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Saúde

O Sacrifício do Berço e o Alvorecer Carmesim

O silêncio nos corredores do castelo de Tempest era absoluto, um contraste aterrador com o caos que pulsava dentro da enfermaria real. Rimuru jazia sobre os lençóis de seda, sua pele tão branca que parecia esculpida em mármore gélido. O sangue, que antes jorrava de forma incontrolável, havia sido estancado, mas o custo fora quase insuportável. Shuna, com as mãos trêmulas e os olhos vermelhos de tanto chorar, trabalhava incessantemente ao lado de Diablo. O demônio primordial, outrora a personificação da elegância sádica, agora agia com uma precisão cirúrgica e desesperada, usando sua manipulação de partículas mágicas para tentar remendar a força vital que se esvaía de seu mestre.

Guy Crimson não havia se movido. Ele permanecia sentado ao lado da cama, segurando a mão de Rimuru, transferindo quantidades massivas de sua própria energia para tentar estabilizar o abismo que se abrira no núcleo do Slime. Ele não olhava para ninguém; seu foco estava inteiramente na centelha de vida que teimava em permanecer acesa.

— Ele está estabilizando... — sussurrou Shuna, limpando o suor da testa com o antebraço. — A hemorragia parou, mas a pulsação mágica ainda é errática. O bebê... o bebê está drenando tudo o que ele recebe.

Veldora e Milim estavam em um canto, consultando tomos antigos de medicina draconiana e registros perdidos de eras passadas. Milim, geralmente tão barulhenta, estava em um estado de choque silencioso, folheando páginas com uma velocidade sobrenatural.

— Aqui! — exclamou Veldora, sua voz saindo mais baixa do que o normal. — O "Ritual da Essência Compartilhada". Se pudermos harmonizar as frequências de Guy e Rimuru, a criança parará de ver o corpo de Rimuru como um hospedeiro a ser consumido e começará a reconhecer a fonte externa.

— Faça logo, Veldora! — rugiu Guy, sem desviar os olhos de Rimuru.

O ritual foi executado sob uma tensão que poderia estilhaçar diamantes. Por horas, Tempest segurou o fôlego. Lentamente, a cor começou a voltar, de forma mínima, às bochechas de Rimuru. Ele não mais convulsionava, e a respiração, embora rasa, tornou-se rítmica.

Do lado de fora, Benimaru já havia traçado mapas. Ele não precisava de ordens. O ódio que sentia por Ingrassia era uma fornalha acesa em seu peito. Shion estava sentada no chão, encostada na porta do quarto, abraçando os próprios joelhos, devastada. As crianças — Chloe, Kenya e os outros — recusavam-se a sair de perto. Eles se amontoavam em um canto do quarto, observando a "mãe" com olhos cheios de uma tristeza que nenhuma criança deveria conhecer.

Três dias se passaram naquela vigília sombria. No quarto dia, os cílios de Rimuru tremeram.

— Guy...? — O sussurro foi quase inaudível, mas para o Lorde Demônio, soou como um trovão.

— Estou aqui, Rimuru. Não ouse se esforçar — ordenou Guy, sua voz suavizando-se apenas para ele.

Rimuru abriu os olhos dourados, que pareciam nublados. Ele olhou ao redor, vendo Shuna adormecida em uma cadeira, Diablo organizando frascos com uma expressão sombria e as crianças vigiando-o. A culpa o atingiu como um soco. Ele tentou se lembrar do que acontecera em Ingrassia, mas as memórias eram fragmentos de dor e gritos.

— Eu... eu preciso levantar — disse Rimuru, sua voz ganhando um pouco de força, embora ainda trêmula.

— Você não vai a lugar nenhum — retrucou Guy, apertando sua mão.

— Guy, por favor... — Rimuru implorou, as lágrimas começando a se formar. — Eu me sinto... sufocado. Eu preciso de ar. Preciso ver o céu de Tempest para saber que ainda estamos aqui.

Com um suspiro de derrota, Guy ajudou Rimuru a se sentar. O Slime sentiu o mundo girar violentamente. Cada fibra de seu ser parecia protestar. Ao tentar colocar os pés no chão, Rimuru fraquejou, desabando nos braços de Guy.

— Eu consigo... — insistiu Rimuru, teimoso como sempre.

Apoiado em Guy e, eventualmente, conseguindo dar alguns passos zonzo, Rimuru caminhou até a sacada do quarto real. O ar fresco da noite de Tempest atingiu seu rosto, trazendo um breve alívio. Ele olhou para a cidade iluminada, sentindo a conexão com cada um de seus súditos. Ele começou a chorar silenciosamente.

— Eu falhei com eles, Guy... — soluçou Rimuru, agarrando-se à grade de pedra da sacada. — Eu deixei que me machucassem e agora todos estão sofrendo por minha causa.

— Você não falhou com ninguém — Guy disse, parando atrás dele e envolvendo-o em um abraço protetor. — Eles é que falharam em protegê-lo, e eu falhei em não queimar aquele reino antes.

Rimuru ia responder, mas uma sensação súbita e aterradora o paralisou. Não era apenas uma dor; era uma ruptura. Um calor úmido e estranho escorreu por suas pernas, manchando o tecido fino de seu robe de dormir.

O mundo pareceu parar.

— Guy... — Rimuru arquejou, seus olhos se arregalando em puro terror. — A bolsa... estourou.

Guy Crimson, o ser que enfrentara deuses e dragões sem piscar, empalideceu. Antes que ele pudesse reagir, Rimuru soltou um grito agudo de agonia, suas mãos perdendo a força na sacada. Ele desabou completamente, sua consciência oscilando enquanto o trabalho de parto começava com uma violência avassaladora.

— SHUNA! DIABLO! AGORA! — O grito de Guy ecoou por toda a capital.

O quarto, que antes era um local de recuperação, transformou-se em uma zona de guerra médica. Rimuru foi levado de volta para a cama, e o cenário era de puro desespero. Com apenas sete meses de gestação, o corpo de Rimuru não estava pronto, e a criança, dotada de um poder excessivo, lutava para sair.

— Ele não tem forças para empurrar! — Shuna gritou, suas mãos cobertas de luz curativa. — A energia dele está no limite!

Rimuru gritava. Eram gritos que rasgavam a alma de quem ouvia. Ele se contorcia, o suor misturando-se às lágrimas, sua consciência entrando e saindo de seu corpo. Em seus momentos de lucidez, ele agarrava a túnica de Guy.

— Salve... salve o bebê... — Rimuru implorava entre soluços de dor. — Guy, não importa o que aconteça comigo... salve o nosso filho!

— Cale a boca, Rimuru! — Guy exclamou, as lágrimas escorrendo abertamente por seu rosto, algo que ninguém jamais pensou ver. — Eu não quero um filho se não tiver você! Lute, droga! Lute por mim!

A agonia durou horas. Rimuru sangrava novamente, e a cada grito, a pulsação mágica de Tempest oscilava. Diablo estava de joelhos ao pé da cama, canalizando toda a sua essência para manter o coração de Rimuru batendo, seu rosto transfigurado em uma máscara de sofrimento absoluto.

— Por favor... por favor... — Rimuru sussurrava, sua voz sumindo. — Eu não consigo... dói tanto...

— Você consegue! — Shuna encorajou, chorando. — Só mais uma vez, Rimuru-sama! Pelo bebê!

Com um esforço final que parecia drenar até a última gota de sua alma, Rimuru deu um último grito, um som que pareceu silenciar todo o mundo exterior. E então, o som mais doce e aterrorizante preencheu o quarto: um choro agudo e forte.

O silêncio caiu sobre os presentes. Shuna segurava uma pequena criatura envolta em panos brancos.

— É uma menina... — sussurrou Shuna, com um sorriso frágil em meio ao pranto.

Ela entregou o bebê a Rimuru, que estava à beira do colapso total. Rimuru abriu os olhos com dificuldade. Ao olhar para a pequena vida em seus braços, o tempo parou. A pequena Akane era a imagem cuspida de Guy Crimson. Cabelos de um vermelho vibrante como sangue, e quando ela abriu os olhinhos por um segundo, o mesmo carmesim intenso brilhou ali. Ela era pequena, nitidamente frágil devido ao nascimento prematuro, mas emanava uma aura de poder que não deixava dúvidas sobre sua linhagem.

— Akane... — Rimuru murmurou, uma lágrima caindo sobre o rosto da bebê.

Com um instinto maternal que transcendia sua natureza original, Rimuru aproximou a pequena do peito. Apesar da exaustão extrema, ele conseguiu amamentá-la, sentindo a conexão se selar. O bebê parou de chorar instantaneamente, aninhando-se no calor de seu mestre.

Guy Crimson se aproximou, caindo de joelhos ao lado da cama. Ele escondeu o rosto nas cobertas, próximo ao quadril de Rimuru, e seus ombros tremeram. O Lorde Demônio mais poderoso do mundo estava chorando de alívio, de dor e de um amor que ele nunca soube ser capaz de sentir.

— Ela é linda, Guy... — Rimuru sussurrou, acariciando os cabelos vermelhos de sua filha. — Ela tem os seus olhos...

Guy levantou o rosto, os olhos vermelhos encontrando os dourados de Rimuru. Ele não disse nada, apenas beijou a testa de Rimuru e depois a pequena cabeça de Akane.

Rimuru sentiu o peso do cansaço finalmente vencer. Sua missão estava cumprida; sua filha estava segura. Com um sorriso de paz absoluta, ele fechou os olhos e mergulhou em um sono profundo e restaurador, ainda segurando Akane protetoramente contra o peito.

Lá fora, a tempestade que assolava Tempest dissipou-se, dando lugar a um amanhecer de cores púrpuras e douradas. O Deus de Tempest havia sobrevivido, e uma nova estrela carmesim havia nascido. Mas nas sombras, o juramento de vingança de seus subordinados contra Ingrassia permanecia mais vivo do que nunca. O mundo aprenderia, em breve, que não se toca na joia de um Lorde Demônio e se sai impune.