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Roxy x Ogron

O Cálice de Luz e o Veneno do Destino

A brisa do fim de tarde em Gardenia trazia consigo o cheiro de maresia e o som distante das risadas dos turistas no calçadão. No sótão do Frutti Music Bar, o ambiente era muito mais silencioso. Roxy estava sentada no parapeito da janela, observando o movimento das pessoas lá embaixo. Seus dedos brincavam com o tecido fino da saia, enquanto Arthur, deitado aos seus pés, soltava um suspiro profundo de contentamento.

Pela primeira vez em semanas, ela sentia uma paz genuína. O ferimento em sua testa havia cicatrizado, deixando apenas uma lembrança pálida do ataque no parque. Mas o que mais a surpreendia era a sensação vibrante que corria em suas veias.

— Sabe, Arthur... eu gosto disso — sussurrou ela, fechando os olhos e sentindo a energia da natureza ao seu redor. — Gosto de ser uma fada.

Ela abriu as mãos e uma pequena borboleta de luz lilás se materializou entre suas palmas, batendo as asas antes de se dissipar no ar. Roxy sorriu. Crescer na Terra significava ouvir que magia era apenas coisa de livros infantis, algo para entreter crianças antes de dormirem. Mas agora ela sabia a verdade. Acreditar em magia era muito mais do que um ato de fé; era uma conexão viva. Enquanto houvesse alguém no mundo capaz de olhar para o extraordinário com esperança, ela e as Winx teriam força. Elas eram o eco dos sonhos da humanidade.

A porta do sótão rangeu levemente e Bloom entrou, carregando duas xícaras de chá fumegante. Ela sorriu ao ver a expressão serena no rosto da fada mais jovem.

— Atrapalho? — perguntou Bloom, aproximando-se com a elegância natural que parecia ter herdado de sua linhagem real em Domino.

— De jeito nenhum — respondeu Roxy, endireitando-se. — Eu estava apenas... pensando.

Bloom entregou uma das xícaras a Roxy e sentou-se ao lado dela. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o tipo de silêncio que existia entre irmãs. Desde que Roxy descobrira seus poderes, Bloom se tornara seu porto seguro, a mentora que não apenas ensinava feitiços, mas que entendia o peso de ter a vida virada do avesso por um destino mágico.

— Você parece melhor hoje — comentou Bloom, observando a amiga. — A cura da Flora funcionou bem, mas o brilho nos seus olhos... esse não veio de um feitiço.

Roxy suspirou, o sorriso desaparecendo aos poucos para dar lugar a uma expressão de conflito. Ela olhou para o chá, vendo seu reflexo tremular no líquido escuro.

— Bloom, eu preciso te contar uma coisa. Eu sinto que vou explodir se guardar isso só para mim.

— Pode falar, Roxy. Sabe que estou aqui para você.

— É sobre o Ogron — começou Roxy, a voz falhando por um segundo. — Eu sei o que ele é. Eu sei que ele é um monstro, um bruxo cruel que passou séculos caçando a minha espécie. Eu deveria sentir apenas nojo e ódio por ele. E eu sinto! Mas...

Ela parou, as mãos tremendo levemente ao redor da xícara quente. Bloom não a interrompeu, apenas esperou, seu olhar demonstrando uma paciência infinita.

— Mas desde aquele dia no beco, e depois na festa, e o que aconteceu no parque... — continuou Roxy, as palavras saindo em um fluxo desordenado. — Tem algo nele que me atrai. Uma conexão que não faz sentido. No parque, ele me salvou, Bloom. Ele poderia ter me levado, poderia ter me usado como moeda de troca, mas ele me entregou para vocês. Por que eu sinto que, no meio de toda aquela escuridão, existe algo que está tentando falar comigo?

Bloom colocou a xícara de lado e segurou a mão de Roxy. Ela não parecia chocada ou decepcionada, o que trouxe um alívio imediato ao coração da fada da Terra.

— Roxy, o coração de uma fada é ligado à vida e à empatia — explicou Bloom calmamente. — É natural que você tente encontrar luz até onde parece haver apenas sombras. E sobre o Ogron... bem, eu sei o que é ter sentimentos que parecem lutar contra a lógica.

— Você sabe? — Roxy olhou para ela, surpresa.

— Sim — disse Bloom, com um olhar nostálgico. — O destino nem sempre nos dá o caminho mais fácil. Às vezes, somos atraídos por pessoas que representam tudo o que tememos ou que não podemos ter. Mas você precisa entender uma coisa: uma fada nunca vive apenas para si mesma. Nós temos uma responsabilidade com o mundo, com o equilíbrio entre a luz e as trevas.

— Então eu devo apenas ignorar o que sinto? — perguntou Roxy, com uma nota de tristeza na voz.

— Não disse para ignorar — Bloom apertou a mão dela com carinho. — Mas disse para acreditar em um futuro melhor. O destino é algo raro, Roxy. Ele nos testa, nos quebra e nos refaz. Se existe algo de bom no Ogron, só o tempo e a sua própria força de vontade poderão revelar. Mas não deixe que esse conflito apague quem você é. Você é a última fada da Terra, a esperança de um reino inteiro.

Roxy encostou a cabeça no ombro de Bloom.

— Você é como uma irmã mais velha para mim, Bloom. Obrigada por não me julgar.

— Sempre, Roxy. Sempre.

Enquanto as duas fadas compartilhavam aquele momento de vulnerabilidade, oculto pelas dobras da realidade e protegido por um feitiço de invisibilidade, Ogron observava. Ele estava parado no canto escuro do sótão, fundido às sombras das caixas empilhadas. Sua magia de ocultamento era perfeita, refinada por séculos de prática.

Ele ouvira cada palavra. Cada confissão de Roxy, cada conselho de Bloom.

Ogron sentiu uma pontada de irritação, mas sob ela, algo muito mais perigoso fervilhava: a dúvida. Ele, o líder do Círculo Negro, o homem que subjugara reinos e drenara a essência de centenas de fadas, estava ali, escondido como um espião, apenas para ouvir a voz de uma garota.

— Sentimentos... — murmurou ele para si mesmo, sua voz não passando de um sopro inaudível.

Ele olhou para Roxy. O modo como a luz do pôr do sol batia em seu cabelo marsala, a suavidade de sua expressão enquanto conversava com Bloom. Por um momento, a imagem da fada que ele precisava destruir para alcançar o poder absoluto foi substituída pela imagem de uma mulher que o fazia questionar sua própria natureza.

Séculos de construção. Séculos de ódio acumulado contra as fadas, de planos meticulosos para dominar a magia da Terra. Tudo o que ele construíra, tijolo por tijolo, sobre os pilares da crueldade e da ambição, parecia estar sob a ameaça de um terremoto provocado por um simples par de olhos roxos.

— Ela vai estragar tudo — pensou Ogron, fechando os punhos. — Se eu permitir que isso cresça, se eu permitir que ela se torne algo mais do que uma presa, eu perderei o controle sobre os meus próprios homens. Eu perderei a mim mesmo.

Ele sentiu o desejo de se revelar ali mesmo, de rasgar o véu de invisibilidade e mostrar a Roxy a extensão de sua sombra, para provar a ela — e a si mesmo — que não havia redenção possível para alguém como ele. Mas ele hesitou. E a hesitação era, para Ogron, a maior das derrotas.

Lá embaixo, Roxy se levantou, parecendo mais leve.

— Vou ajudar meu pai no bar — disse ela para Bloom. — Acho que o trabalho manual vai me ajudar a manter os pés no chão.

— Ótima ideia — sorriu Bloom. — Eu vou encontrar as outras na loja de animais.

Quando as duas saíram do sótão, Ogron finalmente saiu das sombras. Ele caminhou até o parapeito da janela onde Roxy estivera sentada. O lugar ainda parecia carregar o calor dela.

— Acreditar em um futuro melhor... — repetiu ele, as palavras de Bloom soando amargas em sua língua. — Que conceito tolo.

Ele olhou para a rua e viu Roxy saindo pela porta dos fundos do bar, acenando para um vizinho. Ela emanava uma luz que não era mágica, mas puramente humana, uma vitalidade que o Círculo Negro nunca conseguiria replicar.

Ogron sabia que deveria matá-la. Deveria aproveitar que ela estava sozinha agora e terminar o que começara séculos atrás. Mas seu corpo não obedecia. Em vez de invocar uma esfera de magia negra, ele apenas observou.

— Você é o meu maior erro, Roxy — sussurrou ele, seus olhos azul-cinzentos brilhando com uma intensidade melancólica. — E, no entanto, eu não consigo desviar o olhar.

Ele se dissolveu em uma névoa escura, deixando o sótão vazio. Mas a semente da dúvida, plantada pela conversa das fadas e regada pelos seus próprios sentimentos conflitantes, já havia começado a brotar. O caçador estava se tornando cativo de sua própria caça, e o destino, como Bloom dissera, estava prestes a testar a todos de formas que nenhum bruxo ou fada poderia prever.

A noite caiu sobre Gardenia, mas para Roxy e Ogron, a verdadeira escuridão — aquela que nasce do conflito entre o que se deve fazer e o que o coração exige — estava apenas começando a se manifestar.

Horas mais tarde, Roxy já estava em seu quarto, tentando dormir. O conselho de Bloom ecoava em sua mente: "O destino é algo raro". Ela se virou na cama, olhando para o teto.

— Se o meu destino é ser uma fada — pensou ela —, qual é o destino dele?

Naquele momento, em seu esconderijo frio e silencioso, Ogron olhava para o Círculo Branco em sua mão. O objeto pulsava com uma luz pura que o queimava, mas ele não o soltava.

— Você não vai me destruir, fadinha — disse ele para o vazio, embora sua voz não tivesse a convicção de antes. — Eu não vou deixar você ser a minha ruína.

Mas, no fundo de sua alma imortal, ele sabia que a batalha contra Roxy era a única que ele não tinha certeza se queria vencer. E para um bruxo como Ogron, essa era a sentença mais perigosa de todas.

O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo som do vento nas árvores, um sussurro que parecia carregar a promessa de Bloom: o futuro estava chegando, e ele não pertenceria nem totalmente à luz, nem totalmente às sombras, mas ao que nasceria do choque entre as duas.

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