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Saúde

O Crepúsculo da Alma e o Último Suspiro da Vida

A alegria amarga pelo nascimento de Akane durou apenas o tempo de um suspiro aliviado. O quarto, que por breves segundos pareceu preenchido por uma luz de esperança, mergulhou novamente em uma penumbra de terror absoluto. Rimuru, que ainda segurava a pequena de cabelos vermelhos contra o peito, subitamente arqueou o corpo. O bebê, sentindo o choque térmico e a agitação súbita da mãe, começou a chorar.

— Rimuru? — Guy chamou, sua voz falhando. — Rimuru, olhe para mim!

O rosto do Slime, que já estava pálido, tornou-se cinzento. Seus olhos dourados reviraram, e uma mão foi instintivamente para o ventre, que continuava rígido e protuberante. O pânico de Raphael ecoou como um trovão dentro de sua mente, embora ninguém mais pudesse ouvir.

<< AVISO: Presença de um segundo núcleo vital detectada. Gêmeo bivitelino. O indivíduo está em sofrimento fetal agudo. O hospedeiro não possui energia mágica ou física para um segundo trabalho de parto. Risco de colapso total do núcleo de Rimuru Tempest: 98%. >>

— Não... — Rimuru soluçou, o som saindo como um engasgo. — Tem... tem outro... Guy, tem outro vindo...

O grito que se seguiu não foi humano, nem de monstro; foi o grito de uma alma sendo rasgada ao meio. Rimuru desabou para trás nos travesseiros, as pernas tremendo violentamente. Shuna, que acabara de limpar Akane, quase derrubou a criança ao perceber a poça de sangue que voltava a se expandir sob Rimuru.

— Outro?! — Shuna gritou, entregando Akane apressadamente para uma Alice em prantos, que estava na porta. — Tirem ela daqui! Agora! Diablo, precisamos de mais mana! Ele está morrendo!

O desespero que se seguiu foi uma descida direta ao inferno. Rimuru entrou em um ciclo de agonia que parecia não ter fim. Ele desmaiava pelo choque da dor e, segundos depois, acordava com um espasmo violento, impulsionado pelo instinto de sobrevivência da criança que lutava para sair. O segundo bebê, ao contrário de Akane, parecia estar preso, e cada contração de Rimuru era como se seus ossos estivessem sendo moídos por uma prensa hidráulica.

— Salve... salve o bebê... — Rimuru gemia, o sangue começando a escorrer pelo seu nariz, pintando um rastro macabro sobre seus lábios trêmulos. — Guy... me mate se for preciso... mas tire ele daí...

— Cale a boca! — Guy Crimson rugiu, seu poder vazando de forma tão descontrolada que as paredes do castelo começaram a rachar. — Eu não vou escolher! Você vai ficar e ele também! Droga, Rimuru, não se atreva a fechar os olhos!

Milim Nava, no canto da sala, soluçava alto, as mãos cobrindo os ouvidos para não ouvir os gritos de seu melhor amigo. Veldora, o Dragão da Tempestade, estava paralisado. Ele, que se considerava o ser mais forte, sentia-se um verme diante daquela fragilidade.

— Diablo! — Veldora gritou, as lágrimas douradas escorrendo por seu rosto. — O que fazemos?! Eu não posso usar meu poder, eu vou explodir este quarto!

Diablo, cujas mãos estavam mergulhadas em círculos mágicos negros para sustentar a alma de Rimuru, tinha o rosto transfigurado. Ele havia encontrado um registro proibido na biblioteca de sombras, algo que nem mesmo os deuses ousavam tocar.

— Shuna-sama! — Diablo exclamou, sua voz vibrando com um fervor maníaco. — Existe um método de transferência forçada de vitalidade através do vínculo de nomeação! Veldora-sama, você é o irmão de alma dele! Você precisa segurá-lo! Você servirá como o âncora para que ele não se desintegre enquanto forçamos a saída da criança!

Veldora não hesitou. Ele subiu na cama, posicionando-se atrás de Rimuru, envolvendo o corpo pequeno e frágil com seus braços poderosos. Ele canalizou sua aura de forma tão precisa que o ar ao redor deles começou a brilhar em azul e ouro.

— Eu te seguro, irmão! — Veldora rugiu. — Use minha força! Pegue tudo o que precisar!

O trabalho de parto estendeu-se por quarenta e oito horas excruciantes. O tempo em Tempest parecia ter parado. Ninguém comia, ninguém dormia. O povo, do lado de fora, permanecia ajoelhado sob a chuva que voltara a cair, um pranto coletivo que ecoava pelas montanhas.

Rimuru já não tinha mais voz. Seus gritos haviam se tornado sussurros roucos de dor. Seus olhos estavam fixos no teto, mas ele não via nada. A cada vez que Shuna pedia para ele fazer força, Rimuru sentia que sua própria vida estava sendo expelida. O sangue manchava os lençóis, o chão e as roupas de todos.

— Está vindo... eu vejo a cabeça! — Shuna gritou, sua voz rouca de tanto encorajar seu mestre. — Rimuru-sama, só mais uma vez! Pela vida que você criou!

Rimuru sentiu um último surto de adrenalina, uma fagulha enviada por Raphael que consumiu as últimas reservas de sua gordura corporal e energia espiritual. Com um esforço que fez seus vasos sanguíneos estourarem nos olhos, ele deu um empurrão final.

O choro que ecoou desta vez foi mais suave, mais melódico.

— Sakura... — sussurrou Shuna, chorando de alívio ao segurar a segunda menina.

Sakura era diferente de Akane. Embora tivesse os cabelos vermelhos de Guy, eles eram de um tom mais claro, quase rosado, e quando abriu os olhos, eles eram do mesmo dourado líquido e hipnótico de Rimuru. Ela era a harmonia perfeita entre os dois Lordes Demônios.

Shuna colocou Sakura nos braços de Rimuru. O Slime, tremendo tanto que mal conseguia segurar a filha, sorriu. Foi um sorriso de despedida, um sorriso de quem já havia cruzado o limiar.

— Minha... Sakura... — ele murmurou.

Ele aproximou a pequena para amamentar, um último ato de amor puro. Mas, assim que Sakura se saciou e soltou o peito, o corpo de Rimuru relaxou de uma forma aterrorizante. Ele começou a tossir violentamente, jorrando sangue carmesim sobre as cobertas brancas.

— Rimuru! — Guy gritou, pegando Sakura antes que Rimuru a derrubasse.

O Slime desmaiou, seus olhos revirando para o branco. O brilho de sua alma, que sempre fora como um sol, apagou-se de repente. O silêncio que caiu sobre o quarto foi o som do fim do mundo.

— O pulso sumiu! — Shuna gritou, entrando em pânico total. — Diablo, ele parou! O coração dele parou!

Diablo não respondeu com palavras. Ele lançou-se sobre o peito de Rimuru, suas mãos brilhando com uma magia proibida que consumia sua própria essência primordial.

— VOCÊ NÃO VAI! — Diablo rugiu para o vazio, para a própria morte. — EU NÃO PERMITO QUE O MEU DEUS ABANDONE ESTE MUNDO! VOLTE!

Guy Crimson estava imóvel, segurando as duas filhas contra o peito, as lágrimas caindo sobre as testas das bebês. Ele era o Lorde Demônio mais forte, mas naquele momento, ele era apenas um homem vendo sua razão de viver desaparecer.

— Se ele não voltar... — Guy sussurrou, e sua voz fez com que todos no quarto sentissem o peso de uma extinção iminente — ...eu mesmo destruirei o ciclo da reencarnação para que nada mais nasça neste universo.

Por minutos que pareceram eternidades, Diablo e Shuna lutaram contra o inevitável. Veldora mantinha sua mão sobre o peito de Rimuru, enviando pulsações de energia pura para tentar reativar o núcleo.

De repente, um suspiro fraco, como o bater de asas de uma borboleta, escapou dos lábios de Rimuru.

— Ele voltou... — Shuna soluçou, caindo de joelhos. — Ele voltou...

Rimuru não acordou. Ele entrou em um estado de coma profundo, uma estase necessária para que seu corpo pudesse se reconstruir do trauma inimaginável. Durante uma semana inteira, o castelo de Tempest viveu em uma penumbra de incerteza.

Rimuru acordava apenas por instinto, em intervalos de poucas horas. Seus olhos se abriam, mas não focavam em Guy ou nos amigos. Ele apenas estendia os braços fracos.

— As meninas... — ele balbuciava.

Guy trazia Akane e Sakura. Rimuru as amamentava em silêncio, as lágrimas escorrendo por seu rosto pálido enquanto ele acariciava as pequenas cabeças vermelhas. Era como se ele estivesse transferindo não apenas leite, mas cada gota de amor e proteção que lhe restava. Assim que elas terminavam, ele desmaiava novamente, mergulhando no abismo da inconsciência antes mesmo que Guy pudesse dizer uma palavra de conforto.

As crianças de Ingrassia — Chloe e os outros — passavam os dias sentadas na porta do quarto. Elas não falavam. Elas apenas esperavam, sentindo o peso da culpa por terem deixado que a professora fosse para aquele lugar horrível.

No sétimo dia, o sol nasceu com uma intensidade diferente sobre Tempest.

Rimuru abriu os olhos e, desta vez, o dourado estava lá. Não era o brilho ofuscante de antes, mas era uma luz firme, resiliente. Ele olhou para o lado e viu Guy sentado na poltrona, dormindo com Akane no colo, enquanto Sakura dormia no berço ao lado da cama, vigiada por um Diablo que parecia ter envelhecido mil anos em uma semana.

— Guy... — Rimuru chamou, sua voz ainda rouca, mas clara.

Guy acordou instantaneamente. O Lorde Demônio ruivo aproximou-se da cama com uma velocidade que beirava o teleporte. Ele olhou para Rimuru, procurando qualquer sinal de que aquilo era apenas outro breve momento de consciência.

— Você está aqui? — Guy perguntou, sua voz tremendo.

— Eu estou aqui — Rimuru respondeu, estendendo a mão para tocar o rosto de Guy. — Desculpe pela demora. Acho que... o parto foi um pouco mais difícil do que eu esperava.

Guy soltou uma risada curta e seca, que rapidamente se transformou em um soluço. Ele encostou a testa na de Rimuru, as lágrimas de ambos se misturando.

— Nunca mais — Guy sussurrou. — Nunca mais eu deixo você sair do meu lado.

— Eu sei — Rimuru sorriu, olhando para as filhas. — Mas agora... eu acho que precisamos conversar sobre o que aconteceu em Ingrassia.

A temperatura no quarto caiu drasticamente. Diablo, que estava em silêncio até então, levantou-se e fez uma reverência profunda, seus olhos brilhando com uma promessa de dor eterna.

— Rimuru-sama — disse Diablo, com uma cortesia que escondia um monstro sedento de sangue. — Os preparativos já foram feitos. Esperamos apenas o seu restabelecimento para que o senhor possa decidir se prefere que Ingrassia seja apagada da história... ou se deseja que eu transforme o reino em um teatro de agonia perpétua.

Rimuru olhou para suas mãos, ainda pálidas, e depois para a paz no rosto de Sakura e Akane. Ele lembrou-se do tinteiro, dos insultos, da dor física e do medo de perder suas filhas. A doçura que sempre definira Rimuru Tempest ainda estava lá, mas agora, estava temperada com o aço frio de uma mãe que quase perdeu tudo.

— Diablo — Rimuru disse, sua voz calma enviando arrepios até em Guy. — Não destrua o reino. Há inocentes lá.

— Como desejar, meu mestre — Diablo respondeu, embora houvesse uma nota de decepção em sua voz.

— No entanto — Rimuru continuou, seus olhos brilhando com uma fúria divina —, os nobres que me atacaram, os alunos que riram da minha dor e o conselho que exigiu meu retorno... traga todos para cá. Eu quero que eles vejam o que quase destruíram. E depois... eles serão seus, Diablo. Faça o que quiser.

O sorriso que se abriu no rosto de Diablo foi a coisa mais aterrorizante que já existiu em Tempest.

— Com o maior prazer, Rimuru-sama.

Rimuru recostou-se nos travesseiros, sentindo Akane ser colocada em seus braços por Guy. A paz estava voltando para Tempest, mas para os inimigos do Slime, o pesadelo estava apenas começando. O Deus de Tempest havia sobrevivido ao parto de sangue, e agora, o mundo conheceria o preço de sua ira.