sim
O Reflexo do Que Somos
Is acordou com a claridade filtrada pelas frestas da persiana do quarto de By. Por um segundo, a desorientação tomou conta, mas o cheiro cítrico e amadeirado do travesseiro a trouxe de volta à realidade da noite anterior. Ela tateou o colchão, mas o lado de By estava vazio e frio. Sentou-se na cama, a camiseta cinza gigante ainda cobrindo seu corpo, e viu um bilhete em cima da mesinha de cabeceira, preso por um vidro de perfume.
"Tive que levar meu primo para resolver o problema do carro na oficina logo cedo. Deixei café pronto na garrafa e um jogo de chaves reserva na bancada. Não foge sem me dar tchau. Volto logo. — By."
Ela sorriu, sentindo um calorzinho no peito que nenhuma série de agachamento conseguiria produzir. Levantou-se, tomou um banho rápido e, ao se olhar no espelho, percebeu que seus lábios ainda pareciam um pouco inchados. A lembrança do beijo no sofá e da tensão no quarto a fez morder o lábio inferior inconscientemente. Ela se vestiu com a mesma roupa de academia — agora seca — e decidiu que, já que estava ali, faria uma surpresa.
Quando By abriu a porta do apartamento, quase duas horas depois, o cheiro de ovos mexidos e café fresco o atingiu em cheio. Ele jogou as chaves na tigela da entrada e caminhou até a cozinha, encontrando Is de costas, cantarolando uma música qualquer enquanto arrumava a mesa.
— Se eu soubesse que seria recebido assim, teria quebrado o carro do meu primo mais cedo — disse ele, a voz rouca de cansaço, mas carregada de admiração.
Is deu um pulinho, levando a mão ao peito.
— Que susto, By! — Ela se virou, abrindo um sorriso que iluminou a cozinha. — Como foi lá? Tudo resolvido?
— Na medida do possível. O carro vai ficar dois dias no conserto, mas minha tia já está em casa descansando — ele se aproximou, envolvendo a cintura dela com os braços e puxando-a para perto. — E você? Dormiu bem?
— Dormi. Sua cama é muito mais confortável que a minha, sabia? — Ela entrelaçou as mãos na nuca dele, sentindo os cachos rebeldes entre os dedos. — Mas senti falta de um certo "investidor" do meu lado.
By soltou uma risada baixa e selou os lábios nos dela em um beijo calmo, de bom dia, que rapidamente começou a ganhar profundidade.
— Não começa, Is — murmurou ele contra a boca dela. — Se a gente começar agora, eu não vou conseguir te levar para o treino de sábado. E hoje é dia de braço e ombro.
— Ah, é? — Ela se afastou um pouco, provocativa. — Então vamos comer logo. Quero ver se esse seu bíceps é só genética ou se tem trabalho duro aí.
— Você não perde uma oportunidade de me desafiar, né? — Ele pegou um pedaço de pão. — Mas antes de irmos, eu vi que o vídeo da barra bateu cem mil visualizações. O pessoal está cobrando a "parte dois" que você mencionou no comentário.
Is pegou o celular e mostrou a tela para ele.
— Eu tive uma ideia. Já que ontem a gente não terminou... bem, a gente não terminou nada ontem — ela corou levemente —, podemos fazer uma trend de casal que eu vi. É de supino, mas com uma pegada diferente.
— Se envolver você em cima de mim, eu aceito qualquer coisa — By piscou, fazendo-a rir.
Uma hora depois, eles estavam na academia. O movimento de sábado de manhã era constante, mas eles pareciam estar em uma bolha. Enquanto aqueciam, Is percebeu que o olhar de By sobre ela tinha mudado. Não era mais apenas a admiração de longe ou a provocação de um colega de treino; era um olhar de posse, de alguém que conhecia cada curva e cada reação dela.
— Vamos para o supino? — perguntou By, já carregando a barra com um peso considerável.
— Vamos. Mas as regras da trend são claras — disse Is, posicionando o celular em um tripé improvisado em um banco próximo. — Você faz a série, e na última repetição, eu sento no seu abdômen para adicionar carga e estabilidade.
— Isso não é carga, Is, isso é tortura psicológica — ele brincou, deitando-se no banco.
By começou a série com uma facilidade invejável. A cada subida da barra, as veias de seus braços saltavam e o peitoral se expandia. Is observava tudo de cima, sentindo uma pontada de orgulho. Na oitava repetição, ela se aproximou. Com agilidade, ela se posicionou sobre ele, sentando-se com cuidado enquanto ele segurava a barra no alto.
As mãos de By, que deveriam estar focadas apenas no equilíbrio do peso, encontraram apoio nas coxas de Is para garantir que ela não escorregasse. O toque foi firme, quente.
— Vai, By. Mais duas — ela incentivou, inclinando-se um pouco para frente.
A proximidade fez com que o rosto dela ficasse a poucos centímetros do dele. By soltou o ar com força, completando a repetição com um esforço visível. Os olhos dele estavam fixos nos dela, uma mistura de concentração e desejo.
— Mais uma — sussurrou ela.
Ele subiu a barra pela última vez e a guardou no suporte com um estalo metálico. Mas ele não a deixou sair. Suas mãos subiram das coxas para a cintura dela, puxando-a para baixo até que seus peitos se encostassem.
— Você está jogando sujo hoje — ele disse, a voz abafada pelo esforço.
— Eu? Você que está segurando a "carga" além do tempo necessário — ela rebateu, mas não fez menção de se levantar.
Algumas pessoas ao redor olhavam, mas eles não se importavam. O mundo era aquele banco de supino e a eletricidade que corria entre eles.
— Vamos para a barra? — By sugeriu, levantando-se e ajudando-a a descer. — Quero repetir aquela de ontem, mas sem interrupções de primos ou tias.
Eles caminharam até a área de calistenia. Is se pendurou, sentindo os braços alongarem. By se posicionou de frente para ela, o corpo agindo como um imã. Is entrelaçou as pernas na cintura dele, prendendo-se com força, sentindo a musculatura firme do abdômen de By contra suas pernas.
— Pronta? — ele perguntou, as mãos segurando a barra por fora das dela.
— Sempre.
By começou a subir. Uma, duas, três vezes. O rosto dele subia e descia, e a cada vez que ficavam nivelados, ele dava um beijo rápido no nariz dela, na bochecha, no canto da boca. Na quinta repetição, ele parou no topo. Os braços tremiam levemente, mas ele se manteve lá, sustentando o peso dos dois.
— Sabia que eu sonhei com isso? — ele confessou, os olhos presos nos dela.
— Com a gente fazendo barra? — ela sorriu.
— Com você me olhando desse jeito. Como se eu fosse a única coisa que importa nessa academia inteira.
Is sentiu o coração derreter. Ela se inclinou e o beijou de verdade, um beijo que selava o compromisso silencioso que haviam assumido. Quando ele finalmente desceu e os colocou no chão, o clima de brincadeira tinha dado lugar a algo muito mais profundo.
— By... — ela começou, mas ele a interrompeu com um gesto.
— Eu sei, Is. Eu sei que foi tudo muito rápido desde que a gente começou a conversar de verdade. Mas para mim, foram dois anos de espera. Eu não quero ir devagar.
— Eu também não — ela admitiu, segurando a mão dele. — Mas temos um problema.
— Qual?
— Eu ainda estou sem chave e a Bela só volta segunda.
By soltou uma gargalhada que ecoou pelo salão de musculação, atraindo olhares curiosos.
— Acho que esse é o "problema" que eu mais gostei de ter na vida. Vamos terminar esse treino, porque depois eu vou te levar para almoçar e a gente vai passar na sua casa para ver se alguma janela ficou aberta. E se não ficou... bem, meu sofá ainda está lá.
Eles terminaram o treino com uma energia renovada. Na hora de ir embora, desceram as escadas de mãos dadas, sem se importar com quem visse. Ao chegarem no carro, By abriu a porta para ela, mas antes que ela entrasse, ele a prensou levemente contra o veículo.
— Is, sério. Obrigado por ter aparecido naquela escola dois anos atrás. Mesmo que eu tenha demorado para criar coragem.
— Obrigada por não ter desistido, mesmo quando eu era cega — ela respondeu, puxando-o pela gola da camiseta para um último beijo antes de partirem.
O caminho para o almoço foi cheio de planos. Eles falaram sobre treinos futuros, sobre as séries que queriam maratonar e sobre como a vida tinha um jeito engraçado de colocar as pessoas certas no lugar certo, na hora certa — mesmo que essa hora fosse dois anos depois do esperado.
Enquanto o carro se afastava da academia, Is olhou pelo retrovisor e viu o prédio ficando para trás. Ela sabia que muita coisa mudaria a partir dali. As trends de casal continuariam, os treinos seriam cada vez mais pesados e as implicâncias não parariam. Mas, acima de tudo, ela sabia que não precisaria mais se preocupar com chaves esquecidas ou corações solitários. Porque, no final das contas, ela tinha encontrado seu melhor parceiro de treino, seu primeiro amor e, quem sabe, o dono definitivo da chave do seu coração.
— Ei, By? — ela chamou, enquanto ele dirigia.
— Oi, pequena.
— Segunda-feira é dia de perna de novo. E eu não vou facilitar para você só porque a gente se beijou no supino.
By riu, apertando a mão dela com carinho.
— Eu não esperaria nada menos de você, Is. Nada menos.
E assim, entre o asfalto da cidade e o suor da conquista, eles seguiram em frente, prontos para a próxima série, para o próximo desafio e para todos os capítulos que o destino ainda tinha reservado para aquela dupla improvável, mas absolutamente perfeita.