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Shes my woman

Línguas de Fogo e Veneno

O sol estava começando a baixar, pintando o céu de um laranja meio sujo, típico de fim de tarde na cidade. Mizi caminhava com um dos fones de ouvido socado no canal auditivo, a música no talo para tentar abafar a voz irritante do professor de história que ainda ecoava na sua mente. Ela estava exausta. A adrenalina de ter descido o soco no Acorn tinha passado, deixando apenas uma dorzinha chata nos nós dos dedos e um mau humor do tamanho do mundo.

De repente, sentiu um tranco no braço. Alguém a puxou com força, fazendo seu corpo girar rápido demais. O movimento brusco fez o fone sem fio saltar do seu ouvido e quicar no asfalto com um estalo seco.

— Que porra é essa?! — Mizi rosnou, já fechando o punho, pronta para acertar quem quer que fosse.

Mas parou no meio do caminho. Era Sua.

A garota de cabelos pretos estava ofegante, com os olhos roxos brilhando de um jeito que Mizi não conseguia decifrar. A marca do curativo no pescoço ainda estava lá, um lembrete físico da crueldade de Mizi no dia anterior.

— Mizi, espera... — Sua começou, a voz trêmula. — Eu só queria... obrigada. Pelo que você fez hoje cedo.

Mizi soltou uma risada anasalada, cheia de escárnio, e se abaixou para pegar o fone no chão, limpando-o na saia do uniforme antes de encarar a ex.

— Obrigada? Ah, agora a princesinha resolveu ser educada? — Mizi deu um passo à frente, invadindo o espaço de Sua. — Eu não fiz aquilo por você, Sua. Eu fiz porque aquele moleque é um merda e estava atrapalhando meu caminho. Não pira achando que a gente é amiga de novo.

— Eu não estou pirando! — Sua rebateu, o tom de voz subindo. — Eu só estou tentando ser civilizada, coisa que você parece ter esquecido como se faz!

— Civilizada? — Mizi deu um passo agressivo, forçando Sua a recuar. — Você quer falar de civilidade depois de ter acreditado em cada palavra lixo que aquela garota disse sobre mim? Você me chamou de mentirosa na frente de todo mundo! Você me chutou como se eu fosse nada!

— E o que você queria que eu fizesse?! As provas estavam lá, Mizi! — Sua gritou, as lágrimas começando a brotar. — Você nunca negou com vontade! Você só ficou com essa cara de deboche!

— Porque eu achei que você me conhecia, sua idiota! — Mizi a empurrou. O impulso foi forte o suficiente para fazer Sua bater as costas contra uma pilastra de concreto de um viaduto deserto. — Eu achei que, depois de tudo o que a gente viveu, você teria o mínimo de cérebro para não cair num papo furado daqueles. Mas não, você preferiu o drama. Você preferiu se fazer de vítima.

Mizi se aproximou tanto que Sua conseguia sentir o cheiro de chiclete de cereja e o calor que emanava do corpo dela. Mizi apoiou as mãos na pilastra, uma de cada lado da cabeça de Sua, encurralando-a. O olhar de Mizi mudou; o ódio ainda estava lá, mas ele se misturou com algo perigosamente provocativo.

— E agora você está aí, com esse namoradinho de plástico que tenta te forçar no corredor — Mizi sussurrou, a voz ficando rouca e aveludada, um contraste bizarro com o veneno das palavras. — Que decadência, Sua. Você trocou alguém que te adorava por um lixo que não consegue nem ouvir um "não".

Sua estava paralisada, a respiração curta. — Mizi, para...

— Para o quê? — Mizi inclinou o rosto, roçando o nariz no de Sua. — Tá com medo? Ou tá gostando de ter alguém que realmente tem atitude perto de você de novo? Porque vamos ser sinceras, você sempre foi carente de atenção, né?

Mizi desceu o olhar para o pescoço de Sua. Ela esticou a mão e, com uma lentidão torturante, puxou a ponta do curativo, revelando a marca avermelhada da queimadura de cigarro.

— Eu deixei minha marca em você — Mizi disse, com um sorriso de lado que era puro pecado. — E você ainda está usando, mesmo que doa.

Em um movimento súbito e completamente fora do roteiro, Mizi inclinou a cabeça e passou a ponta da língua sobre a cicatriz no pescoço de Sua. O contato úmido e quente fez Sua soltar um arquejo alto, o corpo inteiro tremendo contra o concreto.

— Sabe, Sua — Mizi disse, afastando-se apenas alguns centímetros, os olhos fixos nos lábios da outra —, eu seria mil vezes melhor do que aquele otário do Acorn. Eu sei exatamente onde te dói e onde você gosta. Então, por que você não faz um favor a si mesma e termina com ele? Você está passando vergonha ficando com um cara daqueles.

Mizi deu um tapinha leve no rosto de Sua, soltou a pilastra e pegou sua mochila.

— Passar bem, "ex" — disse ela, saindo andando sem olhar para trás, deixando Sua encostada na pilastra, com o coração martelando nas costelas e o pescoço queimando de um jeito novo e confuso.

***

Na manhã seguinte, o clima na escola estava mais elétrico que o normal. Mizi chegou com o uniforme de sempre — despojado, gravata frouxa e uma cara de quem tinha dormido apenas três horas. Ela avistou seu grupo perto da entrada e caminhou até eles.

— E aí, bando de desocupados — Mizi saudou, bocejando.

Vianna se virou para ela com os olhos pretos quase saltando das órbitas. — Mizi! Você não vai acreditar na fofoca do século!

— O que foi? O diretor foi pego saindo com a tia da cantina? — Mizi perguntou, sem muito interesse.

— Não, caralho! — Marty disse, ajeitando os anéis com pressa. — A Sua e o Acorn terminaram! E não foi um término normal, não. Dizem que ela deu um pé na bunda dele no meio do grupo deles, na frente de todo mundo, e disse que ele era um lixo abusivo.

Mizi parou de andar. O cérebro dela deu um curto-circuito momentâneo. Ela lembrou do que tinha dito no viaduto. *Puta merda, ela levou a sério?*

— Sério? — Mizi tentou manter a voz neutra, mas o coração deu um salto. — Bom... já era hora, né? Aquele cara é um bosta.

— É, mas a Hyuna disse que a Sua estava com uma cara de quem não dormia há dias — Lexy comentou, observando Mizi com aquele olhar clínico de quem sabia demais. — E que ela não parava de mexer no pescoço.

Mizi sentiu um frio na barriga, mas disfarçou com um sorriso sarcástico. — Problema dela. A gente tem aula de química agora, vamos logo antes que eu desista de ser alguém na vida.

***

O resto do dia passou como um borrão. No intervalo, Mizi precisava de ar. E de nicotina. Ela subiu para o terraço, o lugar que tecnicamente era proibido, mas que todo mundo usava.

Quando abriu a porta, soltou um palavrão baixo. O "lado direito" estava todo lá. Sua, Till, Ivan, Hyuna e Luka ocupavam um canto perto da mureta. O barulho era infernal; Till estava reclamando de alguma nota, Hyuna estava rindo alto e Ivan estava tentando roubar o lanche do Luka.

Mizi ignorou a presença deles. Ela caminhou até a borda oposta, a mais distante possível, sentou-se com as pernas balançando para fora e acendeu um cigarro. O vento bagunçava seu cabelo rosa e azul, e ela fechou os olhos, tentando apenas existir.

— Ei, gatinha, tem um lugar pra mim nesse abismo ou tá lotado? — A voz de Marty soou atrás dela.

Mizi riu, abrindo um olho. — Sempre tem lugar pra você, Marty. Senta aí.

Marty se acomodou ao lado dela, balançando as pernas também. Do outro lado do terraço, o grupo da Sua ficou em silêncio por um momento ao notar os dois, mas logo voltaram a conversar, embora desse para sentir os olhares de Till e Sua queimando as costas de Mizi.

— O clima lá no canto dos "populares arrependidos" tá pesado, hein? — Marty comentou, dando um ombro no de Mizi.

— Deixa eles se afogarem no próprio veneno — Mizi respondeu, soltando a fumaça.

— Mas e aí? — Marty deu um sorriso malicioso, aproximando o rosto do dela. — Fiquei sabendo que você deu um show de heroína ontem. Me dá um beijinho de recompensa, vai? Eu prometo que sou melhor que a Sua.

Mizi gargalhou, empurrando a testa dele com o dedo. — Sai fora, Marty! Você é gay, para de ser palhaço.

— Ué, e você é lésbica, a gente se entende! — Marty brincou, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para um abraço de lado. — Imagina o escândalo. "Mizi troca ex-namorada melancólica por amigo fabuloso". A gente ia quebrar a internet dessa escola.

— Você não vale nada — Mizi disse, encostando a cabeça no ombro dele, rindo de verdade. — Mas valeu pela tentativa.

Enquanto os dois riam e trocavam piadas sujas, Mizi sentiu um olhar persistente. Ela virou o rosto levemente e viu Sua. A garota de cabelos pretos estava com um livro aberto no colo, mas não estava lendo. Ela observava Mizi e Marty com uma expressão de dor e uma pontada óbvia de ciúmes que ela tentava, sem sucesso, esconder.

Mizi não desviou o olhar. Ela deu uma tragada lenta no cigarro, soprou a fumaça na direção do vento e deu um sorriso de canto para Sua — o mesmo sorriso que tinha usado antes de lamber o pescoço dela no dia anterior.

Sua desviou o olhar rapidamente, o rosto ficando vermelho, e voltou a fingir que lia seu livro de poesias.

— Ela tá secando a gente — Marty sussurrou, notando a interação.

— Deixa secar — Mizi respondeu, sentindo uma satisfação sombria. — Algumas pessoas só dão valor quando percebem que o lugar delas já foi ocupado.

— E foi? — Marty perguntou, sério por um segundo.

Mizi olhou para o horizonte, para os prédios cinzas da cidade. — O lugar dela na minha vida? Sim, Marty. Esse lugar agora é um buraco negro. E eu não pretendo cair nele de novo.

Do outro lado, o grupo da Sua tentava manter a conversa.

— Ela parece... diferente — comentou Hyuna, observando Mizi rir com Marty. — Mais leve.

— Ela está com pessoas que confiam nela — Luka disse, a voz calma e direta. — É uma diferença fundamental, Hyuna.

Sua apertou as páginas do livro com tanta força que o papel começou a amassar. Ela sentia a marca no pescoço latejar. As palavras de Mizi — *eu seria mil vezes melhor do que aquele otário* — não saíam da sua cabeça. Ela tinha terminado com Acorn não só pelo que ele fez, mas porque, no momento em que Mizi a tocou, Sua percebeu que qualquer migalha de atenção da ex era mais real do que tudo o que tinha vivido no último ano.

Mas, olhando para Mizi agora, tão distante e tão cercada de novos afetos, Sua percebeu que o perdão não era algo que ela podia simplesmente pedir. Era algo que Mizi não estava nem um pouco interessada em dar.

O sinal tocou, estridente, cortando o momento. Mizi jogou a bituca do cigarro longe, levantou-se e deu um tapinha na bunda de Marty, rindo de alguma última piada dele. Eles passaram pelo grupo da Sua sem dizer uma palavra, como se eles fossem apenas parte da paisagem.

A guerra fria do 3º ano estava longe de acabar, mas Mizi estava ganhando todas as batalhas. E ela nem precisava se esforçar.

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