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Roxy x Ogron

O Sussurro das Ondas e o Peso da Coroa

A Ilha de Tir Nan Og ainda pulsava com o eco da libertação. Roxy sentia o peso daquele ar antigo e carregado de magia em seus pulmões, mas, acima de tudo, sentia o peso do olhar de Morgana. Descobrir que a mulher de suas visões era sua mãe, a Rainha das Fadas da Terra, deveria ter trazido uma clareza absoluta, um senso de pertencimento que ela buscou desde que o Círculo Branco tocou sua mão. No entanto, enquanto observava Morgana organizar as fadas vingativas, o coração de Roxy parecia um mar revolto. A liberdade de sua mãe era a vitória que as Winx tanto buscaram, mas a frieza no olhar da rainha e o desejo de retaliação contra os bruxos a assustavam.

— Eu preciso de ar — sussurrou Roxy para si mesma, sentindo a claustrofobia daquela glória mágica.

Ela não queria ser uma princesa de um reino esquecido naquele momento; queria ser apenas a garota de Gardenia. Chamou Arthur com um assobio baixo e, ignorando os chamados de Stella sobre "protocolos reais", atravessou o portal de volta para a sua cidade.

O sol de Gardenia estava se pondo, tingindo o horizonte de um laranja caloroso que Tir Nan Og nunca conheceria. Roxy caminhou pelas ruas familiares, sentindo o asfalto sob seus tênis, tentando ancorar sua alma na realidade humana. No caminho, um grupo de crianças apontava desesperadamente para o topo de uma árvore frondosa na praça central.

— Por favor, moça! O Floquinho não consegue descer! — gritou um menininho, com os olhos marejados.

Roxy olhou para cima. Um gatinho branco tremia em um galho perigosamente fino. Sem pensar, ela usou um leve impulso de sua magia, não para voar, mas para tornar seus movimentos leves como os de um felino. Ela escalou a árvore com uma agilidade que surpreendeu os pequenos e, segundos depois, descia com o animal aninhado contra o peito.

— Aqui está — disse ela, entregando o gato ao menino.

— Você é uma fada? — perguntou uma menina, observando o brilho lilás que ainda restava nos olhos de Roxy.

— Talvez — sorriu Roxy, acariciando a cabeça da menina.

Pouco depois, ao atravessar a rua, ela viu um motorista distraído avançar o sinal enquanto uma senhora atravessava. Com um movimento rápido da mão, Roxy sussurrou para o vento, criando uma barreira invisível e suave que retardou o carro por apenas um segundo, o suficiente para a mulher chegar à calçada em segurança. Ninguém percebeu, exceto Arthur, que latiu em aprovação.

— Se os adultos soubessem que é tão mais fácil acreditar nas coisas como as crianças, o mundo estaria bem melhor — murmurou Roxy, observando a simplicidade da gratidão infantil em contraste com a cegueira apressada do mundo moderno.

Ela continuou caminhando até chegar a um trecho isolado da praia, onde as rochas formavam uma espécie de anfiteatro natural voltado para o oceano. Ela se sentou em uma pedra fria, sentindo a maresia umedecer seu rosto. Arthur sentou-se ao seu lado, mas suas orelhas estavam em pé, alertas.

Roxy sabia. Ela sentia aquele formigamento na nuca, a queda sutil na temperatura ambiente que não vinha da brisa marinha. Ogron estava por perto. Ele sempre estava. Desde a batalha no parque e o beijo na festa, a presença dele era como uma sombra persistente, uma nota grave em uma melodia doce.

— Eu sei que você está aí — disse ela para o vazio, sua voz projetada pelo som das ondas. — Não precisa se esconder nas sombras hoje. O mar não guarda segredos.

Houve um momento de silêncio absoluto, e então, o ar atrás dela pareceu se rasgar. Ogron materializou-se com sua elegância predatória, o sobretudo de couro balançando levemente. Ele não se aproximou demais, mantendo uma distância que era, ao mesmo tempo, um respeito e uma ameaça.

— Você libertou a Rainha — disse Ogron, sua voz rouca carregada de um desdém que não conseguia esconder uma ponta de inquietação. — Tir Nan Og respira novamente. Você deveria estar comemorando com suas amigas fadas, não conversando com o vento em uma praia deserta.

Roxy não se virou. Continuou olhando para o horizonte, onde a última linha de sol desaparecia.

— Minha mãe quer vingança, Ogron. Ela quer o seu sangue e o dos seus companheiros. E, depois de tudo o que vocês fizeram, eu não posso dizer que ela está errada.

— A vingança é um prato que as fadas cozinham com muita luz e pouca honestidade — zombou ele, dando um passo à frente. — Mas você não me chamou aqui para falar de Morgana.

Roxy finalmente virou o rosto, encontrando os olhos azul-cinzentos dele. Havia uma vulnerabilidade nela que o pegou de surpresa, uma busca por respostas que não tinham nada a ver com magia ou guerra.

— Você sempre quis ser um bruxo? — perguntou ela, a pergunta saindo direta e sem adornos.

Ogron arqueou uma sobrancelha, o rosto endurecendo.

— O que é isso? Uma entrevista antes da execução?

— Estou falando sério — insistiu Roxy, levantando-se para encará-lo. — O seu passado... o que você teve que perder para ser quem é hoje? Ninguém nasce com tanto ódio no coração a ponto de caçar uma espécie inteira por séculos.

Ogron soltou uma risada seca, mas seus olhos não acompanharam o gesto. Ele caminhou até a beira da água, observando a espuma branca atingir suas botas negras.

— Você é jovem, Roxy. Acha que o mundo se resume a escolhas morais feitas em uma tarde de sol. Eu vivi eras que você nem consegue imaginar. O mundo que eu conheci era um lugar onde o poder era a única moeda de troca. As fadas daquela época... elas não eram tão gentis quanto você. Elas eram tiranas em sua própria luz.

— Isso justifica o que vocês fizeram? — rebateu ela. — Roubar vidas, asas, esperança?

— Justifica a sobrevivência — disse ele, virando-se para ela com uma intensidade abrasadora. — Para ser o que eu sou, eu tive que abrir mão da mortalidade, do medo e de qualquer laço que pudesse me enfraquecer. Eu perdi o direito de envelhecer, de ter uma vida comum como a desse gado humano que você tanto protege.

Roxy deu um passo em direção a ele, ignorando o rosnado baixo de Arthur.

— Não sente falta de ser humano? — a voz dela baixou para um sussurro. — Ou você sempre foi esse bruxo imortal e frio? Não sente falta do calor do sol na pele sem pensar em como usá-lo como arma? Não sente falta de... sentir algo que não seja sede de poder?

Ogron ficou em silêncio. Por um breve momento, a máscara de vilão implacável vacilou. Ele se lembrou, por um átimo de segundo, de uma vida antes do Círculo Negro. De um tempo em que seu nome não evocava terror, mas apenas o som da voz de alguém que ele não conseguia mais recordar o rosto. A magia negra que ele absorvera por séculos agia como um veneno que preservava sua vida enquanto corroía suas memórias mais puras.

— A humanidade é uma fraqueza que eu enterrei há muito tempo — disse ele, embora sua voz não tivesse a convicção habitual. — Por que você se importa, fadinha? Por que desperdiça sua compaixão com o monstro sob sua cama?

— Porque o monstro me salvou no parque — respondeu Roxy, parando a poucos centímetros dele. — Porque o monstro me beijou naquela festa e, por um momento, eu senti que ele estava tão perdido quanto eu.

Ogron estendeu a mão, seus dedos roçando a bochecha de Roxy. O toque era frio, mas a eletricidade que disparou entre eles era quente e caótica.

— Você me faz perguntas perigosas — murmurou ele, aproximando o rosto do dela. — Perguntas que podem fazer um bruxo lembrar do que não deveria.

— Talvez seja exatamente disso que você precisa — disse Roxy, seus olhos roxos fixos nos dele. — Lembrar que, sob todo esse couro e magia negra, ainda existe alguém.

Ogron fechou os olhos por um momento, a testa encostada na dela. O som do mar parecia abafar o resto do mundo. Ele era o caçador, o líder do Círculo Negro, o homem que deveria estar planejando como drenar a última gota de magia daquela garota. Mas ali, sob a luz da lua que começava a surgir, ele se sentia apenas... Ogron. Um homem que, pela primeira vez em séculos, sentia o peso da solidão que sua imortalidade lhe impusera.

— Se eu pudesse voltar atrás — sussurrou ele, tão baixo que apenas ela poderia ouvir —, eu ainda escolheria o poder. Porque o mundo não tem lugar para os fracos, Roxy.

— Mas o mundo também não tem lugar para quem vive apenas nas sombras — retrucou ela.

Ele se afastou abruptamente, a máscara de gelo voltando ao lugar. A vulnerabilidade do momento fora demais para ele processar.

— Recupere suas forças, Roxy. E diga à sua mãe que o Círculo Negro não cairá tão facilmente quanto ela imagina.

— Ogron, espere!

Mas ele já estava se desfazendo em fumaça negra, deixando para trás apenas o frio residual e o som das ondas quebrando nas rochas. Roxy ficou sozinha na praia, com Arthur encostando o focinho em sua mão.

Ela olhou para o mar, o coração mais pesado do que quando chegara. Ela libertara a rainha, encontrara sua mãe, mas a resposta que mais buscava continuava submersa na escuridão daquele bruxo. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar, mas agora, cada batalha seria travada não apenas com magia, mas com a memória daquele toque frio e da pergunta que Ogron não tivera coragem de responder plenamente.

A última fada da Terra suspirou, caminhando de volta para as luzes de Gardenia, sabendo que, em algum lugar nas sombras, o caçador ainda a observava, lutando contra a própria humanidade que ela, teimosamente, insistia em despertar.

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