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Sereia

O Reflexo da Água e o Brilho das Conchas

A atmosfera no jardim da casa de Emma era de um surrealismo absoluto. O vapor leve que subia da piscina aquecida misturava-se ao perfume das flores noturnas, criando um cenário que parecia saído de um sonho. Tatsuyo estava agora mais relaxada, seus braços pardos apoiados na borda de mármore, enquanto o restante de seu corpo — incluindo a magnífica cauda branca que ocupava quase um terço da largura da piscina — flutuava suavemente sob a iluminação azulada.

Nico e Emma estavam sentados em cadeiras de praia próximas à borda, observando a sereia com uma mistura de adoração e curiosidade científica. Kuro, no entanto, havia se acomodado no chão, bem em frente a Tatsuyo, com as pernas cruzadas e os braços apoiados nos joelhos. Sua posição privilegiada permitia que ele visse cada detalhe da criatura à sua frente. E, para Kuro, o detalhe mais fascinante no momento não era a cauda perolada ou as membranas entre os dedos dela.

Eram as conchas.

As duas conchas brancas, perfeitamente esculpidas pela natureza e presas por algum tipo de magia ou adesivo marinho, cobriam os seios de Tatsuyo. Elas brilhavam sob a luz artificial, mas Kuro não conseguia parar de imaginar o que elas escondiam. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de piadas e malícia, estavam fixos ali, descendo do rosto da sereia para o peito dela com uma frequência que já estava começando a se tornar óbvia.

— Então — começou Nico, tentando manter o foco na conversa —, você disse que seu povo não usa nada parecido com as nossas casas. Vocês dormem ao relento? Quer dizer... ao "mar lento"?

Tatsuyo soltou uma risadinha, fazendo com que as conchas em seu peito subissem e descessem levemente. Kuro quase parou de respirar.

— Nós dormimos onde a correnteza é mais fraca — explicou ela, gesticulando com as mãos pequenas. — Às vezes em cavernas de coral, às vezes abraçadas a grandes algas para não sermos levadas enquanto sonhamos. Não precisamos de paredes. O oceano é a nossa casa inteira.

— Mas e o frio? — Emma perguntou, abraçando os próprios joelhos. — A água não fica congelante lá embaixo?

— O sangue das sereias é diferente do de vocês — Tatsuyo respondeu, inclinando a cabeça para o lado, fazendo as pérolas em seu cabelo tilintarem. — Nós sentimos o calor das correntes que vêm do centro da terra. Mas aqui... essa água de vocês é muito estranha. Ela não se move. Sinto que estou flutuando em um abraço morno que nunca termina.

Kuro limpou a garganta, tentando disfarçar o fato de que estava encarando o decote improvisado de conchas há pelo menos três minutos seguidos.

— E, diga uma coisa, Tatsuyo... — ele começou, com a voz um pouco mais rouca que o normal. — Essas conchas aí... elas não caem? Quero dizer, se você nadar muito rápido contra uma correnteza forte, elas não... descolam?

Emma lançou um olhar mortal para Kuro, mas ele nem percebeu. Estava ocupado demais analisando a curvatura do peito da sereia.

— Caem? — Tatsuyo franziu a testa, olhando para o próprio peito. — Não. Elas são coladas com a resina das ostras anciãs. É muito forte. Só saem quando nós queremos trocá-las. Por que a pergunta, Kuro? Você acha que elas são pequenas demais?

Kuro engoliu em seco, sentindo o rosto esquentar.

— Pequenas? Não, não! Elas são... perfeitas. O tamanho exato. Quer dizer, eu só estava preocupado com a sua segurança hidrodinâmica, sabe?

— Sei — Nico murmurou com sarcasmo. — A "segurança hidrodinâmica" é a maior preocupação do Kuro desde que ele fez treze anos.

— Cala a boca, Nico! — Kuro resmungou, mas seus olhos voltaram magneticamente para o alvo prateado.

Emma, percebendo que o amigo estava prestes a passar dos limites da decência, levantou-se e foi até a borda da piscina, sentando-se ao lado de Tatsuyo para bloquear a visão de Kuro.

— Ignora ele, Tatsuyo. O Kuro nasceu com um defeito no cérebro que faz os olhos dele ficarem presos em coisas que ele não deveria olhar. Me conta mais sobre os adornos. Essas pérolas no seu cabelo, você mesma que coloca?

Tatsuyo sorriu para Emma, parecendo grata pela mudança de assunto, embora não entendesse realmente a malícia de Kuro.

— Sim. Nós as encontramos nas fendas profundas. Cada pérola conta uma história. Esta aqui — ela tocou uma pequena esfera rosada perto da orelha — eu ganhei de um golfinho que salvei de uma rede de pesca de metal. Ele a trouxe de um naufrágio antigo.

— Naufrágios! — Nico se inclinou para frente, os olhos verdes brilhando. — Você já viu navios afundados? Tesouros? Ouro?

Tatsuyo deu de ombros, um movimento que fez Kuro perder o fio da meada novamente.

— Ouro é apenas um metal pesado que não serve para nada. Os peixes não o comem e ele não brilha tanto quanto as anêmonas. Para nós, os tesouros são as coisas que vêm do mundo de cima e que não poluem a água. Como os vidros coloridos que o mar lixa até ficarem suaves.

— Falando em coisas do mundo de cima... — Kuro se levantou, tentando recuperar a compostura, embora seus olhos continuassem a desviar para o corpo pardo da sereia. — Eu trouxe mais uma coisa. Emma, onde você colocou aquela sacola que eu te dei?

Emma apontou para a mesa lateral. Kuro pegou uma pequena caixa de plástico transparente. Dentro, havia um colar de bijuteria que ele tinha comprado em uma lojinha de conveniência no caminho: uma corrente dourada com um pingente em forma de estrela-do-mar cravejado de cristais falsos.

— Eu achei que você ia gostar disso — disse ele, aproximando-se da borda. — É uma estrela-do-mar que brilha, para combinar com as suas pérolas.

Tatsuyo arregalou os olhos. Ela estendeu a mão e pegou o colar, maravilhada com o brilho dos cristais sob a luz da piscina.

— É... é como um pedaço de estrela que caiu na água — sussurrou ela. — É lindo, Kuro.

— Quer que eu coloque em você? — ele perguntou, já se inclinando.

— Kuro, não se atreva — Emma avisou, mas Tatsuyo já estava inclinando o pescoço para frente, oferecendo-se para o gesto.

Kuro se ajoelhou na beira da piscina. O cheiro de Tatsuyo era uma mistura inebriante de sal, algas frescas e algo doce, como melancia. Suas mãos tremeram levemente enquanto ele passava a corrente pelo pescoço dela. Estar tão perto permitia que ele visse a textura da pele dela — era macia, mas parecia ter uma resistência diferente da pele humana. E, claro, a visão de cima das conchas era ainda mais... reveladora.

Ele demorou mais do que o necessário para fechar o fecho do colar.

— Pronto — disse ele, a voz falhando.

Tatsuyo tocou o pingente, olhando para o próprio reflexo na água da piscina.

— Eu pareço uma rainha das correntes quentes — ela disse, radiante. — Obrigada, Kuro. Você é uma criatura de terra muito generosa.

— É, ele é um santo — Nico comentou, revirando os olhos enquanto observava Kuro voltar para o seu lugar, com um sorriso de satisfação que ia de orelha a orelha.

— Tatsuyo — disse Emma, tentando retomar a seriedade —, nós precisamos conversar sobre como vamos fazer nos próximos dias. Meus pais não estão, mas a vizinha, a Dona Sônia, é muito curiosa. Ela vive espiando pelo muro. Se ela vir uma cauda de dois metros batendo na água, a cidade inteira vai estar aqui em dez minutos.

Tatsuyo parou de admirar o colar e olhou para Emma com preocupação.

— O que aconteceria se eles me vissem?

— Eles te levariam — Nico disse, a voz sombria. — Cientistas, repórteres... você se tornaria uma prisioneira. Eles iam querer estudar como você respira, como sua cauda funciona. Você nunca mais veria o oceano.

A sereia estremeceu, e a água ao redor dela agitou-se violentamente por um momento.

— Meu pai tinha razão. O mundo seco é cheio de olhos cruéis.

— Não todos nós — Kuro interveio, sentindo uma pontada de culpa por estar apenas pensando nos seios dela enquanto ela temia pela vida. — Nós três vamos te proteger. Ninguém encosta em você enquanto eu estiver por perto.

Tatsuyo olhou para Kuro. Ela percebia que ele a olhava de um jeito diferente de Nico ou Emma. Não era apenas curiosidade ou amizade. Havia um brilho de desejo nos olhos castanhos dele que ela não sabia identificar totalmente, mas que a fazia sentir um calor estranho nas escamas.

— Por que você me olha tanto, Kuro? — ela perguntou, com a franqueza típica de quem vive sob as ondas. — Há algo errado com a minha pele? Ou com essas conchas? Você parece estar esperando que algo aconteça com elas.

Nico explodiu em uma gargalhada, cobrindo o rosto com as mãos. Emma deu um tapa na própria testa. Kuro, por sua vez, ficou tão vermelho que seu cabelo branco parecia brilhar ainda mais por contraste.

— Eu... eu... — ele gaguejou, procurando desesperadamente por uma desculpa. — Eu só estava admirando a... a engenharia! É, a engenharia das conchas. Como elas ficam presas sem alças. Sabe, eu quero ser engenheiro, então eu me interesso por essas coisas de... adesão e resistência dos materiais.

— Engenheiro? — Tatsuyo inclinou a cabeça. — É alguém que constrói coisas?

— Exatamente! — Kuro disse, recuperando um pouco da confiança. — Eu construo... ideias. E a sua roupa é uma ideia brilhante.

— Não é uma roupa — Tatsuyo riu, relaxando novamente. — É apenas parte de mim. Como as penas são para os pássaros que mergulham.

— Entendi — Kuro murmurou, voltando a encarar. — Parte de você. Muito bom. Excelente.

— Bem — Emma disse, levantando-se para encerrar o momento constrangedor —, já está ficando tarde. Tatsuyo, você pode ficar na piscina o quanto quiser, mas se ouvir qualquer barulho no muro, mergulhe e fique no fundo, ok? Eu vou buscar algumas toalhas e algo para comermos. Kuro, pare de "estudar engenharia" e venha me ajudar na cozinha.

— Ah, mas eu estava quase entendendo o princípio da sucção! — Kuro protestou, mas um olhar severo de Emma o fez levantar.

Nico também se levantou, esticando as costas.

— Vou com vocês. Preciso de um copo d'água que não tenha gosto de cloro ou de sereia.

Os três humanos caminharam em direção à porta de vidro da sala, deixando Tatsuyo sozinha na piscina por um momento. Ela observou-os partir, sentindo-se estranhamente solitária no silêncio do jardim. Ela tocou o pingente de estrela-do-mar e depois passou a mão pelas conchas em seu peito.

— Engenharia... — ela sussurrou para si mesma, testando a palavra nova. — Os humanos têm nomes complicados para coisas simples.

Ela mergulhou, sentindo a água deslizar por suas escamas. No fundo da piscina, ela viu os azulejos azuis e a luz que vinha das laterais. Era um mundo pequeno, limitado, mas ali, pela primeira vez em sua vida, ela não precisava se preocupar com predadores ou com a fúria das tempestades.

Enquanto isso, na cozinha, a discussão era acalorada.

— Kuro, você é um nojento! — Emma sibilou, enquanto pegava pratos no armário. — Dava para ver a sua baba escorrendo daqui! Ela é uma criatura mágica, uma amiga, não uma das suas revistas adultas!

— Eu não fiz nada! — Kuro defendeu-se, pegando um pacote de salgadinhos. — Eu tenho olhos, Emma! E ela é linda! Você queria que eu olhasse para onde? Para o Nico? O Nico eu vejo todo dia na escola. Uma sereia de conchas é uma oportunidade única na vida!

— Ele tem razão em um ponto — Nico disse, sentando-se no balcão. — Ela é hipnotizante. Mas, cara, tenta disfarçar. Ela é inocente, não entende essas suas segundas intenções. Se você a assustar, ela volta para o mar e nunca mais a vemos.

Kuro suspirou, encostando-se na geladeira. Ele sabia que os amigos tinham razão. Havia algo de puro em Tatsuyo que o fazia sentir-se um pouco sujo por ter aqueles pensamentos. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia evitar.

— Eu vou tentar — prometeu ele. — Mas não me peçam para não olhar. É como pedir para um astrônomo não olhar para uma supernova.

Eles prepararam uma bandeja com frutas, sanduíches (sem peixe, por respeito) e mais alguns refrigerantes. Quando voltaram para a área da piscina, encontraram Tatsuyo sentada nos degraus da parte rasa, com a cauda fora da água, movendo as barbatanas finais de um lado para o outro, fazendo um som de chicote suave no ar.

— Vocês demoraram — disse ela, os olhos brilhando ao ver a comida. — O "engenheiro" se perdeu no caminho?

Kuro riu, sentando-se novamente no chão, mas desta vez um pouco mais afastado.

— Não, o engenheiro só estava discutindo alguns projetos. Aqui, experimente isso. É uva. Não tem casca grossa, é só morder.

Ele jogou uma uva para ela, que a pegou no ar com uma agilidade impressionante.

— Doce! — ela exclamou. — Como o suco das algas de verão.

Eles passaram a hora seguinte conversando, rindo e ensinando a Tatsuyo palavras novas. Ela contou sobre as baleias cantoras que passavam pela costa uma vez por ano e sobre como o som delas podia ser ouvido a quilômetros de distância, como um trovão profundo sob a água.

Aos poucos, o cansaço começou a bater nos três humanos. O estresse da "operação resgate" e a adrenalina do encontro estavam cobrando seu preço.

— Eu preciso dormir um pouco — Emma bocejou. — Tatsuyo, você vai ficar bem aqui?

— Sim — a sereia respondeu, voltando para o centro da piscina. — A noite é longa para o meu povo. Vou ficar observando as estrelas. Elas parecem mais brilhantes daqui do que debaixo da água.

— Se precisar de qualquer coisa, bata no vidro daquela janela — Nico apontou para o quarto de hóspedes no térreo. — Eu vou estar dormindo ali.

— Boa noite, Criaturas de Terra — disse ela, afundando o corpo até o nariz, deixando apenas os olhos e as pérolas visíveis.

— Boa noite, Tatsuyo — disseram Emma e Nico.

Kuro foi o último a se levantar. Ele olhou para a sereia na água e, por um breve momento, não houve malícia em seu olhar, apenas uma admiração genuína.

— Boa noite, rainha das correntes — ele disse baixinho.

Tatsuyo piscou os olhos negros para ele e, em um movimento rápido, deu um pequeno salto, batendo a cauda na superfície e jogando uma lufada de água bem no rosto de Kuro.

— Ei! — ele exclamou, limpando o rosto, enquanto ela ria lá embaixo.

— Isso foi pela "engenharia"! — ela gritou, antes de mergulhar fundo.

Kuro sorriu, balançando a cabeça. Ele caminhou para dentro de casa, sentindo o rosto molhado e o coração um pouco mais leve. Ele sabia que aquela semana seria uma tortura para seus instintos, mas, olhando para a lua através do vidro da sala, ele percebeu que trocaria todos os seios do mundo por mais um dia de risadas com a sereia que trazia o oceano nos olhos.

Lá fora, na piscina azul, Tatsuyo flutuava de costas, olhando para o céu infinito. O colar de estrela-do-mar brilhava em seu peito, logo acima das conchas brancas que tanto intrigavam seu novo amigo. Ela sentia que, embora o mundo humano fosse estranho e cheio de perigos, havia algo de intensamente belo na forma como aquelas três criaturas de terra a tratavam. Ela não era apenas uma curiosidade; ela era, pela primeira vez em sua vida, especial por quem era, e não apenas pelo que era.

E, no silêncio da noite, ela começou a cantar baixinho uma melodia que não tinha palavras, apenas o som do vento e das ondas, uma canção que falava de segredos guardados em piscinas e de amizades que nasciam onde a areia encontrava o mar.