Rintama high 2
O Retorno da Fênix de Algodão-Doce e as Cinzas do Quarto Ano
A rotina da Escola Secundária Anaktos no quarto ano era um ciclo vicioso de monotonia e ressentimento. Dois meses haviam se passado desde o início desse prolongamento forçado do ensino médio, e a sensação geral era a de que o tempo havia congelado. Faltavam dez meses para o fim definitivo — uma eternidade para quem já se sentia um fantasma vagando por corredores de concreto.
Sua sentava-se na primeira fileira, como sempre. Seu cabelo preto, antes curto e prático, agora caía liso até um pouco abaixo dos ombros, emoldurando seu rosto pálido com uma suavidade que contrastava com a amargura crescente em seus olhos roxos. A franja continuava reta, mas o brilho melancólico em seu olhar parecia ter se aprofundado, transformando-a em uma figura de uma beleza trágica e inacessível.
Atrás dela, o ecossistema do grupo havia mudado sutilmente. Hyuna parecia ter florescido em meio ao caos; estava mais bonita, com uma aura de confiança que irradiava de suas roupas descoladas. Ela segurava a mão de Luka por baixo da mesa, um gesto que se tornara comum. Luka, por sua vez, parecia ter mergulhado ainda mais nos livros, os óculos sempre limpos e a expressão de quem calculava cada segundo restante de aula.
Ivan e Till continuavam no fundo. Ivan parecia mais maduro, a mandíbula mais marcada, mas ainda mantinha aquele sorriso bobo e enigmático que irritava a todos. Till estava no auge de sua rebeldia; o cabelo cinza permanentemente bagunçado e a jaqueta da Gnash cheia de novos rasgos propositais.
Era o segundo horário de história. O som do giz batendo no quadro era o único ruído, até que a porta da sala se abriu. A diretora chamou o professor para o corredor.
— O que será agora? — sussurrou Hyuna, inclinando-se para trás. — Mais um comunicado sobre "nivelamento técnico"?
— Ou talvez alguém tenha finalmente colocado fogo no ginásio — resmungou Till, batucando na mesa.
Sua não disse nada. Ela apenas olhava para o livro, sentindo aquele vazio familiar no estômago. Fazia nove meses que a vida tinha perdido a cor. Nove meses desde que o furacão rosa havia sido varrido da Anaktos sem deixar rastro.
O professor retornou à sala. Sua expressão era uma mistura de surpresa e cautela. Ele limpou a garganta, atraindo a atenção dos alunos que, até então, ignoravam sua existência.
— Turma, prestem atenção. Temos uma aluna nova integrando o quarto ano a partir de hoje. Por favor, seja bem-vinda e apresente-se.
A porta rangeu.
O tempo não apenas parou; ele implodiu.
Mizi entrou na sala.
Mas não era a Mizi que eles lembravam. A garota que atravessou o batente parecia ter saído de um sonho febril ou de uma revista de moda alternativa. Ela estava mais alta, a postura ereta exalando uma autoconfiança que beirava a insolência. O cabelo rosa vibrante parecia ter ganhado vida nova, com as pontas azul-elétricas brilhando sob as luzes fluorescentes. O olhar dourado, antes apenas impulsivo, agora carregava uma carga sedutora e perigosa, como se ela soubesse segredos que ninguém mais ousaria descobrir.
Ela vestia a saia curta de sempre, mas desta vez a gravata estava perfeitamente ajustada, um detalhe que a tornava ainda mais intimidadora. Uma mochila preta pendia de um ombro só. Ela tinha um pirulito na boca e um fone de ouvido sem fio apenas no ouvido esquerdo.
O silêncio na sala foi tão profundo que o som de Mizi movendo o pirulito contra os dentes soou como um trovão.
Ivan deixou o pirulito cair da mão. Till parou o batuque no meio de um movimento, a boca entreaberta. Hyuna apertou a mão de Luka com tanta força que ele soltou um gemido baixo.
E Sua... Sua sentiu o mundo girar. O ar ficou rarefeito. Aquela silhueta, aquele perfume de morango sintético que parecia segui-la, aquela presença que preenchia cada centímetro da sala. Era ela. Real. Física. Trinta milhões de vezes mais bonita e infinitamente mais distante.
— Algum problema, senhorita? — o professor perguntou, visivelmente desconcertado pela atitude da aluna. — Poderia se apresentar para a classe?
Mizi tirou o pirulito da boca com uma lentidão deliberada. Ela varreu a sala com o olhar, passando pelos rostos chocados de seus antigos amigos como se fossem apenas parte da mobília. Quando seus olhos dourados cruzaram com os roxos de Sua, não houve faísca, não houve reconhecimento, não houve o calor de antes. Houve apenas um vazio gélido e superior.
— E aí.
Foi tudo o que ela disse. A voz estava mais grave, mais aveludada, e carregava um desdém que cortou o coração de Sua como uma lâmina de vidro.
Sem esperar por mais nada, Mizi caminhou pelo corredor central. Seus passos eram firmes, o som das botas ecoando no silêncio mortal da sala. Ela não se dirigiu à mesa vazia ao lado de Ivan, nem olhou para o grupo. Ela seguiu direto para o fundo da sala, mas do lado oposto, sentando-se na última carteira, o mais longe possível de qualquer um que conhecesse seu nome.
Ela jogou a mochila no chão, pegou o celular para desligar o bluetooth, guardou o fone no bolso e, sem tirar o material ou olhar para o quadro, cruzou os braços sobre a mesa e abaixou a cabeça, fechando os olhos para dormir.
A aula continuou, ou tentou continuar. O professor, balbuciando palavras sobre a Revolução Francesa, parecia falar para uma sala de estátuas.
— Ivan... — sussurrou Till, a voz trêmula de adrenalina. — Você viu isso? É ela. É a porra da Mizi.
— Eu vi, Till — Ivan respondeu, a voz rouca. Ele estava pálido, os olhos fixos na figura adormecida no canto oposto. — Mas ela... ela nem olhou para a gente.
— Ela está diferente — murmurou Hyuna, virando-se para frente, o rosto pálido. — Ela parece... outra pessoa.
Sua não conseguia se mexer. Seus dedos estavam cravados na capa do livro de história. Ela sentia o sangue pulsar em suas têmporas. Mizi estava ali. A poucos metros. E ela agira como se Sua fosse um nada. O gelo que Sua cultivara por nove meses começou a rachar, mas não para dar lugar ao calor, e sim a uma dor aguda e sufocante.
Quando o sinal para o intervalo finalmente tocou, a sala explodiu em cochichos, mas ninguém se atreveu a chegar perto da última carteira do canto esquerdo.
Mizi levantou a cabeça devagar, espreguiçando-se com a preguiça de um leopardo. Ela pegou a mochila e levantou-se, caminhando em direção à saída sem olhar para trás.
— Mizi! — Hyuna gritou, levantando-se e correndo até a porta.
Mizi parou no corredor. Ela se virou devagar, uma mão no bolso da saia.
— Oi, Hyuna — disse ela, o tom de voz sendo de uma cortesia distante e insuportável.
— Oi? Só "oi"? — Hyuna parou na frente dela, ofegante. — Onde você estava? Por que você sumiu? Por que voltou agora e age como se a gente fosse estranho?
Mizi deu um sorriso de lado, mas seus olhos permaneciam frios.
— Eu tive algumas coisas para resolver, Hyuna. E sobre ser estranha... bem, nove meses é muito tempo. As pessoas mudam. Eu mudei.
Ivan e Till se aproximaram, parando logo atrás de Hyuna.
— Mizi, que porra é essa? — Till exclamou, a voz carregada de mágoa. — Você simplesmente vaza e agora volta assim? Com essa marra toda?
— Não é marra, Till — Mizi respondeu, ajustando a mochila no ombro. — É só que eu não tenho mais interesse nos dramas do ensino médio. Eu vim para terminar o ano e ir embora. Só isso.
Ivan deu um passo à frente, tentando encontrar o olhar da amiga.
— E a gente, Mizi? A Mukuro, o grupo... eu?
Mizi olhou para Ivan por um segundo. Houve uma fração de segundo em que o gelo pareceu vacilar, mas ela o recuperou rapidamente.
— A Mukuro foi um erro de percurso, Ivan. E vocês... vocês fazem parte de uma fase que eu já encerrei.
Sua saiu da sala por último. Ela parou a alguns metros do grupo, observando a cena. Seu coração batia tão forte que ela sentia que todos podiam ouvir. Mizi a viu. O olhar dourado varreu o rosto de Sua, detendo-se por um momento no cabelo longo, antes de voltar para o grupo com uma indiferença cruel.
— Agora, se me dão licença, eu vou procurar um lugar menos barulhento para passar o intervalo — disse Mizi.
Ela passou por eles, o perfume de morango deixando um rastro de tortura no ar.
— Ela não pode estar falando sério — disse Luka, aproximando-se do grupo. — Ela está fingindo. Tem que estar.
— Não parece fingimento — murmurou Sua, a voz saindo mais fraca do que ela pretendia. — Ela nos descartou. Exatamente como eu disse que ela faria.
— Mas você queria que ela voltasse, Sua! — Till explodiu, virando-se para ela. — Não vem com essa de "eu avisei". Você está pior que todos nós!
Sua não respondeu. Ela apenas deu as costas e caminhou na direção oposta, as lágrimas começando a queimar seus olhos roxos.
O intervalo foi um deserto de palavras. Mizi não foi para o Pátio Sul, nem para a biblioteca. Ela desapareceu em algum canto da escola, ressurgindo apenas quando o sinal tocou para as aulas da tarde. Ela manteve a mesma rotina: sentar no fundo, ignorar a todos, dormir ou mexer no celular.
Na aula de literatura, o professor pediu que formassem duplas para um trabalho sobre "A Melancolia na Poesia Moderna".
— Ivan e Till — disse o professor. — Hyuna e Luka. Sua e... vejamos... Mizi. Como você é nova, ficará com a Sua.
O ar na sala parecia ter sido sugado por um vácuo.
Sua sentiu suas mãos gelarem. Ela virou-se lentamente para o fundo da sala. Mizi estava com a cabeça apoiada na mão, observando o professor com tédio. Ela nem sequer olhou para Sua quando o anúncio foi feito.
— Professor — disse Sua, a voz trêmula —, eu prefiro fazer sozinha.
— Regras são regras, senhorita Sua. O trabalho é em dupla.
Mizi levantou-se, arrastando a cadeira com um ruído irritante. Ela caminhou até a frente da sala, mas não parou na mesa de Sua. Ela apenas parou ao lado dela e jogou um papel sobre o livro da garota.
— Meu número — disse Mizi, sem olhar para ela. — Me manda o que eu tenho que fazer. Eu não vou me reunir com você.
— Mizi, espera — Sua disse, levantando-se e segurando o pulso da outra.
O toque foi como um choque elétrico. Mizi parou, mas não se virou. Ela olhou para o braço, para os dedos de Sua que a apertavam, e depois, finalmente, olhou nos olhos da garota de cabelos pretos.
— Me solta, Sua — disse Mizi. A voz era baixa, desprovida de qualquer emoção, o que doía muito mais do que um grito.
— Por que você está fazendo isso? — Sua sussurrou, as lágrimas finalmente transbordando. — Depois de tudo... depois de como a gente ficou...
Mizi soltou o braço com um movimento brusco. Ela se aproximou, diminuindo a distância até que Sua pudesse sentir o calor de seu corpo, mas não havia conforto ali.
— "Como a gente ficou"? — Mizi repetiu, com um riso amargo. — Você quer dizer como você me tratou como um lixo? Como você me olhou com nojo no banheiro? Ou como você ficou em silêncio enquanto eu era arrastada para fora desta escola?
— Eu não sabia! — Sua exclamou, a voz subindo de tom, atraindo a atenção de toda a sala. — Eu não sabia que você ia embora!
— Você não se importava, Sua. Essa é a diferença — Mizi disse, os olhos dourados brilhando com uma mágoa antiga que ela tentava esconder sob a máscara de frieza. — Agora você tem o que queria. O silêncio. A paz. Eu não sou mais o seu problema.
Mizi voltou para o seu lugar no fundo da sala, deixando Sua parada no meio do corredor, exposta e destruída diante de todos.
Ivan tentou se levantar para ir até a irmã, mas Till o segurou.
— Deixa, Ivan — sussurrou Till. — Isso é entre elas. E a Mizi... a Mizi voltou para terminar o que começou. Ela vai quebrar a Sua em mil pedaços.
O restante do dia foi um borrão de dor. Mizi agia como se fosse uma estranha de elite, alguém que estava acima das picuinhas da Anaktos. Ela não retomou a liderança da Mukuro; quando Kael tentou falar com ela no corredor, ela apenas disse "procure outro hobby" e continuou caminhando.
Na saída, a chuva tinha parado, deixando apenas o asfalto molhado e o cheiro de terra.
Sua estava encostada no portão, esperando. Ela sabia que Mizi passaria por ali.
Quando a silhueta rosa e azul apareceu, Sua deu um passo à frente.
— Mizi, a gente precisa conversar. De verdade.
Mizi parou. Ela tirou o pirulito da boca e olhou para o céu, suspirando.
— Não, Sua. A gente não precisa. Eu não voltei para fazer as pazes. Eu não voltei para ser sua amiga ou sua amante ou o que quer que você achasse que eu era.
— Então por que voltou? — Sua gritou, a voz ecoando no estacionamento vazio.
Mizi deu um passo em direção a ela. O olhar sedutor voltou, mas carregado de uma crueldade que fez Sua recuar.
— Eu voltei porque eu tinha que ver — disse Mizi, a voz agora um sussurro perigoso. — Eu tinha que ver se, depois de nove meses, você ainda era tão fria quanto o gelo que me expulsou. E sabe o que eu descobri?
Mizi aproximou-se do ouvido de Sua, o cheiro de morango envolvendo a garota como uma armadilha.
— Você não é fria, Sua. Você está derretendo. E eu vou adorar ver você se transformar em uma poça de nada enquanto eu sigo em frente.
Mizi afastou-se, colocou o fone de ouvido e começou a caminhar em direção ao carro de luxo que a esperava. Ela não olhou para trás.
Sua ficou parada sob a luz alaranjada do pôr do sol, os cabelos longos balançando ao vento. Ela sentia o peso do quarto ano esmagando seus ombros. Mizi tinha voltado, mas a reconciliação era uma miragem em um deserto de mágoa.
Ivan, Till, Hyuna e Luka observavam de longe, as sobras de um grupo que não sabia mais como se unir.
— O ano vai ser longo — comentou Luka, ajustando os óculos.
— Longo e sangrento — completou Ivan, olhando para a irmã destruída no portão.
A Escola Anaktos tinha sua rainha de volta, mas ela não trazia a paz. Ela trazia o acerto de contas. E o Quarto Ano, que já parecia um inferno, tinha acabado de ganhar suas chamas mais ardentes. Mizi estava de volta, mais bonita, mais forte e com o coração blindado contra a única pessoa que ela um dia amou. A guerra das sombras tinha apenas começado.