Rocinha
O Refúgio nos Braços do Urso
A madrugada na Rocinha tinha um silêncio peculiar, interrompido apenas pelo zumbido distante de algum gerador ou pelo latido abafado de um cão de guarda nas ruelas. Dentro da mansão dos Allegretti, o ar-condicionado trabalhava silenciosamente, mantendo o quarto de Kael em uma temperatura agradável, contrastando com o mormaço típico do Rio de Janeiro que ainda castigava o lado de fora.
Kael dormia o sono pesado de quem carregava o peso da responsabilidade do morro nos ombros durante o dia. Ele estava atravessado na cama de casal, um braço musculoso e tatuado jogado por cima do corpo pequeno de Lua, que parecia desaparecer entre os lençóis de fios egípcios. O platinado de seu cabelo estava bagunçado, e a expressão séria que ele ostentava para os vapores e para o mundo do crime dava lugar a uma serenidade que só o sono — e a presença dela — proporcionavam.
Ao seu lado, no entanto, a paz de Lua estava sendo estilhaçada.
A mente da menina era um turbilhão de imagens distorcidas. No pesadelo, ela não estava na segurança da mansão blindada. Ela corria por um beco estreito e úmido da favela, a escuridão era tão densa que parecia sólida. Ela ouvia gritos, o som metálico de fuzis sendo destravados e, o pior de tudo, a voz de Kael chamando por ela, mas o som parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo. No sonho, ela via um clarão, um estouro ensurdecedor, e então via o corpo dele caído no chão, os olhos verdes, que ela tanto amava, perdendo o brilho enquanto o sangue manchava o asfalto.
— Não... não... Kael... — ela balbuciou entre dentes, a respiração ficando curta e rápida.
O suor frio brotava em sua testa, e seu corpo pequeno começou a tremer sob o toque do namorado. O pânico onírico era tão real que o peito de Lua doía, como se o ar tivesse sido roubado de seus pulmões.
— Kael! — O grito saiu rasgado, agudo, rompendo o silêncio do quarto.
Lua despertou em um solavanco, sentando-se na cama com os olhos arregalados e negros de pavor. O coração batia tão forte contra as costelas que ela sentia a pulsação nos ouvidos. As lágrimas começaram a descer instantaneamente, quentes e abundantes, molhando seu rosto de feições delicadas.
Kael acordou no mesmo segundo. O instinto de sobrevivência e o reflexo de quem vive em alerta constante o fizeram sentar-se e tatear o lado da cama em busca de qualquer ameaça, mas o que ele encontrou foi o desespero de sua pequena.
— Docinho? Lua? O que foi, vida? — A voz dele, ainda rouca de sono, estava carregada de preocupação imediata.
Ele acendeu o abajur de luz quente ao lado da cama. A iluminação suave revelou Lua encolhida, abraçando os próprios joelhos, soluçando tão alto que mal conseguia respirar. Ela parecia ainda mais minúscula naquela cama enorme, uma boneca de porcelana quebrada.
— Ele... eles... você tava no chão, amor... tinha muito sangue... — ela tentava falar, mas as palavras saíam entrecortadas pelos soluços violentos. — Eu não conseguia chegar em você, Kael! Eu chamava e ninguém me ouvia!
Kael sentiu um aperto no peito que nenhuma ameaça de invasão jamais causara. Ele se aproximou rapidamente, puxando-a para o seu colo sem cerimônia. Ele a acomodou entre suas pernas, envolvendo-a com seus braços largos, colando o ouvido dela contra o seu próprio peito.
— Calma, meu amor. Shhh... olha pra mim, olha pro seu ursinho — ele murmurou, a voz agora firme, tentando ser a âncora dela no meio daquela tempestade. — Eu tô aqui. Eu tô vivo. Ninguém me tocou, vida. Foi só um sonho ruim, tá ouvindo?
— Foi tão real, vida... eu senti o cheiro da pólvora... eu vi você indo embora... — Ela se agarrou à pele nua das costas dele, as unhas curtas cravando-se levemente em seus músculos, como se precisasse se certificar de que ele era matéria sólida, de que não desapareceria.
Kael começou a balançar o corpo dela suavemente, um movimento de ninar que ele só fazia para ela. Ele beijou o topo da cabeça de Lua, sentindo o cheiro do shampoo de baunilha que ela usava, um contraste doce com o mundo amargo em que viviam.
— Respira comigo, docinho. Inspira... expira... devagar — ele instruiu, sentindo o corpo dela tremer contra o seu. — Ninguém vai me tirar de você. Eu sou marrento demais pra morrer, esqueceu? E o pai não deixa nada acontecer com a gente. A mansão tá protegida, o Ragnar tá lá fora, e eu tô bem aqui, segurando você.
Aos poucos, o ritmo frenético do coração de Lua começou a desacelerar, tentando acompanhar a batida constante e forte do coração de Kael. O calor do corpo dele, moreno e bronzeado, emanava uma segurança que ia além das paredes de concreto da casa.
— Me perdoa por te acordar assim... — ela sussurrou, a voz ainda embargada, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Tá maluca, Lua? — Kael se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele. Os olhos verdes dele estavam intensos, transbordando um cuidado que ele não mostrava a mais ninguém. — Eu prefiro acordar mil vezes com você gritando meu nome do que te deixar sofrendo sozinha com esses pensamentos. Tu é minha vida, entendeu? Se você tá mal, eu tô mal.
Ele usou os polegares para secar as lágrimas que ainda insistiam em cair dos olhos puxados dela. O rosto de Lua estava rosado pelo choro, e o biquinho involuntário que ela fazia deixava Kael com vontade de guardá-la em um cofre.
— Eu tenho tanto medo de te perder pro morro, Kael — ela confessou, a voz bem baixinha. — Às vezes eu olho pro seu pai, olho pra tia Letícia, e vejo o quanto eles são fortes, mas eu... eu não sei se eu sou forte assim.
Kael suspirou, encostando a testa na dela. Ele sabia que o estilo de vida que levava era uma sentença de ansiedade para quem o amava.
— Você é a pessoa mais forte que eu conheço, docinho. Porque você aguenta a minha marra, o meu ciúme e ainda me dá esse amor todo — ele deu um sorriso de lado, tentando descontrair o clima. — E ó, eu te prometo: eu não vou a lugar nenhum sem você. A gente vai realizar aquele plano, lembra? Sair dessa correria, ter nosso canto. Mas até lá, você tem que confiar no seu ursinho.
Lua deu um riso fraco, o primeiro após o pesadelo, ao ouvir o apelido carinhoso que ela mesma tinha colocado nele. Era engraçado como aquele homem de 1,85m, corpo malhado, tatuado e que botava medo em marmanjo no morro, se derretia todo quando ela o chamava assim.
— Promete? — ela perguntou, estendendo o dedo mindinho, um gesto infantil que eles mantinham desde o início do namoro.
— Prometo, minha princesa — Kael entrelaçou o seu mindinho ao dela e depois selou a promessa com um beijo demorado em sua testa. — Agora, deita aqui. Vou ficar acordado até você pegar no sono de novo.
— Não precisa, amor... você tá cansado, teve aquele problema no galpão hoje...
— Shhh... silêncio — ele a interrompeu, deitando-a no peito dele novamente e puxando o edredom para cobri-los. — Eu mando no morro, mas você manda em mim. E eu tô dizendo que vou cuidar de você.
Kael começou a cantarolar baixinho uma melodia qualquer, apenas para preencher o silêncio do quarto. Ele passava a mão pelos cabelos pretos e lisos dela, um carinho rítmico que era quase hipnótico. Lua sentiu o pânico do pesadelo ser substituído por uma lassidão morna. O cheiro de Kael, uma mistura de perfume caro e o aroma natural de sua pele, era o seu calmante particular.
— Kael? — ela chamou, já com a voz sumindo pelo sono que voltava.
— Oi, vida.
— Eu te amo... muito.
— Eu te amo mais que tudo nesse mundo, docinho. Dorme com os anjos agora. Se algum monstro aparecer, eu cobro ele pra você.
Lua sorriu, fechando os olhos negros. A segurança dos braços de Kael era a única coisa que importava. No topo da Rocinha, em meio ao luxo e ao perigo, o amor deles era o único território onde a paz era absoluta. Kael permaneceu ali, vigiando o sono dela, o olhar verde fixo na porta e os ouvidos atentos a qualquer ruído, sendo o escudo que ela precisava e o porto seguro que ele só sabia ser quando estava com ela.
Ele só fechou os olhos quando sentiu a respiração de Lua ficar profunda e regular, mas mesmo dormindo, ele não a soltou. Seus corpos estavam entrelaçados, uma união de brancura e bronze, delicadeza e força, provando que, naquela noite, nenhum pesadelo seria capaz de vencer a barreira que o amor de um Allegretti era capaz de erguer.