxas nas margens da página. Ivan olhou para o lado e viu Till entrando na sala, sentando-se algumas fileiras à frente. Ele sentiu o peso do olhar de Mizi sobre ele. — O que foi? — perguntou Ivan, sem olhar para ela. — Nada — disse Mizi, com um sorriso cúmplice. — Só estava pensando que, se eu vou ter a Sua, você realmente deveria parar de ser um covarde e falar com o Till. A vida é curta, Ivan. E o rock 'n' roll dele não vai se tocar sozinho. Ivan não respondeu. Ele apenas pegou um novo pirulito, o som do plástico sendo rasgado sendo o único ruído entre eles. Mas, no fundo de seus olhos pretos, havia uma determinação que ele raramente mostrava. A Escola Anaktos continuava a mesma, com suas gangues e suas regras de giz, mas para aquele grupo no fundo da sala, o jogo tinha acabado de mudar de nível. E Mizi, com seu taco de beisebol guardado e seu coração impulsivo exposto, estava pronta para liderar a próxima revolução, uma provocação de cada vez. O Peso de uma Palavra e o Sabor do Pudim A Escola Secundária Anaktos tinha uma memória curta para a paz, mas uma memória eterna para o poder. Uma semana havia se passado desde que Mizi declarou guerra silenciosa à apatia de Sua, e a rotina da escola havia se transformado em um espetáculo de persistência. Mizi, a líder cujo nome fazia veteranos tremerem, agora passava a maior parte do tempo orbitando Sua como um satélite rosa e azul, disparando cantadas baratas, comentários sarcásticos e olhares que poderiam derreter o permafrost siberiano. Sua, no entanto, permanecia uma fortaleza de papel e tinta. Ela raramente desviava os olhos de seus livros, respondendo às investidas de Mizi com monossílabos ou silêncios prolongados que teriam desencorajado qualquer pessoa normal. Mas Mizi não era normal. Ela era impulsiva, sarcástica e, acima de tudo, adorava um desafio que pudesse retribuir com a mesma intensidade. Naquela manhã de quinta-feira, o grupo estava reunido no corredor do segundo andar, perto dos armários de metal que ainda exibiam as cicatrizes das lutas passadas. Hyuna e Luka discutiam algo sobre o grêmio estudantil, enquanto Ivan tentava, sem sucesso, roubar um pedaço do chocolate que Till comia escondido. Sua estava encostada na parede, mergulhada em uma edição de capa dura de poesias clássicas, parecendo completamente alheia ao caos ao seu redor. Mizi estava ao lado dela, inclinada de um jeito que invadia perigosamente o espaço pessoal de Sua. — Sabe, Sua, esse livro deve ser incrível, mas eu tenho certeza de que a minha conversa é muito mais estimulante para o cérebro — Mizi comentou, enrolando uma mecha de seu cabelo azulado no dedo. — Ou pelo menos para o coração. Sua nem sequer piscou. — O livro não tenta me vender cantadas de quinta categoria antes das nove da manhã, Mizi. — Quinta categoria? — Mizi fingiu ofensa, levando a mão ao peito. — Eu passei a noite inteira pensando naquela sobre o eclipse e os seus olhos. Foi, no mínimo, de terceira categoria. Ivan soltou uma risada anasalada, ganhando um olhar mortal de Mizi. — Ela tem razão, Mizi. Você está perdendo o jeito. Antes que Mizi pudesse retrucar, o som pesado de botas marchando pelo corredor interrompeu a dinâmica. Três garotos da Mukuro — a gangue de Mizi — aproximaram-se com urgência. Eles pareciam tensos, as mãos inquietas e os rostos marcados pela ansiedade de quem espera uma ordem de execução. — Chefe — disse o mais alto deles, um veterano chamado Kael. — Temos um problema no Pátio Norte. Os Corvos de Prata e os Lâminas de Obsidiana se juntaram com aquela gangue nova do primeiro ano, a Sombra Rubra. Eles estão cercando o nosso território. Mizi mudou instantaneamente. A postura relaxada e brincalhona desapareceu, substituída pela rigidez de uma líder de gangue. Seus olhos dourados ficaram frios, e a aura de perigo que ela geralmente mantinha sob controle transbordou. — Três gangues? — Mizi perguntou, a voz agora baixa e cortante. — Eles perderam o juízo ou o instinto de sobrevivência? — Eles sabem que somos só nós três aqui agora — explicou outro membro da gangue. — Se não formos com você, eles vão nos esmagar. São quase trinta caras. Precisamos que você vá e... bem, que você faça o que faz de melhor. Exploda tudo. Mizi apertou os punhos, um sorriso cruel começando a surgir em seus lábios. A adrenalina já corria em suas veias. — Ótimo. Eu estava mesmo precisando desestressar. Vou quebrar cada dente que encontrar no caminho e depois desmontar essas três gangues peça por peça. Vamos logo antes que eu perca a vontade de ser "diplomática". Ela deu um passo à frente, pronta para liderar a investida, quando uma voz calma, mas carregada de uma autoridade absoluta, cortou o ar. — Você não vai a lugar nenhum, Mizi. O corredor pareceu congelar. Os membros da Mukuro olharam para o lado, confusos. Mizi parou no meio do passo e virou a cabeça lentamente. Sua não tinha tirado os olhos do livro. Ela nem sequer tinha mudado de posição. — O que você disse? — perguntou Mizi, o tom de voz oscilando entre a surpresa e o divertimento. — Eu disse que você não vai — Sua repetiu, virando uma página com uma calma exasperante. — Você ainda tem hematomas da semana passada que nem cicatrizaram direito. Se você for lá enfrentar trinta pessoas, vai voltar para o hospital. E eu não tenho paciência para visitar doentes hoje. Fique aqui. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os alunos que passavam pelo corredor pararam para observar. Os membros da gangue de Mizi trocaram olhares de puro choque. "Quem essa garota pensa que é?", sussurrou alguém ao fundo. "Ela vai morrer. Ninguém dá ordens para a Mizi." Kael, o veterano da Mukuro, deu um passo à frente, indignado. — Ei, garota, você sabe com quem está falando? A Mizi é a nossa líder. Ela manda na porra toda. Se ela diz que vai lutar, ela vai lutar. Sai da frente com esse livro idiota. Mizi olhou para os seus homens, depois para o resto do grupo — Hyuna parecia impressionada, Luka limpava os óculos em choque e Till estava com a boca aberta. Ivan apenas observava, um sorriso de canto revelando que ele sabia exatamente o que estava prestes a acontecer. Mizi voltou a olhar para Sua. A garota pálida finalmente fechou o livro, mas manteve o dedo entre as páginas para não perder a marcação. Ela olhou diretamente nos olhos dourados de Mizi. Não havia medo ali. Havia apenas uma vontade inabalável. — Mizi — Sua disse, a voz baixa, mas firme como aço —, eu não vou repetir. Senta. Agora. A escola inteira esperava pela explosão. Esperavam que Mizi risse na cara dela, ou que a empurrasse contra o armário, ou que simplesmente a ignorasse e fosse para a briga. Afinal, Mizi era a Rainha da Mukuro. Ela não recebia ordens. Ela não andava na coleira de ninguém. Mizi soltou um suspiro longo, os ombros relaxando visivelmente. Para o horror absoluto de seus subordinados, ela deu um passo atrás e se encostou no armário, cruzando os braços com um biquinho impaciente nos lábios. — Droga, Sua... você é um estraga-prazeres — Mizi resmungou, a voz agora desprovida de qualquer agressividade. Ela olhou para os três garotos da sua gangue, que pareciam ter visto um fantasma. — Vocês ouviram a moça — disse Mizi, fazendo um gesto de dispensa. — Eu não vou. Vão vocês. — Mas Chefe! — Kael protestou, a voz falhando. — São trinta contra três! A gente vai ser moído! — Então corram rápido — Mizi deu de ombros. — Se vocês apanharem, eu prometo que vou atrás de cada um de vocês no hospital e bato de novo por terem sido fracos. E depois, amanhã, eu desmonto aquelas três gangues sozinha só por terem me feito perder meu tempo. Agora sumam da minha frente. Os garotos hesitaram, olharam para Sua — que já tinha voltado a ler como se nada tivesse acontecido — e depois para Mizi. Percebendo que a decisão era final, eles saíram apressados, resmungando sobre como a "Rainha" tinha sido domesticada por uma leitora de poesias. Till quebrou o silêncio do grupo com um grito sussurrado. — Caralho, Mizi! Você... você acabou de obedecer? Você está na coleira? A líder da maior gangue da Anaktos acabou de levar um esporro de uma menina que pesa 40 quilos e aceitou? — Ela tem argumentos convincentes — Mizi disse, lançando um olhar de soslaio para Sua. — E eu odeio quando ela fica com aquela cara de "eu te avisei". Ivan soltou uma gargalhada alta, batendo no ombro de Till. — Eu te disse, Till. As pessoas veem o que querem ver. A Mizi pode ser um demônio, mas até demônios sabem quando encontraram alguém mais teimoso que eles. — Não é teimosia — Sua interveio, sem levantar os olhos do livro. — É senso comum. Algo que falta em abundância nesta escola. O intervalo chegou com a mesma energia caótica. O refeitório estava lotado, e o boato sobre o "incidente do corredor" já havia se espalhado. Mizi e Sua caminhavam na frente do grupo, uma imagem de contrastes: Mizi brincando com a gravata e Sua com o livro debaixo do braço. Eles se sentaram na mesa de sempre. Mizi sentou-se ao lado de Sua, como vinha fazendo nos últimos dias. O grupo conversava animadamente sobre o que teria acontecido no Pátio Norte — aparentemente, os três garotos da Mukuro conseguiram escapar ilesos ao mencionarem que Mizi estava "ocupada" e que voltaria para terminar o serviço no dia seguinte, o que foi o suficiente para dispersar a multidão. — Eu ainda não acredito que eles acreditaram nisso — ria Hyuna. — O nome da Mizi é melhor que um escudo de tropa de choque. — É o medo, Hyuna — explicou Luka. — O medo é uma ferramenta poderosa. Mas a admiração é mais perigosa. Enquanto Till e Ivan discutiam sobre quem teria que ir comprar os pudins de sobremesa, Mizi estava estranhamente quieta. Ela participava da conversa com comentários sarcásticos ocasionais, mas sua atenção estava dividida. Sob a mesa, longe dos olhos curiosos de Luka ou da percepção aguçada de Hyuna, Mizi moveu a mão. Com uma lentidão calculada, ela escorregou a palma da mão sobre a coxa de Sua, por baixo da saia do uniforme escolar. Sua não se moveu. Ela continuou ouvindo a explicação de Luka sobre um novo jogo de tabuleiro, com a expressão neutra e impassível. Ela não empurrou a mão de Mizi, não reclamou e nem sequer mudou o ritmo da respiração. Mizi sentiu a textura do tecido e o calor da pele de Sua. Ela subiu a mão alguns centímetros, os dedos pressionando levemente a musculatura firme da coxa da outra. Era um gesto de posse, uma provocação silenciosa que contrastava com a imagem de "garota obediente" que ela passara no corredor. Mizi inclinou-se um pouco mais para perto do grupo, entrando na discussão sobre os pudins. — Eu acho que o Ivan deve ir — disse Mizi, a voz firme, enquanto seus dedos traçavam círculos lentos na pele de Sua sob a mesa. — Ele é o que tem as pernas mais compridas e a cara mais de pau para furar a fila. Sua finalmente reagiu, mas não da forma que Mizi esperava. Ela não se afastou; em vez disso, Sua moveu a própria mão para baixo da mesa e envolveu o pulso de Mizi. Ela não apertou para afastar, mas manteve a mão de Mizi exatamente onde estava, pressionando-a contra sua própria coxa. Mizi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para o lado, encontrando o perfil de Sua. A garota de cabelos pretos ainda parecia concentrada na conversa, mas havia um brilho diferente em seus olhos roxos, uma satisfação silenciosa por ter o controle da situação, mesmo ali, no meio de todos. — Concordo com a Mizi — disse Sua, a voz soando perfeitamente normal. — O Ivan deve ir. E ele deve trazer dois pudins de chocolate. Um para mim e outro para a Mizi. Ela gastou muita energia hoje... tentando ser mandona. Ivan olhou para as duas, desconfiado. Ele percebeu a proximidade excessiva, o jeito como Mizi estava levemente inclinada e a rigidez no ombro de sua irmã. Ele suspirou, pegando o dinheiro da mesa. — Tudo bem, tudo bem. Eu vou. Mas se eu for pego pelo inspetor, eu vou dizer que foi ordem da Rainha e da... seja lá o que a Sua for agora. General? — Ditadora parece mais apropriado — resmungou Mizi, mas não conseguiu esconder o sorriso bobo que ameaçava surgir. Enquanto Ivan e Till se afastavam em direção à fila, Mizi aproveitou a distração de Hyuna e Luka para sussurrar no ouvido de Sua. — Então... eu ainda estou na coleira, poetisa? Sua inclinou a cabeça, o cabelo preto roçando no rosto de Mizi. — Você está exatamente onde eu quero que você esteja, Mizi. Agora, tire a mão daí antes que o pudim chegue. Eu não gosto de misturar sobremesa com... distrações. Mizi riu, uma risada genuína e vibrante, e finalmente retirou a mão, sentindo o formigamento da pele onde Sua a tocara. Ela olhou para o grupo, para a escola barulhenta e para a vida caótica que liderava. Pela primeira vez em muito tempo, Mizi não sentia a necessidade de explodir nada. Ela tinha descoberto que havia algo muito mais viciante do que a adrenalina de uma briga de gangues: o desafio silencioso de uma garota que não precisava de um taco de beisebol para fazê-la cair de joelhos. Quando os pudins chegaram, Mizi comeu o seu com um entusiasmo quase infantil, trocando olhares significativos com Sua durante todo o tempo. A hierarquia da Anaktos podia ter mudado, mas para Mizi, o novo regime era muito mais interessante. Afinal, ser a Rainha era bom, mas ser a Rainha de alguém era uma conquista que nenhum território poderia superar. O Rugido da Rosa e a Fragilidade do Vidro A Escola Secundária Anaktos tinha um ecossistema peculiar. Era um lugar onde o silêncio não significava paz, mas sim que algo grande estava prestes a explodir. Mizi, sentada em cima de uma mesa no corredor do terceiro ano, balançava as pernas ritmicamente enquanto mastigava um chiclete de morango. Ela estava cercada por Kael e mais dois membros da Mukuro, rindo de alguma piada interna sobre como um novato da gangue rival tinha tropeçado nos próprios cadarços durante uma fuga. — Eu juro por Deus, Kael — dizia Mizi, ajeitando a gravata frouxa com um sorriso sarcástico —, se aquele moleque correr mais devagar, eu vou ter que dar um curso de atletismo pra concorrência. Tá ficando sem graça ganhar deles. — A senhora é impiedosa, chefe — Kael riu, encostado na parede. — Eles tremem só de ver a ponta azul do seu cabelo. Alguns metros adiante, perto dos armários, o clima era mais contido. Sua estava encostada no metal frio, segurando um livro de poemas, enquanto Hyuna e Luka discutiam sobre o cronograma das provas finais. Ivan e Till, para variar, estavam a alguns passos de distância, trocando olhares que poderiam incendiar o corredor de puro ódio — ou de algo que nenhum dos dois queria admitir. — Você está no meu caminho, Ivan — rosnou Till, ajustando a alça da mochila. — O corredor é público, Till. Mas se você quiser passar por cima de mim, sinta-se à vontade. Eu sei que você gosta de contato físico — Ivan provocou, exibindo um sorriso irritante enquanto cruzava os braços. — Vai se foder! — Till desviou o caminho, bufando. Tudo parecia seguir a rotina caótica de sempre, até que o som de botas pesadas e risadas guturais ecoou pelo corredor. Era a gangue dos "Cães de Aluguel". Eles eram conhecidos por serem o lixo da Anaktos — um grupo de caras mais velhos, brutais, que não respeitavam as regras tácitas das outras gangues. Eles não lutavam por território ou honra; eles lutavam para intimidar os mais fracos, especialmente as meninas que não tinham a proteção de uma facção. O líder deles, um sujeito corpulento chamado Brutus, parou o grupo exatamente na frente de onde Sua estava. Mizi, que até então estava rindo com Kael, parou de balançar as pernas. Seus olhos dourados se estreitaram instantaneamente, focando no grupo que cercava sua "poetisa". — Olha só o que temos aqui — disse Brutus, com uma voz que parecia cascalho sendo triturado. Ele ignorou Hyuna e Luka, fixando o olhar em Sua. — O brinquedinho novo do terceiro ano. A intelectualzinha pálida. Sua nem sequer levantou os olhos do livro, mas seus nós dos dedos ficaram brancos ao redor da capa dura. — Você tem um rosto bem delicado, boneca — continuou um dos seguidores de Brutus, um cara magricela com um sorriso nojento. — Imagina como seria ver esse rosto pedindo por favor quando a gente levar você pro depósito lá atrás. — Ela tem cara de que aguenta todos nós de uma vez, não tem? — outro comentou, soltando uma risada asquerosa. — A gente podia fazer um revezamento. Aposto que depois da terceira rodada você solta esse livro e aprende a gritar de verdade. Hyuna deu um passo à frente, os olhos azuis faiscando. — Sumam daqui agora, seus merdas, antes que eu... — Fica na sua, morena — Brutus a cortou, empurrando-a levemente. — A gente quer a pálida. Ela parece que precisa de uma lição sobre como o mundo real funciona fora dos livros. O que aconteceu a seguir foi tão rápido que a maioria dos alunos só viu um borrão rosa e azul cruzando o corredor. Mizi não gritou. Ela não deu aviso. Ela simplesmente saltou da mesa com a agilidade de um predador e, antes que Brutus pudesse terminar sua próxima frase obscena, o punho de Mizi conectou-se com a mandíbula dele. O som foi como um tiro. O impacto foi tão brutal que Brutus foi erguido do chão por um milésimo de segundo antes de desabar como um saco de cimento. Um dente voou pelo ar, batendo no armário de metal com um tilintar seco. Ele estava nocauteado antes mesmo de atingir o piso. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mizi estava parada sobre o corpo do líder caído, a respiração pesada, os nós dos dedos já sangrando. O sarcasmo brincalhão tinha desaparecido completamente. O que restava era a líder da Mukuro, o demônio que mantinha a ordem na Anaktos. — M-Mizi? — o magricela gaguejou, dando um passo atrás. Mizi não respondeu com palavras. Ela avançou. Ela agarrou o magricela pelo colarinho e desferiu uma cabeçada que quebrou o nariz dele instantaneamente. Enquanto ele caía, ela girou e acertou um chute circular no peito do terceiro cara, jogando-o contra uma lixeira de metal. — Kael! — Mizi rugiu, a voz carregada de uma fúria selvagem. — O que vocês estão esperando? Ajudem a limpar esse lixo! Kael e os outros dois membros da Mukuro, que estavam paralisados pelo choque da velocidade da chefe, saltaram na briga imediatamente. Ivan, vendo a cena, não hesitou. Ele esqueceu a provocação com Till e avançou no grupo dos Cães de Aluguel, distribuindo socos com uma precisão técnica que contrastava com a selvageria de Mizi. Até Till, movido pelo ódio puro que sentia por aquele tipo de cara, entrou na confusão, acertando um chute nas costelas de um dos agressores que tentava se levantar. Mizi era um furacão. Ela pegou o taco de beisebol que Kael carregava e começou a desferir golpes nas pernas de qualquer um que usasse a jaqueta dos Cães de Aluguel. — Vocês... — Pá! O taco atingiu o joelho de um garoto. — Acham... — Pá! Outro golpe no ombro. — Que podem... — Pá! — Falar assim na minha presença?! Os membros da gangue que ainda estavam conscientes começaram a fugir desesperadamente, tropeçando uns nos outros para sair do corredor. Mizi ainda tentou correr atrás de um deles, mas Kael a segurou pelo braço. — Chefe, chega! Eles já foram! Eles estão fugindo! Mizi parou, o peito subindo e descendo violentamente. Ela jogou o taco no chão, o som de madeira batendo no linóleo ecoando pelo corredor agora vazio de agressores. Ela olhou ao redor, os olhos dourados ainda brilhando com uma intensidade perigosa. — Eu hein! — Mizi exclamou, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de sangue. — Que bando de desgraçado! Onde já se viu? Falar essas nojeiras no meio do corredor? Se querem ser escrotos, que façam isso longe da minha vista! Que falta de classe, que coisa ridícula! Ela começou a reclamar em voz alta, gesticulando dramaticamente, voltando ao seu tom de indignação quase cômica. — E vocês viram o dente daquele cara? — Ela apontou para o chão. — Voou longe! Se eu soubesse que a cara dele era tão mole, eu nem tinha usado tanta força. Agora minha mão tá doendo, olha isso, Kael! Tá inchando! Ela se virou para o grupo. Ivan estava limpando o sangue do canto da boca, Till estava ofegante e Hyuna tentava acalmar Luka, que parecia levemente traumatizado com a violência súbita. Mizi caminhou até Sua. A garota de cabelos pretos ainda estava encostada no armário. Ela não tinha se movido um milímetro durante a briga. O livro de poemas ainda estava em suas mãos, mas seus olhos roxos estavam fixos em Mizi. Mizi parou na frente dela. O fogo da briga ainda estava ali, mas suavizado por algo mais profundo. Ela queria abraçar Sua. Queria puxá-la para perto e garantir que aqueles comentários nojentos não tinham penetrado na mente da garota. Mas elas não tinham "nada". Não havia um título, não havia um acordo de intimidade física além das provocações de Mizi. Mizi hesitou. Ela estendeu a mão, mas parou no meio do caminho, apenas ajeitando uma mecha do cabelo de Sua que tinha caído sobre o rosto.— Você está bem, poetisa? — perguntou Mizi, a voz subitamente suave, ignorando a dor nos nós dos dedos. Sua fechou o livro. Ela olhou para Mizi, depois para o rastro de destruição no corredor, e finalmente voltou para os olhos dourados da líder da gangue. — Você é uma idiota, Mizi — disse Sua, com sua habitual voz monótona. — Podia ter se machucado sério por causa de palavras vazias. — Palavras vazias o caramba! — Mizi voltou a reclamar, cruzando os braços. — Eles falaram coisas horríveis! Eu não ia deixar aquele monte de estrume continuar latindo. E olha só, eu nem me machuquei tanto. Só a minha mão que... ai, porra, tá doendo mesmo. Ivan se aproximou, olhando para a irmã e depois para Mizi. — Você tem um problema sério de controle de raiva, Mizi. Mas... obrigado. Mizi olhou para Ivan e deu um sorriso de lado. — Não agradece não, seu feio. Eu fiz isso porque o barulho deles tava me dando dor de cabeça. E porque ninguém mexe com o que é... — Ela parou, olhando para Sua. — Com o que é da minha escola. Till limpou a poeira da jaqueta, evitando olhar para Ivan. — Aqueles caras não vão voltar tão cedo — murmurou Till. — Você quase matou o líder deles. — Se voltarem, eu arranco o resto dos dentes — Mizi declarou, recuperando seu taco de beisebol. — Kael, limpa essa bagunça. Não quero ver sangue de gente imunda no meu corredor preferido. Os membros da Mukuro começaram a arrastar os corpos inconscientes para longe, enquanto os outros alunos voltavam lentamente às suas atividades, embora o clima de medo e respeito tivesse dobrado de intensidade. Mizi voltou a se encostar no armário ao lado de Sua. Ela ainda estava elétrica, a adrenalina demorando a baixar. — Sabe, Sua — Mizi disse, inclinando a cabeça para perto da outra —, eu acho que mereço um prêmio por ter salvado a sua honra literária hoje. Sua abriu o livro novamente, mas um pequeno, quase imperceptível sorriso surgiu no canto de seus lábios. — O seu prêmio é que eu não vou contar para o diretor que você quebrou o patrimônio escolar usando a cara de um aluno. — Ah, você é muito dura comigo! — Mizi reclamou, fazendo um biquinho. — Eu salvo a vida dela e recebo o quê? Sarcasmo? Eu hein, esse mundo tá perdido. Ivan revirou os olhos e começou a caminhar, fazendo um sinal para que o grupo o seguisse. — Vamos, o sinal vai bater. E Mizi, vai lavar essa mão. Você está sujando o chão. — Tá bom, mamãe! — Mizi gritou de volta, mas não se moveu. Ela permaneceu ali por mais um segundo, observando Sua ler. O caos tinha passado, a gangue dos Cães de Aluguel tinha sido desmantelada com um único soco, e a hierarquia da Anaktos tinha sido reafirmada. Mas para Mizi, a única coisa que importava era que, no meio de toda aquela violência, Sua ainda estava ali, segura sob a sombra de suas pontas azuis. — Ei, Sua — Mizi sussurrou, aproximando-se ainda mais. — O que foi agora? — Aquele cara... ele tava errado. — Sobre o quê? — Sua levantou os olhos. — Você não é um brinquedo — Mizi disse, a seriedade voltando por um breve momento. — Você é a coisa mais real dessa escola de merda. Sua sustentou o olhar por um longo tempo. O silêncio entre elas não era mais de indiferença, mas de um entendimento mútuo que não precisava de rótulos. — Eu sei, Mizi — disse Sua, fechando o livro com um estalo suave. — Agora vamos. Você tem uma mão para cuidar. Mizi sorriu, o brilho brincalhão voltando aos seus olhos. Ela seguiu Sua pelo corredor, reclamando alto sobre como o sabonete da escola ardia nos cortes, enquanto Kael e os outros membros da Mukuro observavam, sabendo que, a partir daquele dia, mexer com a "poetisa" era o mesmo que assinar uma sentença de morte escrita em rosa e azul. O Delírio de Morango e a Dança no Banheiro Feminino A Escola Secundária Anaktos não era o lugar mais calmo do mundo às oito da manhã, mas o que aconteceu naquela sexta-feira superou qualquer expectativa de caos. O sol mal tinha batido nos portões de ferro quando Mizi atravessou a entrada principal. Ela não estava apenas caminhando; ela estava flutuando em uma órbita própria, tropeçando nos próprios pés com uma elegância desastrosa. Seus cabelos rosa e azul estavam desgrenhados, a gravata preta pendia como um cadáver de seda em volta do pescoço e o cheiro de destilado barato emanava dela como um perfume de má qualidade. Mizi estava bêbada. Não era aquele tipo de embriaguez alegre e contida; era o tipo de bebedeira que transformava seu sarcasmo em uma arma química e sua impulsividade em um furacão sem rumo. No corredor principal, um grupo de garotos da gangue "Vipera", ainda ressentidos pela derrota humilhante da semana anterior, viu a oportunidade perfeita. O líder deles, um sujeito com cara de rato chamado Leo, sinalizou para os outros. — Olha só — sibilou Leo —, a rainha está sem coroa e sem equilíbrio. Vamos dar as boas-vindas que ela merece. Eles se fecharam em volta dela, bloqueando o caminho para os armários. Mizi parou, balançando levemente, um sorriso torto e vidrado surgindo em seus lábios. Ela olhou para Leo como se ele fosse uma piada mal contada. — Opa... — Mizi soltou um risinho agudo, a voz arrastada e carregada de um sarcasmo que faria um santo perder a paciência. — O ratinho saiu da toca... Que fofo. Leo avançou com um soco direto, aproveitando que ela parecia mal conseguir ficar de pé. No entanto, o instinto de luta de Mizi era algo visceral, algo que nem o álcool conseguia apagar totalmente. No último milésimo de segundo, ela se abaixou bruscamente, quase caindo sentada no chão do corredor, rindo de forma maníaca. — Errou! — Ela exclamou, olhando para cima enquanto ainda estava agachada. Antes que Leo pudesse reagir, Mizi disparou para cima como uma mola, desferindo um soco de baixo para cima que pegou em cheio no queixo do garoto. O som foi seco, e Leo cambaleou para trás, caindo por cima de uma lixeira. Mizi nem esperou os outros reagirem; ela apenas saiu saltitando, literalmente pulando pelo corredor enquanto cantarolava uma melodia sem nexo. — Tchauzinho, ratinhos! — Ela gritou por cima do ombro, sem olhar para trás. Lá na frente, perto da escadaria, o grupo de sempre estava reunido. Ivan, Till, Hyuna e Luka observavam a cena com expressões que variavam entre o horror e o puro entretenimento. Ao lado deles, Sua estava encostada na parede, os braços cruzados e uma expressão tão fria que poderia congelar o inferno. Mizi, ao avistar Sua, parou de pular instantaneamente. Seus olhos dourados brilharam, mas o brilho foi rapidamente substituído por uma sombra de insegurança bêbada. Ela se aproximou de Sua com a cautela de um filhote que sabe que fez merda. — Sua... — Mizi murmurou, tentando manter o equilíbrio. — Você tá... você tá com aquela cara. A cara de "Mizi, você é uma idiota". Sua não disse uma palavra. Ela apenas olhou para Mizi, de cima a baixo, com um desprezo silencioso que cortava mais do que qualquer faca. O silêncio durou uma eternidade para Mizi, que sentiu o peito apertar. Na sua lógica distorcida pelo álcool, aquele olhar era o fim do mundo. — Ai, não... não olha assim pra mim — Mizi choramingou, os olhos começando a lacrimejar de forma dramática. — Eu só... eu só queria me divertir um pouco. Por que você é tão brava? Por que você não gosta de mim? — Mizi, você está cheirando a lixo e mal consegue falar — disse Sua, a voz gélida e monótona. — Saia da minha frente antes que eu mesma te leve para a diretoria. Mizi recuou, como se tivesse levado um tapa físico. Seu rosto se transformou em uma máscara de mágoa profunda. Ela olhou para Ivan, que apenas deu de ombros, e depois para Till, que estava ocupado demais tentando não rir. — Tá bom! — Mizi gritou, a voz subindo de tom. — Se você não me quer, tem quem queira! Eu não preciso de você, Sua! Eu sou a líder da Mukuro, eu sou linda pra caralho e eu posso ter quem eu quiser! Ela girou nos calcanhares, quase caindo no processo, e varreu o corredor com o olhar. Foi então que ela viu a "Garota Popular", a loira platínica de olhos vermelhos que ela tinha ajudado na semana anterior. A garota estava saindo da biblioteca, parecendo uma visão angelical no meio do caos matinal. Mizi marchou até ela. — Ei, loirinha! — Mizi exclamou, chegando perto demais e invadindo o espaço pessoal da garota. — Lembra de mim? A garota popular, cujo nome era Elena, corou instantaneamente, mas sorriu. — Mizi? Você está... bem? — Eu estou ótima! — Mizi declarou, agarrando a mão de Elena com uma força desnecessária. — Eu estou maravilhosa! E você é a coisa mais bonita desse lugar. Vamos sair daqui. Sem dar tempo para Elena responder, Mizi começou a puxá-la pelo corredor. A escola inteira parou para assistir. Era uma cena surreal: a líder bêbada da gangue mais perigosa da escola, arrastando a garota mais "pura" e popular pelos corredores, indo em direção a uma única direção óbvia. O banheiro feminino. Ivan arregalou os olhos. Till soltou um "caralho" audível. Hyuna cobriu a boca com as mãos. — Ela não vai fazer o que eu acho que ela vai fazer... — sussurrou Luka, ajustando os óculos em choque. Mizi chutou a porta do banheiro feminino com força, entrando com Elena e trancando a porta por dentro com um estalo sonoro que ecoou pelo corredor agora silencioso. O silêncio que se seguiu no corredor da Anaktos era absoluto. Ninguém se mexia. Ninguém falava. Era como se o tempo tivesse parado. Todos os olhos estavam fixos na porta de madeira pintada de bege. Lá dentro, o barulho começou. Não era um barulho de briga. Eram risadas abafadas, o som de água correndo e, logo em seguida, o som inconfundível de corpos batendo contra os boxes de metal. Gemidos baixos e respirações ofegantes começaram a vazar pelas frestas da porta. No corredor, a multidão de alunos começou a trocar olhares frenéticos. — Sexo... — alguém sussurrou ao fundo. — Elas estão transando? Agora? No meio da manhã? — outro comentou, incrédulo. Ivan olhou para Sua. A garota de cabelos pretos permanecia na mesma posição, mas seus nós dos dedos estavam tão brancos que pareciam prestes a rasgar a pele. Sua mandíbula estava travada, e um brilho de fúria contida emanava dela. — Sua... — Ivan começou, mas ela o cortou com um olhar. — Eu não me importo — mentiu Sua, a voz saindo mais afiada do que o normal. — Ela pode fazer o que quiser com quem quiser. Dentro do banheiro, a atmosfera era de um delírio febril. Mizi tinha Elena prensada contra a pia de mármore. O álcool tinha removido qualquer filtro, e o desejo de Mizi — misturado com a necessidade de ferir o ego de Sua — estava no comando. — Você é tão macia... — Mizi sussurrou contra o pescoço de Elena, suas mãos explorando o corpo da garota com uma urgência selvagem. — E você não fica me olhando como se eu fosse um erro. Elena estava perdida. Ela sempre teve uma queda por Mizi, pela sua força e pelo seu jeito rebelde. Ser o objeto de atenção da líder da Mukuro, mesmo que em um estado deplorável, era algo que ela não conseguia recusar. Ela envolveu o pescoço de Mizi com os braços, puxando-a para um beijo profundo que tinha gosto de vodca e desespero. Mizi a ergueu, sentando-a na pia. O som dos sapatos de Elena batendo contra a porcelana ecoou. Mizi não parava. Suas mãos subiram pela saia de Elena, e os gemidos da garota popular aumentaram de volume, atravessando a porta e atingindo os ouvidos de todos os alunos que ainda permaneciam no corredor, paralisados pela audácia da cena. — Caralho... a Mizi é louca — Till comentou, passando a mão pelo cabelo cinza, visivelmente desconfortável e impressionado ao mesmo tempo. — Ela não é louca — disse Hyuna, observando a porta com uma expressão triste. — Ela está machucada. E quando a Mizi se machuca, ela quebra tudo ao redor dela. Dez minutos se passaram. Quinze. O sinal para a primeira aula tocou, mas ninguém se moveu. Nem mesmo os professores, que observavam de longe, ousavam intervir na área dominada pela Mukuro e pelo rastro de caos de sua líder. Finalmente, o som da tranca se abrindo ecoou. A porta do banheiro feminino se abriu lentamente. Mizi saiu primeiro. Ela parecia um pouco mais sóbria, ou talvez apenas exausta. Seu cabelo estava ainda mais bagunçado, e havia marcas de batom no seu pescoço e na sua camisa social desalinhada. Ela não olhou para ninguém. Atrás dela, Elena saiu, com o rosto vermelho e as roupas visivelmente amassadas, mantendo a cabeça baixa enquanto desaparecia rapidamente pelo corredor oposto. Mizi caminhou até o centro do corredor, onde seu grupo ainda estava parado. Ela parou na frente de Sua. O silêncio era tão denso que poderia ser cortado com uma tesoura. Mizi olhou para Sua. Não havia mais lágrimas, apenas um vazio desafiador. Ela limpou o canto da boca com as costas da mão e deu um sorriso de lado, um sorriso que não chegava aos olhos dourados. — Satisfeita, poetisa? — perguntou Mizi, a voz agora rouca e baixa. — Eu não cheiro mais tanto a lixo, não é? O perfume da Elena é bem forte. Sua não respondeu. Em vez disso, ela fez algo que ninguém esperava. Ela deu um passo à frente, reduziu a distância entre elas e, com uma força surpreendente, agarrou o colarinho de Mizi, puxando-a para baixo até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — Você acha que isso me atinge, Mizi? — Sua sibilou, os olhos roxos brilhando com uma intensidade assustadora. — Você acha que se jogar nos braços de qualquer uma para provar um ponto muda o fato de que você é uma covarde que não consegue lidar com um "não"? Mizi tentou rir, mas o som morreu na sua garganta. — Eu não sou covarde — Mizi murmurou, a bravata começando a desmoronar. — É sim — Sua afirmou, soltando o colarinho dela com um empurrão. — Você é patética. E se você acha que transar em um banheiro público te faz a rainha da escola, você está mais bêbada do que eu pensava. Sua virou as costas e começou a caminhar em direção à sala de aula, sem olhar para trás. Ivan, Till, Hyuna e Luka ficaram ali, observando Mizi. Ela parecia subitamente pequena no meio do corredor vasto. A adrenalina tinha ido embora, deixando apenas a ressaca moral e o peso das palavras de Sua. — Mizi... — Ivan tentou se aproximar, mas ela levantou a mão, pedindo silêncio. — Não — disse Mizi, a voz trêmula. — Eu... eu vou pra enfermaria. Ou pra casa. Sei lá. Ela começou a caminhar na direção oposta, tropeçando levemente. O show tinha acabado. A escola Anaktos tinha testemunhado um dos momentos mais escandalosos de sua história, mas para Mizi, a vitória tinha um gosto amargo de cinzas. Enquanto ela se afastava, Ivan olhou para Till. — Isso vai dar uma merda colossal — comentou Ivan, pegando um pirulito do bolso para tentar acalmar os nervos. — Já deu merda — respondeu Till, olhando para o lugar onde Sua tinha desaparecido. — A Mizi acabou de incendiar a única ponte que ela realmente queria atravessar. Naquela manhã, as aulas foram apenas um ruído de fundo. O nome de Mizi e o "incidente do banheiro" eram os únicos tópicos de conversa. A Mukuro estava em silêncio, seus membros confusos pela atitude da líder. E no fundo da sala de literatura, Sua permanecia com o livro aberto na mesma página há uma hora, seus olhos fixos em um poema sobre ruínas e corações de vidro, enquanto, pela primeira vez na vida, ela sentia uma vontade avassaladora de quebrar algo. A Anaktos nunca mais seria a mesma depois daquela sexta-feira. A rainha tinha caído, não por um soco ou por uma gangue rival, mas pelo peso de seus próprios delírios e pela frieza de uma garota que ela não conseguia conquistar com violência ou com ciúmes. O jogo tinha mudado, e as feridas abertas no banheiro feminino levariam muito tempo para cicatrizar. Você vai continuar essa fanficde onde parou . Mais n quero mizi e sua reconciliados ainda . Vai fazer na segunda da semana seguinte.