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Shes my woman

O Labirinto entre o Ódio e o Éxtase

O sinal da saída ecoou pelos corredores como um alívio coletivo, mas para Sua, o som trouxe apenas uma pontada de cansaço. Ela caminhava pelo pátio externo em direção ao portão, flanqueada por Till e Luka. Hyuna e Ivan haviam saído mais cedo para resolver algum rolo na diretoria, deixando o trio para trás.

— Eu estou dizendo, Luka, aquele solo de guitarra no final da música era para ser mais agressivo — reclamava Till, gesticulando com as mãos enquanto chutava uma pedrinha.

— A agressividade sem técnica é apenas ruído, Till — respondeu Luka, ajustando os óculos com a calma irritante de sempre. — A estrutura harmônica exige...

O debate foi interrompido por um som seco de estalo, seguido por um gemido agudo. Sua, distraída com os próprios pensamentos, havia pisado em falso em um desnível da calçada. Ela cambaleou e caiu sentada no chão, o rosto contorcendo-se em uma careta de dor imediata.

— Porra, Sua! — Till se abaixou, preocupado. — O que foi?

— Meu pé... — Sua sibilou, segurando o tornozelo esquerdo. — Eu acho que torci feio.

Till tentou segurá-la pelos braços para levantá-la, mas ele era magro demais e Sua estava completamente sem apoio na perna esquerda. Luka tentou ajudar do outro lado, mas a coordenação motora do nerd era inexistente e ele quase derrubou a garota de novo.

— Vocês dois são inúteis — resmungou Sua, a testa suando de dor. — Till, você não tem força nenhuma, e Luka, você está me puxando pro lado errado!

— Estamos tentando ser o suporte físico necessário, Sua! — Luka exclamou, levemente ofendido. — Mas a biomecânica da situação é desfavorável!

— A biomecânica é que eu não consigo andar, seu idiota! — Sua gritou, o estresse finalmente vencendo sua calma melancólica.

A poucos metros dali, Mizi caminhava em direção ao portão, rindo de algo que Marty e Vianna diziam. Ela parou bruscamente ao ver a cena: Sua sentada no chão, com o rosto pálido, sendo "socorrida" pelos dois garotos que pareciam mais atrapalhar do que ajudar.

Mizi sentiu aquele puxão familiar no peito. Ela tentou ignorar, disse a si mesma que não era problema dela, mas seus pés já estavam se movendo.

— Podem ir indo, gente. Vejo vocês depois — disse Mizi para Marty e Vianna, acenando sem olhar para trás.

Ela se aproximou do trio com passos decididos. Parou na frente de Sua e cruzou os braços, observando a confusão com um sorriso sarcástico.

— Mas o que é isso? Um piquenique no asfalto ou o clube dos aleijados resolveu fazer uma reunião? — provocou Mizi.

— Não enche, Mizi! — Till rosnou. — Ela se machucou de verdade.

Mizi ignorou Till completamente. Ela se abaixou, ficando no nível de Sua. O olhar de deboche suavizou-se por apenas um segundo ao ver a expressão de dor genuína nos olhos roxos da ex.

— O que aconteceu, princesa? Perdeu o equilíbrio junto com o bom senso? — Mizi perguntou, a voz baixando para aquele tom aveludado.

— Eu torci o pé — Sua respondeu baixinho, evitando o olhar de Mizi.

Mizi não disse mais nada. Ela se levantou, pegou os sapatos de Sua que haviam caído e os segurou com uma das mãos. Com a outra, ela pegou a mochila de Sua.

— Saiam da frente, vocês dois. Antes que acabem quebrando a outra perna dela — ordenou Mizi para Till e Luka.

Antes que Sua pudesse protestar, Mizi passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro pelas costas, levantando-a do chão com uma facilidade impressionante. Sua soltou um arquejo de surpresa, passando os braços pelo pescoço de Mizi por puro instinto.

— Mizi, o que você está fazendo? — Sua perguntou, o rosto colado ao pescoço da garota de cabelos rosa.

— Te levando pra casa, óbvio — Mizi respondeu, começando a caminhar. — Se depender desses dois, você só chega em casa no próximo ano letivo.

Till e Luka ficaram parados, assistindo à cena com expressões de choque puro. Mizi nem olhou para trás.

O caminho até a casa de Sua foi envolto em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som dos passos de Mizi e pela respiração próxima de Sua. Quando chegaram, Mizi usou a chave que Sua tirou da mochila para abrir a porta.

Ao entrar, Mizi sentiu um déjà vu avassalador. A casa estava exatamente igual a dois anos atrás. O mesmo cheiro suave de lavanda, os mesmos livros organizados na estante. Era como se o tempo tivesse congelado no momento em que elas terminaram.

Mizi colocou Sua cuidadosamente no sofá da sala.

— Fica aí. Não se mexe — ordenou Mizi.

Ela foi até a cozinha com a familiaridade de quem já morou ali. Pegou gelo, enrolou em um pano e voltou para a sala. Ela se ajoelhou no chão, entre as pernas de Sua, e colocou a compressa fria sobre o tornozelo inchado.

— Ai! — Sua reclamou do frio repentino.

— Aguenta firme, Sua. Você já aguentou coisa pior, tipo o namoro com aquele imbecil do Acorn — Mizi retrucou, mantendo o foco no pé da garota.

Sua observava Mizi. A forma como ela cuidava dela, apesar de todas as palavras ácidas dos últimos dias.

— Por que você está fazendo isso, Mizi? — Sua perguntou, a voz falhando. — Você disse que me odiava. Que eu era um buraco negro na sua vida.

Mizi parou de ajeitar o gelo. Ela levantou o olhar, e o brilho pervertido e provocador voltou com força total. Ela soltou o pano com o gelo, deixando-o equilibrado no tornozelo de Sua, e envolveu o calcanhar da garota com a mão.

— Eu disse muita coisa, Sua — Mizi sussurrou.

Lentamente, Mizi inclinou a cabeça e depositou um beijo suave no calcanhar de Sua. O contato da boca quente de Mizi com a pele fria fez Sua estremecer da cabeça aos pés. Mizi não parou. Seus lábios subiram pelo tendão, beijando a panturrilha, subindo até o joelho.

— Mizi... — Sua gemeu, as mãos agarrando o estofado do sofá.

Mizi subiu mais um pouco, depositando um beijo demorado na parte interna da coxa de Sua, logo acima do joelho. Ela parou ali, olhando para cima, para o rosto transtornado de Sua. Mizi sabia exatamente o que estava fazendo. Ela podia ver as cenas mais explícitas passando pela sua cabeça, o desejo de possuir Sua ali mesmo, naquela sala cheia de memórias.

Mas ela apenas sorriu, um sorriso cheio de veneno e promessa.

— O gelo deve ficar aí por vinte minutos — Mizi disse, levantando-se bruscamente e ajeitando o uniforme. — Tenta não ser tão desastrada enquanto eu não estiver por perto para te carregar, princesa.

Ela caminhou até a porta, deixando Sua em um estado de combustão interna.

— Tchau, Sua. Sonhe comigo — provocou Mizi antes de sair e bater a porta.

***

No dia seguinte, o clima na escola era de expectativa. Sua chegou mancando levemente, mas recusou qualquer ajuda de Till ou Luka. Ela entrou na sala e sentou-se em seu lugar habitual. O lado direito estava em silêncio, observando-a.

Poucos minutos antes do primeiro professor chegar, Mizi entrou na sala. Ela não foi para o seu lado. Ela caminhou decidida até a mesa de Sua e colocou uma barra de chocolate caro sobre o tampo de madeira.

Sem dizer uma palavra, Mizi se inclinou sobre a mesa, apoiando as mãos nas laterais da cadeira de Sua, cercando-a. Antes que Sua pudesse reagir, Mizi a beijou. Não foi um selinho. Foi um beijo de língua profundo, possessivo, que fez a sala inteira prender a respiração.

Mizi se afastou apenas alguns centímetros, seus lábios quase roçando nos de Sua.

— O chocolate é para a energia. O beijo é para você não esquecer quem é que manda em você — Mizi sussurrou, audível apenas para Sua.

Mizi ia se afastar, pronta para completar sua performance de "vilã descolada", mas sentiu um puxão firme. Sua havia agarrado a gravata de Mizi, puxando-a de volta para baixo com uma força que Mizi não esperava.

Mizi sentiu um choque de déjà vu. Era a mesma posição do pátio, mas o olhar de Sua era diferente. Não havia mais a melancolia defensiva. Havia uma clareza cortante.

— Mizi, me escuta — Sua disse, a voz baixa, mas firme. — Eu fui uma idiota. Eu fui a maior imbecil deste mundo por ter acreditado naquela garota e por não ter confiado em você. Eu errei com você de um jeito que eu não sei se tem conserto.

Mizi paralisou. O sarcasmo morreu em seus lábios.

— Mas eu nunca deixei de te amar — continuou Sua, os olhos roxos transbordando uma verdade crua. — Nem por um segundo nesses dois anos. Você é o meu mundo, Mizi. Sempre foi. Me desculpa. Por favor.

Sua não esperou uma resposta verbal. Ela puxou Mizi para o beijo final, um beijo que selava o pedido de perdão. Foi um beijo calmo, cheio de entrega e de uma promessa de recomeço.

Mizi sentiu as barreiras de ódio que construiu desabarem como castelos de areia. Ela sorriu contra os lábios de Sua, sentindo uma felicidade que não experimentava desde o primeiro ano. Sua era tudo. Sua era a sua casa.

Mizi se afastou, os olhos brilhando de um jeito que Marty e Lexy nunca tinham visto antes. Ela deu um último selinho em Sua e ajeitou a gravata.

— Come o chocolate, Sua. Você vai precisar de energia para o que eu planejei para depois da aula — Mizi piscou, o tom pervertido voltando, mas agora carregado de carinho.

Mizi caminhou até o lado esquerdo da sala, sentando-se com seus amigos. Ela estava radiante. Marty e Vianna a olhavam com sorrisos cúmplices, enquanto do outro lado, Till e Ivan pareciam finalmente respirar aliviados.

A guerra fria do 3º ano havia terminado. E, no final, o amor — e um pouco de provocação — tinha vencido o orgulho.

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