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Saúde

O Florescer de Prata sob as Sombras da Exaustão

A brisa matinal de Tempest soprava com uma suavidade que parecia pedir desculpas pelo caos dos dias anteriores. Rimuru, apoiado firmemente no braço de Guy, caminhava pelos jardins suspensos do castelo. Seus passos, embora ainda lentos, possuíam uma cadência mais firme. Ele não precisava parar a cada cinco metros para recuperar o fôlego, o que já era uma vitória monumental aos olhos de seus súditos, que observavam à distância com corações apertados.

— Você está indo bem — murmurou Guy, seus olhos vermelhos varrendo o rosto de Rimuru em busca de qualquer sinal de colapso. — Mas não abuse. Se eu sentir seu núcleo oscilar um milímetro que seja, eu te carrego de volta para a cama à força.

— Eu estou bem, Guy, sério — Rimuru sorriu, embora uma tontura leve tenha feito o mundo inclinar por um breve segundo. — Olhe só, meu nariz quase não sangrou hoje. Só algumas gotinhas.

Guy soltou um suspiro pesado, uma mistura de alívio e frustração. Ele odiava a fragilidade de Rimuru tanto quanto admirava sua resiliência.

No entanto, a paz doméstica foi interrompida pela necessidade diplomática. Aliados de diversas nações, incluindo Gazel Dwargo e representantes da Dinastia Feiticeira de Thalion, haviam chegado a Tempest após rumores sobre o estado de saúde do líder e os incidentes em Ingrassia. Uma reunião de emergência era inevitável.

O salão de conferências estava carregado de uma tensão elétrica. Rimuru entrou sendo amparado por Guy, sentando-se em seu trono com um esforço visível para manter a postura real. Seus subordinados — Benimaru, Shuna e os outros — cercavam o trono como uma muralha de aço vivo, cada um deles em estado de alerta máximo.

A reunião começou de forma protocolar, mas o clima mudou drasticamente quando o assunto "Ingrassia" foi colocado à mesa. Gazel Dwargo, com sua voz de trovão contido, exigia explicações sobre a retaliação que Diablo já estava executando. Ao ouvir o nome do reino onde fora humilhado, onde seu sangue manchara o chão de uma sala de aula enquanto ele carregava suas filhas, algo dentro de Rimuru quebrou.

As memórias dos insultos dos jovens nobres, a sensação de impotência e a dor física lancinante voltaram como uma maré negra. Rimuru começou a tremer. Suas mãos, apoiadas nos braços do trono, ficaram brancas.

— Rimuru? — Guy inclinou-se, percebendo a mudança drástica na aura do companheiro.

— Eu... eu não... — Rimuru tentou falar, mas as lágrimas começaram a escorrer descontroladamente.

O pânico tomou conta dele. Era uma crise pós-traumática fundida com a instabilidade de seu núcleo mágico ainda em cicatrização. O choro era convulsivo, um som que partiu o coração de todos na sala. Ele tentou se levantar, mas suas pernas simplesmente não responderam. Antes que Guy pudesse segurá-lo totalmente, Rimuru desmaiou, sua cabeça pendendo para o lado enquanto um filete de sangue voltava a escorrer por seu nariz.

— A REUNIÃO ACABOU! — O rugido de Guy Crimson fez as janelas do salão racharem. — SAIAM TODOS!

Horas depois, Rimuru acordou em seus aposentos. Ele não levou a bronca que esperava de Shuna; em vez disso, viu apenas olhares de profunda tristeza e compaixão. Ele não tinha culpa de que seu trauma fosse tão profundo quanto suas feridas físicas.

No entanto, um novo problema surgiu. Guy precisava retornar urgentemente ao seu próprio continente. Conflitos territoriais e a instabilidade de outros Lordes Demônios exigiam sua presença imediata. Ele estava desolado, recusando-se a partir.

— Eu não vou — declarou Guy, sentado ao lado de Rimuru, segurando sua mão com uma força possessiva. — O mundo que se exploda. Eu não vou te deixar assim.

— Guy, você precisa ir — Rimuru disse, sua voz suave, mas firme. — Você é um Lorde Demônio Primordial. Se você negligenciar suas terras, o equilíbrio do mundo vai ruir, e isso vai acabar trazendo problemas para Tempest também. Eu vou ficar bem. Shuna e Benimaru estão aqui.

— Você acabou de desmaiar em uma reunião, Rimuru!

— Foi um momento de fraqueza. Eu prometo que vou me cuidar. Vá, resolva o que precisa e volte para nós. Akane e Sakura estarão esperando pelo pai delas.

Com um beijo carregado de promessas sombrias e uma preocupação que beirava a agonia, Guy partiu.

Sem a presença constante e restritiva de Guy, Rimuru sentiu uma necessidade quase maníaca de se sentir útil. Ele começou a forçar seus limites de forma perigosa. Ele passava horas cuidando das gêmeas, Sakura e Akane, recusando-se a entregá-las às babás reais. Ele saía para ver as crianças de Ingrassia treinarem, sentando-se em um banco de pedra e aplaudindo cada golpe de Chloe e Kenya, mesmo quando o suor frio escorria por suas costas.

Ele tentava analisar os relatórios de desenvolvimento de Tempest, fazendo milhões de pausas para controlar as tonturas. Seu nariz sangrava com frequência agora, manchando papéis e lençóis, mas ele limpava rapidamente, escondendo as evidências de seus subordinados.

Certa tarde, ele estava conversando com Shion no corredor sobre o estoque de poções de cura.

— Shion, precisamos garantir que o estoque de poções completas esteja... — Rimuru parou no meio da frase.

O mundo começou a girar como um carrossel desgovernado. O rosto de Shion tornou-se um borrão roxo.

— Rimuru-sama? — Shion perguntou, estendendo a mão.

Rimuru não respondeu. Ele desabou. O nariz sangrava profusamente, e seu corpo tremia em espasmos de exaustão extrema.

— NÃO CHAMEM O GUY! — Rimuru ordenou assim que recuperou a consciência, minutos depois, ainda no chão. — Ele tem problemas sérios para resolver. Eu estou apenas cansado. É só cansaço!

Ele se recusava a parar. Era como se, ao provar que podia trabalhar, ele pudesse apagar a imagem do "professor fraco" que fora em Ingrassia. Ele voltou a cuidar das meninas, ignorando os protestos de Shuna. Ele resolvia disputas comerciais, ignorando as dores agudas que atravessavam seu ventre. Todo mundo tentava fazê-lo parar, mas Rimuru só interrompia suas atividades quando o corpo desligava sozinho ou quando a dor se tornava insuportável ao ponto de ele não conseguir respirar.

O ápice dessa teimosia autodestrutiva aconteceu em um final de tarde cinzento. Rimuru estava no berçário com Benimaru. Ele havia passado o dia inteiro coordenando a reconstrução de uma ala da cidade e sua energia estava no limite absoluto. Ele segurava Akane e Sakura nos braços, uma em cada lado, sentindo o calor reconfortante de suas filhas.

— Elas estão tão pesadas, Benimaru... — Rimuru sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos dourados, que estavam nublados.

— Rimuru-sama, por favor, deixe-me pegá-las — Benimaru pediu, a mão já estendida, o rosto tenso de preocupação. — O senhor está pálido demais. Está tremendo.

— Eu aguento... eu só quero segurá-las mais um pouco...

De repente, a escuridão veio sem aviso. Não foi uma tontura lenta, foi como se alguém tivesse cortado os fios que sustentavam sua alma. Em um último lampejo de instinto maternal e consciência, Rimuru percebeu o que estava acontecendo. Ele não podia cair com elas.

Com um esforço de vontade que queimou o pouco de mana que lhe restava, ele projetou o corpo para frente, entregando as gêmeas nos braços de um Benimaru em choque.

— Pegue-as... — sussurrou Rimuru.

Assim que sentiu que as mãos de Benimaru estavam firmes nas bebês, a resistência de Rimuru evaporou. Suas pernas cederam e ele desabou no chão de mármore com um som surdo.

— RIMURU-SAMA! — O grito de Benimaru ecoou pelo castelo, carregado de um desespero que gelou o sangue de quem ouviu.

Benimaru, segurando as duas princesas contra o peito, ajoelhou-se ao lado do mestre caído. Rimuru estava imóvel. O sangue escorria de seu nariz, manchando o tapete luxuoso, e pequenos tremores ainda percorriam seus dedos finos. As pequenas Akane e Sakura, sentindo o pânico do general e a ausência da aura da mãe, começaram a chorar em uníssono, um som agudo que parecia clamar pelo retorno de seu deus.

Shuna entrou correndo no quarto, seguida por uma Shion em prantos.

— O que você fez consigo mesmo, Rimuru-sama...? — Shuna soluçou enquanto conjurava feitiços de diagnóstico. — O núcleo dele... está quase vazio. Ele usou tudo. Cada gota de energia vital para se manter de pé hoje.

— Precisamos chamar o Guy-sama — Shion disse, a voz embargada. — Não importa o que o mestre disse. Se ele acordar e ver que quase derrubou as meninas, ele nunca vai se perdoar. Ele precisa parar!

— Eu vou mandar a mensagem — Benimaru declarou, sua voz fria e cortante como uma lâmina. — Guy-sama vai ficar furioso, mas prefiro enfrentar a fúria dele do que o funeral do meu mestre.

Enquanto a mensagem cruzava os continentes, Rimuru jazia na cama, mergulhado em um sono que mais parecia um coma. Ele estava pálido, quase transparente, como se estivesse voltando à sua forma de slime por pura falta de força para manter a forma humana.

Horas depois, a atmosfera em Tempest mudou. O ar ficou pesado, saturado com uma intenção assassina tão poderosa que os pássaros caíram das árvores nos jardins. Não houve aviso, não houve batida na porta. O espaço no meio do quarto simplesmente se rasgou e Guy Crimson emergiu das sombras, seu rosto uma máscara de puro terror e ódio.

Ele não disse uma palavra. Ele caminhou até a cama, afastando Shuna com um gesto impaciente. Ele olhou para Rimuru — o sangramento no nariz havia sido estancado, mas a palidez era assustadora. Guy sentou-se na beira da cama e pegou a mão de Rimuru. Ela estava fria.

— Eu saio por alguns dias... — a voz de Guy era um sussurro perigoso que fez Benimaru e Shion recuarem um passo. — E você tenta se matar de novo.

— Guy-sama... ele não nos ouvia — Shuna tentou explicar. — Ele queria provar que estava bem. Ele quase caiu com as bebês.

Guy fechou os olhos por um momento, as sobrancelhas franzidas em uma dor profunda. Ele então se deitou ao lado de Rimuru, puxando o corpo frágil do Slime para o seu peito, envolvendo-o com sua própria aura carmesim para forçar o núcleo de Rimuru a se estabilizar.

— Saiam todos — ordenou Guy. — E tragam as crianças. Elas precisam de contato com a mana dele para se acalmarem, e ele precisa sentir que elas estão seguras para parar de lutar contra o próprio corpo.

O quarto foi esvaziado. Guy permaneceu ali, segurando Rimuru e as duas filhas em um abraço protetor. Ele sussurrava palavras em uma língua antiga, promessas de que nunca mais o deixaria sozinho, de que Ingrassia sofreria em dobro por cada gota de sangue que Rimuru perdera naquele dia.

Lentamente, sob o calor de Guy, a cor começou a voltar às bochechas de Rimuru. O tremor parou. O Deus de Tempest finalmente encontrou o descanso que sua mente teimosa se recusava a aceitar, protegido pelo ser que destruiria o mundo inteiro apenas para vê-lo abrir os olhos dourados mais uma vez. A lição fora amarga: Rimuru Tempest era o pilar de uma nação, mas até mesmo os pilares precisam de suporte quando o peso do mundo e do amor se torna grande demais para carregar sozinho.