Rocinha
Noite de Crime e Carinho
— Nada, amor. Só tava pensando em como eu gosto de ficar assim com você, sem barulho de tiro, sem ninguém chamando no rádio — Lua respondeu, a voz suave como uma carícia. — Às vezes eu esqueço que a gente mora no meio de uma guerra.
Kael suspirou, apertando a cintura da namorada. Ele sabia que o mundo deles era bruto, mas faria qualquer coisa para que Lua nunca sentisse o peso real daquela coroa de espinhos. O ciúme que ele sentia, aquele aperto no peito quando via algum vapor olhando demais para as curvas dela, era apenas o reflexo do seu medo de perder a única coisa que o mantinha humano.
— Enquanto eu estiver aqui, docinho, o barulho do mundo não chega em você — ele disse, beijando a testa dela. — Tu é meu porto seguro, tá ligado? Se eu não tivesse você pra voltar no fim do dia, eu já teria virado bicho faz tempo.
Lua sorriu, o rosto branquinho ganhando um tom rosado. Ela se inclinou e selou os lábios nos dele, um beijo calmo que logo começou a esquentar. As mãos de Kael, calejadas mas cuidadosas, desceram pelas costas dela, sentindo a curva acentuada do quadril que o deixava maluco. Ele a puxou para cima, fazendo-a sentar em seu colo, sentindo o peso leve e perfeito dela contra seu corpo.
— Kael... — ela sussurrou entre os beijos — a gente tá na sala...
— Meu pai e a dona Letícia se trancaram no escritório, vida. E o Bernardo subiu com a Mell faz meia hora. Aqueles dois ali, quando se trancam, o mundo pode acabar que eles nem veem — Kael deu um sorriso de lado, malicioso. — A casa é nossa por agora.
Enquanto Kael e Lua se perdiam em carícias no andar de baixo, o clima no andar de cima era de pura adrenalina e desejo. Bernardo Henrique estava em seu quarto, a porta trancada e o ar-condicionado no máximo para aplacar o calor do Rio. Ele estava sentado na beirada da cama, observando Merllya terminar de tirar o biquíni molhado.
A loira de olhos azuis era um espetáculo à parte. Os cachos dourados caíam sobre os ombros, e o corpo curvilíneo parecia esculpido à mão. Bernardo, sempre o mais sério e contido dos gêmeos, sentia o sangue ferver toda vez que ela o olhava daquele jeito provocante.
— Tá me olhando assim por quê, amor? — Mell perguntou, jogando a peça de roupa no chão e ficando apenas de calcinha. — Perdeu alguma coisa?
— Tô admirando o que é meu por direito — Bernardo respondeu, a voz grave. — Tu sabe que eu não sou de falar muito, Merllya, mas porra... tu me deixa desgraçado da cabeça.
Ele se levantou, a imponência de seus 1,85m fazendo sombra sobre ela. Bernardo não usava camisa, e o corte mullet com luzes dava a ele um ar de rebeldia que Mell amava. Ele a pegou pela cintura, puxando-a para perto com força, seus corpos colados.
— Você é muito marrento, sabia? — ela riu, passando as mãos pelo abdômen definido dele. — Mas eu amo esse seu jeito de dono do mundo.
— Só sou dono de uma coisa, gatinha — ele murmurou no ouvido dela, a mão descendo para apertar sua bunda com vontade. — E essa coisa tá aqui nos meus braços agora.
O beijo de Bernardo era possessivo, urgente. Ele a jogou na cama com cuidado, mas sem perder a dominância. Mell soltou um suspiro alto, as pernas se enroscando na cintura dele. Eles se conheciam desde cedo, e a intimidade que tinham era algo que ia além do físico; era uma conexão de almas que cresceram juntas no meio do caos da favela.
Enquanto isso, no escritório, o clima de negócios havia retornado por um breve momento. Guilherme Allegretti estava terminando de vestir uma camisa de linho preta, deixando os primeiros botões abertos. Ele olhou para o monitor que mostrava as câmeras de segurança da mansão e viu Ragnar sentado na porta do quarto principal, como um soldado de elite.
— O dever chama, coração — Guilherme disse, olhando para Letícia, que agora estava sentada na sua poltrona de couro, observando-o com aquele olhar de quem conhece todos os seus segredos.
— Eu sei, meu bem. Só não esquece que amanhã a gente combinou de descer pra Angra com os meninos — ela lembrou, a voz firme. — Não quero você com a cabeça no galpão enquanto a gente estiver no barco.
— Tu manda em tudo aqui, amor. Eu só obedeço — ele deu um sorriso raro, o brilho dos olhos verdes suavizando.
Guilherme pegou sua Glock, conferiu o carregador e a colocou na cintura, escondida pela camisa. Ele saiu do escritório e encontrou Kael na sala. O filho se ajeitou no sofá assim que viu o pai, mas não soltou Lua, que continuava abraçada a ele.
— Tô descendo, Kael. Vou resolver a fita do moleque que tava dando desfalque — Guilherme sentenciou. — Fica de olho em tudo. Se o radinho apitar com movimentação estranha na mata, tu já sabe o que fazer.
— Pode deixar, pai. Tá tudo monitorado — Kael respondeu, a expressão ficando séria instantaneamente. — O Bernardo tá lá em cima, qualquer coisa eu chamo ele.
Guilherme assentiu e saiu. O som do motor da sua SUV blindada ecoou pelo pátio antes de desaparecer ladeira abaixo.
O "trabalho" no galpão foi rápido. Guilherme não era homem de muitas palavras quando se tratava de traição. O moleque, que não passava de dezenove anos, tremia como vara verde diante do dono da Rocinha.
— Tu achou mesmo que ia tirar dinheiro da minha família e sair ileso, menor? — Guilherme perguntou, caminhando em volta do rapaz amarrado à cadeira. O ambiente cheirava a mofo e óleo de motor. — Eu sustento essa comunidade toda. Ninguém passa fome sob o meu comando. Mas a regra é clara: lealdade acima de tudo.
— Pelo amor de Deus, Allegretti... eu precisava... minha mãe tá doente... — o garoto soluçava.
Guilherme parou na frente dele e suspirou. Ele tinha coração, especialmente quando envolvia família, mas a ordem no morro dependia do medo e do respeito.
— Se tivesse me pedido, eu teria pago o tratamento da tua coroa. Mas tu escolheu roubar. E quem rouba de mim, rouba dos meus filhos — Guilherme sinalizou para um de seus soldados. — Leva ele pro posto de saúde. Dá um corretivo pra ele nunca mais esquecer, mas não mata. E avisa que a dívida dele agora vai ser paga trabalhando na limpeza do galpão por um ano, sem ganhar um centavo. Se sumir um parafuso, ele não volta pra casa.
O traficante deu as costas, saindo para o ar fresco da noite carioca. Ele odiava ter que fazer aquilo, mas era o preço do poder.
De volta à mansão, o silêncio imperava. Guilherme subiu as escadas e passou por Ragnar, que apenas balançou a cauda curta ao reconhecer o dono. Ele entrou no quarto e encontrou Letícia deitada, lendo um livro sob a luz do abajur. Ela usava uma camisola de seda branca que realçava seu corpo curvilíneo e a pele alva.
— Demorou, meu rabugento — ela disse, fechando o livro e sorrindo para ele.
— Tive que dar uma aula de ética pra um moleque — Guilherme respondeu, tirando a arma e a camisa. Ele se sentou na cama e sentiu as mãos de Letícia em seus ombros, começando uma massagem relaxante. — Às vezes eu canso dessa porra, coração.
— Eu sei, meu bem. Mas você faz isso por nós — ela sussurrou, beijando o ombro tatuado dele. — Agora esquece o morro. Esquece o crime. Só foca em mim.
Guilherme se virou, puxando-a para um beijo profundo. Ali, naquele quarto blindado, o dono da Rocinha não era o temido Allegretti, mas apenas um homem completamente rendido pela sua mulher.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Bernardo e Mell estavam exaustos, suados e abraçados sob os lençóis. O silêncio entre eles era confortável, preenchido apenas pelo som da respiração regulada.
— Você vai comigo pra Angra amanhã, né? — Bernardo perguntou, brincando com um cacho do cabelo dela.
— Claro que vou, lindo. Não te deixo sozinho com aquelas lanchas cheias de gente nem morta — Mell brincou, dando um tapa de leve no peito dele.
— Sabe que eu só tenho olhos pra você, gatinha. O resto é resto — ele disse, sério, fazendo o coração dela errar uma batida.
Lá embaixo, na sala, Kael e Lua tinham acabado de assistir a um filme, mas nenhum dos dois prestou atenção na tela. Kael estava com a cabeça no colo de Lua, e ela fazia carinho em seu cabelo platinado.
— Vida, você acha que um dia a gente vai poder sair daqui? — Lua perguntou de repente, a voz carregada de uma ponta de esperança. — Tipo, morar em outro lugar, longe de tudo isso?
Kael abriu os olhos verdes e olhou para ela. Ele queria dizer que sim, que a levaria para o Japão, para a Europa, para qualquer lugar onde ela não tivesse que se preocupar com o barulho dos fuzis.
— Se for o que você quer, docinho... eu faço acontecer — ele prometeu, a voz cheia de determinação. — Eu e o Bernardo estamos organizando as coisas pra que o negócio rode sozinho. Meu pai tá ficando velho, ele quer sossego com a dona Letícia. E eu quero um futuro onde você não precise ter medo de nada.
Lua sorriu, as lágrimas brilhando nos olhos puxados. Ela se inclinou e o beijou, um beijo de promessa e de amor puro.
— Eu te amo, meu ursinho.
— Te amo mais que tudo, vida.
A noite na Rocinha seguia seu curso. O baile funk começava a ganhar força lá embaixo, o grave batendo e ecoando pelas vielas, mas na mansão dos Allegretti, o que reinava era a lealdade de uma família que, apesar de viver no fogo, nunca deixava o amor se queimar. Guilherme, Letícia, os gêmeos e suas meninas eram um bloco único, uma fortaleza que ninguém ousava desafiar.
Guilherme, antes de apagar a luz do quarto, olhou uma última vez para a janela. Ele viu as luzes da cidade lá longe e as luzes da comunidade logo abaixo. Ele sabia que o amanhã traria novos desafios, novos inimigos e novas batalhas. Mas enquanto tivesse sua família e o calor de Letícia ao seu lado, ele estaria pronto para foder com qualquer um que cruzasse seu caminho.
— Dorme, coração — ele murmurou, puxando o corpo dela para junto do seu. — Amanhã o dia é nosso.
— Boa noite, meu bem — Letícia respondeu, fechando os olhos, segura nos braços do homem que governava o inferno, mas que a tratava como se ela fosse o próprio céu.
E assim, sob a vigilância silenciosa de Ragnar e o brilho das estrelas sobre o Rio de Janeiro, a dinastia Allegretti descansava para mais um dia de poder, paixão e sobrevivência.