Saúde
O Acordar da Mãe e o Refúgio no Peito do Rei
A luz que filtrava pelas cortinas de seda da ala real de Tempest era suave, carregada com o perfume de flores de cerejeira e o aroma reconfortante de incenso purificador. Rimuru estava desperto. Não era aquela consciência fragmentada e dolorosa dos dias anteriores, mas um despertar real, onde os contornos do quarto não giravam e a náusea constante dera lugar a um cansaço profundo, mas suportável.
Ao seu lado, em dois berços esculpidos em madeira sagrada e adornados com runas de proteção, Sakura e Akane dormiam. Rimuru as observava com um olhar que transbordava uma ternura quase dolorosa. Suas filhas. O fruto de um amor improvável entre um Slime e o Lorde Demônio mais antigo do mundo.
— Elas são perfeitas, não são? — A voz de Rimuru saiu como um sopro, ainda frágil.
Guy Crimson, que estava sentado em uma poltrona próxima, fechou o livro que fingia ler e se aproximou. Ele parecia ter recuperado sua imponência, mas as olheiras leves denunciavam o preço emocional que pagara.
— Elas têm a sua teimosia — Guy respondeu, sentando-se na borda da cama e acariciando a mão pálida de Rimuru. — E a minha beleza, felizmente.
Rimuru soltou uma risada fraca, que terminou em uma pequena careta de desconforto.
— Eu quero vê-los, Guy. As crianças. Souei me disse que eles não saem da porta.
— Você mal consegue se manter sentado, Rimuru.
— Por favor. Eles precisam disso. Eu sinto a culpa deles daqui.
Com um suspiro de rendição, Guy abriu as portas duplas do quarto. Quase instantaneamente, Chloe, Kenya, Ryota, Gale e Alice entraram. Eles caminhavam na ponta dos pés, como se o chão fosse feito de vidro. Ao verem Rimuru sentado, apoiado em vários travesseiros, as lágrimas que eles tentavam segurar há dias começaram a transbordar.
— Professora... — Alice soluçou, correndo para o lado da cama, mas parando abruptamente com medo de machucá-lo.
— Venham aqui, meus pequenos — Rimuru chamou, estendendo os braços devagar.
O encontro foi um mar de emoções. Rimuru puxou cada um deles para um abraço cuidadoso. Ele sentia os ombros de Kenya tremerem contra seu peito e as mãos de Chloe apertarem seu robe.
— Me desculpem... — Kenya balbuciou entre soluços. — Se tivéssemos sido mais fortes, se tivéssemos impedido aqueles idiotas...
— Shh, não digam isso — Rimuru murmurou, beijando o topo da cabeça de cada um. — Vocês não tiveram culpa. Eu sou o adulto aqui, eu deveria ter me cuidado melhor. Mas olhem... olhem o que nasceu de toda essa confusão.
Ele apontou para os berços. As crianças se aproximaram, maravilhadas. Akane, com seu cabelo vermelho intenso, e Sakura, com seu tom rosado e aura serena.
— Elas são... pequenas — Ryota observou, limpando o nariz na manga.
— E muito poderosas — Guy acrescentou, colocando a mão no ombro de Ryota. — Elas são filhas de dois Lordes Demônios. Se vocês quiserem protegê-las no futuro, terão que treinar muito mais.
Rimuru sorriu ao ver Guy interagindo com as crianças. O Lorde Demônio Vermelho, que costumava olhar para a humanidade com tédio ou desprezo, agora consolava órfãos com uma paciência inesperada.
— Eu quero levá-los para o quarto deles — disse Rimuru, tentando se impulsionar para frente.
— Rimuru, não — Guy advertiu, mas o olhar determinado do Slime o calou.
A caminhada foi um exercício de paciência e resistência. Guy segurava Rimuru pela cintura, praticamente carregando metade de seu peso, enquanto Shuna e Shion seguiam atrás com as bebês. Rimuru precisou parar três vezes no corredor. Na segunda parada, seu nariz começou a sangrar, um filete vermelho descendo sobre seu lábio superior.
— Droga, Rimuru — Guy resmungou, limpando o sangue com um lenço de seda. — Eu disse que era cedo demais.
— Eu estou bem... só... um pouco de tontura — Rimuru ofegou, fechando os olhos até que o mundo parasse de balançar.
Quando finalmente chegaram ao quarto das crianças, Rimuru fez questão de ajudar cada um a se acomodar. Ele sentou-se na borda da cama grande onde todos costumavam dormir juntos quando estavam assustados.
— Hoje vocês dormem aqui — disse Rimuru, sua voz falhando um pouco. — E amanhã, prometo que tomaremos café juntos no jardim.
Ele ficou ali até que o último deles pegasse no sono, exaustos pelo estresse dos últimos dias. Somente então ele permitiu que Guy o levasse de volta.
No caminho, o silêncio do castelo era apenas quebrado pelo som dos passos de Guy. Rimuru sentia-se cada vez mais pesado. Quando chegaram à suíte real, o banho foi uma necessidade silenciosa. Guy, com uma delicadeza que contrastava com sua natureza destrutiva, ajudou Rimuru a se despir. Ele lavou o corpo do Slime com água morna aromatizada, cuidando das cicatrizes mágicas que ainda estavam se fechando em seu ventre.
— Você está sendo muito cuidadoso — Rimuru comentou, sentindo a água morna relaxar seus músculos tensos.
— Eu quase perdi você — Guy disse, sua voz soando estranhamente oca no banheiro de mármore. — Eu vi você morrer, Rimuru. Por alguns minutos, o seu núcleo estava frio.
Rimuru não soube o que responder. Ele apenas se inclinou para trás, encostando a cabeça no ombro de Guy.
Após o banho, Guy o vestiu com uma camisola de seda azul clara e o carregou de volta para a cama. O esforço da pequena caminhada havia cobrado seu preço; Rimuru estava pálido novamente, e sua respiração estava ruidosa.
— Deite-se — Guy ordenou, cobrindo-o com as mantas de pele de lobo estelar.
Rimuru acomodou-se, sentindo o colchão macio abraçar seu corpo dolorido. Guy deitou-se ao seu lado, puxando-o para perto, mas com cuidado para não pressionar seu abdômen. O silêncio da noite foi preenchido apenas pelo som rítmico da respiração das bebês nos berços próximos.
— Rimuru — Guy começou, sua voz baixa e carregada de uma seriedade sombria. — Eu estive pensando.
— Sobre o quê?
— Sobre o futuro. Eu vi o que essa gravidez fez com você. Eu vi o seu corpo se desfazer para sustentar a magia daquelas duas.
— Guy, eu estou bem agora...
— Não, você não está — Guy o interrompeu, virando-se para encará-lo. Os olhos vermelhos do Lorde Demônio brilhavam com uma dor crua. — Você é um Slime, um ser de energia pura, mas mesmo você tem limites. Se você me pedisse para ter outro filho amanhã, eu diria não. Eu prefiro passar a eternidade sozinho do que passar por aquela semana outra vez.
Rimuru sentiu o coração apertar. Ele levou a mão ao rosto de Guy, acariciando a mandíbula forte.
— Eu entendo — Rimuru sussurrou. — Eu também tive medo. Mas olhe para elas, Guy. Valeu a pena.
— Valeu a pena porque você voltou — Guy retrucou, fechando os olhos e apreciando o toque de Rimuru. — Se você tivesse partido, eu teria reduzido Ingrassia e todo este continente a pó. Eu não teria sido um pai para elas, Rimuru. Eu teria sido o monstro que o mundo sempre temeu.
— Mas você não é mais esse monstro — Rimuru disse, inclinando-se para dar um beijo leve e casto nos lábios de Guy. — Você é o pai da Akane e da Sakura. E você é o meu Guy.
Guy soltou um longo suspiro, deixando a tensão deixar seus ombros. Ele abraçou Rimuru com um pouco mais de firmeza, escondendo o rosto no pescoço do Slime, inspirando o cheiro de mel e magia que emanava dele.
— Só prometa que não vai me assustar assim de novo — murmurou Guy.
— Eu prometo — Rimuru sorriu, sentindo o cansaço finalmente vencer a batalha contra sua consciência. — Vou ficar aqui por muito tempo.
Eles ficaram assim por algum tempo, dois dos seres mais poderosos do mundo, reduzidos à simplicidade de um casal que acabara de sobreviver a uma tormenta. Rimuru sentia o calor de Guy e a paz que emanava do vínculo que compartilhavam.
No meio da noite, o choro suave de Sakura despertou Rimuru. Ele tentou se levantar, mas Guy já estava de pé antes que ele pudesse se apoiar nos cotovelos.
— Fique deitado — disse Guy. — Eu trago elas.
Rimuru observou, com um sorriso sonolento, Guy Crimson — o temido Lorde Demônio Vermelho — pegando cuidadosamente a pequena Sakura e depois Akane, que começara a se espreguiçar. Ele as trouxe para a cama, colocando-as entre ele e Rimuru.
O Slime as amamentou, sentindo a energia drenar levemente, mas desta vez era uma troca doce, não um roubo violento de sua vitalidade. Akane segurou o dedo mindinho de Rimuru com sua mãozinha minúscula, enquanto Sakura mantinha os olhos dourados fixos no rosto da mãe, como se estivesse memorizando cada traço.
— Elas são tão lindas — Rimuru sussurrou, sentindo as pálpebras pesarem.
— São — concordou Guy, vigiando cada movimento.
Após as meninas estarem satisfeitas e dormirem novamente entre os dois, Rimuru finalmente relaxou por completo. Ele sentia que Tempest estava segura, que seus subordinados estavam vigilantes e que sua família estava completa.
Antes de mergulhar no sono profundo, Rimuru sentiu Guy beijar sua testa e sussurrar algo sobre como o mundo nunca mais seria o mesmo. Rimuru não se importava. O mundo poderia mudar, reinos poderiam cair e novos deuses poderiam surgir, mas enquanto ele tivesse aquele calor ao seu lado e o som das respirações de suas filhas, ele estaria em casa.
A recuperação seria lenta, e as cicatrizes de Ingrassia — tanto físicas quanto mentais — levariam tempo para desaparecer. Mas ali, sob a proteção do Lorde Demônio Vermelho e no coração da nação que ele mesmo construíra, Rimuru Tempest finalmente encontrou o descanso que sua alma divina tanto clamava. E na manhã seguinte, ele sabia, o sol brilharia novamente sobre uma Tempest que nunca estivera tão unida.