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Shes my woman

Espasmos de Prazer e o Peso da Gravidade

O sol da manhã entrava pelas janelas do corredor do terceiro ano com uma intensidade que Mizi achava pessoalmente ofensiva. Ela estava encostada nos armários metálicos, com uma perna dobrada e a gravata tão frouxa que era apenas um adereço inútil pendurado no pescoço. Ao seu lado, Marty gesticulava freneticamente enquanto contava sobre um novo designer de joias que tinha descoberto no Instagram.

— Eu juro, Mizi, os anéis parecem garras de dragão. Você ia ficar parecendo uma vilã de anime, ia ser o auge! — Marty parou de falar abruptamente, seus olhos castanhos se arregalando. — Eita... olha o estado daquela ali.

Mizi desviou o olhar do próprio rímel no espelhinho de mão e seguiu o gesto de Marty. Vindo pelo corredor, Sua caminhava com uma rigidez que beirava o cômico. Cada passo parecia exigir um esforço hercúleo de coordenação motora, e seu quadril oscilava de um jeito que indicava claramente que algo na região lombar — ou um pouco mais abaixo — não estava operando em sua capacidade total. Ela segurava a alça da mochila com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, e sua expressão melancólica habitual tinha sido substituída por um semblante de puro ódio contra a existência humana.

Mizi sentiu um calor súbito subir pelo pescoço. Ela sabia exatamente o motivo daquela "andada torta". A força que Mizi aplicava nos dedos, aquela urgência bruta que ela usava para reivindicar o que era seu, sempre deixava marcas que não eram visíveis, mas eram sentidas a cada movimento no dia seguinte.

— Bom dia, princesa! — Mizi exclamou, a voz carregada de um deboche açucarado. — Dormiu mal? Parece que um trator passou por cima de você. Ou talvez algo mais... manual?

Sua parou na frente do seu armário, que ficava a poucos metros de Mizi. Ela tentou girar o corpo para encarar a ex, mas soltou um gemido baixo de frustração quando o movimento repuxou os músculos internos das coxas.

— Não enche, Mizi. Sério — Sua sibilou, a voz trêmula de irritação. — O vento está me irritando hoje. O barulho dos seus sapatos está me irritando. A sua existência está me dando dor de cabeça.

— Nossa, que estresse! — Marty comentou, escondendo um sorriso atrás da mão. — O que rolou ontem? Alguém esqueceu de fazer o alongamento pós-treino?

— Cala a boca, Marty! — Sua rosnou, conseguindo finalmente abrir o armário, embora tenha quase caído para o lado ao tentar se abaixar para pegar um livro.

Mizi deu uma risadinha, cruzando os braços sobre o peito. Ela saboreava a visão. Sua estava marcada, por dentro e por fora. O incômodo era grande, mas Mizi viu o brilho rápido nos olhos roxos de Sua antes de ela se virar; ela tinha gostado. Tinha gostado de cada segundo daquela possessão violenta na sala de estar.

O sinal tocou, e o fluxo de alunos começou a empurrá-los para dentro da sala. Mizi caminhou logo atrás de Sua, observando o esforço que a garota fazia para manter a postura. Assim que entraram na sala, antes mesmo de Sua conseguir se acomodar na sua cadeira no lado direito, Mizi deu um passo rápido à frente.

*PAFT!*

O som do tapa na bunda de Sua ecoou pela sala ainda meio vazia.

— MIZI, SUA FILHA DE UMA PUTA! — Sua explodiu, virando-se com uma agilidade que claramente lhe custou muita dor, a julgar pela careta que se seguiu. — Eu vou te matar! Eu vou arrancar cada fio desse seu cabelo rosa e azul! Eu te odeio, eu odeio a sua linhagem, eu odeio o dia em que você nasceu!

Mizi apenas jogou a cabeça para trás e gargalhou, um som limpo e genuíno que atraiu os olhares de Till e Ivan, que acabavam de sentar.

— Calma, estressadinha! — Mizi disse, aproximando-se sem medo das ameaças. — Você está toda descabelada. O suor de raiva está acabando com o seu visual de "garota culta".

Sua tentou empurrá-la, mas Mizi foi mais rápida. Ela se posicionou atrás de Sua e, com uma delicadeza surpreendente, começou a juntar os cabelos pretos e longos da garota. Sua tentou protestar, mas o calor na sala estava realmente insuportável, e o toque das mãos de Mizi na sua nuca enviou um arrepio que não tinha nada a ver com raiva.

Mizi fez um coque improvisado, prendendo-o com um lápis que tirou de trás da orelha. Seus dedos roçaram propositalmente a marca da queimadura no pescoço de Sua, fazendo a garota estremecer.

— Pronto. Agora dá para ver melhor o seu rosto de quem quer cometer um crime — Mizi sussurrou.

Em vez de ir para o seu lugar no lado esquerdo, Mizi puxou uma cadeira vazia e a colocou bem ao lado da mesa de Sua. Ela se sentou de lado, jogando um braço sobre o encosto da cadeira de Sua, invadindo completamente o espaço pessoal da ex-namorada.

— Mizi, o professor vai chegar a qualquer momento. Vai pro seu lugar — Sua pediu, embora sua voz tivesse perdido metade da força.

— O professor que se dane — Mizi respondeu, pegando a mão de Sua que estava sobre a mesa.

Ela começou a traçar círculos lentos na palma da mão de Sua com o polegar, enquanto a outra mão de Mizi, debaixo da mesa, repousava sobre a coxa de Sua, bem perto de onde a dor era mais latente. Mizi apertou levemente a carne macia, sentindo Sua prender a respiração.

— Você está tão sensível hoje, Sua... — Mizi comentou, aproximando o rosto do ouvido da garota. — O que foi? O gelo não ajudou?

— Você sabe muito bem o que foi — Sua murmurou, tentando manter os olhos fixos no quadro negro, embora seu corpo estivesse pendendo perigosamente na direção de Mizi.

Mizi inclinou-se ainda mais, o hálito quente roçando o lóbulo da orelha de Sua. Sua voz baixou para um registro que só Sua podia ouvir, um sussurro carregado de uma memória pecaminosa.

— *Devagar... devagar, Mizi...* — Mizi imitou a voz de Sua, reproduzindo exatamente o tom de súplica que a garota usara na noite anterior.

O rosto de Sua entrou em combustão instantânea. O vermelho subiu das bochechas até as orelhas. Num reflexo de puro pânico e fúria, Sua cravou as unhas na mão de Mizi que estava sobre a mesa, apertando com força suficiente para deixar marcas profundas.

— Cala a boca! — Sua sibilou, os dentes cerrados. — Se você disser mais uma palavra sobre ontem, eu juro que enfio este lápis no seu olho.

Mizi soltou uma risadinha abafada, deliciando-se com a reação. Ela adorava como era fácil desestabilizar a compostura de Sua. Mas a brincadeira tinha um limite, e a proximidade física estava começando a afetar Mizi também. O cheiro de Sua, o calor que emanava daquela pele pálida, a memória do gosto dela... era demais.

Sua, sentindo que tinha perdido o controle da situação, fez a única coisa que sabia que calaria Mizi. Ela soltou a mão da ex, segurou o rosto de Mizi com as duas mãos e a puxou para um beijo.

Não foi um beijo discreto. Foi um beijo faminto, uma reivindicação desesperada no meio da sala de aula. Sua abriu a boca, pedindo a língua de Mizi, e Mizi, é claro, cedeu instantaneamente. Elas se entrelaçaram com uma urgência que ignorava o fato de que Till estava a dois metros de distância olhando com uma expressão de quem queria vomitar, e que Luka estava fingindo ler um livro de física enquanto suas orelhas estavam vermelhas de vergonha alheia.

Mizi engolia Sua. Sua língua explorava a boca da outra com a mesma agressividade com que seus dedos a haviam explorado na noite anterior. A mão de Mizi que estava na coxa de Sua subiu, apertando com força, subindo por baixo da saia, buscando aquele calor proibido em plena luz do dia.

— *Mmh...* — Sua soltou um gemido abafado contra os lábios de Mizi, mas, no momento em que a mão de Mizi tocou a renda da sua calcinha, o choque de realidade a atingiu.

Sua quebrou o beijo bruscamente, ofegante. Ela segurou o pulso de Mizi, impedindo que a mão subisse mais.

— Não... aqui não — Sua disse, a voz rouca e falha. — Mizi, a gente está na escola. Para.

Mizi piscou, os olhos nublados pelo desejo, tentando focar na realidade. Ela olhou para a mão de Sua segurando seu pulso e depois para o rosto da garota, que agora tentava recuperar a dignidade, ajeitando o coque desfeito.

— Ah... entendi — Mizi disse, a voz subitamente murcha.

Ela retirou a mão da coxa de Sua e se levantou da cadeira. O brilho de provocação tinha desaparecido, substituído por uma expressão de decepção que ela tentou esconder com um dar de ombros indiferente.

— É, você tem razão. A escola é um lugar para pessoas "direitas", né? — Mizi comentou, o sarcasmo agora soando amargo.

Ela pegou sua mochila, chutou a cadeira de volta para o lugar e caminhou em silêncio para o seu lado da sala. Ela se jogou na sua mesa, cruzou os braços e abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre os cotovelos.

Marty, que assistia a tudo de camarote, aproximou-se cautelosamente.

— Eita, o que rolou? O clima esquentou e depois nevou? — perguntou ele, cutucando o ombro de Mizi.

— Me deixa em paz, Marty — a voz de Mizi saiu abafada.

Vianna, que estava sentada atrás, soltou uma risadinha maldosa.

— Ih, olha lá! A Mizi ficou tristinha porque a namorada não deixou ela brincar no parquinho! — Vianna zoou, cutucando as costelas de Mizi. — Tadinha da nossa rebelde, foi rejeitada em público!

— Vianna, se você não calar a boca, eu vou te jogar pela janela — Mizi rosnou, sem levantar a cabeça.

Do outro lado da sala, Sua observava Mizi com o coração apertado. Ela queria ter continuado, queria ter deixado Mizi fazer o que quisesse, mas o medo do julgamento, o medo de ser aquela garota "quebrada" de novo na frente de todos, falara mais alto. Ela viu os ombros de Mizi subirem e descerem em um suspiro pesado e sentiu uma culpa avassaladora.

O professor entrou na sala e começou a falar sobre fórmulas químicas, mas para as duas garotas, a única química que importava era a que estava estagnada entre os dois lados da sala.

O resto da manhã foi um borrão de silêncio. Mizi não levantou a cabeça para nenhuma piada de Marty, e Sua não conseguiu se concentrar em uma única linha do que o professor escrevia.

Quando o sinal do intervalo tocou, Mizi foi a primeira a sair, passando por Sua sem sequer olhar. Ela precisava de um cigarro. Precisava de ar.

Ela subiu para o terraço, o seu refúgio habitual. O vento lá em cima estava forte, bagunçando seu cabelo e ajudando a dissipar a névoa de frustração na sua cabeça. Ela acendeu o cigarro, tragando fundo, sentindo a nicotina acalmar seus nervos.

— Eu sabia que te encontraria aqui.

Mizi não precisou se virar para saber quem era. O som dos passos hesitantes — e ainda um pouco tortos — era inconfundível.

— Veio me dar outro sermão sobre comportamento escolar, Sua? — Mizi perguntou, soltando a fumaça para o lado.

Sua caminhou até a mureta e parou ao lado dela. Ela não olhou para Mizi; ficou observando o horizonte da cidade.

— Eu não queria ter parado — Sua disse, a voz tão baixa que quase foi levada pelo vento. — Eu só... eu tive medo.

— Medo de quê? De que vissem que a "perfeita Sua" tem sentimentos por um "monstro" como eu? — Mizi riu, um som sem alegria.

— Não! — Sua virou-se para ela, os olhos roxos brilhando com uma intensidade ferida. — Medo de que, se a gente continuasse, eu não conseguisse mais parar. Medo de que eu me tornasse tão dependente de você de novo que, se você fosse embora, eu não sobrasse nada.

Mizi parou com o cigarro a meio caminho da boca. Ela olhou para Sua e viu a verdade crua ali. A vulnerabilidade que Sua tentava esconder com melancolia era a mesma que Mizi escondia com agressividade.

— Eu não vou a lugar nenhum, sua idiota — Mizi murmurou, jogando a bituca do cigarro no chão e esmagando-a com o pé.

Ela deu um passo à frente, encurtando a distância. Desta vez, não houve provocação, não houve deboche. Mizi apenas envolveu a cintura de Sua com os braços, puxando-a para um abraço apertado. Sua escondeu o rosto no ombro de Mizi, soltando um suspiro de alívio que parecia ter sido guardado por anos.

— Desculpa por ter sido uma babaca na sala — Mizi sussurrou, acariciando o cabelo preto de Sua.

— Desculpa por ter te empurrado — Sua respondeu, apertando o abraço.

Elas ficaram ali por um longo tempo, apenas sentindo o batimento cardíaco uma da outra. A tensão do 3º ano ainda estava lá, os grupos ainda estavam divididos, e a dor no corpo de Sua ainda a lembrava da noite anterior. Mas, naquele momento, no topo da escola, a mentira do primeiro ano parecia uma lembrança distante e sem poder.

— Mizi? — Sua chamou, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos bicolores.

— Hum?

— Você ainda tem aquela chave reserva da minha casa?

Mizi sorriu, e desta vez, era o sorriso que Sua amava. O sorriso da Mizi que era apenas dela.

— Eu nunca devolvi, não foi?

— Ótimo — Sua disse, um brilho travesso surgindo em seus olhos. — Porque hoje à noite, eu quero que você me mostre exatamente o que quis dizer com "não ir a lugar nenhum". E desta vez... você não precisa ir devagar.

Mizi sentiu o sangue ferver. Ela puxou Sua para um beijo rápido, mas carregado de promessa.

— Considere feito, princesa.

Elas desceram para a aula de mãos dadas, ignorando os olhares de choque de Till, a risadinha de Vianna e o joinha de aprovação que Marty fez de longe. O 3º ano estava apenas começando, e se dependesse de Mizi, ele seria o ano mais barulhento, caótico e maravilhoso de suas vidas.

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