Sleepy hollow
O Veneno Verde no Cálice de Mel
A carruagem que parou diante da taverna de Sleepy Hollow não trazia o selo de nenhuma família local. Era um veículo elegante, vindo de Nova York, e dele desceu uma figura que parecia ter sido recortada de um figurino da ópera francesa. Lady Evelyn Vaughn era o oposto de Katrina: onde a Van Tassel era etérea e silenciosa como a névoa, Evelyn era vibrante, com cabelos castanhos acobreados e olhos que brilhavam com uma curiosidade intelectual afiada. Ela viera para a aldeia sob o pretexto de resolver questões de herança, mas seu verdadeiro interesse fora despertado pelas cartas que chegavam à metrópole sobre um certo detetive excêntrico e seus métodos científicos.
Ichabod Crane, sentado em sua mesa habitual com seus frascos e anotações, sentiu o ar mudar antes mesmo de vê-la. Ele ainda carregava na pele o calor daquela noite no cemitério; o cheiro de Katrina parecia impregnado em seus pulmões como um incenso persistente. Mas, quando Evelyn se aproximou, o cheiro de lavanda e papel novo cortou a atmosfera pesada.
— Mestre Ichabod Crane, presumo? — A voz dela era clara, educada e desprovida de qualquer misticismo.
Ichabod levantou-se num salto, derrubando quase uma de suas lentes de aumento. Ele se curvou com sua habitual rigidez nervosa.
— À sua disposição, milady. Eu sou o investigador Crane.
— Ouvi dizer que o senhor busca a verdade através da razão em um lugar que parece ter esquecido o que é um fato — Evelyn sorriu, sentando-se à frente dele sem esperar convite. — Sou Evelyn Vaughn. Trouxe comigo alguns tratados recentes sobre balística que podem lhe interessar.
Ichabod sentiu um brilho de excitação que não sentia há tempos. Alguém que falava sua língua. Alguém que não falava de presságios ou feitiços, mas de pólvora e trajetórias.
— Balística? — Ele se inclinou para frente, os olhos brilhando. — A senhora possui os diagramas de Von Helldorf?
Enquanto os dois se perdiam em uma conversa técnica e animada, uma silhueta observava da janela embaçada do lado de fora. Katrina Van Tassel, envolta em sua capa de lã branca, sentia algo que nunca experimentara antes: uma pontada de gelo que não vinha do inverno, mas do âmago de seu ser. Ela vira o modo como Ichabod olhava para a estrangeira. Não era o olhar de adoração animal que ele lhe dedicava, mas um olhar de reconhecimento intelectual. E, para Katrina, isso era muito mais perigoso.
Naquela noite, na mansão Van Tassel, o ar estava carregado. Ichabod jantava com a família, e Evelyn fora convidada como hóspede de honra. Katrina permanecia em silêncio, servindo o vinho com uma graça mecânica. Seus olhos azuis, geralmente calmos, agora tinham o brilho gélido da superfície de um lago congelado.
— O mestre Crane é um homem de muitas facetas, Lady Vaughn — disse Katrina, sua voz saindo tão doce quanto mel envenenado. — Ele tem uma curiosidade... insaciável.
— Percebi — respondeu Evelyn, sorrindo para Ichabod. — É raro encontrar um homem tão dedicado à lógica em um ambiente tão... rústico.
— A rusticidade tem seus encantos — Katrina interveio, seus dedos roçando levemente o ombro de Ichabod enquanto ela passava por ele. O toque foi possessivo, quase uma marcação de território. — O solo de Sleepy Hollow guarda segredos que nenhum livro de balística pode explicar. Não é verdade, Ichabod?
Ichabod sentiu o arrepio familiar subir por sua espinha. Ele olhou para Katrina e viu, por trás do sorriso angelical, uma tempestade de fúria contida. Ele pigarreou, ajustando o colarinho que parecia ter ficado subitamente apertado.
— Sim, certamente — gaguejou ele. — Há fenômenos aqui que desafiam a... a análise convencional.
Após o jantar, Evelyn e Ichabod retiraram-se para a biblioteca para examinar os documentos dela. Katrina os seguiu com o olhar, suas mãos apertando o tecido de sua saia até que as juntas de seus dedos ficassem brancas. Ela subiu para seu quarto, mas não para dormir.
Ela acendeu velas de sebo negro e espalhou ervas secas sobre uma pequena mesa de carvalho. Seus movimentos eram rápidos, precisos. Ela não permitiria que aquela intrusa roubasse o homem que ela havia despertado para a vida. Ichabod era dela. Ela o havia moldado entre os túmulos, havia quebrado sua armadura de lógica com seu corpo e sua magia. Ele pertencia à terra de Sleepy Hollow, e ela era a rainha daquela terra.
— Você quer a mente dele? — sussurrou Katrina para a chama da vela. — Pois terá apenas o medo.
No andar de baixo, na biblioteca, Ichabod sentiu um calafrio súbito. As sombras nas paredes pareceram se alongar de forma antinatural. Evelyn, alheia ao clima, mostrava-lhe um diagrama.
— Veja, Crane, se aplicarmos a resistência do ar aqui...
De repente, a porta da biblioteca se abriu com um estrondo, embora não houvesse vento. As velas se apagaram simultaneamente, deixando-os na escuridão total, exceto pelo brilho pálido da lua que entrava pelas janelas altas.
— O que foi isso? — Evelyn perguntou, a voz tremendo levemente.
Ichabod sentiu uma presença. Não era o Cavaleiro. Era algo mais íntimo, mais sufocante. O cheiro de verbena e terra úmida inundou o cômodo.
— Ichabod... — A voz de Katrina ecoou, mas parecia vir de todos os cantos ao mesmo tempo.
Evelyn soltou um grito curto quando uma pilha de livros pesados voou da prateleira, caindo a poucos centímetros de seus pés. O teto rangia como se algo imenso estivesse caminhando sobre eles.
— Crane, este lugar é amaldiçoado! — Evelyn agarrou o braço dele, mas Ichabod parecia em transe.
— Katrina? — chamou ele, a voz falhando.
Uma figura surgiu na penumbra da porta. Katrina estava lá, mas não parecia a jovem doce de sempre. Seus cabelos estavam soltos, flutuando ao redor do rosto como se estivessem sob a água, e seus olhos brilhavam com uma luminescência sobrenatural.
— Lady Vaughn parece desconfortável — disse Katrina, caminhando lentamente em direção a eles. — Talvez o ar de nossa aldeia não concorde com seus pulmões delicados.
— O que você está fazendo? — Ichabod deu um passo à frente, tentando se colocar entre as duas mulheres.
Katrina ignorou-o, seus olhos fixos em Evelyn. A estrangeira sentia uma pressão no peito, como se o próprio ar estivesse se tornando sólido. Ela começou a tossir, uma tosse seca e desesperada.
— Katrina, pare! — Ichabod implorou. Ele via o terror nos olhos de Evelyn e a possessividade selvagem nos de Katrina.
Katrina parou a poucos centímetros de Evelyn. Ela estendeu a mão e tocou a face da outra mulher. Onde seus dedos tocavam, Evelyn sentia um frio lancinante, como se gelo estivesse sendo injetado em suas veias.
— Vá embora — sussurrou Katrina, e sua voz não era humana; era o som do vento uivando nas fendas das lápides. — Saia de Sleepy Hollow antes que a terra se abra para recebê-la. Este homem não é um estudo científico. Ele é um sacrifício que eu já aceitei.
Evelyn, movida por um pavor instintivo que a lógica não podia explicar, soltou o braço de Ichabod e correu para fora da biblioteca, tropeçando em suas próprias saias, fugindo em direção à saída da mansão. Seus gritos ecoaram pelo corredor até que o som da carruagem partindo em disparada quebrou o silêncio da noite.
O silêncio que se seguiu na biblioteca era denso, quase palpável. Ichabod ficou parado, a respiração ofegante, olhando para Katrina. As velas voltaram a acender sozinhas, revelando a expressão dela: não havia arrependimento, apenas uma satisfação sombria e faminta.
— Você a assustou — disse Ichabod, sua voz soando como um sussurro quebrado. — Você usou... o que quer que seja isso.
Katrina aproximou-se dele, a aura de ameaça dissipando-se para ser substituída por uma sensualidade predatória. Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, forçando-o a olhar em seus olhos.
— Ela queria a sua atenção, Ichabod — disse ela, a voz voltando ao tom melodioso de sempre. — Mas você é meu. Cada pensamento seu, cada batida do seu coração, cada gota de suor que você derramou naquela noite no cemitério... tudo pertence a mim.
— Eu... eu nunca disse o contrário — ele ofegou, sentindo a vontade dela dobrar a sua como se fosse feita de palha.
— Então por que olhou para ela com aquele interesse? — Katrina mordeu levemente o lábio inferior dele, uma punição que era também um convite. — Você não precisa de balística. Você não precisa de tratados. Você precisa de mim.
Ela o empurrou contra a mesa de carvalho, espalhando os papéis de Evelyn pelo chão. Ichabod sentiu a dureza da madeira contra suas costas e o calor avassalador de Katrina sobre ele. Ela desabotoou o colete dele com uma pressa possessiva, suas mãos movendo-se com uma agilidade que o deixava sem defesas.
— Você é meu investigador, Ichabod — sussurrou ela contra o ouvido dele, sua língua traçando o contorno de sua orelha. — Investigue-me. Explore cada centímetro do meu corpo até que não reste espaço na sua mente para mais nada. Para mais ninguém.
Ichabod sentiu a onda de desejo subir, misturada com um medo reverencial. Ele agarrou a cintura de Katrina, puxando-a para mais perto, sentindo a forma de suas coxas através do vestido fino. O ciúme dela o excitava de uma maneira que ele não conseguia explicar racionalmente; era a prova de que ele fora reivindicado por algo maior que ele mesmo.
— Katrina... você é uma loucura — ele murmurou, as mãos subindo para o corpete dela.
— Eu sou a sua realidade — corrigiu ela, abrindo o vestido para revelar os seios que ele adorara sob o luar. — Olhe para mim. Diga que não há mais ninguém.
— Não há mais ninguém — ele repetiu, como um mantra, como um homem sob um feitiço que ele não desejava quebrar.
Ele a possuiu ali mesmo, na biblioteca, cercado por livros de leis e ciência que agora pareciam irrelevantes. Cada movimento de Katrina era um lembrete de sua posse. Ela se movia sobre ele com uma ferocidade que ele não vira no cemitério. Ela cravava as unhas em seus braços, deixando marcas vermelhas que seriam as cicatrizes de sua lealdade.
— Diga meu nome — ela exigiu, o rosto iluminado por uma paixão que beirava o ódio.
— Katrina... — ele gemia, os olhos fechados, a mente finalmente em silêncio, preenchida apenas pela sensação dela.
Quando o êxtase os atingiu, foi como uma explosão de escuridão e luz. Ichabod sentiu que sua alma estava sendo selada à dela, uma transação mística realizada no coração da mansão Van Tassel. Katrina relaxou sobre o peito dele, o coração batendo contra o dele, um sorriso de triunfo absoluto nos lábios.
— A estrangeira nunca mais voltará — disse ela, a voz agora calma e satisfeita.
Ichabod acariciou os cabelos dela, sentindo o peso daquela possessividade. Ele sabia que, de certa forma, ele era agora um prisioneiro. Mas, enquanto olhava para a mulher em seus braços, o homem de ciência percebeu que não havia liberdade no mundo exterior que se comparasse àquela escravidão.
— Eu sei — respondeu ele.
Ele olhou para os diagramas de balística espalhados e pisoteados no chão. Eles não passavam de papel e tinta. Katrina era sangue, terra e mistério. E ele, Ichabod Crane, havia finalmente encontrado a única verdade que importava em Sleepy Hollow: ele pertencia à bruxa, e não havia lógica no universo capaz de resgatá-lo.
Lá fora, a névoa se fechava novamente sobre a mansão, protegendo seus segredos. O Cavaleiro podia cavalgar na noite, mas dentro daquelas paredes, Ichabod Crane havia encontrado um tipo diferente de perigo, um que não buscava sua cabeça, mas sua alma inteira. E ele a entregou de bom grado, enquanto Katrina o beijava com o sabor da vitória e do desejo eterno.