rio de Janeiro
O Teorema do Açaí com Vodca e o Brilho das Estrelas de Plástico
O Rio de Janeiro à noite tinha um ritmo próprio, uma pulsação que misturava o resíduo do calor do asfalto com a brisa úmida que vinha da Baía de Guanabara. O barzinho escolhido por Ícaro — que ele jurava ser o "pico mais autêntico da Lapa" — era, na verdade, um boteco de esquina com cadeiras de plástico amarelo, luzes de LED coloridas e um garçom que parecia conhecer a árvore genealógica de todos os clientes.
— Alex, meu querido paulista, você está muito devagar. O Rio exige hidratação etílica — anunciou Ícaro, levantando um copo de uma mistura duvidosa que ele chamava de "Capeta".
— Eu estou bem com a minha água tônica, Ícaro — Alexander respondeu, mas já sentia a pressão social do grupo.
— Água tônica é bebida de quem está com malária, Alex — Benício interveio, rindo alto enquanto equilibrava o skate encostado na mesa. — Toma um gole dessa batida de coco. É doce, nem parece que tem álcool. É praticamente um iogurte de adulto.
Gael, sentado ao lado de Alex, observava tudo com um sorriso de canto. Ele sabia que Alexander era cauteloso, um traço que ainda restava da sua vida milimetricamente planejada em São Paulo. Mas o Rio tinha essa mania de desestruturar planos.
— Só um gole, Alex. Se você não gostar, eu bebo o resto — ofereceu Gael, aproximando o copo dele.
Alexander cedeu. O problema do Rio é que o "só um gole" raramente parava por ali. Duas horas depois, a batida de coco tinha dado lugar a caipirinhas de morango, e o Alexander contido e silencioso tinha dado lugar a uma versão que ninguém no grupo conhecia.
— Vocês já pararam para pensar — começou Alex, a voz um tom mais alta que o normal, gesticulando com uma intensidade dramática — que o Cristo Redentor está sempre de braços abertos porque ele quer dar um abraço coletivo na cidade, mas ninguém sobe lá para retribuir? É uma solidão arquitetônica, gente!
Ícaro quase engasgou com o salgadinho. Dante, que estava com a câmera no colo, não perdeu tempo e começou a filmar.
— O Alex bêbado é um filósofo existencialista de boteco — sussurrou Dante para Gael.
— Ele fica... esquisito — comentou Gael, rindo enquanto tentava impedir Alex de subir na cadeira para "demonstrar a postura do Cristo". — Alex, moreno, senta aqui. O Cristo está bem, ele é de pedra, ele aguenta.
— Não, Gael! Você não entende a profundidade do afeto não correspondido! — Alex se virou para o loirinho, os olhos brilhando mais que o normal, as bochechas coradas. — E você... você é muito loiro. Como você consegue ser tão loiro? É o sol? Você faz fotossíntese?
— Vamos para casa — decretou Gael, levantando-se e passando o braço pela cintura de Alex, que agora parecia ter a estrutura óssea de uma gelatina. — Ícaro, a gente vai para o seu apartamento, é mais perto.
O trajeto até o apartamento de Ícaro foi uma sucessão de Alex tentando explicar para o motorista de aplicativo por que o trânsito do Rio era uma metáfora para o sistema circulatório humano e Benício tentando convencer Dante a fazer um ensaio fotográfico de "skate noturno e melancolia".
Quando finalmente entraram no apartamento de Ícaro — um lugar que cheirava a incenso barato e pizza amanhecida —, o caos se instalou. Benício e Ícaro desabaram no sofá para tentar jogar videogame, mas acabaram dormindo em questão de minutos, com os controles ainda nas mãos. Dante, o eterno observador, apenas acenou para Gael e se recolheu para o quarto de hóspedes.
Gael levou Alex para o quarto de Ícaro, que era decorado com estrelas de plástico que brilhavam no escuro coladas no teto.
— Preciso... de água. E de um dicionário — murmurou Alex, tropeçando nos próprios pés.
— Você precisa de um banho e de cama, moreno — disse Gael, sentando-o na beirada da cama.
Gael foi até a cozinha, pegou uma garrafa de água e voltou. Alex bebeu como se tivesse atravessado o Saara. Quando terminou, ele olhou para Gael com uma intensidade que fez o loirinho perder o ar por um segundo.
— Gael.
— Oi, Alex.
— Você é a melhor coisa que aconteceu no meu CPF — Alex declarou, com uma seriedade cômica.
Gael não aguentou e soltou uma risada alta, sentando-se ao lado dele.
— No seu CPF? Que romântico, Alex.
— É sério! São Paulo era só burocracia e cinza. Você é... você é carnaval de rua em plena quarta-feira de cinzas.
Alex se inclinou, perdendo o equilíbrio e caindo contra o peito de Gael. O loirinho o segurou, sentindo o calor do corpo de Alex e o cheiro doce da batida de morango que ainda pairava no ar. A atmosfera no quarto mudou. O silêncio lá fora, pontuado apenas pelo som distante de um ônibus, parecia enclausurá-los naquela pequena caixa iluminada por estrelas de plástico.
Gael começou a passar a mão pelos cabelos escuros de Alex, tirando os fios da testa suada.
— Você está bem mesmo? — perguntou Gael, a voz agora baixa, carregada de um carinho que não precisava mais de disfarces.
Alex levantou o rosto. A embriaguez ainda estava lá, mas havia algo mais profundo nos seus olhos. Ele levou a mão ao rosto de Gael, o polegar traçando a linha da mandíbula do loirinho.
— Estou. Nunca estive tão bem.
Alex puxou Gael para um beijo. Não era como os beijos rápidos no corredor da faculdade ou os selinhos roubados na mureta da Urca. Tinha uma urgência nova, uma fome que a bebida tinha desinibido. Gael respondeu na mesma intensidade, deitando Alex na cama e ficando por cima dele, apoiando o peso nos cotovelos para não esmagá-lo.
As mãos de Alex, antes tímidas, agora exploravam com propriedade. Ele puxou a camisa de Gael para fora da calça, buscando o contato da pele fria com suas mãos quentes. Gael soltou um gemido baixo contra os lábios de Alex, descendo os beijos para o pescoço, para a clavícula, sentindo o pulso acelerado do moreno sob sua boca.
— Gael... — sussurrou Alex, a voz falhando. — Eu quero.
Gael parou por um segundo, olhando nos olhos de Alex. Ele viu o desejo, mas também viu a névoa do álcool.
— Alex, você bebeu muito. Eu não quero que você se arrependa amanhã ou que não se lembre de cada detalhe.
Alex deu um sorriso fraco, puxando Gael de volta pela nuca.
— Eu vou lembrar. Eu lembro de tudo que envolve você. É a única coisa que meu cérebro registra direito agora.
Gael hesitou, mas a forma como Alex se arqueou sob ele, buscando o contato, foi o golpe final em sua resistência. Ele começou a desabotoar a camisa de Alex com dedos trêmulos. Cada centímetro de pele revelado parecia um tesouro descoberto. Alex era pálido, mas o Rio tinha deixado marcas de sol nos seus ombros, um contraste que Gael achava fascinante.
Gael desceu os beijos pelo peito de Alex, parando na linha do abdômen. Alex soltou um suspiro pesado, as mãos enterradas nos cabelos loiros de Gael, guiando-o, pedindo por mais. A tensão no quarto era palpável, um fio esticado prestes a romper.
— Você é lindo — murmurou Gael, subindo novamente para selar os lábios de Alex.
As mãos de Gael desceram para o quadril de Alex, apertando com firmeza, sentindo a resposta imediata do corpo do outro. Alex se sentia leve, como se estivesse flutuando naquelas águas da Praia do Flamengo que eles tanto frequentavam, mas com uma âncora sólida chamada Gael mantendo-o no lugar.
Gael começou a distribuir beijos pela barriga de Alex, descendo lentamente, as mãos desfazendo o cinto da calça jeans do moreno. Alex fechou os olhos, a cabeça jogada para trás, entregue totalmente ao momento. Ele se sentia vulnerável, mas era uma vulnerabilidade segura. Com Gael, ele sabia que podia ser quem quisesse.
No entanto, quando Gael começou a puxar a calça de Alex, o moreno soltou um risinho involuntário.
— Gael?
— Oi? — Gael parou, olhando para cima, um pouco confuso.
— As estrelas... — Alex apontou para o teto com um dedo vacilante. — Elas estão girando. Acho que elas estão tentando formar um QR Code.
Gael suspirou, uma mistura de diversão e frustração. Ele se sentou na cama, observando Alex, que agora olhava para o teto com uma expressão de profunda descoberta científica.
— É, moreno. Definitivamente, a vodca venceu o romance hoje — disse Gael, rindo baixo e passando a mão pelo rosto.
Alex se virou para ele, parecendo subitamente preocupado.
— Eu estraguei tudo?
Gael se inclinou e deu um beijo terno na ponta do nariz de Alex.
— Claro que não, bobo. A gente tem todo o tempo do mundo. O Rio não vai a lugar nenhum, e eu também não.
Gael ajudou Alex a se livrar da calça jeans desconfortável e da camisa, deixando-o apenas de cueca. Ele pegou uma camiseta limpa de Ícaro no armário e vestiu em Alex, que agora já lutava para manter os olhos abertos. Depois, Gael deitou ao lado dele, puxando o lençol para cobri-los.
— Gael? — a voz de Alex era apenas um fio.
— Estou aqui.
— Obrigado por cuidar de mim. Mesmo quando eu sou um filósofo esquisito.
— Eu gosto do filósofo esquisito. Mas gosto mais do Alex que acorda comigo e divide o café — Gael o puxou para perto, deixando que Alex acomodasse a cabeça em seu ombro.
— Eu te amo — sussurrou Alex, tão baixo que Gael quase achou que tinha imaginado.
Gael sentiu o coração dar um salto, mas percebeu, pelo ritmo da respiração, que Alex tinha finalmente caído no sono logo após dizer as palavras. Ele sorriu para a escuridão do quarto, observando as estrelas de plástico que, de fato, pareciam brilhar um pouco mais naquela noite.
— Eu também te amo, moreno paulista — respondeu Gael, beijando o topo da cabeça de Alex.
Na manhã seguinte, o sol do Rio de Janeiro entrou sem bater, como de costume. Alexander acordou com a sensação de que um pequeno exército de formigas estava marchando dentro de sua cabeça. A luz era agressiva demais, e o cheiro de café vindo da cozinha parecia um chamado distante.
Ele se virou e deu de cara com Gael, que já estava acordado, apenas observando-o com um olhar divertido.
— Bom dia, sobrevivente da vodca — disse Gael.
Alex gemeu, cobrindo o rosto com o travesseiro.
— Eu disse coisas esquisitas, não disse?
— Você disse que o Cristo Redentor estava carente e que as estrelas do Ícaro eram um QR Code — Gael começou a contar nos dedos. — Ah, e que eu era a melhor coisa do seu CPF.
Alex enterrou o rosto ainda mais no travesseiro, a memória da noite anterior voltando em flashes de calor e mãos exploradoras.
— Meu Deus... e a gente... a gente quase...
— Quase — confirmou Gael, sentando-se e puxando o travesseiro de Alex. — Mas você decidiu que a astronomia era mais interessante no momento crítico.
Alex olhou para ele, o rosto queimando de vergonha, mas também de um carinho imenso.
— Desculpa, loirinho.
— Não pede desculpa. Foi a melhor noite "não concluída" da minha vida — Gael se inclinou e deu um beijo calmo em Alex, um beijo que tinha gosto de manhã e de promessas. — Agora levanta. O Ícaro está tentando fazer panquecas e eu ouvi o Benício gritando que o extintor de incêndio sumiu.
Alex riu, sentindo que, apesar da ressaca, o mundo estava exatamente onde deveria estar. Ele se levantou, vestindo a calça e seguindo Gael para o caos da cozinha.
Lá, Benício estava tentando limpar o chão enquanto Ícaro discutia com Dante sobre se era possível fotografar o "espírito do café". Quando viram Alex, o coro começou:
— O FILÓSOFO ACORDOU! — gritou Benício.
— E aí, Alex, o Cristo já te ligou para agradecer pelo apoio moral? — provocou Ícaro.
Alex apenas revirou os olhos, aceitando a caneca de café que Gael lhe ofereceu. Ele olhou para o grupo, para a bagunça do apartamento, para a luz forte que inundava a sala e para o loirinho ao seu lado.
São Paulo era uma lembrança distante, um capítulo de um livro que ele já não lia mais. O Rio era a sua casa. E, entre risadas, ressacas e corações acelerados, ele percebeu que a vida era exatamente aquilo: uma sequência de momentos esquisitos que, no fim das contas, formavam a memória mais bonita de todas.
— Próxima parada: cachoeira no Horto? — sugeriu Dante, já com a câmera em mãos.
— Só se alguém levar muita água — disse Alex, abraçando Gael pela cintura. — Muita água mesmo.
E assim, sob o sol implacável do Rio, o Ameaça Pública se preparava para mais um dia de caos. E Alexander, o garoto que antes odiava sair de casa, era agora o primeiro a abrir a porta para o verão que nunca terminava.