Shes my woman
Labirintos de Orgulho e Saliva
A manhã de segunda-feira na escola tinha aquele cheiro característico de café barato, cera de assoalho e o desespero silencioso de quem não estudou para o simulado. Mizi atravessava o corredor principal com a energia de quem tinha acabado de conquistar o mundo, ou pelo menos de quem tinha dormido o suficiente para ignorar a existência da gravidade. Seus cabelos bicolores estavam presos em um coque propositalmente bagunçado, e ela caminhava com um braço passado pelos ombros de Marty.
— Eu estou te falando, Mizi, se você usar aquele glitter prateado no festival, a Lexy vai ter um colapso sensorial e a Vianna vai tentar te lamber — Marty gesticulava com as mãos cheias de anéis, rindo da própria piada.
— Deixa ela lamber, eu sou deliciosa — Mizi respondeu, soltando uma gargalhada alta que ecoou pelos armários metálicos. Ela deu um empurrãozinho de ombro em Marty, flertando abertamente na zoeira, como sempre faziam para confundir quem passava. — Mas e você, Marty? Quando é que vai admitir que esse seu jeito de "gay passivo" é só fachada pra esconder que você quer casar comigo e ter três gatos?
— Três gatos? Mizi, eu sou alérgico! — Marty dramatizou, colocando a mão no peito. — Mas eu aceitaria ser sua esposa troféu se você me desse uma mesada em anéis de prata.
Mizi estava tão distraída com a encenação de Marty que nem percebeu a mudança no fluxo de pessoas à sua frente. Ela estava "destruída" — no melhor sentido da palavra, com a maquiagem levemente borrada propositalmente e a camisa do uniforme mais aberta que o normal. O impacto foi inevitável.
— Ei, olha por onde... — Mizi começou a resmungar, pronta para soltar um palavrão, mas as palavras morreram na garganta.
À sua frente, Sua estava parada, com os olhos roxos arregalados. Ela não estava sozinha; Till, com seu cabelo cinza espetado e cara de quem queria brigar com a própria sombra, e Hyuna, que mantinha os braços cruzados com uma expressão de "lá vamos nós de novo", estavam logo atrás dela.
O silêncio caiu sobre o corredor como um balde de água gelada. Mizi sentiu o olhar de Sua descer para o braço dela ainda em volta de Marty, e depois subir para o seu rosto. Havia uma tensão ali, algo elétrico e perigoso. Mizi, movida por um instinto puramente caótico e pelo desejo de testar se o término de Sua com Acorn tinha sido realmente por causa das suas palavras no viaduto, decidiu dobrar a aposta.
Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre ela e Sua até que a ponta de seus sapatos se tocassem.
— Ora, ora — Mizi disse, a voz caindo para aquele tom rouco e provocativo que ela sabia que desarmava Sua. — Se não é a minha ex favorita. Onde está o seu guarda-costas de plástico, Sua? Ouvi dizer que você finalmente criou bom senso.
Sua tentou desviar o olhar, o rosto começando a ganhar um tom rosado. — Mizi, não começa. A gente só está indo para a aula.
Mizi não recuou. Pelo contrário, ela estendeu a mão e, com uma delicadeza que beirava a crueldade, segurou o queixo de Sua, forçando-a a olhar diretamente nos seus olhos. O olhar de Mizi mudou instantaneamente; não era mais o olhar de uma colega de classe, era algo pesado, carregado de uma intenção que faria qualquer um corar.
— Você está muito tensa, sabia? — Mizi murmurou, aproximando o rosto. — Talvez você esteja sentindo falta de algo... real.
Sua tentou se soltar, um movimento fraco de cabeça, mas Mizi firmou os dedos no queixo dela. Não era um aperto que machucava, era uma âncora. Sua parou de resistir. Seus olhos roxos estavam fixos nos de Mizi, e a respiração dela começou a ficar audível.
Till deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Solta ela, Mizi! Que porra você está fazendo?
— Fica na sua, Till — Hyuna interveio, segurando o ombro do garoto. Ela estava observando a cena com uma curiosidade mórbida. — Deixa elas se resolverem.
Mizi ignorou o mundo ao redor. Ela estava focada no tremor dos lábios de Sua.
— Sabe o que eu acho? — Mizi sussurrou, o rosto agora a milímetros do de Sua. — Eu acho que você passou o final de semana inteiro pensando no que eu te disse. No que eu te fiz sentir.
Mizi soltou um sorriso predatório, um brilho de desafio nos olhos. Ela queria ver até onde a "perfeita Sua" iria.
— Abre a boca, vai — Mizi comandou. Foi um teste. Uma piada interna que ela não achou que Sua seguiria.
Mas, para o choque absoluto de Mizi e de todos os alunos que agora paravam no corredor para assistir ao espetáculo, Sua obedeceu. Foi um movimento leve, quase imperceptível, mas os lábios dela se separaram, esperando.
Mizi sentiu um baque no peito. *Ela realmente abriu?*. O pânico e o triunfo lutaram dentro dela por um milésimo de segundo. Ela olhou ao redor rapidamente; dezenas de olhos estavam nelas. Se ela recuasse agora, pareceria que tinha perdido o próprio jogo. Ela não podia deixar que dissessem que Sua tinha "vencido" ou que ela mesma tinha amarelado.
Então, Mizi agiu.
Ela soltou o queixo de Sua e envolveu a cintura da garota com um braço firme, puxando-a para frente enquanto a empurrava contra os armários frios. O som do impacto das costas de Sua contra o metal ecoou, mas foi imediatamente abafado pelo beijo.
Não foi um beijo de reconciliação. Foi um beijo de fome, de posse e de uma raiva que só o desejo acumulado consegue produzir. Mizi invadiu a boca de Sua com a língua, explorando cada canto com uma agressividade que fez os joelhos de Sua fraquejarem. Ela sentiu as mãos de Sua subirem desesperadas, agarrando o tecido da sua camisa branca e apertando com força, como se estivesse se afogando e Mizi fosse a única boia de salvação.
O corredor explodiu em murmúrios e assobios. Mizi sentiu o aperto de Sua na sua camisa e, por um breve momento, a barreira de ódio que ela tinha construído vacilou. Ela sentiu a vulnerabilidade da outra garota, o desespero de quem tinha passado anos acreditando em uma mentira e agora estava perdida no caos da verdade.
Uma pontada de dó atingiu Mizi, misturada com uma culpa que ela não queria admitir. Ela se separou do beijo bruscamente, a respiração pesada, os lábios brilhando pela saliva compartilhada.
Sua estava encostada no armário, com o rosto completamente vermelho, os olhos nublados e a boca entreaberta, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Ela parecia pequena, frágil sob a luz fluorescente do corredor.
Mizi, recuperando sua máscara de indiferença com uma velocidade impressionante, deu um passo para trás. Ela não disse nada romântico. Ela não pediu desculpas.
Ela simplesmente abriu a mochila, tirou um pequeno espelho de mão e um rímel.
— Você beija bem, Sua. Mas ainda é uma péssima mentirosa — Mizi disse, a voz agora perfeitamente estável.
Ela começou a retocar o rímel ali mesmo, olhando-se no espelhinho enquanto voltava a caminhar em direção à sua sala. Marty, que estava com a boca literalmente aberta, trocou um olhar rápido com Lexy e Vianna, que tinham acabado de chegar para ver o final da cena.
— Anda, Marty. A gente vai se atrasar — Mizi chamou, sem olhar para trás, a personificação da "diva" que não se abalava por nada.
Marty correu até ela, seguido por Lexy e Vianna. Assim que se afastaram o suficiente do grupo da direita, Marty explodiu.
— QUE PORRA FOI AQUELA?! — ele gritou, gesticulando freneticamente. — Mizi, você beijou ela! De língua! Na frente do Till! Na frente da escola toda!
— Ela abriu a boca, Marty. O que você queria que eu fizesse? — Mizi respondeu, fechando o rímel com um estalo e guardando-o na mochila enquanto continuava a andar com uma postura impecável.
— Ela abriu porque você mandou! — Vianna disse, rindo nervosamente. — Cara, a cara do Till foi impagável. Ele parecia que ia ter um AVC.
— E a Sua? — Lexy perguntou, a voz baixa e observadora. — Ela parecia... destruída, Mizi.
Mizi parou por um segundo, a mão na alça da mochila apertando com força. — Ela fez a escolha dela no primeiro ano, Lexy. Eu só estou garantindo que ela saiba exatamente o que perdeu.
Enquanto isso, no corredor, o silêncio em volta de Sua era sepulcral. Till estava com as mãos na cabeça, andando de um lado para o outro.
— Que porra foi essa, Sua? — Till perguntou, a voz carregada de confusão e raiva. — Você... você abriu a boca pra ela? Depois de tudo? Depois da marca no pescoço?
Hyuna estava parada na frente de Sua, observando a amiga. — Sua, você está bem?
Sua não respondeu de imediato. Ela levou a mão aos lábios, sentindo o formigamento e o gosto de Mizi que ainda permanecia ali. Ela olhou para o final do corredor, onde o cabelo rosa de Mizi desaparecia na multidão.
— Eu não sei — Sua sussurrou, a voz quase inaudível. — Eu só... eu não consegui dizer não.
— A gente precisa ir pra aula — Hyuna disse, suspirando e puxando Sua pelo braço. — Isso vai ser o assunto da escola pelo resto do mês. Você tem noção disso, né?
Sua assentiu mecanicamente, permitindo-se ser levada. Ela sabia que tinha caído no jogo de Mizi. O que ela não sabia era se Mizi tinha beijado para machucá-la ou se, no fundo daquele beijo faminto, ainda existia um resto da garota que costumava amá-la mais do que tudo no mundo.
Na sala de aula, Mizi sentou-se em seu lugar habitual, no lado esquerdo. Ela abriu o caderno, mas não escreveu uma única palavra. Marty, Lexy e Vianna a cercavam, sussurrando sobre as repercussões, mas Mizi estava em seu próprio mundo. Ela olhou para a palma da mão, onde o calor da cintura de Sua parecia ainda estar presente.
Ela tinha vencido a rodada. Mas, pela primeira vez, a vitória tinha um gosto amargo de saudade que nenhum rímel ou sarcasmo conseguia esconder.