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Rintama high

O Eco do Taco e o Perfume de Cereja

A segunda-feira na Escola Secundária Anaktos amanheceu com um brilho estranhamente comum. Não havia cheiro de fumaça, nem o som de sirenes, nem o eco de ossos quebrando nos corredores. O pátio sul, que na semana anterior parecia um abatedouro, estava limpo, ocupado por alunos que discutiam banalidades sobre a prova de biologia ou o novo álbum de alguma banda de k-pop. A hierarquia, embora invisível, estava mais consolidada do que nunca: ninguém ousava olhar torto para qualquer membro da Mukuro, e o nome de Mizi era sussurrado com uma mistura de reverência e pavor sagrado.

Mizi caminhava pelo corredor principal com a preguiça de um felino que acaba de caçar. Seus cabelos rosa e azul estavam presos em um rabo de cavalo alto e desleixado, e o curativo na têmpora tinha sido substituído por uma pequena cicatriz que ela exibia como uma medalha. A saia curta balançava conforme ela andava, e a gravata preta, como sempre, estava frouxa o suficiente para ser apenas um detalhe estético.

Ao seu lado, Ivan mantinha as mãos nos bolsos da calça social, um pirulito de uva na boca e aquela expressão de tédio existencial que só ele conseguia sustentar.

— Eu estou te falando, Mizi — Ivan disse, tirando o doce da boca para gesticular —, se você continuar batendo a cabeça dos outros nos armários, a diretoria vai acabar cobrando a manutenção de você. O metal está ficando todo amassado.

Mizi soltou uma risada sarcástica, empurrando o ombro dele com o seu.

— Ah, cala a boca, Ivan. Eu fiz um favor para a escola. Aqueles armários eram velhos, eu só dei uma "texturização" moderna neles. E além do mais, o Drake e o Krow não vão aparecer por aqui por pelo menos um mês. A odontologia da cidade agradece.

Eles pararam perto da escadaria, o lugar onde a luz do sol batia mais forte. Ivan suspirou, encostando-se na parede e fechando os olhos por um segundo.

— Pelo menos está calmo agora. Eu não aguentava mais o cheiro de antisséptico toda vez que eu ia te ver naquela enfermaria improvisada.

— Admite que você sentiu minha falta, seu esquisito — Mizi provocou, cutucando a costela dele.

— Eu senti falta da paz — Ivan mentiu descaradamente, abrindo um olho para encará-la. — Sem você, a escola é um caos desorganizado. Com você, é um caos sob gestão. É bem diferente.

Enquanto os dois trocavam suas habituais farpas de amizade, o grupo de Hyuna observava a cena de uma distância segura, perto dos bebedouros.

Till batucava nervosamente na alça de sua mochila, os olhos verdes fixos em Ivan. O garoto de cabelo cinza parecia mais estressado que o normal, se é que isso era possível.

— Eles parecem... estranhamente normais hoje — comentou Luka, ajustando os óculos e observando Mizi e Ivan. — Como se não tivessem quase causado uma guerra civil na semana passada.

— É o estilo deles, Luka — disse Hyuna, cruzando os braços e exibindo um sorriso carismático. — A Mizi não é do tipo que guarda rancor ou fica remoendo. Ela bate, resolve e volta a dormir. É por isso que ela é a melhor líder que essa escola já viu.

Sua, segurando um livro de poesias russas, olhou para o irmão. A relação entre eles continuava gélida, um acordo tácito de não interferência que funcionava perfeitamente para ambos.

— Ivan parece menos tenso — Sua observou em voz baixa. — O que é irritante. Ele é mais suportável quando está preocupado com alguma coisa.

De repente, para a surpresa de todos, Mizi parou de falar com Ivan e olhou na direção do grupo. Ela deu um sorriso largo, daqueles que indicavam que uma ideia impulsiva acabara de brotar em sua mente, e fez um sinal com a mão para que eles se aproximassem.

Ivan franziu o cenho, olhando para ela.

— O que você está fazendo? — perguntou ele.

— Socializando, Ivan. Você deveria tentar. Faz bem para a pele.

O grupo de Hyuna hesitou por um momento, mas a curiosidade e o magnetismo de Mizi eram difíceis de ignorar. Eles caminharam até a dupla. Till ia por último, chutando o chão, tentando desesperadamente não fazer contato visual com Ivan.

— E aí, bando de nerds e rebeldes sem causa — Mizi cumprimentou, a voz brincalhona. — Sobreviveram à semana de terror?

— A gente que deveria perguntar isso para você, Mizi — Hyuna riu, batendo levemente no braço da outra. — Você parecia um demônio naquele corredor. Foi foda.

— Eu sei, eu sei — Mizi deu de ombros, fingindo modéstia. — Mas chega de falar de violência. O intervalo vai começar e eu estou com um humor excelente.

Ivan, sentindo o clima estranho, decidiu intervir da única forma que sabia: sendo irritante.

— O Till parece que vai ter um colapso nervoso se ficar parado aqui por mais cinco segundos — Ivan comentou, olhando diretamente para o garoto de cabelo cinza. — Algum problema, Till? O rock 'n' roll está muito alto hoje?

Till levantou a cabeça bruscamente, as orelhas ficando vermelhas.

— Vai se foder, Ivan. Eu só estou... com sono.

— Sei — Ivan deu um passo em direção a ele, diminuindo a distância. — Se quiser, eu te empresto um pirulito. O açúcar ajuda a manter os olhos abertos.

— Eu não quero a porra do seu pirulito! — Till rosnou, mas não se afastou, o que fez Hyuna e Luka trocarem olhares cúmplices.

Mizi estava prestes a fazer um comentário sarcástico sobre a tensão óbvia entre os dois, quando algo no final do corredor capturou sua atenção.

A garota popular, aquela de cabelos brancos como seda e olhos vermelhos, estava passando. Ela caminhava com uma elegância que parecia flutuar sobre o chão sujo da escola, carregando alguns livros contra o peito. O sol da janela batia em seus cabelos, fazendo-os brilhar como vidro.

O mundo de Mizi parou. O sarcasmo sumiu. A impulsividade assumiu o controle total de seu sistema nervoso.

— Com licença, pessoal — Mizi disse, a voz subitamente mais aguda. — Eu tenho um assunto urgente para tratar.

Ivan suspirou, já sabendo o que viria.

— Mizi, não...

Mas ela já tinha ido.

O grupo de Hyuna assistiu, em choque, enquanto a temida líder da Mukuro — a mulher que tinha quebrado o braço de um cara com um taco de beisebol há poucos dias — corria pelo corredor como uma adolescente apaixonada.

Mizi alcançou a garota de branco com facilidade. Sem hesitar, e com uma ousadia que fez Luka quase derrubar os óculos, Mizi estendeu a mão e deu um tapa sonoro e brincalhão na bunda da garota.

— E aí, gracinha! — Mizi exclamou, com um sorriso radiante.

O grupo na escadaria ficou paralisado.

— Ela... ela acabou de fazer o que eu acho que ela fez? — perguntou Till, boquiaberto.

— Ela bateu na bunda da garota mais popular e "pura" da escola — confirmou Luka, limpando as lentes dos óculos como se não acreditasse no que via. — E ela está... sorrindo?

A garota de branco deu um pulinho de susto, virando-se rapidamente. Ao ver Mizi, seu rosto, antes pálido, ficou instantaneamente tingido de um rosa profundo. Mas ela não gritou, não chamou a diretoria e nem pareceu ofendida. Pelo contrário, um sorriso tímido e cúmplice surgiu em seus lábios.

— Mizi! — a garota exclamou, a voz doce e levemente repreensiva. — Você não pode fazer isso no meio do corredor!

— Quem vai me impedir? O Drake? — Mizi riu, aproximando-se e colocando o braço ao redor dos ombros da garota, puxando-a para perto. — Você está linda hoje, sabia? Esse perfume de cereja está me deixando tonta.

A garota de branco baixou a cabeça, escondendo o rosto entre os fios brancos do cabelo, mas deixou-se levar. As duas começaram a caminhar lado a lado em direção ao pátio, conversando animadamente, com Mizi gesticulando e fazendo a outra rir a cada passo.

De volta à escadaria, o silêncio era pesado.

— Então... — Hyuna começou, quebrando o gelo. — A Mizi é...

— Lésbica — Ivan completou, voltando a colocar o pirulito na boca com uma naturalidade irritante. — Muito lésbica. Tipo, nível catastrófico.

— E todo mundo na escola acha que você e ela... — Luka apontou para Ivan.

— Pois é — Ivan deu de ombros. — As pessoas veem o que querem ver. É mais fácil para a reputação dela se pensarem que ela namora um cara "misterioso" do que se souberem que ela gasta metade do tempo dela escrevendo poemas ruins para garotas de cabelo branco.

Sua olhou para o irmão, uma faísca de algo que parecia respeito surgindo em seus olhos roxos.

— E você? — perguntou Sua. — Qual é o seu segredo, Ivan?

Ivan olhou para Till por um segundo a mais do que o necessário. O garoto de cabelo cinza ainda estava olhando para o corredor onde Mizi tinha sumido, parecendo processar a nova informação.

— Eu não tenho segredos, Sua — mentiu Ivan, com um sorriso de canto. — Eu sou apenas um entusiasta de doces.

O sinal para o intervalo tocou, um som estridente que parecia marcar o início de uma nova era na Anaktos.

— Bom — disse Hyuna, ajeitando a jaqueta —, já que a nossa líder nos abandonou por uma loira platínica, o que vocês acham de a gente almoçar junto?

Till olhou para Ivan, depois para o chão.

— Eu não vou sentar com o esquisito do pirulito — resmungou Till, embora já estivesse começando a caminhar na mesma direção que os outros.

— Ah, você vai sim, Till — Ivan disse, alcançando-o e passando o braço pelos ombros dele, imitando o gesto de Mizi. — Eu ouvi dizer que a cantina tem pudim hoje. E eu sei que você adora coisas doces, por mais que tente fingir que vive de raiva e rock pesado.

— Tira a mão de mim, porra! — Till tentou se soltar, mas não com muita convicção.

Luka, Hyuna e Sua seguiram os dois, rindo da interação caótica.

Lá no pátio, sob a sombra de uma grande árvore, Mizi e a garota de branco estavam sentadas juntas. Mizi falava sem parar, descrevendo alguma cena engraçada com as mãos, enquanto a garota a observava com um olhar que era pura admiração. Em um momento, Mizi pegou uma mecha do cabelo branco da garota e a enrolou no dedo, aproximando-se para sussurrar algo no ouvido dela que a fez gargalhar e dar um empurrãozinho de leve no ombro de Mizi.

Mizi olhou para o lado e viu seu grupo de amigos — e agora, o grupo de Ivan também — sentando-se em uma mesa próxima. Ela ergueu o polegar para Ivan, um sinal rápido de "está tudo sob controle".

Ivan apenas revirou os olhos e voltou sua atenção para Till, que estava ocupado demais tentando abrir um pacote de salgadinho para perceber que Ivan estava guardando o melhor pedaço de seu pudim para ele.

A Escola Anaktos finalmente estava em paz. Ou, pelo menos, no tipo de paz que só existe quando os segredos são compartilhados, as gangs estão sob controle e a líder mais temida da escola está ocupada demais tentando impressionar uma garota para se preocupar em quebrar o nariz de alguém.

— Sabe, Ivan — disse Hyuna, abrindo seu refrigerante —, acho que este vai ser o melhor ano de todos.

Ivan olhou para Mizi, depois para Till, e finalmente para o sol que brilhava no pátio.

— É — ele concordou, sentindo o gosto doce da uva em sua língua. — Pode ser que sim.

Pelo resto do intervalo, Mizi não saiu do lado da garota de branco. Elas caminharam pelo pátio, dividiram um lanche e, em certo momento, Mizi até deixou a garota usar sua gravata frouxa, apenas para ver como ficava. O resto da escola observava, alguns confusos, outros chocados, mas ninguém ousava dizer uma palavra. Afinal, Mizi ainda era a dona do taco de beisebol, e agora, ela tinha algo muito mais precioso para proteger do que apenas um território.

A hierarquia de giz tinha sido apagada. A nova regra da Anaktos era simples: Mizi estava feliz, Ivan estava (relativamente) sociável, e quem tentasse estragar isso teria que lidar com a Mukuro, a Gnash e um par de olhos dourados que não aceitavam "não" como resposta.