Voltar ao resumo

rio de Janeiro

O Batom de Morango e a Geometria das Bochechas

O calor de fevereiro no Rio de Janeiro não era apenas uma temperatura; era um estado de espírito que derretia qualquer resquício de formalidade. No apartamento de Gael, o ar-condicionado da sala lutava uma batalha perdida contra o mormaço que entrava pelas janelas abertas, trazendo o som distante dos ônibus da linha 415 e o cheiro de maresia misturado com asfalto quente.

Alexander estava jogado no tapete, com as costas apoiadas no sofá, tentando entender a lógica de um jogo de tabuleiro que Ícaro tinha inventado. Ao seu lado, Benício usava o skate como apoio para o braço enquanto tentava, sem sucesso, equilibrar uma latinha de refrigerante no joelho. Dante, como sempre, estava em seu canto sagrado, revisando as fotos da última trilha que fizeram ao Morro da Urca.

— Eu estou dizendo, Alex: se você cair na casa do "Pedágio da Lapa", você tem que pagar um açaí para cada jogador. São as regras do Rio — declarou Ícaro, movendo uma tampinha de garrafa que servia de peça.

— Ícaro, você inventou essa regra há dois minutos só porque está sem um puto no bolso — rebateu Alex, rindo e empurrando a mão do amigo.

Gael, que estava na cozinha ajudando a mãe com as compras, apareceu na sala segurando uma sacola pequena de farmácia que parecia ter sido esquecida em cima do balcão. Ele tinha um brilho travesso nos olhos, aquele tipo de olhar que fazia Alex saber que algo caótico — e provavelmente adorável — estava por vir.

— Gente, olha o que eu achei perdido na bolsa de maquiagem da minha irmã — disse Gael, tirando um pequeno tubo cilíndrico de dentro da sacola.

— Um batom? — Benício perguntou, franzindo a testa. — O que a gente vai fazer com isso? Desenhar um bigode no Ícaro enquanto ele dorme?

— Não é qualquer batom — Gael abriu a tampa, revelando um tom vermelho vibrante, quase cor de cereja, que exalava um cheiro doce de morango artificial. — É aquele tipo que gruda e não sai nem com reza braba.

Gael olhou para Alex. Foi um olhar rápido, mas carregado de uma cumplicidade que só eles tinham. Desde a noite no apartamento de Ícaro, a tensão entre os dois tinha se transformado em um conforto magnético. Eles se tocavam mais, se buscavam mais e, embora o grupo ainda fizesse piadas, havia um respeito novo pelo espaço que os dois estavam construindo.

— O que você está tramando, loirinho? — perguntou Alex, sentindo o rosto esquentar preventivamente.

— Um experimento artístico — respondeu Gael, aproximando-se. Ele girou a base do batom e, com uma seriedade cômica, começou a passá-lo nos próprios lábios diante do espelho da sala.

— Meu Deus, ele enlouqueceu de vez — comentou Ícaro, esquecendo o jogo. — O isolamento térmico fritou os miolos do Gael.

— Fica quieto, Ícaro. Deixa o artista trabalhar — disse Dante, levantando a câmera e focando no rosto de Gael.

Gael terminou de passar o batom, fazendo um "biquinho" para espalhar a cor. Seus lábios agora brilhavam em um vermelho intenso que contrastava com sua pele clara e o cabelo loiro bagunçado. Ele parecia uma versão moderna e carioca de um personagem de editorial de moda.

— E agora? — perguntou Benício, genuinamente curioso.

Gael não respondeu. Ele simplesmente se ajoelhou no tapete, ficando de frente para Alexander. Alex, que estava sentado com as pernas cruzadas, sentiu o coração dar um solavanco contra as costelas. A proximidade de Gael sempre tinha esse efeito, mas agora, com aquele sorriso pintado de vermelho, a sensação era de que o oxigênio da sala tinha acabado.

— Alex... você é a minha tela — sussurrou Gael, a voz suave o suficiente para que apenas os dois ouvissem, apesar do silêncio expectante dos amigos.

— Gael, os meninos estão vendo... — Alex tentou protestar, mas suas mãos, por instinto, agarraram a barra da camiseta de Gael.

— Deixa eles verem.

Sem aviso, Gael avançou. Ele não foi para um beijo na boca, não de imediato. Ele começou pela bochecha esquerda de Alex. O toque dos lábios de Gael foi firme e úmido, deixando uma marca carmim perfeita na pele do moreno. Alex fechou os olhos, sentindo o cheiro de morango invadir seus sentidos.

— Um — contou Gael em voz baixa.

Ele se moveu para a outra bochecha, deixando outra marca. Depois, desceu para a linha do maxilar. Cada beijo era acompanhado por um estalo suave e pela risada contida de Benício e Ícaro ao fundo.

— Caraca, ele está marcando território! — gritou Ícaro. — Dante, você está pegando isso? É histórico!

— Shhh! — Dante fez sinal de silêncio, sem tirar o olho do visor. — A luz está incrível.

Gael continuou seu "experimento". Ele beijou a testa de Alex, a ponta do nariz e, por fim, deixou uma marca nítida no pescoço, logo acima da gola da camiseta. Alex estava completamente imóvel, entregue ao carinho e à brincadeira, sentindo o calor do corpo de Gael e a vibração da sua risada silenciosa contra a sua pele.

— Você está parecendo um dálmata de morango, moreno — brincou Gael, afastando-se apenas alguns centímetros para admirar o trabalho.

O rosto de Alex estava pontilhado de marcas de batom vermelho. Ele parecia uma colagem artística de afeto. A timidez que ele trouxe de São Paulo ainda existia, mas ali, sob as marcas de Gael e os olhares dos amigos, ela não parecia mais um fardo. Era apenas uma camada que estava sendo substituída por algo muito mais vibrante.

— Minha vez — disse Alex, a voz mais firme do que ele esperava.

Ele estendeu a mão, pegou o batom da mão de Gael e, para a surpresa de todos, passou nos próprios lábios. O movimento foi um pouco desajeitado, mas o resultado foi o mesmo: um vermelho intenso que destacava seu sorriso de lado.

— Ih, agora o negócio ficou sério! — Benício bateu palmas. — Guerra de batom!

Alex não esperou. Ele puxou Gael pela nuca e retribuiu o gesto. Ele beijou as bochechas de Gael, a têmpora e deixou uma marca bem no meio da testa do loirinho. Gael ria, tentando se esquivar e falhando miseravelmente, enquanto Alex se tornava mais ousado, deixando marcas nos ombros de Gael onde a regata permitia.

— Vocês dois são ridículos — disse Ícaro, embora estivesse sorrindo de orelha a orelha. — É a coisa mais brega e genial que eu já vi nesta sala.

— É o amor, Ícaro. Você não entenderia, sua única relação estável é com aquele skate velho — provocou Benício.

Eventualmente, a brincadeira desacelerou. Alex e Gael estavam sentados no tapete, ambos cobertos de marcas de beijos vermelhos, ofegantes e rindo um para o outro. Dante se aproximou e mostrou a tela da câmera: uma foto perfeita dos dois rindo, com os rostos pintados, emoldurados pela luz dourada do final da tarde que entrava pela varanda.

— Essa vai para a moldura principal do grupo — decretou Dante.

— Eu vou mandar para a minha mãe — disse Gael, limpando um pouco do excesso de batom do canto da boca de Alex com o polegar. — Ela vai dizer que você finalmente encontrou alguém que te valoriza... artisticamente.

— Ela vai dizer que você é um maluco, isso sim — Alex riu, segurando a mão de Gael e entrelaçando seus dedos.

A tarde caiu e a fome bateu. O grupo decidiu pedir uma pizza, mas o desafio agora era outro.

— Alguém tem demaquilante? — perguntou Alex, olhando-se no espelho e percebendo que as marcas realmente não saíam com facilidade.

— Minha irmã levou tudo na viagem — respondeu Gael, fazendo uma careta. — Acho que a gente vai ter que ir buscar a pizza assim.

— Nem ferrando! — Alex arregalou os olhos. — Eu não vou descer no prédio e andar até a esquina parecendo que fui atacado por um bando de carimbos.

— Ah, vai sim! — Ícaro já estava pegando as chaves. — É a estética "Ameaça Pública". Se a gente não causar um pouco de confusão mental nos vizinhos, o dia não valeu a pena.

E assim, os cinco desceram. O condomínio de Gael era tranquilo, mas a visão de dois garotos cobertos de marcas de batom, acompanhados por um skatista barulhento, um fotógrafo focado e um garoto que parecia o mestre de cerimônias do caos, chamou a atenção.

No elevador, encontraram Dona Sônia, uma vizinha idosa que sempre carregava um poodle latindo.

— Boa noite, meninos — disse ela, ajustando os óculos e encarando os rostos de Alex e Gael. — Que... maquiagem interessante. É para algum bloco de pré-carnaval?

— É para o bloco do "Amor Próprio", Dona Sônia — respondeu Ícaro, sem piscar. — O Alex ganhou o concurso de mais beijado do dia.

Alex sentiu vontade de desaparecer, mas Gael apertou sua mão e deu um sorriso radiante para a vizinha.

— Ele é muito popular, Dona Sônia. Não dou conta.

Quando saíram na calçada, o Rio estava naquela transição mágica entre o dia e a noite. O céu era um gradiente de roxo e laranja. Eles caminharam até a pizzaria da esquina, ignorando os olhares curiosos dos passantes. Para Alex, aquilo era o auge da superação. Seis meses atrás, ele teria pavor de ser o centro das atenções. Hoje, ele só conseguia pensar no quanto a mão de Gael era quente e em como o cheiro de morango ainda estava ali, lembrando-o de cada beijo.

Sentaram-se em uma mesa na calçada. O garçom, já acostumado com as esquisitices do grupo, nem comentou sobre o batom.

— Uma de calabresa e uma de frango com catupiry. E tragam muitos guardanapos, acho que o nosso amigo aqui vai precisar — pediu Benício, apontando para Alex.

Enquanto esperavam, o clima ficou mais calmo. Benício e Ícaro começaram a planejar uma ida à Região dos Lagos no próximo feriado, discutindo sobre quem levaria a barraca e quem ficaria responsável pela comida (com a proibição unânime de Ícaro chegar perto do fogão). Dante estava ocupado limpando a lente da câmera, mas de vez em quando olhava para o lado e dava um sorriso discreto.

Alex e Gael estavam um pouco mais afastados na ponta da mesa.

— Você está bem? — perguntou Gael, a voz baixa, observando Alex tentar limpar uma marca na testa com um guardanapo de papel seco.

— Estou ótimo — Alex parou de esfregar e olhou para Gael. — Só estou pensando que eu nunca imaginei que minha vida seria assim. Colorida. Literalmente.

— O vermelho combina com você, moreno. Te deixa com cara de quem tem histórias para contar.

Gael se inclinou e, ignorando a pizzaria cheia e os amigos ao lado, deu um beijo de verdade em Alex. Foi um beijo calmo, sem batom dessa vez, apenas o encontro doce de quem já se conhecia por inteiro. Quando se separaram, as cores tinham se misturado um pouco mais, borrando as fronteiras entre os dois.

— Sabe de uma coisa? — disse Alex, pegando um pedaço de pizza que acabara de chegar. — Eu não quero tirar.

— O batom?

— É. Acho que vou deixar até amanhã. Para lembrar que, de todas as coisas que eu podia ser no Rio, eu escolhi ser o cara que você beija.

Gael sorriu, aquele sorriso que parecia iluminar a rua inteira.

— Então a gente vai ter que retocar depois da pizza. Eu ainda tenho o tubo no bolso.

— Nem pensem nisso! — gritou Ícaro do outro lado da mesa. — Se vocês começarem a se beijar com batom de novo, eu vou cobrar ingresso!

A noite seguiu entre risadas, fatias de pizza e o som do Rio de Janeiro acontecendo ao redor deles. Alexander olhou para os seus amigos, para o loirinho ao seu lado e para as marcas carmins que ainda manchavam sua pele. Ele se lembrou das tardes cinzas em São Paulo, do silêncio do seu quarto e da sensação de que o mundo era um lugar vasto e assustador onde ele não se encaixava.

Ali, na calçada de um bairro qualquer da Zona Sul, coberto de batom de morango e cercado por pessoas que o amavam exatamente por quem ele era, Alex percebeu que o Rio não tinha apenas mudado seu endereço. Tinha mudado sua alma.

Ele não era mais o garoto que se escondia. Ele era o garoto que sorria nas fotos de Dante. O garoto que dividia o açaí. O garoto que, mesmo com o rosto pintado de vermelho, se sentia o mais sortudo do mundo.

— Ei, Alex — chamou Benício, levantando um copo de refrigerante. — Um brinde ao "Ameaça Pública". E ao fato de que o Alex finalmente parou de ser paulista e virou gente.

— Um brinde! — todos gritaram, atraindo ainda mais olhares dos vizinhos.

Alex brindou, rindo alto. Ele olhou para Gael e viu que o loirinho o observava com um orgulho silencioso.

— Você está em casa, moreno — sussurrou Gael.

— Eu sei — respondeu Alex. — Eu finalmente sei.

E sob as estrelas cariocas e as luzes de neon da pizzaria, o verão continuava, eterno e vibrante, gravado na pele de Alexander como uma marca de batom que, ele esperava, nunca mais saísse.