sla
O Despertar do Caos e a Invasão dos Bárbaros
— Porra, Chico, acorda! Abre essa porta agora ou eu vou derrubar essa merda e dizer pro hotel que foi um atentado terrorista! — A voz do Casimiro atravessava a madeira da porta do quarto 402 com a sutileza de uma britadeira às oito da manhã.
Eu abri um olho só, sentindo como se um caminhão de lixo tivesse passado por cima da minha cabeça e depois dado ré. O quarto ainda tava mergulhado naquela penumbra quente, com o cheiro de cigarro e de amor que a gente tinha deixado flutuando no ar. A Naju, do meu lado, nem se mexeu; apenas soltou um resmungo baixinho e se enfiou mais fundo debaixo do edredom, parecendo um casulo de fios loiros e pele macia.
— Calma aí, cara... — murmurei pra ninguém, passando a mão no rosto e sentindo a barba por fazer pinicar a palma. — Puta que pariu, o que esse gordo quer uma hora dessas?
— Chico! Eu sei que você tá acordado! Eu tô ouvindo sua respiração de fumante daí de fora! — Era o Beltrão agora, provavelmente já com a câmera ligada, documentando o meu sofrimento pra posteridade da internet brasileira.
— Vai tomar no cu, Beltrão! — gritei, minha voz saindo rouca e falha. — Vai gravar o café da manhã do Pigzada e me deixa em paz, caralho!
Senti a Naju se mexer. Ela esticou uma perna pra fora das cobertas — aquela perna que me dava gatilho só de olhar — e tateou o colchão até encontrar minha mão.
— Expulsa eles, amor... — ela sussurrou, a voz arrastada de sono que me deixava imediatamente sem defesas. — Diz que a gente morreu. Diz que a Taylor Swift veio buscar a gente num jato particular.
— Eu queria, pretinha. Juro que queria — respondi, dando um beijo no ombro dela, sentindo a quentura da sua pele. — Mas se eu não abrir, o Cazé é capaz de chamar o FBI só pela zoeira.
Levantei da cama só de cueca, tropeçando na minha própria calça jeans que tava jogada no meio do caminho. Lamba o lábio inferior, sentindo o gosto seco da ressaca de sono, e abri a porta apenas uma fresta, o suficiente pra ver a cara de satisfação do Casimiro e a lente da câmera do Beltrão brilhando na minha direção.
— Bom dia, estrela! — Cazé exclamou, entrando no quarto sem ser convidado, já com um copo de café na mão e uma sacola de donuts. — Olha o estado do homem! O platinado tá todo arrepiado, parece que levou um choque de realidade. E esse cheiro aqui? Cheiro de pecado e tabaco, hein, Moedas?
— Sai daqui, Casimiro, na moral — falei, tentando fechar a porta, mas o Pigzada apareceu logo atrás, usando o peso do corpo pra impedir.
— Nem pensar! O café da manhã no lobby acabou e eu tô com fome de novo — Pigzada reclamou, já de olho na mesa de cabeceira procurando comida. — Alguém tem um chocolate? Um resto de serviço de quarto?
— Vocês são uns animais, sabia? — A voz da Naju veio debaixo das cobertas, agora um pouco mais nítida. Ela se sentou na cama, puxando o edredom até o pescoço pra se cobrir, mas deixando os ombros de fora. — Não existe privacidade no grupo de vocês?
— Existe, Naju, mas a gente optou por ignorar ela em 2018 — Beltrão respondeu, filmando o quarto todo, inclusive as roupas espalhadas pelo chão. — O público quer o caos. E nada diz "caos" como o Chico Moedas tentando ser funcional antes das nove da manhã em Manhattan.
— Calma aí, cara — eu disse, pegando o café da mão do Cazé e dando um gole generoso sem pedir licença. — O que tá acontecendo? Por que essa invasão bárbara?
— A live, Chico! — Maciel apareceu na porta, com aquela cara de quem já leu o roteiro três vezes e odeia todos os tópicos. — A gente tem que entrar ao vivo em uma hora. O pessoal da técnica já tá maluco. E o Ramon sumiu, acho que ele foi abduzido por uma seita no Central Park.
— O Ramon tá lá embaixo tentando entender como funciona a máquina de gelo, ele tá bem — Alvinho completou, surgindo por último e se sentando na beirada da cama da Naju. — E aí, Naju? O Chico roncou muito ou o cansaço foi tanto que ele só desmaiou?
— Ele foi um cavalheiro — ela respondeu, lançando um olhar de safadeza pra mim que me fez querer expulsar todo mundo a pontapés e voltar pra baixo daquele cobertor. — Mas agora, se vocês não saírem pra eu me vestir, eu vou começar a cobrar ingresso por esse show.
— Ih, expulsou! — Cazé riu, dando um tapa no meu ombro. — Bora, Chico. Dez minutos pra você estar pronto. A gente vai gravar a abertura lá na Times Square pra aproveitar o telão.
— Times Square? — resmunguei, passando a mão no cabelo e tentando dar um jeito na bagunça. — Aquele lugar é o inferno na terra, Casimiro. É muita gente, muito telão, muita luz. Minha cabeça vai explodir.
— Deixa de ser fresco, Moedas — Pigzada disse, pegando um donut da sacola. — É a Copa, porra! Nova York tá respirando futebol e a gente tá aqui pra mostrar isso. Ou pra mostrar você sendo carregado pela namorada, o que der mais audiência.
Eles finalmente começaram a debandar do quarto, entre piadas sobre a minha performance e comentários sobre o quanto o café americano era horrível. Quando a porta finalmente fechou, o silêncio pareceu um presente divino.
Olhei pra Naju. Ela ainda tava sentada, me observando com um sorriso de lado, aquele que dizia que ela sabia exatamente o que eu tava pensando.
— Você tá foda, sabia? — falei, caminhando de volta pra cama e me ajoelhando entre as pernas dela, por cima do edredom. — Esses caras estragam qualquer clima.
— Eles são divertidos, Chico. E eles te amam, do jeito torto deles — ela disse, passando as mãos pelo meu rosto e puxando meu cavanhaque de leve. — Mas eu confesso que a ideia de ir pra Times Square agora parece um castigo.
— Quer fugir? — perguntei, falando sério por um segundo. — A gente pega um táxi, vai pra algum lugar que não tenha telão, não tenha Cazé e não tenha câmera.
— E perder a chance de ver você passando vergonha ao vivo pra milhões de pessoas? — Ela riu, me puxando pra um beijo rápido que tinha gosto de café e desejo. — Nem pensar. Eu vou me arrumar. Quero estar bem bonita pra aparecer no fundo da sua live e te desestabilizar.
— Você já me desestabiliza só de respirar, Ana Julia — sussurrei no ouvido dela, dando uma mordidinha no lóbulo da orelha dela que a fez soltar um suspiro longo. — Se você aparecer lá com esse perfume e esse olhar, eu não vou conseguir falar um "boa noite" que preste.
— Problema seu, jornalista — ela provocou, me empurrando de leve pra fora da cama. — Vai tomar banho. Você tá com cheiro de quem viveu intensamente as últimas doze horas.
— Vivi mesmo. E viveria de novo — respondi, dando um tapa estalado na bunda dela enquanto ela se levantava, o que me rendeu uma risada e um olhar de "você não tem jeito".
Tomei um banho rápido, a água gelada ajudando a colocar os neurônios no lugar. Quando saí, a Naju já tava quase pronta. Ela tinha escolhido um visual que era covardia: uma bota de cano alto, uma saia curta e um casaco pesado que ela deixava entreaberto. Ela tava passando um batom vermelho que destacava cada curva da boca dela. Lamba o lábio, sentindo o corpo reagir instantaneamente.
— Porra, Naju... — falei, parando atrás dela no espelho. — Você quer que eu seja demitido por justa causa? Como é que eu vou trabalhar focado com você desse jeito do meu lado?
— É o teste de profissionalismo, Chico — ela disse, virando-se e ajeitando a gola da minha camisa. — Se você conseguir comentar o jogo da seleção sem olhar pro meu decote, você merece um aumento.
— Eu já aceito a derrota agora — respondi, puxando ela pela cintura e colando nossos corpos. — Eu sou muito fraco pra você, gata. Você sabe disso.
— Eu sei. E eu adoro — ela sussurrou, me dando um selinho demorado. — Agora vamos, antes que o Cazé comece a esmurrar a porta de novo.
Saímos do quarto e encontramos o grupo no corredor. O clima era o de sempre: Maciel reclamando do preço do transporte, Pigzada calculando onde seria o próximo lanche, e Beltrão narrando a caminhada até o elevador como se fosse uma entrada de gladiadores no Coliseu.
— Olha eles! O casal 20 de Manhattan! — Alvinho exclamou quando chegamos. — O Chico tá até mais ereto. O amor edifica, né, bicho?
— O amor e um café de cinco dólares, Alvinho — respondi, tentando manter a pose enquanto a Naju entrelaçava os dedos nos meus.
Descemos e pegamos dois táxis amarelos. O trajeto até a Times Square foi uma mistura de gritaria e planejamento técnico. O Casimiro não parava de falar sobre as estatísticas do jogo, enquanto eu só conseguia olhar pela janela e sentir a mão da Naju apertando a minha, um contato constante que me mantinha ancorado no meio daquela loucura.
Quando desembarcamos no coração de Nova York, a sensação foi de um soco sensorial. Luzes por todos os lados, milhares de pessoas de todas as nacionalidades, e o frio cortante que parecia ignorar as camadas de roupa.
— Porra, que lugar bizarro! — Pigzada disse, olhando pra cima com a boca aberta. — Parece que eu tô dentro de um videogame.
— É aqui que a mágica acontece, galera! — Beltrão já tava posicionado, com o microfone na mão. — Chico, assume aí. Vamos fazer a entrada pro Instagram antes da live oficial.
Eu me posicionei, tentando ignorar os turistas que paravam pra olhar o que aquele grupo de brasileiros barulhentos tava fazendo. Passei a mão no rosto, lambi o lábio e dei o meu melhor sorriso de cafajeste pra câmera.
— Fala, galera da Cazé TV! Estamos aqui, direto do epicentro do mundo, a Times Square! O clima tá absurdo, o frio tá de foder, mas a gente tá aqui pra trazer tudo da Copa pra vocês. E ó, eu não tô sozinho, trouxe uma convidada especial pra ver se ela aprende alguma coisa sobre futebol...
Puxei a Naju pra frente da câmera. Ela sorriu, acenou e, com a maior naturalidade do mundo, me deu um beijo na bochecha que eu sabia que ia gerar dez mil comentários em cinco segundos.
— Calma aí, cara! — ouvi o Cazé gritando por trás da câmera. — O homem tá usando a firma pra flertar! Isso é desvio de função, Moedas!
— É investimento pessoal, Casimiro! — respondi, rindo e puxando a Naju pra perto do meu peito, sentindo o calor dela me proteger do vento de Nova York.
A gravação continuou, entre erros, piadas e o caos urbano. O Maciel quase se envolveu numa briga com um cara fantasiado de Homem-Aranha que queria cobrar dez dólares por uma foto, e o Ramon finalmente apareceu, segurando um copo de chocolate quente com a cara mais plena do mundo.
— Onde você tava, Ramon? — perguntei, enquanto fazíamos uma pausa.
— Eu tava vendo os telões, Chico. Sabia que tem um anúncio da Taylor Swift ali em cima? — Ele apontou pra um telão gigantesco.
A Naju quase teve um treco.
— Onde?! Chico, olha! É o anúncio da turnê! — Ela começou a pular, esquecendo completamente o frio e a live. — Tira uma foto minha com o telão, vai! Agora!
— Puta que pariu, lá vamos nós de novo — resmunguei, mas já pegando o celular. — Eu sou o maior jornalista do Brasil e meu trabalho principal é ser fotógrafo de Swiftie.
— E você ama isso — ela disse, fazendo uma pose vitoriosa com o telão ao fundo.
— Amo, caralho. Amo você e até essa loira que me persegue em todos os bairros dessa cidade — respondi, tirando a foto e depois puxando ela pra um abraço apertado.
O dia tava só começando. A live seria longa, o frio seria impiedoso e o grupo provavelmente me levaria à loucura até o pôr do sol. Mas, enquanto eu sentia o cheiro do cabelo da Naju e ouvia a risada escandalosa do Cazé ecoando entre os prédios, eu sabia que não trocaria aquele caos por nada no mundo.
— Próxima parada: Tribeca de novo porque eu esqueci de ver uma loja! — Naju anunciou, rindo da minha cara de desespero.
— Calma aí, cara... — suspirei, passando a mão no rosto. — Alguém me dá um cigarro, por favor?
O grupo caiu na risada, e a gente seguiu caminho, cortando a multidão de Nova York como se a cidade fosse nossa. E, de certa forma, naquela manhã, ela era.
Você gostaria do resumo do próximo grande segmento do texto original (por exemplo, o próximo capítulo)?