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Saúde

O Frágil Equilíbrio da Vida e o Peso da Coroa

O despertar de Rimuru foi marcado pelo som agudo e insistente de um choro que parecia vibrar em suas próprias fibras mágicas. Abrindo os olhos lentamente, ele sentiu como se seu corpo fosse feito de chumbo derretido. A luz que entrava pelas janelas da suíte real de Tempest era suave, mas ainda assim incomodava sua visão sensível. Ao seu lado, no berço de madeira sagrada, Akane reclamava com toda a força de seus pequenos pulmões, enquanto Sakura, a gêmea mais calma, apenas se mexia inquietamente.

Rimuru tentou se impulsionar para cima, apoiando os cotovelos no colchão macio. No entanto, o mundo girou violentamente. Uma náusea súbita subiu por sua garganta e uma pontada aguda em seu ventre — onde a cicatriz mágica do parto ainda pulsava — o fez soltar um gemido baixo.

— Guy… — sussurrou Rimuru, sua voz mal passando de um fio rouco.

O Lorde Demônio Vermelho, que estava em um sono leve em uma poltrona próxima, sobressaltou-se instantaneamente. Em um borrão de movimento carmesim, ele estava ao lado da cama, suas mãos grandes e firmes segurando os ombros de Rimuru antes que ele caísse de volta nos travesseiros.

— Não se mexa, Rimuru. Você ainda está instável — disse Guy, sua voz carregada de uma preocupação que ele raramente demonstrava ao mundo.

— Akane está chorando… eu preciso… — Rimuru tentou novamente, mas a tontura o forçou a fechar os olhos.

— Eu cuido delas. Fique parado. — Guy se afastou por um momento, pegando Akane com uma delicadeza surpreendente para alguém conhecido como o "Lorde da Destruição". Ele a aninhou no braço esquerdo e, com o direito, pegou Sakura, que começava a despertar.

Rimuru observou, com um sorriso fraco e pálido, enquanto o ser mais poderoso do mundo balançava suavemente as duas filhas. O choro de Akane diminuiu para soluços baixinhos até cessar. Guy as colocou cuidadosamente na cama, ao lado de Rimuru, para que ele pudesse senti-las.

— Elas estão com fome — murmurou Rimuru.

Com a ajuda de Guy para se posicionar, Rimuru amamentou as meninas. Ele sentia cada gota de sua energia sendo drenada; embora fosse um processo natural, para seu corpo devastado, parecia um esforço hercúleo. Quando elas finalmente adormeceram novamente, ele olhou para Guy com determinação.

— Eu quero descer. Quero tomar café com as crianças e com o pessoal.

— Rimuru, você mal consegue manter a cabeça erguida — Guy protestou, cruzando os braços. — Shuna foi clara sobre o repouso.

— Se eu ficar trancado aqui, vou enlouquecer. Eu preciso ver que Tempest está bem. Por favor, Guy… me ajude.

Relutante, Guy cedeu. Ele sabia que a teimosia de Rimuru era uma das poucas coisas que o parto não havia diminuído. Com extrema paciência, Guy ajudou Rimuru a se sentar na beira da cama. O Slime ficou ali por longos minutos, esperando que a sala parasse de girar.

— Tudo bem? — perguntou Guy, sustentando o peso de Rimuru.

— Sim… só… vamos devagar.

O trajeto até a sala de jantar foi uma provação. Rimuru insistiu em caminhar, mas a cada dez passos, precisava parar e se apoiar na parede ou em Guy, ofegante. No meio do corredor, ele sentiu algo quente escorrer por seu lábio superior.

— Rimuru! — Guy parou, pegando um lenço e pressionando contra o nariz do Slime. — Você está sangrando. Chega, vamos voltar.

— Não. É só o excesso de esforço mágico. Eu estou bem — mentiu Rimuru, embora suas pernas tremessem como gelatina.

Quando finalmente entraram na sala de jantar, um silêncio reverente caiu sobre o recinto. Benimaru, Shuna, Shion e as crianças de Ingrassia — que agora viviam sob a proteção direta de Tempest — levantaram-se de imediato. O alívio nos rostos deles era visível, mas a preocupação logo tomou o lugar ao verem o quão pálido e frágil seu mestre parecia.

— Rimuru-sama! — Shion correu para ajudar, mas Guy lançou-lhe um olhar que a fez estacar no lugar.

— Sentem-se — pediu Rimuru, com um sorriso trêmulo. — Eu só… queria companhia hoje.

O café da manhã foi silencioso. Rimuru tentou comer um pouco da sopa que Shuna preparara especialmente para ele, mas cada colherada parecia uma luta contra seu próprio estômago. Ele beliscou apenas alguns pedaços de pão macio.

— Rimuru-sama, por favor, coma mais um pouco — pediu Shuna, com os olhos marejados.

— Eu não consigo, Shuna. Se eu comer mais… eu vou acabar passando mal — ele admitiu, deixando a colher de lado.

Após a refeição, Rimuru sentiu uma necessidade desesperada de ar puro. Ele pediu a Guy que o levasse para uma pequena caminhada pelos jardins centrais de Tempest. Guy o ajudou a vestir um vestido azul leve, que escondia sua silhueta ainda debilitada, mas realçava a palidez de sua pele.

O passeio foi curto, mas penoso. Rimuru caminhava de braço dado com Guy, parando a cada poucos metros para recuperar o fôlego. Os cidadãos de Tempest, ao verem seu deus caminhando entre eles, curvavam-se profundamente, muitos chorando de emoção ao vê-lo vivo, mas o coração de todos apertava ao notar sua fragilidade.

Perto da fonte central, a visão de Rimuru escureceu subitamente. Seus joelhos cederam e ele teria atingido o chão se Guy não o tivesse capturado em um movimento reflexo.

— Rimuru! — O grito de Guy atraiu a atenção de todos ao redor.

— Eu… eu só apaguei por um segundo — balbuciou Rimuru, o rosto agora da cor de cinzas.

— Acabou. Você vai voltar para o quarto agora — sentenciou Guy, pegando-o no colo no estilo noiva e caminhando a passos largos de volta ao castelo.

Ao chegarem na ala médica, Shuna já os esperava, alertada pela rede de comunicação de Souei. Ela estava com uma expressão severa que raramente dirigia a Rimuru. Após uma série de exames diagnósticos e análises de fluxo de mana, ela suspirou, cruzando os braços.

— Rimuru-sama, o senhor tem noção do quão perto chegou de um colapso total do núcleo? — perguntou ela, sua voz firme mas embargada.

— Eu só queria caminhar um pouco, Shuna…

— O seu corpo não é mais o mesmo de antes do parto — explicou ela, mostrando os relatórios mágicos. — A energia de Guy-sama e a sua criaram uma sobrecarga que danificou seus canais de circulação de mana. Eles estão se regenerando, mas o senhor está forçando o processo.

Guy, que estava encostado na parede com uma expressão sombria, interveio:

— Diga as regras, Shuna. Ele precisa ouvir de você.

Shuna assentiu e olhou seriamente para Rimuru.

— A partir de hoje, estas são as restrições absolutas: Primeiro, o senhor não pode ficar sem supervisão em momento algum. Se cair e não houver ninguém por perto, seu corpo pode não ter energia para se autorreparar.

Rimuru suspirou, mas assentiu.

— Segundo — continuou Shuna —, caminhadas de no máximo dez minutos, uma vez por dia, e apenas se não houver tontura. Terceiro, o senhor está proibido de se abaixar ou pegar qualquer peso, e isso inclui as bebês por longos períodos enquanto estiver de pé.

— Mas eu preciso segurá-las! — protestou Rimuru.

— O senhor pode segurá-las sentado ou deitado — retrucou Shuna sem hesitar. — Quarto, e talvez o mais importante: nada de fortes emoções. Seu coração e seu núcleo mágico estão em uma sincronia frágil. Qualquer pico de estresse ou agonia pode causar uma síncope.

Rimuru olhou para as próprias mãos, que ainda tremiam levemente sobre o lençol. Ele, o ser que desafiara o destino e construíra uma nação do nada, agora estava reduzido a uma lista de proibições para garantir sua sobrevivência.

— Quanto tempo isso vai durar? — perguntou ele em voz baixa.

— Meses, talvez — respondeu Shuna, suavizando o tom. — O senhor deu à luz a duas existências de nível catástrofe. O preço foi alto. Agora, o senhor precisa deixar que nós cuidemos de você.

Guy aproximou-se da cama assim que Shuna saiu para preparar novos tônicos. Ele sentou-se ao lado de Rimuru e puxou sua cabeça para apoiar em seu ombro.

— Você ouviu ela. Se eu te pegar tentando fugir para o escritório ou para a cidade de novo, eu mesmo vou te amarrar nesta cama — ameaçou Guy, mas havia um beijo suave depositado no topo da cabeça de Rimuru logo em seguida.

— Eu me sinto tão inútil assim… — confessou Rimuru, fechando os olhos e aproveitando o calor de Guy.

— Você não é inútil. Você é o centro deste mundo, Rimuru. Sem você, Tempest é apenas uma coleção de monstros e eu sou apenas um demônio entediado. Sua única função agora é existir e se curar.

Os dias que se seguiram foram uma rotina lenta e, por vezes, frustrante para o Slime. Rimuru passava a maior parte do tempo na varanda de seu quarto, observando o movimento da cidade lá embaixo. Guy raramente saía de seu lado, agindo como um guardião silencioso. Diablo e Souei traziam relatórios simplificados, evitando qualquer notícia que pudesse causar o estresse mencionado por Shuna.

Certa tarde, enquanto Rimuru estava sentado em uma poltrona confortável, amamentando Sakura, ele percebeu o quanto o clima em Tempest havia mudado. Não havia mais a euforia festiva constante; havia uma proteção silenciosa, um cuidado mútuo. Todos sabiam que seu deus estava ferido, e a lealdade deles se manifestava em silêncio e eficiência.

— Elas estão crescendo rápido — comentou Rimuru, olhando para Sakura, que agora abria os olhinhos dourados e tentava agarrar uma mecha de seu cabelo azul-prateado.

— Elas têm um apetite voraz por mana — disse Guy, que estava lendo um relatório de inteligência. — Em breve, teremos que começar a ensiná-las a controlar a aura, ou elas vão acabar destruindo o berçário sem querer.

Rimuru riu, mas a risada foi interrompida por uma tosse seca. Guy estava ao seu lado em um segundo, oferecendo-lhe um copo de água com essência de cura.

— Devagar — instruiu Guy.

— Eu estou bem, sério. É só um pigarro.

— Rimuru, você não precisa fingir força comigo. Eu estava lá quando você desmaiou nos braços de Diablo. Eu estava lá quando seu coração parou. Eu conheço cada fraqueza sua agora.

Rimuru olhou para Guy e viu a exaustão nos olhos do Lorde Demônio. Guy não dormia direito desde o incidente em Ingrassia. Ele estava sempre em alerta, sempre pronto para segurar Rimuru se ele fraquejasse.

— Me desculpe por te dar tanto trabalho — disse Rimuru sinceramente.

— Trabalho? — Guy sorriu de lado, um sorriso raro e genuíno. — Eu esperei milênios por algo que não fosse tédio. Você me deu uma família, Rimuru. Cuidar de você não é trabalho, é a única coisa que me mantém são neste mundo caótico.

Rimuru recostou--se no peito de Guy, sentindo a batida estável do coração do demônio. Ele ainda se sentia fraco, ainda tinha episódios de tontura e seu corpo ainda parecia não lhe pertencer completamente, mas ali, naquele abraço, ele sentia que o tempo não importava.

A recuperação seria longa. Haveria dias em que ele mal conseguiria se levantar e outros em que o nariz sangraria apenas por tentar usar um feitiço de comunicação simples. Mas ele tinha Guy, tinha suas filhas e tinha um povo que o amava acima de todas as coisas.

— Guy? — chamou Rimuru, quase pegando no sono.

— Sim?

— Quando eu estiver melhor… eu quero voltar para Ingrassia. Não para dar aulas, mas para mostrar a eles que o "professor fraco" sobreviveu.

Guy apertou o abraço, seus olhos brilhando com uma chama perigosa.

— Nós voltaremos. Mas da próxima vez, eles não verão o professor. Eles verão o Rei de Tempest e o seu consorte. E eu garanto a você, Rimuru… eles nunca mais vão se esquecer do preço da insolência.

Rimuru não respondeu; ele já havia adormecido, exausto pelo simples ato de conversar. Guy permaneceu ali, imóvel, servindo de pilar para o ser que era sua luz, enquanto as pequenas herdeiras do caos dormiam tranquilamente, alheias ao poder que carregavam e ao sacrifício que seu nascimento custara. Tempest permanecia em vigília, protegendo o repouso de seu deus ferido, aguardando o dia em que a Estrela de Prata voltaria a brilhar com toda a sua glória.