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Rintama high

O Despertar da Rainha e a Dança das Sombras

A manhã na Escola Anaktos tinha aquele cheiro peculiar de desinfetante industrial e hormônios à flor da pele. O sol entrava pelas janelas altas do corredor do terceiro ano, iluminando a poeira que dançava no ar, mas o clima geral era de uma ressaca coletiva. Depois da carnificina da semana anterior e da demonstração pública de afeto — ou possessão — de Mizi com a garota de cabelos brancos, a escola parecia estar em um estado de choque hipnótico.

Mizi chegou atrasada, como de costume. Seus cabelos rosa e azul estavam mais bagunçados que o normal, e ela bocejava com tanta vontade que parecia querer engolir o mundo. Ivan já estava lá, encostado no armário dela, girando um pirulito de cereja entre os dedos com uma destreza irritante.

— Você está com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão de glitter — comentou Ivan, sem desviar os olhos do movimento do pirulito.

— E você está com a cara de quem precisa de um hobby que não seja me vigiar — rebateu Mizi, abrindo o armário e jogando a mochila lá dentro de qualquer jeito. — Estou com sono, Ivan. Um sono que atravessa a alma.

— Imagino o motivo. A escola inteira só fala da "Rainha e sua Princesa de Neve".

Mizi soltou um ruído que era metade risada, metade suspiro, e começou a caminhar em direção à sala, sendo seguida por seu fiel e sarcástico escudeiro.

Quando o sinal do intervalo tocou, a tensão na cantina era palpável. Pela primeira vez em três anos, os grupos não estavam mais tão segregados. Na mesa central, Hyuna, Luka, Till e Sua já estavam sentados. A presença deles ali, esperando por Mizi e Ivan, era o sinal definitivo de que a hierarquia de giz tinha sido pulverizada.

Mizi se aproximou da mesa e se jogou na cadeira ao lado de Sua, apoiando a cabeça na mesa com um estrondo abafado. Ivan sentou-se à frente dela, entre Till e Luka.

— Onde está a sua... namorada? — perguntou Hyuna, arqueando uma sobrancelha e tentando conter o riso. — A garota de branco. Achei que vocês estivessem grudadas agora.

Mizi levantou a cabeça lentamente. Seus olhos dourados estavam nublados pelo cansaço, mas brilharam com uma faísca de diversão ácida. Ela olhou para o fundo da cantina, onde a garota de cabelos brancos estava sentada com suas amigas. As duas trocaram um olhar rápido. A garota desviou os olhos imediatamente, o rosto ficando vermelho, enquanto Mizi apenas deu um aceno de cabeça desinteressado.

— Acabou — disse Mizi, a voz rouca.

— Como assim "acabou"? — Till quase engasgou com o suco. — Vocês pareciam um comercial de perfume ontem!

Mizi deu de ombros, pegando um pedaço do sanduíche de Ivan sem pedir permissão.

— A gente transou — disparou ela, com a naturalidade de quem comenta sobre a previsão do tempo.

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que dava para ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes acima deles. Luka limpou os óculos freneticamente. Hyuna arregalou os olhos. Till ficou boquiaberto, processando a informação com a velocidade de um computador antigo. Sua, que raramente demonstrava surpresa, apenas levantou o olhar do seu livro, observando Mizi com uma curiosidade renovada.

Ivan, por outro lado, continuou chupando seu pirulito, impassível.

— Eu sabia — murmurou Ivan. — Você tem aquela aura de quem não dormiu porque estava ocupada demais sendo impulsiva.

— Pois é — continuou Mizi, ignorando o choque dos outros. — E foi bom, tipo, muito bom. Ela é uma gracinha, sério. Mas aí veio o problema. Ela começou a falar de "nós", de datas, de conhecer os pais... ela queria algo sério, entende? Um compromisso com flores e mensagens de bom dia.

— E você não quis? — perguntou Luka, ainda chocado com a franqueza da líder da Mukuro.

— Não é que eu seja babaca — explicou Mizi, gesticulando com o sanduíche roubado. — Eu não sou como esses caras que só transam e descartam por esporte. Eu realmente pensei, por um segundo, que poderia ter algo com ela. Ela é linda, é gente boa... mas sla. Faltou aquele estalo. Sabe quando você gosta da música, mas não quer comprar o álbum inteiro?

— Você é um desastre, Mizi — riu Hyuna, relaxando na cadeira. — A garota deve estar arrasada.

— Eu fui honesta! — Mizi se defendeu, recuperando um pouco da sua energia habitual. — Eu disse que não era o que eu estava procurando agora. Ela chorou um pouco, eu me senti mal, mas é melhor assim do que mentir.

Ela se espreguiçou, o movimento fazendo sua camisa social subir um pouco, revelando a pele natural e a postura descontraída de quem não carregava o peso do mundo nas costas, apesar de liderar uma gangue.

— Mas quer saber? — Mizi continuou, mudando o tom de voz para algo mais baixo e perigoso. — Acho que o meu erro foi ter olhado para o lado errado do corredor por tanto tempo.

Nesse momento, Mizi esticou o braço e o passou por cima dos ombros de Sua, puxando a garota de cabelos pretos para mais perto de si. O gesto foi possessivo, mas carregado de um charme sarcástico que só Mizi possuía.

Ivan, que estava no meio de uma provocação silenciosa contra Till, parou o que estava fazendo. Ele olhou para Mizi e viu o olhar que ela estava dando para sua irmã. Era um olhar que Ivan conhecia bem: o olhar de Mizi quando ela decidia que queria um brinquedo novo, mas com uma pitada de seriedade que o deixou em alerta.

Mizi olhou fixamente para Ivan, um sorriso de canto brincando em seus lábios, uma expressão que dizia claramente: "Vou comer sua irmã e você não pode fazer nada para impedir".

— A Sua... — começou Mizi, inclinando a cabeça para perto do rosto da garota pálida — ... sempre chamou mais a minha atenção, para falar a verdade. Ela tem esse mistério melancólico que me dá vontade de desvendar página por página.

Sua não se afastou. Ela permaneceu imóvel sob o braço de Mizi, seus olhos roxos encontrando os dourados da outra. Houve um desafio silencioso ali, uma faísca que não tinha nada a ver com a doçura da garota de branco, mas sim com a fricção entre o fogo e o gelo.

— Você é ridícula, Mizi — disse Sua, a voz calma, mas sem o habitual desdém.

— Sou? — Mizi soprou a palavra perto do ouvido dela. — Ou você só está com medo de que eu realmente consiga te fazer fechar esse livro e olhar para mim?

— Mizi, larga a minha irmã — disse Ivan, embora não houvesse raiva real em sua voz, apenas o cansaço de quem lidava com a impulsividade da melhor amiga há anos.

— Por que, Ivan? — Mizi riu, apertando o ombro de Sua. — Você está com ciúmes? Ou está com medo de que eu descubra que a Sua é muito mais divertida do que você quando as luzes se apagam?

— Eu vou te matar — murmurou Ivan, voltando a focar em seu pirulito, mas com as orelhas levemente vermelhas.

Till, que estava assistindo a tudo com uma mistura de horror e fascinação, finalmente recuperou a voz.

— Vocês são todos loucos. Esse grupo é um manicômio.

— Bem-vindo à família, Till — disse Hyuna, batendo nas costas dele. — Aqui, a gente não tem segredos, só dramas de proporções épicas.

O restante do intervalo passou em uma atmosfera de camaradagem caótica. Mizi não tirou o braço dos ombros de Sua, e Sua, por sua vez, não fez menção de sair. Elas trocavam palavras ocasionais, Mizi sempre provocando e Sua devolvendo com observações secas que faziam Mizi rir alto.

Ivan tentava ignorar o flerte descarado da amiga com sua irmã, focando em irritar Till o máximo possível.

— Sabe, Till — disse Ivan, inclinando-se para o lado —, se você continuar franzindo a testa desse jeito, vai ficar com rugas antes dos vinte. E aí, como vai manter essa imagem de emo revoltado?

— Me deixa em paz, Ivan! — Till exclamou, empurrando o ombro de Ivan, mas sem usar força de verdade. — Por que você não vai encher o saco do Luka?

— Porque o Luka é observador demais. Ele percebe coisas que você prefere ignorar.

Luka apenas sorriu por trás dos óculos, observando a dança de tensões ao redor da mesa. Ele olhou para Hyuna, que estava rindo de alguma coisa que Mizi disse, e sentiu aquele calor familiar no peito. Ele não precisava de gangues ou de lutas; ter aquele grupo ali, unido por fios invisíveis de afeto e caos, era o suficiente.

Quando o sinal para o retorno às aulas tocou, o grupo se levantou. Mizi deu um beijo rápido e estalado na bochecha de Sua antes de soltá-la, fazendo a garota de cabelos pretos piscar, surpresa.

— Vejo você na saída, "poetisa" — Mizi piscou para ela.

Mizi e Ivan caminharam na frente, em direção à sala de história.

— Você não vai mesmo parar até criar um incidente diplomático na minha família, não é? — perguntou Ivan, enquanto subiam as escadas.

— Ivan, meu querido — Mizi disse, recuperando sua postura de líder da Mukuro, mas com um brilho malicioso nos olhos —, a vida é curta demais para não perseguir o que a gente quer. E sua irmã... ela é um desafio que eu estou morrendo de vontade de aceitar.

— Ela vai te destruir, Mizi. A Sua não é como a garota de branco. Ela morde de volta.

Mizi soltou uma gargalhada que ecoou pelo corredor vazio.

— É exatamente disso que eu estou falando.

Eles entraram na sala e se sentaram no fundo, nos seus lugares habituais. Mizi abriu o caderno, mas em vez de anotar o que o professor dizia, começou a desenhar rosas negras com pontas roxas nas margens da página.

Ivan olhou para o lado e viu Till entrando na sala, sentando-se algumas fileiras à frente. Ele sentiu o peso do olhar de Mizi sobre ele.

— O que foi? — perguntou Ivan, sem olhar para ela.

— Nada — disse Mizi, com um sorriso cúmplice. — Só estava pensando que, se eu vou ter a Sua, você realmente deveria parar de ser um covarde e falar com o Till. A vida é curta, Ivan. E o rock 'n' roll dele não vai se tocar sozinho.

Ivan não respondeu. Ele apenas pegou um novo pirulito, o som do plástico sendo rasgado sendo o único ruído entre eles. Mas, no fundo de seus olhos pretos, havia uma determinação que ele raramente mostrava.

A Escola Anaktos continuava a mesma, com suas gangues e suas regras de giz, mas para aquele grupo no fundo da sala, o jogo tinha acabado de mudar de nível. E Mizi, com seu taco de beisebol guardado e seu coração impulsivo exposto, estava pronta para liderar a próxima revolução, uma provocação de cada vez.