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rio de Janeiro

O Brilho do Suor e o Eco do Corredor

O ar-condicionado da sala de aula estava no nível "geladeira de necrotério", mas nem isso parecia dar conta do calor que fazia do lado de fora. O Rio de Janeiro, em plena tarde de terça-feira, fervia sob um sol de quarenta graus que transformava o asfalto da universidade em uma miragem trêmula. Alexander observava o movimento da caneta entre seus dedos, mas sua mente estava a quilômetros dali — ou melhor, a apenas duas cadeiras de distância, onde Gael fingia prestar atenção na aula de introdução à sociologia.

Desde a noite na varanda da casa de Gael, o mundo de Alex tinha mudado de eixo. O que antes era uma amizade colorida por silêncios confortáveis e trocas de fones de ouvido, agora tinha ganhado uma voltagem elétrica. Cada toque acidental no corredor, cada mensagem de "bom dia" no WhatsApp, parecia carregar um peso novo. Ele sentia que estava vivendo em um filme indie, mas com a trilha sonora de um pagode romântico que tocava em algum bar distante.

— Se você continuar encarando o Gael desse jeito, vai acabar abrindo um buraco na nuca dele — sussurrou Benício, debruçado sobre a mesa de Alex.

Alex deu um sobressalto, sentindo o rosto esquentar instantaneamente.

— Eu não estava encarando ninguém, Benício. Estava pensando no conceito de solidariedade orgânica de Durkheim.

— Sei. O Durkheim loirinho de olhos claros, né? — Benício riu baixo, recebendo um olhar atravessado de Dante, que estava sentado logo atrás.

— Deixa o cara, Benício. Pelo menos ele está feliz — disse Dante, sem tirar os olhos do caderno, onde desenhava esboços de luz e sombra em vez de anotar a matéria.

— Eu não disse que ele não está feliz! Eu só disse que ele está babando — retrucou o skatista, voltando a rabiscar o próprio braço com uma caneta hidrográfica.

Quando o sinal finalmente tocou, anunciando o intervalo, a sala explodiu em um burburinho de alívio. O grupo Ameaça Pública se reuniu na porta, mas Ícaro, como sempre, tinha um plano que envolvia desviar do caminho comum.

— Galera, a lanchonete está um inferno. Parece o metrô da Central às seis da tarde — anunciou Ícaro, abanando-se com uma pasta de plástico. — Vamos para o bloco C. O corredor do terceiro andar está vazio porque o elevador quebrou e ninguém tem coragem de subir as escadas naquele calor.

— E por que a gente teria? — perguntou Alex, ajustando a mochila nos ombros.

— Porque lá tem ventilação cruzada e silêncio — respondeu Ícaro com um brilho conspiratório nos olhos. — E porque eu deixei meu carregador de notebook lá na última aula.

Eles subiram os três lances de escada, reclamando da umidade e do esforço físico não programado. O corredor do bloco C era, de fato, um deserto de concreto e janelas de vidro que davam vista para o Cristo Redentor, emoldurado pelos prédios da zona norte. Benício e Ícaro logo se distraíram tentando ver quem conseguia deslizar mais longe no chão de granilite encerado, enquanto Dante se afastou para fotografar a geometria das sombras nas escadarias.

Alex e Gael ficaram para trás, caminhando devagar. O silêncio entre eles não era mais apenas o de dois amigos; era algo denso, carregado de uma expectativa que fazia os pelos do braço de Alex se arrepiarem.

— Você está muito quieto hoje, moreno — disse Gael, parando perto de uma pilastra larga que os escondia parcialmente da vista dos outros, que já estavam no final do corredor.

— É o calor. Acho que meu cérebro está derretendo — mentiu Alex, embora o motivo real estivesse bem ali na sua frente, usando uma regata cavada que deixava à mostra as tatuagens finas nos braços.

Gael se aproximou, diminuindo a distância até que Alex pudesse sentir o cheiro de sabonete e o calor que emanava do corpo do loirinho. Ele estendeu a mão e tocou a nuca de Alex, os dedos frios por causa do ar-condicionado da sala anterior contrastando com a pele quente do pescoço do moreno.

— Tem certeza que é só o calor? — perguntou Gael, com aquele sorriso de canto de boca que sempre desarmava qualquer defesa de Alex.

Sem dizer nada, Alex puxou Gael para o espaço atrás da pilastra. O coração batia tão forte que ele tinha certeza de que os meninos conseguiriam ouvir do outro lado do corredor. Ele envolveu a cintura de Gael, sentindo a textura da regata sob seus dedos. Gael passou os braços pelo pescoço de Alex, puxando-o para baixo.

O beijo aconteceu de forma urgente, como se os dois estivessem prendendo o fôlego desde que saíram da casa de dona Helena. Tinha gosto de café gelado e daquela eletricidade que só o primeiro amor proporciona. Alex sentiu as mãos de Gael subirem pelos seus cabelos, puxando levemente os fios, enquanto ele mesmo apertava a cintura do loirinho, trazendo-o para o contato total.

Gael interrompeu o beijo por um segundo, apenas para descer os lábios pelo queixo de Alex e depositar um beijo demorado no seu pescoço, logo abaixo da orelha. Alex soltou um suspiro baixo, fechando os olhos.

— Gael... os meninos... — murmurou Alex, embora suas mãos estivessem ocupadas demais explorando a curva das costas de Gael, descendo perigosamente para a linha da cintura da calça jeans.

— Eles estão ocupados sendo idiotas — sussurrou Gael contra a pele dele, antes de deixar uma leve mordida no local, fazendo Alex estremecer.

As mãos de Alex ficaram mais ousadas, subindo por baixo da regata de Gael, sentindo a pele macia e o calor das costelas do outro. Era uma exploração faminta, uma necessidade de confirmar que aquilo tudo era real, que o garoto mais solar do Rio de Janeiro realmente pertencia a ele naquele momento.

— Eita, porra! — a voz de Benício ecoou pelo corredor, seguida pelo som de algo caindo no chão.

Alex e Gael se separaram em um solavanco, ambos ofegantes e com os cabelos em completo desalinho. Eles espiaram por trás da pilastra e deram de cara com Benício, Ícaro e Dante parados a poucos metros de distância. Benício estava com a boca aberta, Ícaro segurava o carregador de notebook como se fosse um troféu esquecido, e Dante tinha a câmera posicionada, embora não estivesse fotografando.

— Eu sabia! — gritou Ícaro, apontando o dedo. — Eu disse que esse silêncio estava muito suspeito!

— Caraca, Alex, você está mais vermelho que um tomate — comentou Benício, recuperando-se do choque e começando a rir. — E o Gael... olha o cabelo do moleque! Parece que passou por um furacão.

Gael, que raramente perdia a compostura, apenas passou a mão pelos fios loiros e deu um sorriso descarado.

— O furacão se chama Alexander, prazer — disse Gael, passando o braço pelos ombros de Alex e puxando-o para perto, sem um pingo de vergonha.

Alex queria que o chão se abrisse e o levasse de volta para São Paulo, mas, ao mesmo tempo, sentia uma liberdade estranha. Ele não precisava mais se esconder. Não ali, não com eles.

— Dante, você tirou foto disso? — perguntou Ícaro, esperançoso.

— Não — respondeu Dante, guardando a câmera na bolsa com um movimento calmo. — Tem momentos que não precisam de registro, só de respeito. E de um pouco de privacidade, coisa que vocês dois não conhecem.

— Ah, qual é, Dante! — Benício reclamou, aproximando-se dos dois. — A gente é o Ameaça Pública. Privacidade não está no contrato. Mas aí, Alex... beijar o loirinho é melhor que ganhar no Mario Kart?

Alex olhou para Gael, que piscou para ele.

— É muito melhor, Benício — respondeu Alex, a voz ganhando uma confiança que ele não sabia que possuía. — Nem se compara.

— Uuuuuuuh! — Ícaro e Benício começaram um coro de zoação que provavelmente foi ouvido em todos os andares do bloco C.

Eles começaram a descer as escadas, com Benício tentando imitar a cena que imaginou ter visto e Ícaro dando conselhos amorosos baseados em filmes de comédia romântica de baixo orçamento. Dante vinha logo atrás, observando a cena com seu habitual silêncio observador.

Alex e Gael ficaram por último novamente.

— Você está bem? — perguntou Gael em voz baixa, entrelaçando seus dedos nos de Alex enquanto desciam os degraus.

— Estou — disse Alex, e era a mais pura verdade. — Sabe, em São Paulo, se alguém me visse fazendo algo assim, eu ia entrar em pânico. Ia achar que todo mundo estava me julgando.

— E aqui? — Gael o incentivou.

— Aqui... — Alex olhou para os amigos lá na frente, que agora discutiam onde iam comer o açaí da tarde. — Aqui eu só consigo pensar que eles vão me encher o saco pelo resto da vida, e que eu não trocaria isso por nada.

Gael parou no meio da escada, forçando Alex a parar também. Ele se inclinou e deu um selinho rápido nos lábios do moreno, ignorando o grito de "EU VI ISSO!" que veio de Benício lá de baixo.

— O Rio te deixou corajoso, Alex — comentou Gael, com os olhos brilhando.

— Não foi o Rio — corrigiu Alex, puxando Gael para continuar a descida. — Foi o loirinho que não desistiu de mim.

Quando chegaram ao pátio central, o mormaço os atingiu como uma parede sólida, mas ninguém parecia se importar. Eles se sentaram nas mesas de cimento sob as árvores, dividindo um açaí gigante que Ícaro insistiu em comprar com o dinheiro que "achou" no fundo da mochila.

— Próxima parada: Praia do Flamengo depois da aula? — sugeriu Benício, limpando o canto da boca manchado de roxo.

— Eu topo — disse Dante.

— Eu só vou se o Alex prometer não sumir com o Gael atrás de nenhuma moita — provocou Ícaro.

Alex riu, jogando um guardanapo amassado no amigo.

— Prometo nada, Ícaro. A vida é feita de oportunidades.

Gael riu alto, encostando a cabeça no ombro de Alex. Ali, cercado pelo barulho da faculdade, pela zoação sem fim dos amigos e pelo calor quase insuportável do Rio, Alexander percebeu que a sua antiga versão — aquela que tinha medo de viver — tinha ficado definitivamente para trás.

Ele olhou para o céu, de um azul tão intenso que chegava a doer, e sentiu a mão de Gael apertar a sua por baixo da mesa. O contraste entre o passado cinza e o presente colorido nunca foi tão claro. Dante, percebendo o momento, levantou a câmera.

Dessa vez, Alex não desviou o olhar. Ele sorriu.

*Click.*

Mais uma página do álbum. Mais um dia de verão. E a certeza de que, não importa o quão caótico o grupo Ameaça Pública pudesse ser, ele finalmente tinha encontrado o seu lugar no mundo. Entre um beijo roubado no corredor e um açaí dividido na calçada, Alexander tinha aprendido a lição mais importante daquela cidade: a vida acontece nos intervalos, e é neles que a gente descobre quem realmente ama.