Sequestrador da noire
O Despertar da Propriedade
A névoa do sedativo era um pântano profundo e viscoso, onde o tempo não possuía forma e a realidade se fragmentava em flashes de luz e sombras. Eu não sabia se haviam se passado horas ou dias. No meu subconsciente, eu ainda sentia o ronco da motocicleta vibrando entre minhas pernas e o aperto das tiras de couro contra o meu peito, mas a consciência era um luxo que meu corpo ainda não podia pagar.
Lentamente, o peso nas minhas pálpebras começou a diminuir. O silêncio do quarto era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico de uma respiração pesada e próxima. Senti algo frio tocando meus pulsos. O clique metálico ecoou no ambiente, seguido por um alívio súbito da pressão que mantinha meus braços esticados. Meus membros caíram pesadamente sobre o colchão de seda, sem força, como se os ossos tivessem sido substituídos por chumbo.
Tentei abrir os olhos, mas a luz do dia que filtrava pelas frestas das cortinas pesadas feriu minhas pupilas. Senti mãos grandes e calejadas deslizando por baixo das minhas costas, erguendo meu corpo inerte com uma facilidade que me lembrou o quão pequena eu era perto dele.
— Você dormiu por muito tempo, Aurora — a voz de Erick ressoou, profunda e vibrante, tão perto que senti o calor de seu hálito em meu ouvido. — O sedativo foi um pouco mais forte do que eu pretendia, mas você precisava de um descanso absoluto para aceitar sua nova realidade.
Eu tentei falar, mas minha garganta estava seca como um deserto. Meus lábios apenas se moveram em um tremor silencioso. Senti quando ele removeu a mordaça que havia marcado meu rosto durante a noite. O ar fresco entrou em minha boca, mas eu estava fraca demais para gritar.
Com movimentos deliberados e possessivos, Erick começou a desabotoar o vestido rosa que eu tanto amava. Cada movimento dele era calmo, quase cerimonial. Senti o tecido deslizar pelos meus ombros e ser puxado para baixo, expondo minha pele pálida ao ar condicionado do quarto. Eu estava totalmente à mercê dele, um objeto de porcelana sendo desembalado por seu dono.
— Você é ainda mais bonita do que eu imaginei sob as luzes daquela loja — murmurou ele, sua voz carregada de uma admiração sombria enquanto removia minha lingerie.
Eu queria fechar as pernas, queria me cobrir, queria desaparecer, mas meu sistema nervoso ainda estava sob o efeito da droga. Eu era uma espectadora muda da minha própria violação de privacidade. Erick me pegou no colo, meu corpo pendendo em seus braços poderosos. Ele caminhou em direção ao banheiro anexo, um espaço vasto de mármore e vidro.
O som da água caindo em uma banheira enorme preencheu o ambiente. Ele me sentou na borda de mármore, mantendo um braço firme em volta da minha cintura para que eu não caísse. A água estava morna, perfeitamente temperada.
— Vamos tirar essa sujeira da estrada de você — disse ele, começando a me banhar com uma esponja macia e um sabonete que cheirava a baunilha e sândalo.
Ele passava a esponja pelos meus braços longos, descendo pelas minhas costelas e pernas com uma lentidão torturante. Seus olhos castanhos não saíam do meu corpo, mapeando cada curva, cada marca, como se estivesse memorizando um território que agora lhe pertencia. O contraste entre a delicadeza de seus movimentos e a brutalidade de sua estatura era desconcertante.
— Por... por que... — minha voz finalmente saiu, um sussurro rouco e quebrado.
Erick parou a esponja no meu ombro e me olhou nos olhos. Havia uma intensidade predatória neles, mas também uma calma assustadora.
— Shhh. Não gaste suas forças com perguntas que você já sabe a resposta, Aurora. Você está aqui porque eu decidi que você seria minha. E eu sempre consigo o que quero.
Ele continuou o banho, lavando meu cabelo castanho com cuidado, massageando meu couro cabeludo com os dedos fortes. Por um momento, o toque foi tão relaxante que meu corpo traidor relaxou contra o peito dele. Ele percebeu e soltou um riso baixo, vitorioso.
— Viu? Você já está começando a entender. Aqui, você não precisa se preocupar com nada. Eu sou seu mundo agora.
Depois de me enxaguar, ele me envolveu em uma toalha felpuda e imensa, carregando-me de volta para o quarto. O ar condicionado fez minha pele arrepiar. Ele me colocou sentada em uma poltrona de veludo e começou a secar meu cabelo com um secador, seus movimentos habilidosos e pacientes.
Quando terminou, ele caminhou até um closet que parecia maior que o meu antigo apartamento. Ele voltou trazendo um conjunto de seda branca — uma blusa de botões e uma calça fluida.
— Use isso — ordenou ele, sua voz não deixando espaço para discussões.
Ele mesmo começou a me vestir. Eu me sentia como uma boneca de pano. Ele passou a blusa pelos meus braços e fechou cada botão, seus dedos roçando minha pele propositalmente. Quando chegou à calça, percebi que ele não havia trazido nenhuma lingerie.
— Erick... eu... eu preciso de... — tentei dizer, sentindo meu rosto queimar de vergonha.
Ele parou, segurando o cós da calça de seda, e deu um sorriso de lado, um brilho de malícia nos olhos castanhos.
— Você não precisa de nada que eu não tenha decidido que você precise, Aurora. Gosto de saber que não há nada entre sua pele e as roupas que eu escolhi para você. É um lembrete constante de quem te veste... e de quem pode te despir.
O choque daquela declaração me fez despertar um pouco mais da letargia. Tentei empurrar as mãos dele, mas ele nem se moveu. Ele terminou de vestir a calça em mim, ajustando o tecido sobre meus quadris magros.
— Agora — disse ele, levantando meu queixo para que eu o encarasse —, você vai tentar comer algo. Preparei o café da manhã.
— Eu quero ir embora — eu disse, ganhando um pouco mais de firmeza na voz. — Meus pais... eles vão chamar a polícia.
Erick soltou meu queixo e caminhou até a janela, abrindo as cortinas totalmente. Além do vidro blindado, não havia nada além de uma floresta densa e montanhas que pareciam tocar o céu. Não havia estradas visíveis, nem casas, nem sinal de civilização.
— Olhe lá fora, Aurora. Você acha que alguém vai te encontrar aqui? — Ele se virou, a silhueta imensa contra a luz do sol. — Eu limpei o local onde seu carro parou. Não há rastros, não há testemunhas. Para todos os efeitos, você desapareceu no ar.
— Você não pode me manter presa para sempre — eu disse, as lágrimas começando a inundar meus olhos azuis novamente.
Erick se aproximou com passos lentos e predatórios, parando a centímetros de mim. Ele se inclinou, colocando as mãos nos braços da poltrona, prendendo-me entre seu corpo e o móvel. O peito largo dele estava tão perto que eu podia sentir o calor emanando de seus músculos definidos.
— "Sempre" é um tempo muito longo, minha boneca. Mas eu tenho paciência. — Ele aproximou o rosto do meu, o nariz roçando o meu. — Você vai aprender que a liberdade é superestimada. Aqui, você tem segurança. Você tem luxo. E você tem a mim.
— Eu não quero você! — gritei, a frustração explodindo.
O rosto de Erick escureceu instantaneamente. A grosseria que ele escondia sob a fachada de cuidador emergiu. Ele segurou meus pulsos com uma força que me fez soltar um gemido de dor, pressionando-os contra a poltrona.
— Cuidado com o tom de voz — ele sibilou, a voz agora como um trovão baixo. — Eu fui gentil até agora porque você estava drogada e confusa. Mas não confunda minha paciência com fraqueza. Você é minha propriedade, Aurora. Meus olhos te seguiram por semanas, eu planejei cada detalhe daquela noite na estrada. Você acha que eu fiz tudo isso para ouvir você reclamar?
Eu me encolhi, o medo voltando a dominar cada fibra do meu ser. Ele era alto, forte e claramente instável.
— Desculpe... — sussurrei, fechando os olhos.
Erick relaxou o aperto, mas não me soltou totalmente. Ele deslizou as mãos pelos meus braços até meus ombros, suavizando o toque, mas mantendo a possessividade.
— Muito melhor. Eu não quero te machucar, Aurora. Eu quero te adorar. Mas você precisa cooperar.
Ele me ajudou a levantar da poltrona. Minhas pernas ainda estavam trêmulas, mas ele me sustentou com facilidade, passando o braço pela minha cintura. Caminhamos para fora do quarto, atravessando um corredor decorado com obras de arte caras e minimalistas. A casa era uma fortaleza de bom gosto e isolamento.
Chegamos a uma sala de jantar onde uma mesa estava posta com frutas, pães e café. O cheiro era maravilhoso, e meu estômago roncou, lembrando-me de que eu não comia há muito tempo.
Erick me sentou em uma das cadeiras e sentou-se na cabeceira, observando-me com uma satisfação silenciosa.
— Coma — ordenou ele.
Eu peguei um pedaço de pão, minhas mãos tremendo levemente. O tecido da seda branca deslizava sobre minha pele, e a ausência de lingerie me fazia sentir constantemente exposta, exatamente como ele queria. Cada movimento meu era acompanhado pelos olhos castanhos dele, que não piscavam, como se ele estivesse com medo de que eu desaparecesse se ele desviasse o olhar por um segundo.
— Por que eu? — perguntei depois de alguns minutos de silêncio opressor. — Há tantas mulheres... por que gastar tanto esforço comigo?
Erick tomou um gole de café, seus olhos fixos em mim por cima da xícara.
— Porque você tem uma luz, Aurora. Uma pureza que você nem percebe. Quando você trabalhava naquela loja, você parecia uma rainha presa em um cubículo de vidro. Eu vi como você tratava as pessoas, como você se movia... e eu decidi que aquela luz deveria brilhar apenas para mim.
— Isso não é amor, Erick. É obsessão.
— Há alguma diferença real? — ele perguntou, inclinando a cabeça. — O amor quer possuir. A obsessão quer proteger. Eu estou fazendo os dois.
Ele se levantou e caminhou até mim, parando atrás da minha cadeira. Senti suas mãos grandes pousarem nos meus ombros, os dedos massageando levemente a tensão ali.
— Hoje, vamos passar o dia na biblioteca. Quero que você escolha alguns livros. Quero conhecer seus gostos, o que faz sua mente funcionar.
— E se eu me recusar?
Erick inclinou-se, sussurrando perto do meu pescoço, onde a pele ainda estava sensível do banho.
— Você não vai se recusar. Porque você é uma garota inteligente, Aurora. E garotas inteligentes sabem quando a luta é inútil. Além disso... — ele deslizou a mão para baixo, parando na base do meu pescoço — ...eu adoraria ter uma desculpa para te levar de volta para aquele quarto e te ensinar as regras de uma forma mais... direta.
Um calafrio percorreu meu corpo. Eu sabia que ele não estava brincando. Erick Makevic era um homem de contrastes — capaz de me banhar com a delicadeza de um amante e de me amarrar com a frieza de um carcereiro.
— Tudo bem — eu disse, minha voz quase sumindo.
— Ótima escolha — ele disse, beijando o topo da minha cabeça.
Ele me ajudou a levantar e, enquanto caminhávamos em direção à biblioteca, eu olhei para as janelas blindadas mais uma vez. O mundo lá fora parecia uma lembrança distante, um sonho que estava sendo apagado pela presença avassaladora do homem ao meu lado. Eu era Aurora, a garota de 20 anos que trabalhava em uma loja de roupas e tinha olhos azuis cheios de vida. Mas ali, naquela fortaleza nas montanhas, sob o olhar constante de Erick, eu estava começando a me tornar algo diferente.
Eu estava me tornando a boneca dele. E o pior de tudo era a percepção aterrorizante de que, conforme o efeito do sedativo passava por completo, a realidade da minha situação não era um pesadelo do qual eu acordaria, mas o primeiro capítulo de uma vida onde minha vontade não era mais minha, e onde o toque de Erick Makevic era a única coisa que restava para me definir.
— Você vai gostar da biblioteca — disse ele, abrindo as portas duplas de carvalho. — Tem tudo o que você pode imaginar.
Entrei no cômodo vasto, cheio de prateleiras que iam até o teto. Mas eu não conseguia focar nos livros. Eu só conseguia sentir o roçar da seda na minha pele nua e o peso do olhar de Erick nas minhas costas, um laço invisível que me apertava mais do que qualquer algema de couro. Eu estava presa, despida de minha antiga identidade e vestida com os desejos de um homem obsecivo. E a jornada estava apenas começando.