Segredo
Cicatrizes, Copos e Confissões
O ar no Granny’s estava denso, carregado com o cheiro de gordura e o burburinho incessante dos moradores de Storybrooke. Emma Swan estava sentada em sua mesa habitual, mas seus olhos não estavam no cardápio ou na sua caneca de café. Eles estavam fixos na janela, observando o outro lado da rua, onde a prefeitura se erguia imponente.
Regina estava lá fora, parada no topo da escadaria. Ela não estava sozinha. Mark Miller, o inquilino de Gold que Emma já havia "marcado" mentalmente como uma ameaça, estava inclinado em direção a ela. Ele ria de algo que Regina dissera, e o que fez o sangue de Emma ferver não foi a audácia do homem, mas o fato de Regina não o ter fulminado com um olhar. Pelo contrário, ela parecia... relaxada. Ela tocou levemente o braço de Miller para enfatizar um ponto, um gesto casual que, para Emma, pareceu um grito de guerra.
Emma levantou-se tão abruptamente que sua cadeira rangeu contra o chão, atraindo olhares curiosos. Ela saiu do restaurante a passos largos, ignorando o chamado de Ruby. Atravessou a rua como se estivesse indo prender um criminoso perigoso.
— Algum problema aqui? — A voz de Emma cortou o ar, gélida e autoritária.
Regina virou-se, a expressão suavizada sendo substituída instantaneamente pela máscara profissional de prefeita, embora houvesse um brilho de irritação em seus olhos.
— Nenhum, xerife. O Sr. Miller estava apenas me agradecendo pela agilidade na liberação do alvará de seu novo estabelecimento.
— Engraçado — Emma disse, parando a poucos centímetros de Miller, sua postura física intimidante. — Eu não sabia que "agradecer" envolvia tocar na Prefeita em público. A calçada é pública, Miller. Circulando. Agora.
O homem olhou de Emma para Regina, visivelmente desconfortável com a energia predatória da loira.
— Com licença, senhoras — ele murmurou, descendo as escadas apressadamente.
Regina esperou que ele estivesse fora de alcance antes de se virar para Emma, as mãos nos quadris e a voz baixa, carregada de fúria contida.
— O que deu em você, Swan? Você agiu como uma adolescente possessiva na frente de um cidadão!
— Eu agi como alguém que não gosta de ver outro cara dando em cima da minha... — Emma se calou, lembrando-se de onde estavam. — De você, Regina! Você estava sorrindo para ele!
— Eu estava sendo diplomática! — Regina sibilou, aproximando-se mais, o perfume de maçãs agora misturado com a tensão do confronto. — Nem tudo é um flerte, Emma. O mundo não gira em torno das suas inseguranças.
— Inseguranças? — Emma soltou uma risada amarga. — Eu vejo como eles olham para você. E vejo você deixando. Talvez você sinta falta disso, não é? Da atenção pública? De não ter que se esconder em becos e portas de fundo comigo?
O rosto de Regina empalideceu por um segundo antes de se tornar uma máscara de gelo.
— Se é isso que você pensa de mim, que eu sou tão carente de validação a ponto de usar um estranho para me sentir viva, então você não me conhece de verdade.
— Talvez eu não conheça mesmo — Emma retrucou, a dor e o ciúme nublando seu julgamento. — Talvez a "Rainha" só queira o que não pode ter à luz do dia.
— Vá para o inferno, Emma — Regina disse, a voz trêmula de raiva. — Não me procure esta noite. Na verdade, não me procure até aprender a se comportar como uma mulher e não como um animal territorialista.
Regina deu as costas e entrou na prefeitura, batendo as portas duplas com uma força que ecoou por toda a praça. Emma ficou parada ali, o peito subindo e descendo, sentindo o gosto metálico do arrependimento amargo na boca. Mas o orgulho era uma fera difícil de domar.
Duas horas depois, Emma estava de volta ao balcão do Granny’s. Mas desta vez, não havia café na sua frente. Havia um copo de uísque barato, e ele não era o primeiro.
— Emma, acho que já chega, não? — Ruby disse, limpando o balcão com nervosismo. — Você está bebendo isso como se fosse água.
— Mais um, Ruby. É uma ordem da xerife — Emma resmungou, a voz já arrastada.
— A xerife está bêbada — Ruby retrucou, mas serviu a dose, preocupada. — O que aconteceu? Foi a Regina, não foi? Eu vi a cena lá fora.
— Ela me mandou para o inferno — Emma riu, mas o som saiu mais como um soluço sufocado. — E o pior é que eu já estou lá. É um lugar onde eu amo a mulher mais incrível do mundo e tenho que fingir que ela é apenas a minha "colega de trabalho" enquanto caras como o Miller tentam a sorte.
— Emma, você sabe que ela te ama. Ela só é... bom, ela é a Regina. Ela preza pela compostura.
— Eu odeio a compostura dela — Emma virou o copo, sentindo o líquido queimar sua garganta. — Eu odeio esse segredo. Eu odeio tudo isso.
Mais três doses depois, a cabeça de Emma pesou contra o balcão. Storybrooke estava mergulhada na escuridão da noite, e o restaurante estava quase vazio. Ruby sabia que não podia deixar a amiga naquele estado. Ela tentou levantar Emma, mas a loira era puro peso morto e teimosia.
— Tudo bem, chega — Ruby murmurou. Ela pegou o telefone e discou o único número que sabia que resolveria a situação, apesar do risco.
— Regina? É a Ruby. Não desliga. Eu estou com a Emma no Granny’s... Não, ela não está ferida, mas está péssima. Ela bebeu metade do estoque de uísque do meu avô e não consegue parar de falar seu nome entre um xingamento e outro. Eu não posso levá-la para o loft, a Snow e o David fariam perguntas que eu não quero responder.
Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido por um suspiro pesado que Ruby conseguiu ouvir perfeitamente.
— Traga-a pelos fundos da mansão em dez minutos — a voz de Regina soou cansada, mas firme. — E Ruby... obrigada.
Ruby ajudou Emma a caminhar até o seu carro, a loira protestando fracamente sobre "não precisar de babá". O trajeto até a Mifflin Street foi curto, mas Emma passou o tempo todo murmurando sobre como Regina tinha os olhos mais bonitos e o temperamento mais infernal da história da magia.
Quando chegaram à porta dos fundos, Regina já estava lá. Ela usava um roupão de seda bordô e sua expressão era uma mistura de irritação e preocupação profunda.
— Ela está um desastre — Regina comentou, ajudando Ruby a passar o braço de Emma pelo seu ombro.
— Ela está apaixonada e é uma idiota — Ruby corrigiu com um sorriso triste. — Boa sorte, Regina.
— Obrigada, Ruby. Eu cuido dela daqui.
Regina arrastou Emma para dentro, fechando a porta com magia. A xerife mal conseguia manter os pés firmes, tropeçando nos próprios passos.
— Regina? — Emma murmurou, o cheiro de cidra e sofisticação finalmente penetrando o nevoeiro do álcool. — É você?
— Quem mais seria, sua loira insolente? — Regina respondeu, guiando-a com dificuldade em direção às escadas. — Você é pesada, Swan. De que é feita essa sua jaqueta? De chumbo e mágoa?
— Eu sinto muito — Emma disse, parando no meio do degrau e quase derrubando as duas. — Eu fui uma idiota. Eu só... eu fico louca quando penso que alguém pode te tirar de mim.
Regina parou, olhando para Emma. A raiva de mais cedo tinha se dissipado, restando apenas aquela vulnerabilidade que ela só permitia que Emma visse.
— Ninguém vai me tirar de você, Emma. Mas você quase se tirou de mim hoje com aquela cena.
Com muito esforço, Regina conseguiu levar Emma até o quarto principal. Ela sentou a loira na beira da cama e começou a tirar suas botas com uma eficiência silenciosa. Emma observava cada movimento, seus olhos verdes nublados, mas fixos na prefeita.
— Você está brava ainda? — Emma perguntou, a voz pequena.
— Estou exausta, Emma. Brava é um estágio que eu já superei nas últimas duas horas enquanto esperava você aparecer ou o telefone tocar com uma notícia ruim.
Regina pegou uma toalha úmida e começou a limpar o rosto de Emma, removendo a poeira e o suor do dia. O toque era incrivelmente carinhoso, contrastando com o tom severo de sua voz.
— Você precisa tirar essa jaqueta — Regina ordenou.
Emma obedeceu como uma criança, permitindo que Regina a ajudasse a se livrar da peça de couro e da camisa por baixo. Quando Emma ficou apenas de roupas íntimas, Regina suspirou, pegando uma de suas próprias camisas de dormir de seda e entregando-a.
— Vista isso. Vou buscar água e algo para sua dor de cabeça.
Quando Regina voltou, Emma já estava debaixo dos lençóis, mas não estava dormindo. Ela estava sentada, encostada na cabeceira, parecendo estranhamente frágil na cama king size de Regina.
— Beba — Regina entregou o copo de água e dois comprimidos.
Emma obedeceu em silêncio. Quando terminou, Regina fez menção de se afastar para o outro lado da cama, mas Emma segurou seu pulso.
— Fica aqui. Perto de mim.
Regina hesitou por um segundo, mas acabou cedendo. Ela se deitou ao lado de Emma, por cima das cobertas, permitindo que a loira repousasse a cabeça em seu peito. Emma suspirou, o calor de Regina agindo como o melhor remédio para o frio que o uísque e a briga haviam deixado.
— Eu odeio que a gente tenha que se esconder — Emma sussurrou, a voz sumindo. — Eu queria poder ter socado aquele cara só por olhar para você.
— Eu sei, querida — Regina acariciou os cabelos loiros, desembaraçando os fios com os dedos. — Mas o ciúme é uma chama que queima quem a carrega. Você não precisa lutar contra o mundo para provar que eu sou sua. Eu já sou.
— Promete?
— Eu entreguei meu coração a você, Emma. Literalmente e figuradamente. Não há promessa maior que essa.
O silêncio caiu sobre o quarto, quebrado apenas pelo som da chuva que começava a bater contra as janelas da mansão. Emma sentiu o peso do cansaço finalmente vencer a batalha contra o álcool.
— Regina? — Emma chamou, quase num fio de voz.
— Sim?
— Você fica linda de bordô.
Regina deu um sorriso curto, beijando o topo da cabeça de Emma.
— Durma, Swan. Amanhã você vai acordar sentindo que um troll atropelou sua cabeça, e eu farei questão de dizer "eu avisei" a cada cinco minutos.
— Eu te amo — Emma murmurou, fechando os olhos.
Regina esperou até que a respiração de Emma se tornasse profunda e rítmica. Ela a abraçou um pouco mais forte, sentindo a batida do coração da Salvadora contra a sua pele.
— Eu também te amo, sua loira idiota — Regina sussurrou para a escuridão. — Mais do que qualquer segredo ou qualquer cidade possa suportar.
Naquela noite, as sombras de Storybrooke pareciam menos ameaçadoras. Dentro da mansão, em meio ao cheiro de uísque e arrependimento, o amor entre a Rainha e a Salvadora encontrou seu porto seguro mais uma vez. Amanhã, as máscaras voltariam. O gelo de Regina e a postura defensiva de Emma estariam lá para todos verem. Mas ali, sob o abrigo dos lençóis de seda, elas eram apenas duas mulheres tentando navegar as águas turbulentas de um romance que ninguém mais podia entender.
E para Regina, enquanto via Emma dormir, isso era o suficiente por enquanto. Mesmo que o preço fosse cuidar de uma xerife de ressaca ao amanhecer.