sim
O Altar de Tudo o que Esperamos
O silêncio no apartamento de Is tinha uma textura diferente agora. Não era o vazio de quando ela estava sozinha, nem a agitação vibrante de quando Bela estava por perto. Era um silêncio carregado, denso, como a calmaria que precede uma tempestade de verão, onde o ar parece estalar antes do primeiro trovão. A porta do quarto se fechou com um clique suave, um som definitivo que ecoou como o início de um novo mundo.
Lá fora, o sol de fim de tarde pintava as paredes de um laranja profundo, quase âmbar, atravessando as cortinas finas e criando sombras longas que dançavam sobre a colcha de algodão. By estava parado a poucos passos dela. Sem a iluminação dura e artificial da academia, sob a luz suave do quarto, ele parecia ainda maior, mais real. Seus olhos castanhos, que tantas vezes a haviam provocado entre um exercício e outro, agora brilhavam com uma vulnerabilidade que Is nunca tinha visto.
— Você tem certeza? — a voz dele saiu mais rouca do que o habitual, um sussurro que pareceu vibrar na pele dela. — Se a gente der mais um passo, Is... eu não sei se consigo ser o cara engraçado e implicante por um tempo.
Is deu um passo à frente, diminuindo a distância até que pudesse sentir o calor que emanava do peito dele. Ela estendeu a mão, as pontas dos dedos roçando levemente o abdômen definido de By, sentindo a musculatura retesar sob seu toque.
— Eu não quero o cara engraçado agora, By — ela disse, olhando-o nos olhos com uma intensidade que o fez perder o fôlego por um segundo. — Eu quero o cara que me olhou por dois anos. Eu quero o cara que sabe cada detalhe meu sem eu precisar dizer.
By soltou um suspiro pesado, uma mistura de alívio e desejo contido. Ele levou as mãos ao rosto dela, os polegares acariciando as maçãs do rosto com uma delicadeza que contrastava com a força dos seus braços. Ele a beijou — não um beijo de academia, rápido e roubado, mas um beijo lento, profundo, que carregava o peso de setecentos e trinta dias de espera. Tinha gosto de antecipação e de uma promessa que finalmente seria cumprida.
As mãos de By desceram para a cintura de Is, puxando-a para mais perto, até que não houvesse mais espaço para o ar entre eles. Is sentiu o coração dele batendo contra o seu, um ritmo frenético e sincronizado. Ela puxou a camiseta dele para cima, e ele a ajudou a se livrar da peça, revelando o tronco pardo e musculoso que ela tantas vezes admirou de longe. A pele dele era quente, com o cheiro familiar de sabonete e aquele toque natural que ela já havia decorado.
— Você é ainda mais bonita aqui — murmurou ele, os olhos percorrendo o rosto dela enquanto ele a guiava suavemente em direção à cama. — Às vezes eu acho que ainda estou sonhando no fundo daquela sala de musculação.
— Se for um sonho, não ouse acordar — ela respondeu, sentando-se na beira do colchão e puxando-o pela mão.
Com movimentos lentos e reverentes, eles se livraram do restante das roupas. Cada centímetro de pele revelado parecia um segredo compartilhado. By se posicionou sobre ela, sustentando o peso nos antebraços, olhando-a como se ela fosse algo sagrado. A luz do entardecer realçava as curvas de Is, o brilho mel de seus cabelos espalhados pelo travesseiro e a plenitude de seus lábios.
— Dois anos, Is — ele repetiu, a voz falha, enquanto sua mão descia pela lateral do corpo dela, mapeando cada curva com uma fome contida. — Eu imaginei tanto esse momento que meu coração parece que vai explodir.
— Então para de imaginar, By — ela sussurrou, enlaçando o pescoço dele e puxando-o para outro beijo. — Sente. Só sente.
Quando eles finalmente se uniram, não houve pressa. Foi uma descoberta mútua, um encaixe que parecia ter sido moldado pelo tempo. By se movia com uma paciência adoradora, seus olhos nunca deixando os dela, buscando cada reação, cada suspiro que escapava dos lábios de Is. Ela sentia cada músculo dele trabalhando, a força que ele usava para se conter e a suavidade com que a tocava.
— Is... — ele gemeu o nome dela, escondendo o rosto em seu pescoço, onde o pulso dela batia descompassado.
— Eu estou aqui — ela respondeu, as mãos espalmadas nas costas dele, sentindo a pele suada e o esforço. — Eu sou sua, By.
O ritmo entre eles cresceu, uma dança de entrega que ultrapassava qualquer trend ou provocação superficial. Era algo visceral. Is sentia que cada toque dele apagava as memórias de qualquer outra pessoa que tivesse passado por sua vida antes. By não estava apenas ali fisicamente; ele estava entregando aqueles dois anos de silêncio, de admiração platônica e de desejo guardado. Era como se ele estivesse finalmente gritando tudo o que sentia através de cada movimento.
O ápice veio como uma onda avassaladora, deixando-os sem fôlego, abraçados um ao outro enquanto o mundo lá fora continuava a girar, indiferente à revolução que acabara de acontecer naquele quarto. By desabou ao lado dela, puxando-a para o seu peito, os dois envoltos em um silêncio que agora era de pura plenitude.
— Caramba — ele disse finalmente, a voz rouca, tentando recuperar o fôlego.
Is riu baixinho, encostando a cabeça no ombro dele, sentindo o suor secar gradualmente.
— "Caramba" é pouco, By. Acho que a gente quebrou algum recorde de intensidade agora.
Ele deu um beijo no topo da cabeça dela, envolvendo-a ainda mais em seus braços.
— Eu te disse que o investimento renderia juros. Só não sabia que o retorno seria tão alto.
— Você é um bobo — ela brincou, desenhando círculos imaginários no peito dele. — Mas é o meu bobo.
Eles ficaram ali por muito tempo, observando as sombras no teto mudarem de cor conforme o sol desaparecia completamente, dando lugar ao azul profundo da noite. A conexão entre eles tinha mudado. O flerte da academia agora tinha uma base sólida, uma intimidade que não precisava de palavras ou de pesos para ser provada.
— Is? — ele chamou, a voz suave na penumbra.
— Oi?
— Eu sei que a gente brinca muito, que eu implico com você e tudo mais... mas eu quis dizer cada palavra ontem. Sobre você ser meu primeiro amor. Eu não sabia como te dizer isso sem parecer um maluco que te perseguia, mas... estar aqui com você agora é a melhor coisa que já me aconteceu.
Is se levantou um pouco, apoiando o queixo no peito dele para olhá-lo.
— Você não é um maluco, By. Você é a pessoa mais real que eu já conheci. E se demorou dois anos para a gente chegar aqui, talvez tenha sido para que esse momento fosse exatamente assim. Perfeito.
Ele sorriu, aquele sorriso que começava nos olhos e terminava nos lábios, e a puxou para mais um beijo, dessa vez calmo, carregado de uma promessa de futuro.
— Sabe o que isso significa, né? — ele perguntou, com um brilho travesso voltando aos olhos.
— O quê?
— Que amanhã, no treino de regeneração, eu vou ter que me segurar muito para não te beijar na frente de todo mundo e dizer que você é minha.
Is gargalhou, sentindo-se mais leve do que nunca.
— Tenta a sorte, By. Mas lembra que eu ainda sou mais forte que você na perna.
— Veremos, pequena — ele disse, fechando os olhos e aconchegando-a em seus braços. — Veremos.
Naquela noite, o apartamento de Is não era apenas um lugar onde ela morava. Era o altar onde o passado de um encontro não realizado se transformou em um presente vibrante. E enquanto o sono os envolvia, By sabia que não precisaria mais olhar para ninguém no fundo de uma sala de musculação. Ele tinha encontrado tudo o que procurava, bem ali, ao seu lado.