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Rintama high

O Peso de uma Palavra e o Sabor do Pudim

A Escola Secundária Anaktos tinha uma memória curta para a paz, mas uma memória eterna para o poder. Uma semana havia se passado desde que Mizi declarou guerra silenciosa à apatia de Sua, e a rotina da escola havia se transformado em um espetáculo de persistência. Mizi, a líder cujo nome fazia veteranos tremerem, agora passava a maior parte do tempo orbitando Sua como um satélite rosa e azul, disparando cantadas baratas, comentários sarcásticos e olhares que poderiam derreter o permafrost siberiano.

Sua, no entanto, permanecia uma fortaleza de papel e tinta. Ela raramente desviava os olhos de seus livros, respondendo às investidas de Mizi com monossílabos ou silêncios prolongados que teriam desencorajado qualquer pessoa normal. Mas Mizi não era normal. Ela era impulsiva, sarcástica e, acima de tudo, adorava um desafio que pudesse retribuir com a mesma intensidade.

Naquela manhã de quinta-feira, o grupo estava reunido no corredor do segundo andar, perto dos armários de metal que ainda exibiam as cicatrizes das lutas passadas. Hyuna e Luka discutiam algo sobre o grêmio estudantil, enquanto Ivan tentava, sem sucesso, roubar um pedaço do chocolate que Till comia escondido. Sua estava encostada na parede, mergulhada em uma edição de capa dura de poesias clássicas, parecendo completamente alheia ao caos ao seu redor.

Mizi estava ao lado dela, inclinada de um jeito que invadia perigosamente o espaço pessoal de Sua.

— Sabe, Sua, esse livro deve ser incrível, mas eu tenho certeza de que a minha conversa é muito mais estimulante para o cérebro — Mizi comentou, enrolando uma mecha de seu cabelo azulado no dedo. — Ou pelo menos para o coração.

Sua nem sequer piscou.

— O livro não tenta me vender cantadas de quinta categoria antes das nove da manhã, Mizi.

— Quinta categoria? — Mizi fingiu ofensa, levando a mão ao peito. — Eu passei a noite inteira pensando naquela sobre o eclipse e os seus olhos. Foi, no mínimo, de terceira categoria.

Ivan soltou uma risada anasalada, ganhando um olhar mortal de Mizi.

— Ela tem razão, Mizi. Você está perdendo o jeito.

Antes que Mizi pudesse retrucar, o som pesado de botas marchando pelo corredor interrompeu a dinâmica. Três garotos da Mukuro — a gangue de Mizi — aproximaram-se com urgência. Eles pareciam tensos, as mãos inquietas e os rostos marcados pela ansiedade de quem espera uma ordem de execução.

— Chefe — disse o mais alto deles, um veterano chamado Kael. — Temos um problema no Pátio Norte. Os Corvos de Prata e os Lâminas de Obsidiana se juntaram com aquela gangue nova do primeiro ano, a Sombra Rubra. Eles estão cercando o nosso território.

Mizi mudou instantaneamente. A postura relaxada e brincalhona desapareceu, substituída pela rigidez de uma líder de gangue. Seus olhos dourados ficaram frios, e a aura de perigo que ela geralmente mantinha sob controle transbordou.

— Três gangues? — Mizi perguntou, a voz agora baixa e cortante. — Eles perderam o juízo ou o instinto de sobrevivência?

— Eles sabem que somos só nós três aqui agora — explicou outro membro da gangue. — Se não formos com você, eles vão nos esmagar. São quase trinta caras. Precisamos que você vá e... bem, que você faça o que faz de melhor. Exploda tudo.

Mizi apertou os punhos, um sorriso cruel começando a surgir em seus lábios. A adrenalina já corria em suas veias.

— Ótimo. Eu estava mesmo precisando desestressar. Vou quebrar cada dente que encontrar no caminho e depois desmontar essas três gangues peça por peça. Vamos logo antes que eu perca a vontade de ser "diplomática".

Ela deu um passo à frente, pronta para liderar a investida, quando uma voz calma, mas carregada de uma autoridade absoluta, cortou o ar.

— Você não vai a lugar nenhum, Mizi.

O corredor pareceu congelar. Os membros da Mukuro olharam para o lado, confusos. Mizi parou no meio do passo e virou a cabeça lentamente.

Sua não tinha tirado os olhos do livro. Ela nem sequer tinha mudado de posição.

— O que você disse? — perguntou Mizi, o tom de voz oscilando entre a surpresa e o divertimento.

— Eu disse que você não vai — Sua repetiu, virando uma página com uma calma exasperante. — Você ainda tem hematomas da semana passada que nem cicatrizaram direito. Se você for lá enfrentar trinta pessoas, vai voltar para o hospital. E eu não tenho paciência para visitar doentes hoje. Fique aqui.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os alunos que passavam pelo corredor pararam para observar. Os membros da gangue de Mizi trocaram olhares de puro choque. "Quem essa garota pensa que é?", sussurrou alguém ao fundo. "Ela vai morrer. Ninguém dá ordens para a Mizi."

Kael, o veterano da Mukuro, deu um passo à frente, indignado.

— Ei, garota, você sabe com quem está falando? A Mizi é a nossa líder. Ela manda na porra toda. Se ela diz que vai lutar, ela vai lutar. Sai da frente com esse livro idiota.

Mizi olhou para os seus homens, depois para o resto do grupo — Hyuna parecia impressionada, Luka limpava os óculos em choque e Till estava com a boca aberta. Ivan apenas observava, um sorriso de canto revelando que ele sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.

Mizi voltou a olhar para Sua. A garota pálida finalmente fechou o livro, mas manteve o dedo entre as páginas para não perder a marcação. Ela olhou diretamente nos olhos dourados de Mizi. Não havia medo ali. Havia apenas uma vontade inabalável.

— Mizi — Sua disse, a voz baixa, mas firme como aço —, eu não vou repetir. Senta. Agora.

A escola inteira esperava pela explosão. Esperavam que Mizi risse na cara dela, ou que a empurrasse contra o armário, ou que simplesmente a ignorasse e fosse para a briga. Afinal, Mizi era a Rainha da Mukuro. Ela não recebia ordens. Ela não andava na coleira de ninguém.

Mizi soltou um suspiro longo, os ombros relaxando visivelmente. Para o horror absoluto de seus subordinados, ela deu um passo atrás e se encostou no armário, cruzando os braços com um biquinho impaciente nos lábios.

— Droga, Sua... você é um estraga-prazeres — Mizi resmungou, a voz agora desprovida de qualquer agressividade.

Ela olhou para os três garotos da sua gangue, que pareciam ter visto um fantasma.

— Vocês ouviram a moça — disse Mizi, fazendo um gesto de dispensa. — Eu não vou. Vão vocês.

— Mas Chefe! — Kael protestou, a voz falhando. — São trinta contra três! A gente vai ser moído!

— Então corram rápido — Mizi deu de ombros. — Se vocês apanharem, eu prometo que vou atrás de cada um de vocês no hospital e bato de novo por terem sido fracos. E depois, amanhã, eu desmonto aquelas três gangues sozinha só por terem me feito perder meu tempo. Agora sumam da minha frente.

Os garotos hesitaram, olharam para Sua — que já tinha voltado a ler como se nada tivesse acontecido — e depois para Mizi. Percebendo que a decisão era final, eles saíram apressados, resmungando sobre como a "Rainha" tinha sido domesticada por uma leitora de poesias.

Till quebrou o silêncio do grupo com um grito sussurrado.

— Caralho, Mizi! Você... você acabou de obedecer? Você está na coleira? A líder da maior gangue da Anaktos acabou de levar um esporro de uma menina que pesa 40 quilos e aceitou?

— Ela tem argumentos convincentes — Mizi disse, lançando um olhar de soslaio para Sua. — E eu odeio quando ela fica com aquela cara de "eu te avisei".

Ivan soltou uma gargalhada alta, batendo no ombro de Till.

— Eu te disse, Till. As pessoas veem o que querem ver. A Mizi pode ser um demônio, mas até demônios sabem quando encontraram alguém mais teimoso que eles.

— Não é teimosia — Sua interveio, sem levantar os olhos do livro. — É senso comum. Algo que falta em abundância nesta escola.

***

O intervalo chegou com a mesma energia caótica. O refeitório estava lotado, e o boato sobre o "incidente do corredor" já havia se espalhado. Mizi e Sua caminhavam na frente do grupo, uma imagem de contrastes: Mizi brincando com a gravata e Sua com o livro debaixo do braço.

Eles se sentaram na mesa de sempre. Mizi sentou-se ao lado de Sua, como vinha fazendo nos últimos dias. O grupo conversava animadamente sobre o que teria acontecido no Pátio Norte — aparentemente, os três garotos da Mukuro conseguiram escapar ilesos ao mencionarem que Mizi estava "ocupada" e que voltaria para terminar o serviço no dia seguinte, o que foi o suficiente para dispersar a multidão.

— Eu ainda não acredito que eles acreditaram nisso — ria Hyuna. — O nome da Mizi é melhor que um escudo de tropa de choque.

— É o medo, Hyuna — explicou Luka. — O medo é uma ferramenta poderosa. Mas a admiração é mais perigosa.

Enquanto Till e Ivan discutiam sobre quem teria que ir comprar os pudins de sobremesa, Mizi estava estranhamente quieta. Ela participava da conversa com comentários sarcásticos ocasionais, mas sua atenção estava dividida.

Sob a mesa, longe dos olhos curiosos de Luka ou da percepção aguçada de Hyuna, Mizi moveu a mão. Com uma lentidão calculada, ela escorregou a palma da mão sobre a coxa de Sua, por baixo da saia do uniforme escolar.

Sua não se moveu. Ela continuou ouvindo a explicação de Luka sobre um novo jogo de tabuleiro, com a expressão neutra e impassível. Ela não empurrou a mão de Mizi, não reclamou e nem sequer mudou o ritmo da respiração.

Mizi sentiu a textura do tecido e o calor da pele de Sua. Ela subiu a mão alguns centímetros, os dedos pressionando levemente a musculatura firme da coxa da outra. Era um gesto de posse, uma provocação silenciosa que contrastava com a imagem de "garota obediente" que ela passara no corredor.

Mizi inclinou-se um pouco mais para perto do grupo, entrando na discussão sobre os pudins.

— Eu acho que o Ivan deve ir — disse Mizi, a voz firme, enquanto seus dedos traçavam círculos lentos na pele de Sua sob a mesa. — Ele é o que tem as pernas mais compridas e a cara mais de pau para furar a fila.

Sua finalmente reagiu, mas não da forma que Mizi esperava. Ela não se afastou; em vez disso, Sua moveu a própria mão para baixo da mesa e envolveu o pulso de Mizi. Ela não apertou para afastar, mas manteve a mão de Mizi exatamente onde estava, pressionando-a contra sua própria coxa.

Mizi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para o lado, encontrando o perfil de Sua. A garota de cabelos pretos ainda parecia concentrada na conversa, mas havia um brilho diferente em seus olhos roxos, uma satisfação silenciosa por ter o controle da situação, mesmo ali, no meio de todos.

— Concordo com a Mizi — disse Sua, a voz soando perfeitamente normal. — O Ivan deve ir. E ele deve trazer dois pudins de chocolate. Um para mim e outro para a Mizi. Ela gastou muita energia hoje... tentando ser mandona.

Ivan olhou para as duas, desconfiado. Ele percebeu a proximidade excessiva, o jeito como Mizi estava levemente inclinada e a rigidez no ombro de sua irmã. Ele suspirou, pegando o dinheiro da mesa.

— Tudo bem, tudo bem. Eu vou. Mas se eu for pego pelo inspetor, eu vou dizer que foi ordem da Rainha e da... seja lá o que a Sua for agora. General?

— Ditadora parece mais apropriado — resmungou Mizi, mas não conseguiu esconder o sorriso bobo que ameaçava surgir.

Enquanto Ivan e Till se afastavam em direção à fila, Mizi aproveitou a distração de Hyuna e Luka para sussurrar no ouvido de Sua.

— Então... eu ainda estou na coleira, poetisa?

Sua inclinou a cabeça, o cabelo preto roçando no rosto de Mizi.

— Você está exatamente onde eu quero que você esteja, Mizi. Agora, tire a mão daí antes que o pudim chegue. Eu não gosto de misturar sobremesa com... distrações.

Mizi riu, uma risada genuína e vibrante, e finalmente retirou a mão, sentindo o formigamento da pele onde Sua a tocara. Ela olhou para o grupo, para a escola barulhenta e para a vida caótica que liderava.

Pela primeira vez em muito tempo, Mizi não sentia a necessidade de explodir nada. Ela tinha descoberto que havia algo muito mais viciante do que a adrenalina de uma briga de gangues: o desafio silencioso de uma garota que não precisava de um taco de beisebol para fazê-la cair de joelhos.

Quando os pudins chegaram, Mizi comeu o seu com um entusiasmo quase infantil, trocando olhares significativos com Sua durante todo o tempo. A hierarquia da Anaktos podia ter mudado, mas para Mizi, o novo regime era muito mais interessante. Afinal, ser a Rainha era bom, mas ser a Rainha de alguém era uma conquista que nenhum território poderia superar.