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Rintama high

O Retorno da Rainha de Vidro e Ferro

O silêncio que se seguiu ao massacre no pátio sul não foi de paz, mas de decomposição. Durante dois dias, a Escola Secundária Anaktos permaneceu com os portões acorrentados, enquanto a perícia limpava manchas de sangue que pareciam ter penetrado permanentemente no concreto. Mas, se as paredes estavam sendo limpas, a estrutura social da escola estava apodrecendo.

Mizi não acordava. Os boatos corriam pelos grupos de mensagens como uma praga: "Ela morreu", "Ela está em coma vegetativo", "A Mukuro acabou". Ivan, o único que poderia dar uma resposta real, era um fantasma. Os pais de Mizi, figuras tão rígidas e impiedosas quanto o sistema que governavam, proibiram qualquer visita. Ivan foi barrado na recepção do hospital três vezes. Na última, o segurança quase quebrou seu braço, e ele apenas sorriu com aquele jeito melancólico e irritante, antes de se retirar para o escuro de seu quarto.

Sem Mizi, a Mukuro era um corpo sem cabeça, debatendo-se em espasmos de violência desorganizada. As outras gangues, como abutres sentindo o cheiro de carniça, começaram a bicar as bordas do território. Na segunda-feira, quando as aulas deveriam ter retornado ao normal, a escola era um hospício. Dois professores pediram demissão antes do almoço, alegando que o ambiente era "insalubre para a vida humana".

Na terça-feira, o caos atingiu o ápice. No corredor principal, membros da Gnash e das Lâminas de Obsidiana trocavam insultos e empurrões, enquanto alunos comuns se encolhiam contra os armários. Till estava encostado em uma pilastra, com os braços cruzados e uma expressão de puro asco. Ele olhava para o lugar vazio onde Ivan costumava ficar.

— Isso aqui vai desmoronar — murmurou Luka, ajustando os óculos que tinham uma pequena rachadura na armação. — A entropia social da Anaktos atingiu o ponto de não retorno. Sem a Mizi para equilibrar o medo e o respeito, só resta o medo. E o medo é barulhento.

— Eu só queria que essa porra toda queimasse de uma vez — rosnou Till, embora seus olhos verdes vasculhassem a entrada da escola com uma ansiedade que ele não admitiria nem sob tortura.

— Você está procurando por ele — disse Hyuna, aproximando-se com um suspiro cansado. — O Ivan não vem, Till. Ele está destruído. Eu vi a Sua hoje cedo, ela disse que ele nem sai da cama.

Sua, que estava sentada no chão lendo um livro com as páginas manchadas de poeira, nem levantou a cabeça, mas sua voz soou cortante.

— Meu irmão é um fraco. Ele se ancorou em uma pessoa que não pode mais segurá-lo. Agora ele está afundando junto.

O barulho no corredor aumentou. Krow, o líder da Obsidiana, estava chutando a porta de um armário que ostentava um adesivo da Mukuro.

— CADÊ A PRINCESA ROSA? — ele gritava, rindo para seus seguidores. — OUVIRAM DIZER QUE ELA VIROU UM VEGETAL? EU VOU LÁ NO HOSPITAL DESLIGAR A TOMADA SÓ PRA VER SE ELA ACORDA!

A risada de Krow foi interrompida pelo som de um impacto. Não um soco, mas o som de passos. Passos rítmicos, confiantes, o som de saltos batendo no piso de linóleo com uma cadência que todos ali conheciam de cor.

O corredor, que segundos antes era uma cacofonia de gritos, mergulhou em um vácuo de silêncio absoluto.

Lá estava ela.

Mizi caminhava pelo centro do corredor. A saia preta estava curta como sempre, a blusa social branca impecavelmente passada, e a gravata preta pendurada de forma tão frouxa que parecia um desafio às leis da física. Mas algo estava diferente. Onde antes havia um sarcasmo brincalhão, agora havia uma frieza predatória.

Ela tinha uma mão na boca, roendo as unhas com uma intensidade nervosa, enquanto a outra mão estava escondida atrás das costas, com os dedos cruzados. Seus olhos dourados não brilhavam mais com diversão; eles eram duas esferas de âmbar fixas em um alvo invisível.

Ela não olhou para os lados. Ela não cumprimentou ninguém. Ela apenas andava, e o mar de alunos se abria diante dela como se ela fosse uma divindade da guerra.

Krow, que estava rindo um segundo atrás, empalideceu. Ele tentou manter a postura, cruzando os braços.

— Olha só... a morta-viva apareceu — ele disse, mas sua voz falhou levemente no final.

Mizi parou a dois passos dele. Ela tirou a mão da boca, revelando as unhas roídas e um pequeno rastro de sangue onde ela havia cutucado a cutícula. Ela inclinou a cabeça para o lado, e o movimento fez o curativo branco em sua têmpora, escondido sob o cabelo rosa, tornar-se visível.

— Krow — ela disse. A voz não era alta, mas cortou o corredor como uma navalha. — Eu ouvi algo sobre tomadas. Você quer repetir?

Krow deu um passo atrás, instintivamente.

— Eu... eu só estava brincando, Mizi. A gente achou que você...

— Que eu tinha morrido? — Ela deu um sorriso que não chegou aos olhos. Era um sorriso quebrado, perigoso. — Eu tentei. Mas o inferno me mandou de volta porque eu ainda não tinha terminado de limpar o lixo da minha escola.

Ela deu mais um passo à frente, invadindo o espaço dele. Mizi era menor que ele, mas naquele momento, ela parecia ocupar todo o corredor.

— A Mukuro não está sem líder — ela continuou, a voz subindo de tom, carregada de uma autoridade que fez os membros de sua gangue, que estavam escondidos nas sombras, se empertigarem imediatamente. — E se eu ouvir mais um pio sobre o meu estado de saúde ou sobre o meu território, eu não vou bater uma porta na cabeça de vocês. Eu vou arrancar a porta e usar como caixão. Entendido?

Krow não respondeu. Ele apenas acenou com a cabeça, humilhado diante de toda a escola, e se retirou para o fundo do corredor com sua gangue, como cães chutados.

Mizi permaneceu parada por um momento, respirando fundo. O tremor em suas mãos era visível para quem olhasse de perto, mas ela o escondia cruzando os braços. Seus olhos varreram a multidão até encontrarem o grupo de Hyuna.

Ela viu Till. Viu Hyuna. Viu Sua. Mas seu olhar travou no espaço vazio ao lado deles.

— Onde ele está? — perguntou Mizi, caminhando até eles.

— Mizi, você devia estar no hospital — disse Hyuna, com uma preocupação genuína. — Você quase morreu, garota!

— Eu perguntei onde ele está, Hyuna — Mizi repetiu, a impulsividade voltando à tona, mas temperada com uma urgência sombria.

— Ele está em casa — respondeu Sua, fechando o livro. — Ele não come, não dorme e não fala. Ele acha que você é um fantasma.

Mizi soltou um palavrão baixo e virou as costas para o grupo, começando a andar em direção à saída.

— Ei! — gritou Till. — Você acabou de chegar! As aulas vão começar!

Mizi parou e olhou por cima do ombro. O vento do corredor balançou suas pontas azuis.

— Foda-se as aulas, Till. Eu tenho um idiota para resgatar das profundezas da própria autocomiseração.

Ela saiu pelos portões da frente, ignorando os gritos dos inspetores.

Vinte minutos depois, Mizi estava escalando o muro da mansão da família de Ivan. Ela conhecia cada pedra solta, cada ponto cego das câmeras. Ela pulou no jardim e correu para a janela do segundo andar, subindo pela trepadeira com uma agilidade que desafiava seu ferimento na cabeça.

Ela abriu a janela do quarto de Ivan e entrou. O quarto estava escuro, cheirando a cortinas fechadas e ao açúcar rançoso de pirulitos velhos.

Ivan estava deitado de lado, encarando a parede. Ele não se moveu quando ouviu o barulho.

— Se for você, Sua, saia daqui antes que eu jogue um abajur na sua cabeça — ele murmurou, a voz rouca e sem vida.

— Eu adoraria ver você tentar, mas acho que sua pontaria sempre foi uma bosta — disse Mizi.

Ivan congelou. O tempo pareceu parar no quarto escuro. Ele se virou lentamente, como se tivesse medo de que o movimento fosse dissipar uma alucinação.

Lá estava ela, sentada no parapeito da janela, a luz do sol de terça-feira criando uma aura ao redor de seu cabelo rosa bagunçado. Ela estava pálida, com um curativo na cabeça e olheiras profundas, mas era ela.

— Mizi? — A voz dele quebrou.

— Não, é o Papai Noel. Eu vim cedo este ano porque soube que você foi um garoto muito chorão.

Ivan sentou-se na cama, os olhos pretos arregalados, as lágrimas começando a transbordar sem que ele percebesse.

— Você... os médicos disseram que você não acordava. Meus pais me proibiram... eu tentei ir lá, Mizi. Eu juro que tentei.

Mizi pulou do parapeito e caminhou até a cama. Ela não disse nada. Apenas o puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dele. Ivan desmoronou, escondendo o rosto no ombro dela, os ombros sacudindo em soluços silenciosos que ele guardava há dois dias.

— Eu sei, seu idiota — ela sussurrou, apertando-o mais forte. — Eu sei. Mas eu estou aqui agora. E eu estou com uma fome do caralho. Você tem algum doce que não esteja vencido?

Ivan soltou uma risada entre os soluços, limpando o rosto com a manga da camisa.

— Você quase morre e a primeira coisa que pede é comida? Você é inacreditável.

— Eu sou a líder da Mukuro, Ivan. Eu preciso de glicose para manter o reinado de terror — ela se afastou um pouco, olhando-o nos olhos. — A escola está um caos. O Krow estava falando merda. Eu tive que dar um showzinho básico no corredor só pra eles não esquecerem quem manda naquela porra.

— Você foi para a escola antes de vir aqui? — perguntou Ivan, incrédulo.

— Prioridades, Ivan. Eu precisava marcar território antes de vir buscar meu braço direito.

Ivan sorriu. O primeiro sorriso real em dias. Ele se levantou, sentindo o corpo ainda dolorido, mas a alma subitamente leve.

— O que a gente vai fazer agora? — ele perguntou, pegando um pirulito de cereja da mesa de cabeceira e entregando a ela.

Mizi desembalou o doce com os dentes e o colocou na boca, os olhos dourados brilhando com a velha chama de impulsividade e sarcasmo.

— Agora? Agora nós vamos voltar para lá. Você vai colocar uma camisa limpa, vai esconder esses olhos inchados e nós vamos mostrar para aquela escola que se eles quiserem guerra, eles vão ter a porra de uma guerra mundial.

— E as aulas? — Ivan provocou, já caminhando em direção ao banheiro para se lavar.

— Foda-se as aulas — Mizi riu, sentando-se na cama dele e balançando as pernas. — Nós somos o 3º ano. Nós somos a Mukuro. E eu estou com vontade de quebrar alguns dentes antes do intervalo.

Enquanto Ivan se arrumava, Mizi olhou pela janela. Ela sabia que a briga no pátio sul tinha sido apenas o começo. As outras gangues não iam desistir tão fácil, e a escola Anaktos estava à beira de uma explosão que nem mesmo ela sabia se poderia conter. Mas, olhando para Ivan, ela sentiu que, enquanto eles estivessem juntos, o caos era apenas um cenário para a diversão deles.

Eles saíram pela janela, dois vultos de preto e rosa sob o sol da tarde.

Ao chegarem na escola, o clima mudou novamente. A presença de Mizi e Ivan caminhando lado a lado pelo portão principal foi como um choque elétrico no sistema nervoso da Anaktos.

Till, que estava no pátio fumando escondido atrás de uma árvore, parou com o cigarro a meio caminho da boca. Ele viu Ivan. Viu que o garoto não estava mais curvado, mas caminhava com aquela arrogância silenciosa que Till tanto odiava e, secretamente, admirava.

Ivan olhou na direção de Till e, por um breve segundo, tirou o pirulito da boca e piscou.

Till sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar, xingando baixo.

— Eles voltaram — murmurou Hyuna, aparecendo ao lado de Till com um sorriso de satisfação. — O equilíbrio foi restaurado.

— Equilíbrio o caralho — resmungou Till. — Isso é o pavio de uma bomba maior ainda.

— Talvez — disse Luka, aproximando-se com Sua. — Mas pelo menos agora a bomba tem estilo.

Mizi e Ivan entraram no prédio principal. O corredor silenciou novamente, mas desta vez não era um silêncio de medo puro, era um silêncio de expectativa. Mizi parou no meio do saguão, colocou as mãos nos quadris e olhou para todos os membros das gangues que a observavam.

— Só pra avisar — ela gritou, sua voz ecoando por todos os andares. — O recreio acabou. Quem quiser continuar brincando de gangue, é bom estar pronto para sangrar. Porque a Mukuro está de volta. E eu estou de mau humor.

Ela olhou para Ivan e sorriu.

— Vamos, Ivan. Temos uma aula de literatura para perder.

Eles subiram as escadas, deixando para trás uma escola que, pela primeira vez em dias, sentia que tinha um pulso novamente. Um pulso acelerado, violento e perigosamente vivo. A guerra na Anaktos estava longe de terminar, mas a rainha tinha recuperado sua coroa, e seu cavaleiro das sombras estava, finalmente, de volta ao seu lado.