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Esquecimento, Chaves e Outras Tensões
O treino de glúteos e pernas tinha sido, sem dúvida, o mais exaustivo da semana. Is sentia as coxas tremerem levemente a cada degrau que descia, e o suor ainda secava em sua pele, deixando aquela sensação de dever cumprido misturada a uma fadiga deliciosa. By, fiel ao seu estilo, não a deixou em paz um segundo sequer, alternando entre incentivos técnicos e piadinhas sobre como ela ficava "fofa" quando fazia careta para completar a última repetição do agachamento sumô.
— Eu avisei que não teria piedade — disse Is, tentando manter a postura enquanto chegavam ao estacionamento.
— E eu sobrevivi — By rebateu, embora sua respiração ainda estivesse um pouco pesada. Ele jogou a mochila no banco de trás do carro e abriu a porta para ela. — Vamos, a "marrenta" precisa de um banho e de comida.
O trajeto até o prédio de Is foi preenchido por uma conversa leve sobre a repercussão da segunda parte da trend que eles tinham gravado. O público parecia obcecado pela química óbvia entre os dois. Quando o carro parou em frente ao edifício dela, Is tateou o bolso da legging. Depois, revirou a mochila de academia. O pânico começou a subir pela sua garganta de forma lenta e gelada.
— Não... não pode ser — murmurou ela, esvaziando o conteúdo da bolsa no colo.
— O que foi? Perdeu o fone de novo? — By perguntou, divertido.
— A chave, By. Eu esqueci a chave de casa lá dentro. E meu celular descarregou agora pouco, nem deu tempo de ver se minha colega de quarto ia sair.
— E ela foi?
— Lembrei agora... a Bela viajou para a casa dos pais hoje cedo. Ela só volta na segunda — Is encostou a cabeça no banco, fechando os olhos. — Eu estou trancada para fora. Com fome, suada e com as pernas parecendo gelatina.
By ficou em silêncio por um momento, observando o perfil dela sob a luz alaranjada dos postes. Ele poderia sugerir um chaveiro, mas era quase meia-noite de uma sexta-feira.
— Bom — começou ele, a voz um pouco mais grave —, você não vai ficar dormindo na calçada. Minha tia e meu primo viajaram para o interior, o apartamento está vazio. Você pode ficar lá hoje.
Is abriu um olho e o encarou. A ideia de ficar sozinha com By em um apartamento fechado, depois de tudo o que vinha acontecendo entre eles, era tão tentadora quanto perigosa.
— Tem certeza? Não quero incomodar.
— Você nunca incomoda, Is. Só não repara na bagunça, porque o primo não é a pessoa mais organizada do mundo.
Dez minutos depois, eles entravam no apartamento de By. O lugar era aconchegante, com cheiro de café e um toque masculino. O silêncio da casa vazia parecia amplificar o som dos passos deles no piso de madeira.
— Pode usar o meu banheiro — disse By, entregando-lhe uma toalha limpa e uma camiseta cinza gigante que ele costumava usar para dormir. — Vai ser um vestido em você, mas é melhor que essa roupa de academia colada.
— Obrigada, By. De verdade.
O banho foi revigorante, mas Is não conseguia relaxar totalmente. A imagem de By, da forma como ele a olhava na academia, e o peso da revelação de que ele a amava em segredo há dois anos, flutuavam em sua mente. Quando ela saiu do banheiro, vestindo apenas a camiseta dele que batia no meio de suas coxas, encontrou-o na cozinha, sem camisa, preparando dois sanduíches.
Is parou na porta, admirando a visão das costas largas e dos cachos levemente úmidos. By se virou e, por um segundo, perdeu o fôlego. A camiseta cinza realçava o tom mel do cabelo dela e deixava suas pernas torneadas totalmente à mostra.
— Ficou... bom em você — ele disse, pigarreando para disfarçar o impacto.
— Ficou enorme, você quer dizer — ela riu, aproximando-se da bancada. — O que temos para o jantar?
— Sanduíche de frango com tudo o que eu achei na geladeira. Dieta de campeões.
Eles comeram sentados no sofá da sala, com a TV ligada em um volume baixo, apenas para preencher o espaço. Mas a conversa, que costumava ser barulhenta e cheia de provocações, foi se tornando mais lenta, mais íntima.
— Sabe o que é mais louco? — Is perguntou, encolhendo as pernas no sofá. — Estar aqui. Há dois anos, você me olhava de longe e eu nem sabia. E agora, eu estou usando a sua roupa, na sua casa.
By largou o prato na mesinha de centro e se virou para ela, apoiando o braço no encosto do sofá.
— Eu imaginei essa cena muitas vezes, sabia? Mas na minha imaginação, eu não demorava dois anos para te convidar para entrar.
— E por que demorou? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.
— Porque eu tinha medo. Medo de você ser apenas uma imagem bonita que eu criei na minha cabeça. Mas aí a gente começou a conversar, a treinar juntos... e eu percebi que a Is real é muito mais perigosa do que a Is da minha imaginação.
— Perigosa? — ela sorriu, aproximando-se dele.
— É. Porque você me faz querer coisas que eu achei que nunca teria.
By estendeu a mão e tocou o rosto de Is, o polegar traçando o contorno do seu lábio inferior. O olhar dele era aquele triângulo fatal: olho, olho, boca. Is sentiu um calor percorrer seu corpo que nada tinha a ver com o clima da sala. Ela se inclinou para frente, fechando a distância entre eles.
O beijo começou lento, quase exploratório, mas rapidamente se transformou em algo faminto. Era o acúmulo de dois anos de silêncio de um lado e de uma descoberta intensa do outro. By a puxou para o seu colo, e Is entrelaçou as pernas na cintura dele, exatamente como haviam feito na barra de calistenia, mas agora sem o metal frio entre eles, apenas pele contra pele.
As mãos de By desceram pelas costas dela, por baixo da camiseta de algodão, encontrando a pele macia de sua cintura. Is soltou um suspiro contra os lábios dele, as mãos perdidas nos cachos escuros da nuca de By.
— Você não tem ideia do quanto eu esperei por isso — ele murmurou entre os beijos, a voz carregada de uma urgência contida.
Ele a levantou do sofá sem quebrar o contato dos lábios, levando-a em direção ao corredor. O movimento era fluido, natural. Ao entrarem no quarto dele, a penumbra era cortada apenas pela luz da rua que passava pelas frestas da persiana. By a deitou suavemente na cama, posicionando-se sobre ela, os braços sustentando o peso do corpo enquanto ele a devorava com o olhar.
— Is... — ele disse, a voz falha. — Se a gente continuar, eu não vou conseguir parar.
Ela o puxou pela nuca, colando seus corpos novamente.
— E quem disse que eu quero que você pare?
As mãos de By voltaram a explorar as curvas de Is, subindo pela lateral de suas coxas, sentindo cada músculo que eles haviam treinado juntos. O clima estava elétrico, a respiração de ambos curta e pesada. Ele desceu os beijos pelo pescoço dela, encontrando um ponto sensível que a fez arquear as costas e soltar um gemido baixo.
— By... — ela sussurrou, as unhas cravando levemente nos ombros dele.
Ele parou por um segundo, os olhos fixos nos dela, buscando uma confirmação final. Havia tanto carinho naquele olhar penetrante, tanta adoração, que Is sentiu seu coração transbordar. Ele não a via apenas como a "garota da academia", ele a via como a pessoa que ele tinha escolhido amar muito antes de ter o direito de tocá-la.
No entanto, quando By começou a deslizar a camiseta cinza para cima, o som de um celular vibrando freneticamente em cima da mesinha de cabeceira cortou o silêncio. Eles pararam, congelados.
— Ignora — ela pediu, a voz rouca.
Mas o celular insistiu. Três, quatro, cinco vezes. By soltou um suspiro frustrado e pegou o aparelho.
— É o meu primo. Ele está ligando do telefone da minha tia. Deve ter acontecido algo.
Ele atendeu, e Is sentou-se na cama, tentando recuperar o fôlego e ajeitando a camiseta. Pelo tom de voz de By, a situação era séria, mas não trágica.
— O quê? Agora? — By passava a mão pelos cabelos, visivelmente tenso. — Tá, tá bom. Eu dou um jeito.
Ele desligou o celular e olhou para Is com uma expressão de desculpas.
— O carro deles quebrou na estrada, a uns quarenta minutos daqui. Eles estão com as malas no meio do nada e não conseguem táxi nem aplicativo que aceite a corrida para cá a essa hora. Eu preciso ir buscar eles, Is.
O momento de tensão sexual foi substituído por uma realidade prática e um tanto cômica. Is começou a rir, uma risada nervosa que logo se tornou contagiante.
— O universo realmente tem um senso de humor peculiar, não tem? — disse ela, jogando-se de costas na cama.
By se aproximou, sentando-se ao lado dela e beijando sua testa com ternura.
— Eu sinto muito. Eu queria que essa noite fosse perfeita.
— E foi perfeita, By — ela disse, segurando a mão dele. — A gente tem o resto da vida para terminar o que começou. E agora eu sei que não foi só imaginação minha.
By sorriu, o olhar voltando a ser aquele que a desarmava.
— Você não vai a lugar nenhum, pequena. Vou te deixar trancada aqui, vou buscar minha tia e, quando eu voltar, a gente termina de assistir aquele filme... ou qualquer outra coisa que você quiser.
— Vai logo, By. Antes que eu mude de ideia e te obrigue a ficar aqui.
Ele deu um último beijo rápido e intenso nela antes de se levantar e vestir uma camisa. Is ficou deitada, ouvindo o som da porta da frente se fechando. Ela olhou para o teto, sentindo o cheiro dele na camiseta que usava e o calor ainda presente em sua pele.
Ela não tinha as chaves de sua casa, mas, naquela noite, entre pesos esquecidos e revelações inesperadas, Is percebeu que tinha encontrado a chave para algo muito mais importante: o coração do garoto que a esperou por dois anos. E ela sabia, com toda a certeza do mundo, que o próximo treino seria apenas o começo de uma série que nenhum deles jamais quereria terminar.