Sexo virtual
Ventos de Chicago e Promessas de Abril
A luz fria da manhã de 1º de abril de 2022 refletia nas janelas do Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. Maria Clara sentia o cansaço das horas de voo pesar em seus ombros, mas o frio cortante da "Cidade dos Ventos" serviu como um despertador instantâneo assim que ela e sua melhor amiga, Priscila, cruzaram as portas automáticas em direção ao táxi. O céu estava de um azul pálido, e a promessa de dez dias de liberdade e exploração estava apenas começando.
— Eu não consigo acreditar que finalmente chegamos! — exclamou Priscila, ajeitando o cachecol grosso enquanto olhava a paisagem urbana de arranha-céus que começava a surgir no horizonte. — Maria, olha o tamanho daqueles prédios!
Maria Clara sorriu, mas sua mão apertava o celular dentro do bolso do casaco. Ela já havia enviado três mensagens para Yoongi desde que o avião pousara, avisando que estava bem, que o voo fora tranquilo e que já sentia falta dele. Ele, em Seul, provavelmente estava no meio de uma tarde exaustiva de ensaios ou trancado no estúdio, mas ela sabia que ele veria as notificações assim que pudesse.
Os primeiros dias em Chicago foram uma imersão cultural e gastronômica. No dia 2 de abril, as duas amigas decidiram enfrentar a fila do *Skydeck* na Willis Tower. A sensação de pisar no cubo de vidro, a centenas de metros de altura, fez o estômago de Maria Clara dar voltas, mas a vista panorâmica do Lago Michigan e da extensão infinita da cidade era paralisante.
— Tira uma foto minha aqui, Pri! — pediu Maria, posicionando-se no vidro. — O Yoongi vai ter um ataque cardíaco quando vir isso. Ele odeia alturas, mas vai amar a composição da foto.
À noite, exaustas de caminhar pela Magnificent Mile, elas se renderam à famosa *Deep Dish Pizza* do Lou Malnati’s. O queijo derretido e a massa crocante foram o combustível necessário para Maria Clara aguentar até o horário da sua chamada de vídeo noturna.
No quarto do hotel, com as luzes da cidade cintilando lá fora, Maria conectou o laptop. O rosto de Yoongi apareceu na tela segundos depois. Ele parecia cansado, com os cabelos pretos levemente úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho.
— Como está a "Cidade dos Ventos"? — perguntou ele, a voz rouca enviando um arrepio familiar pela espinha de Maria. — Você está agasalhada? Ouvi dizer que a temperatura caiu hoje.
— Estou bem, meu amor. Usei três camadas de roupa hoje — Maria riu, aproximando o rosto da câmera. — Comi uma pizza que você ia adorar. É quase uma torta de queijo.
— Guarde o nome do lugar — ele disse, com um meio sorriso. — Próxima vez, eu vou com você. Não gosto de saber que você está comendo coisas incríveis sem mim.
— Senti sua falta no Skydeck. A vista é linda, mas... — ela suspirou, o tom de voz mudando para algo mais suave — ...queria sua mão na minha para eu não ter tanto medo do vidro.
Yoongi soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira do estúdio.
— Eu também queria estar aí. O estúdio está silencioso demais sem as suas mensagens constantes. Priscila está cuidando de você?
— Está sim. Ela se diverte me vendo falar com você toda noite. Diz que eu fico com "cara de boba apaixonada".
— E ela está errada? — Yoongi provocou, arqueando uma sobrancelha com aquele brilho travesso nos olhos.
No dia 4 de abril, o roteiro foi dedicado à arte. Elas passaram horas no Art Institute of Chicago. Maria Clara ficou hipnotizada diante de "Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte", de Seurat. Ela passou minutos observando os pontos de cor, tentando imaginar como Yoongi descreveria aquela técnica em uma música. Enquanto Priscila fotografava as esculturas, Maria entrou na loja do museu.
Ali, ela encontrou o que procurava. Um conjunto de cadernos de partituras de edição limitada, com capas em couro envelhecido e detalhes que remetiam à arquitetura clássica de Chicago. Ela sabia que Yoongi tinha dezenas de cadernos, mas aqueles eram especiais. Tinham o peso da história e o cheiro de papel novo que ele tanto amava.
— Já comprando presentes? — Priscila apareceu ao seu lado, segurando um chaveiro.
— É perfeito para ele, Pri. Ele sempre diz que as melhores ideias surgem quando ele está longe do computador. Agora ele vai ter um lugar bonito para anotar as melodias que eu inspiro — Maria piscou, orgulhosa da escolha.
Os dias seguintes, 5 e 6 de abril, foram marcados por passeios mais alternativos. Elas visitaram o bairro de Wicker Park, explorando lojas de discos de vinil e sebos escondidos. Maria comprou um vinil raro de jazz dos anos 50 para a coleção de Yoongi, algo que ela sabia que o faria sorrir de orelha a orelha. Elas almoçaram em cafés pequenos, onde o cheiro de café torrado lembrava Maria das madrugadas em que Yoongi trabalhava e ela ficava ao seu lado, apenas observando sua genialidade em silêncio.
No dia 7 de abril, o clima esfriou consideravelmente. Uma chuva fina e gelada começou a cair, e as duas decidiram passar a tarde no Field Museum. Entre esqueletos de dinossauros e exposições sobre o Antigo Egito, Maria Clara se sentia pequena diante da imensidão do tempo.
— Sabe, Pri — comentou Maria, enquanto observavam o tiranossauro Sue —, o Yoongi me disse uma vez que a música é a única coisa que sobrevive ao tempo, além dos ossos. Estar aqui me faz querer que a nossa história também seja assim. Eterna.
— Vocês são intensos demais — Priscila riu, mas a abraçou de lado. — Mas é bonito de ver. A distância só provou que vocês não conseguem mais funcionar um sem o outro.
Naquela noite, a chamada de vídeo foi mais longa. Yoongi estava em um dia reflexivo. Ele mostrou a ela uma melodia que estava compondo no piano. Era melancólica, mas com uma base de esperança.
— É para você — ele confessou, os dedos ainda acariciando as teclas. — O ritmo é inspirado no jeito que você caminha quando está animada.
Maria sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.
— Eu comprei algo para você hoje, Yoongi. Na verdade, tenho comprado muitas coisas. Minha mala vai voltar cheia de Chicago, mas metade é sua.
— Eu não preciso de coisas, Maria. Só preciso que você volte inteira. Mas... — ele deu um sorriso felino — ...estou curioso para ver o que você escolheu. Você tem bom gosto.
O dia 9 de abril foi o dia do Navy Pier. Elas deram uma volta na roda-gigante Centennial Wheel ao entardecer. Ver as luzes da cidade se acendendo enquanto o sol se punha sobre o lago foi o momento mais mágico da viagem. Maria Clara gravou um vídeo curto, girando a câmera para mostrar o horizonte.
— "Olha onde eu estou, Yoongi" — ela disse no vídeo, a voz sendo levada pelo vento. — "Queria que você estivesse aqui para me beijar no topo dessa roda."
A resposta dele veio em áudio, minutos depois: — "Guarde esse desejo. Vou cobrar com juros assim que você pousar."
Nos últimos dias, 10 e 11 de abril, o cansaço começou a ser substituído pela ansiedade do retorno. Elas fizeram um último passeio pelo Millennium Park, tirando as fotos obrigatórias no *Cloud Gate* (o famoso "Feijão"). Maria Clara viu seu reflexo distorcido na superfície prateada e sorriu. Ela estava diferente. A viagem tinha sido incrível, mas a saudade de Yoongi agora era uma presença física, uma pressão no peito que só seria aliviada com o toque real.
Na última noite em Chicago, 12 de abril, Maria e Priscila fizeram um jantar de despedida em um bistrô francês charmoso no River North.
— Valeu a pena, não valeu? — perguntou Priscila, brindando com uma taça de vinho.
— Cada segundo — respondeu Maria Clara. — Mas estou pronta para ir para casa. Ou melhor, estou pronta para ir para onde ele estiver.
De volta ao hotel, Maria terminou de arrumar as malas. Os cadernos de partitura estavam protegidos entre suas roupas, o vinil de jazz cuidadosamente embalado em plástico bolha. Ela se sentou na cama e ligou para Yoongi uma última vez dos Estados Unidos.
— Amanhã eu embarco — ela disse, assim que o rosto dele apareceu.
Yoongi estava deitado, o laptop apoiado no peito. Ele parecia exausto, mas seus olhos brilharam ao ouvir a notícia.
— Finalmente. Eu já mudei os lençóis da cama — ele disse, com a voz baixa e carregada de expectativa. — E cancelei todos os meus compromissos para os próximos dois dias após sua chegada.
— Dois dias inteiros? — Maria sorriu, mordendo o lábio inferior.
— No mínimo. Prepare-se, Maria Clara. Chicago foi o seu descanso. Seul vai ser a nossa maratona.
— Eu não esperaria nada menos de você, Min Yoongi.
— Eu te amo. Voe com cuidado.
— Eu te amo. Até logo.
Ao fechar o laptop, Maria Clara olhou para a janela do hotel pela última vez. Chicago tinha sido uma sinfonia de ventos, luzes e descobertas, mas a verdadeira melodia de sua vida estava esperando por ela do outro lado do oceano, pronta para ser escrita na pele e no coração.