Saúde
O Despertar da Rainha e a Carícia do Caos
A luz da manhã em Tempest atravessava as cortinas de seda, pintando o quarto real com tons de ouro e lavanda. Rimuru, recostado em uma montanha de travesseiros macios, observava com um sorriso pálido a movimentação ao seu redor. O quarto, que por dias fora um santuário de silêncio e desespero, agora estava cheio de vida. Shuna trocava as pequenas Sakura e Akane com uma eficiência divina, enquanto Benimaru e Shion permaneciam em pé junto à porta, alternando olhares de adoração absoluta para o mestre e de vigilância feroz para qualquer ameaça imaginária.
— Rimuru-sama, por favor, experimente este caldo de ervas — disse Shuna, aproximando-se com uma tigela fumegante. — Ele ajudará a restaurar o fluxo de mana que as pequenas ainda estão drenando de você.
— Obrigado, Shuna. — Rimuru aceitou a tigela, sentindo o calor aquecer suas mãos finas. — Como estão as coisas lá fora? O povo ainda está preocupado?
— Eles celebram sua melhora todos os dias, mestre — respondeu Benimaru, curvando a cabeça. — Mas a ordem é de silêncio absoluto perto da ala real. Ninguém quer arriscar acordar as princesas ou perturbar seu descanso.
Rimuru riu baixinho, um som que ainda parecia um pouco forçado devido ao cansaço em seu peito. Ele olhou para as filhas. Akane tinha os cabelos vermelhos vibrantes de Guy e já demonstrava uma personalidade impaciente, chutando as cobertas. Sakura, com seu tom rosado e olhos dourados, apenas observava o teto com uma serenidade que lembrava o próprio Rimuru.
— Eu me sinto melhor hoje — declarou Rimuru, tentando se impulsionar para frente. — Quero ver as crianças de Ingrassia. Soube que elas estão brincando no jardim interno.
— Rimuru-sama, o senhor ainda está muito fraco — Shion interveio, sua voz tremendo de preocupação. — Guy-sama nos mataria se permitíssemos que o senhor se esforçasse.
— Guy foi resolver alguns assuntos — Rimuru deu de ombros, embora soubesse que "assuntos" para Guy geralmente envolviam intimidação diplomática. — Só uma caminhada curta. Por favor.
Com muita relutância e o apoio constante de Shuna e Benimaru, Rimuru conseguiu se levantar. O chão parecia estranhamente distante e suas pernas tremiam como gelatina. Cada passo era uma vitória contra a gravidade. Ele caminhou pelo corredor, parando várias vezes para recuperar o fôlego, até chegar à varanda que dava para o jardim interno. Lá embaixo, as crianças — Chloe, Kenya e os outros — corriam atrás de um slime de treinamento, rindo alto.
Ao ver a alegria deles, Rimuru sentiu um calor no coração que quase compensava a dor persistente em seu ventre. Ele se apoiou no parapeito de mármore, sentindo a brisa fresca de Tempest acariciar seu rosto. No entanto, a fadiga era traiçoeira. No meio de um sorriso, sua visão escureceu por um segundo.
— Rimuru-sama! — Benimaru o segurou antes que seus joelhos atingissem o chão.
— Eu… eu estou bem. Só uma tontura — mentiu Rimuru, o suor frio brotando em sua testa. — Acho que exagerei.
Ele decidiu desistir da caminhada e pediu para ser levado de volta. No caminho, porém, um estrondo alto vindo de uma construção próxima — provavelmente Veldora tentando "ajudar" em algum projeto — ecoou pelo castelo. O susto foi súbito e instintivo. Rimuru deu um pulo involuntário, e essa súbita explosão de movimento foi o golpe final para seu corpo exausto. A força abandonou suas pernas completamente.
— Guy… — ele sussurrou antes que a consciência se esvaísse, mergulhando na escuridão familiar.
Quando Rimuru abriu os olhos novamente, o sol já estava se pondo, tingindo o quarto de carmesim. Ele ouviu vozes baixas vindo do canto da sala. Guy, Veldora e Shuna estavam em uma conferência improvisada.
— Eu digo que devemos reduzir aquela escola a cinzas! — a voz de Veldora vibrou, embora ele estivesse tentando sussurrar. — Como ousam tratar meu irmão de alma daquela forma? Eu senti o desespero dele!
— Cinzas é pouco, dragão — a voz de Guy era fria como o gelo eterno. — Diablo já foi enviado. Ele tem ordens claras para não matar todos imediatamente. A morte seria uma misericórdia que eles não merecem. Ele vai garantir que cada nobre que tocou no Rimuru ou que riu de sua condição sinta o peso do desespero por décadas.
— Guy-sama, Veldora-sama — Shuna interrompeu com firmeza —, o foco agora deve ser a estabilidade de Rimuru-sama. Ele tentou andar hoje e o núcleo dele quase entrou em colapso novamente. Ingrassia pagará, mas Tempest precisa de seu líder vivo.
Rimuru soltou um gemido baixo, chamando a atenção deles. Em um segundo, Guy estava ao seu lado, seus olhos vermelhos brilhando com uma mistura de fúria e alívio.
— Você é o Slime mais teimoso que já existiu — disse Guy, sentando-se na beira da cama e pegando a mão de Rimuru.
— Eu só queria ver o sol — defendeu-se Rimuru, sua voz ainda frágil.
Veldora e Shuna se retiraram discretamente, sabendo que o casal precisava de privacidade. O silêncio caiu sobre o quarto, quebrado apenas pela respiração rítmica das bebês nos berços. Guy não soltou a mão de Rimuru. Pelo contrário, ele parecia mais carente do que o habitual, uma vulnerabilidade que ele só mostrava entre aquelas quatro paredes.
— Diablo vai mesmo fazer aquilo? — perguntou Rimuru, olhando nos olhos de Guy.
— Ele vai — Guy respondeu, levando a mão de Rimuru aos lábios. — E você não vai impedi-lo desta vez, Rimuru. Eles feriram você enquanto você carregava minhas filhas. Eles feriram o que eu tenho de mais sagrado. Se Diablo não for, eu irei, e garanto que as consequências de eu ir pessoalmente seriam muito piores para o equilíbrio do mundo.
Rimuru suspirou, sabendo que não havia como vencer aquela discussão. Ele puxou Guy para mais perto, e o Lorde Demônio Vermelho prontamente se acomodou na cama ao seu lado. Guy deitou-se de lado, escondendo o rosto entre os seios de Rimuru, buscando o calor e o aroma de mel e magia que emanava dele.
— Você está muito carente hoje — comentou Rimuru, passando os dedos pelos cabelos vermelhos e rebeldes de Guy.
— Eu quase perdi tudo, Rimuru — murmurou Guy, sua voz abafada contra o corpo dele. — Ver você desmaiar hoje… foi como se o mundo parasse de novo. Eu odeio essa sensação de impotência.
Rimuru sorriu docemente e inclinou-se para beijar o topo da cabeça de Guy, descendo depois para seus lábios. O beijo foi lento, profundo e carregado de uma promessa de cura. Guy respondeu com uma intensidade faminta, apertando Rimuru contra si com uma possessividade que beirava o desespero.
— Eu estou aqui — disse Rimuru entre os beijos. — Eu não vou a lugar nenhum. Amanhã, eu quero tentar tomar café no jardim, mas desta vez eu deixo você me carregar. O que acha?
Guy soltou uma risada baixa, o som vibrando contra o peito de Rimuru.
— Eu vou te carregar para todos os lados até que Shuna diga que você pode correr uma maratona.
— Exagerado — Rimuru bufou, mas continuou a acariciar o rosto do companheiro. — E as meninas? Akane parece que vai ser tão temperamental quanto você.
— E Sakura vai ser tão manipuladora e adorável quanto você — rebateu Guy, levantando o rosto para olhar para Rimuru com um brilho divertido nos olhos. — Imagine o caos que elas vão causar quando começarem a andar. Veldora já está planejando ensinar "golpes secretos" para elas.
— Céus, eu preciso me recuperar logo para impedir que ele as transforme em pequenas delinquentes — Rimuru riu, sentindo o cansaço começar a pesar novamente, mas desta vez era um cansaço bom, de quem se sentia seguro.
Guy voltou a se aninhar em Rimuru, fechando os olhos e aproveitando o carinho constante que o Slime lhe dava. O Lorde Demônio mais temido do mundo parecia um gato satisfeito, buscando atenção e beijos a cada poucos minutos.
— Rimuru? — chamou Guy, quase pegando no sono.
— Sim?
— Obrigado por não desistir. Por me dar elas… e por ficar.
Rimuru sentiu uma lágrima solitária de felicidade escorrer por seu rosto. Ele abraçou Guy com toda a força que suas mãos ainda tinham.
— Eu sempre vou ficar, Guy. Esse é o nosso mundo agora.
Lá fora, as sombras de Tempest guardavam o segredo da vulnerabilidade de seus reis. Enquanto Diablo iniciava sua sinfonia de retribuição em Ingrassia, dentro do castelo, o amor e a vida venciam a dor. Rimuru fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante de Guy sobre si e o som suave de suas filhas respirando por perto. O futuro seria desafiador, mas por aquela noite, a paz era absoluta.