Sleepy hollow
O Ventre da Heresia e o Sangue da Inocência
A mansão Van Tassel, outrora um refúgio de opulência e ordem no coração de Sleepy Hollow, parecia agora um mausoléu de segredos prestes a explodir. O ar, pesado com o cheiro de incenso e madeira velha, vibrava com uma tensão elétrica. Ichabod Crane estava sentado em sua escrivaninha, mas seus olhos não focavam nos diagramas anatômicos. Ele ainda sentia o rastro de Katrina em sua pele, um estigma invisível e delicioso que o marcava como cúmplice de uma paixão proibida.
A porta do salão principal foi escancarada com tamanha violência que o som ecoou como um tiro de mosquete pelas vigas da casa. Lady Van Tassel, a madrasta de Katrina, entrou no recinto com a face retorcida em uma máscara de fúria aristocrática. Atrás dela, Sarah, a governanta, mantinha as mãos postas com um fervor religioso que beirava o sadismo.
— Onde ela está? — sibilou Lady Van Tassel, suas vestes escuras farfalhando como as asas de um abutre. — Onde está aquela criatura desavergonhada que desonra este teto sob o pretexto de romance?
Ichabod levantou-se, sua postura desajeitada e nervosa denunciando-o instantaneamente. Seu rosto pálido tornou-se ainda mais cadavérico.
— Minha senhora, eu rogo que se acalme... — começou ele, a voz falhando.
— Cale-se, senhor Crane! — disparou a madrasta, apontando um dedo trêmulo para ele. — O senhor, com suas ferramentas de metal e suas ideias ímpias de Nova York, trouxe a corrupção para esta casa. Mas ela... ela é o próprio receptáculo do pecado!
Nesse momento, Katrina apareceu no topo da escadaria. Ela não usava o olhar submisso que a sociedade esperava. Seus cabelos loiros estavam soltos, e havia uma dignidade selvagem em seu rosto, uma luz que emanava de dentro, desafiando a escuridão que as outras mulheres tentavam impor sobre ela.
— Estou aqui, madrasta — disse Katrina, sua voz clara e firme, descendo os degraus com uma calma que enfureceu Lady Van Tassel ainda mais.
— Como ousa olhar nos meus olhos? — gritou a mulher mais velha, avançando para o pé da escada. — Sarah me contou tudo. O jardim, o quarto... a maneira como você se comporta como uma fêmea no cio, rastejando-se por esse homem como se não tivesse alma!
— Senhorita Katrina — interveio Sarah, a voz carregada de um veneno piedoso —, o que vi foi uma abominação. O senhor Crane pode ter sido seduzido, mas a senhorita... a senhorita é impura. Há uma mancha em sua linhagem que nem toda a água benta de Western Woods poderia lavar.
Katrina parou no último degrau, a poucos centímetros da madrasta. O contraste era absoluto: a juventude luminosa de uma e a amargura seca da outra.
— O que Sarah viu foi amor — respondeu Katrina, os olhos brilhando com uma determinação ferrenha. — Algo que nenhuma de vocês parece capaz de compreender. Ichabod me deu o que este lugar nunca pôde: verdade.
Lady Van Tassel soltou uma risada estridente e amarga, um som que fez Ichabod estremecer.
— Verdade? — zombou ela. — Você é uma puta, Katrina. Uma puta que se vendeu por uns momentos de prazer com um estrangeiro excêntrico. Você jogou o nome Van Tassel na lama por causa de um rabo de saia e um desejo carnal que envergonharia as meretrizes das docas.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Ichabod deu um passo à frente, o horror estampado em seu rosto.
— Senhora, eu não permitirei que fale assim dela!
— E o que o senhor fará, Crane? — desafiou Lady Van Tassel. — Vai me dissecar com suas facas? Ou vai apenas desmaiar como o covarde que é?
Katrina, no entanto, não recuou. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância até que pudesse sentir o hálito gélido da madrasta. Ela levou a mão ao ventre, um gesto protetor e instintivo que mudou a temperatura da sala.
— Chame-me do que quiser — disse Katrina, a voz agora baixa, mas carregada de uma força ancestral. — Mas saiba que as suas ofensas já não me alcançam. Pois o que aconteceu entre mim e Ichabod não foi apenas um momento de carne. Há algo aqui, crescendo dentro de mim.
Lady Van Tassel franziu o cenho, o rosto empalidecendo subitamente. Sarah soltou um arquejo audível, levando a mão ao peito.
— O que você está dizendo? — perguntou a madrasta, a voz falhando pela primeira vez.
— Eu estou grávida — declarou Katrina, olhando diretamente para Ichabod, que sentiu o mundo girar ao seu redor. — O fruto da nossa noite, da nossa paixão sob a névoa, já criou raízes.
O choque foi tão profundo que o tempo pareceu parar. Ichabod Crane sentiu os joelhos fraquejarem. Um filho. Um ser humano feito de sua própria fragilidade e da força de Katrina. No meio de toda a morte e das cabeças que rolavam em Sleepy Hollow, havia vida. Uma vida que ele ajudara a criar.
— Grávida? — Sarah sussurrou, o horror transformando-se em uma expressão de nojo absoluto. — Uma semente bastarda? Nesta casa sagrada? Isso é a prova final da possessão! O demônio marcou você, Katrina!
Lady Van Tassel recuperou a voz, mas seu tom era agora de uma frieza assassina. Ela se aproximou de Katrina, seus olhos estreitados como fendas.
— Isso não vai acontecer — disse ela, as palavras saindo como chicotadas. — Não permitirei que um monstro nascido do pecado herde um centavo desta terra ou manche o nome de meu marido.
— Você não tem poder sobre esta criança — retrucou Katrina, as mãos ainda firmes sobre o ventre.
— Oh, eu tenho — sibilou a madrasta, virando-se para Sarah com um olhar cúmplice e sinistro. — Sarah, prepare o tônico de erva-de-lobo e a raiz de sabugueiro preto. Precisamos tirar essa abominação dela antes que a semente se torne carne. Precisamos limpar essa impureza agora mesmo.
O sangue de Ichabod gelou. Ele conhecia aquelas ervas. Eram venenos, substâncias que, em doses erradas, causariam dores lancinantes e expulsariam qualquer vida do útero, muitas vezes levando a mãe junto para o túmulo.
— Não! — Ichabod gritou, avançando e colocando-se entre Katrina e as duas mulheres. — Vocês não vão tocar nela! Isso é assassinato! É bárbaro!
— Saia da frente, Crane! — ordenou Lady Van Tassel. — Isso é um assunto de família. É uma purificação necessária. Katrina está doente da alma, e esse... esse volume em seu ventre é a doença manifestada.
Katrina, ao ouvir a palavra "tirar", transformou-se. A doçura melancólica que Ichabod tanto amava desapareceu, substituída por uma fúria que parecia invocar as próprias sombras da floresta. Ela empurrou Ichabod suavemente para o lado e avançou contra a madrasta, o rosto iluminado por um ódio sagrado.
— Toquem em mim — desafiou Katrina, a voz vibrando com um poder que fez as velas do salão oscilarem. — Toquem no meu filho e eu juro, pelas antigas leis que vocês tanto temem e que eu domino, que as suas vidas serão consumidas por um horror que nem o Cavaleiro seria capaz de imaginar.
Sarah recuou um passo, cruzando-se freneticamente.
— Ela está enfeitiçada! — gritou a governanta. — Veja os olhos dela! Ela é uma bruxa!
— Eu sou a mãe deste bebê! — rugiu Katrina, as lágrimas de raiva começando a brilhar em seus olhos. — Ele é o símbolo do único amor puro que já existiu nesta vila de hipócritas e assassinos! Ele é o sangue de Ichabod, e ele viverá!
Ichabod sentiu uma onda de coragem que nunca imaginou possuir. Ele não era um guerreiro, não era Brom Bones com seus músculos e arrogância. Ele era apenas um homem com uma mente lógica e um coração que agora batia por dois. Ele pegou um dos seus bisturis da mesa lateral, segurando-o com uma firmeza nova.
— Eu sou um oficial da lei — disse Ichabod, sua voz ganhando uma autoridade que silenciou o recinto. — E como tal, declaro que qualquer tentativa de ferir Katrina Van Tassel ou a criança que ela carrega será tratada como um crime capital. Eu farei o relatório, eu trarei os magistrados de Nova York e eu mesmo testemunharei contra vocês no patíbulo.
Lady Van Tassel olhou para Ichabod com desprezo, mas viu algo em seus olhos escuros que a fez hesitar. A determinação de um homem que não tinha mais nada a perder.
— Você vai protegê-la? — zombou a madrasta. — Um homem que desmaia ao ver uma gota de sangue vai proteger uma puta e seu bastardo?
— Eu darei minha vida por eles — respondeu Ichabod, sem hesitar. — Pois neste lugar de sombras, eles são a única luz que me resta.
Katrina aproximou-se de Ichabod, entrelaçando seus dedos nos dele. O contato foi como um bálsamo. O suor de Ichabod misturou-se à pele quente dela, e por um momento, a mansão Van Tassel desapareceu.
— Vamos embora daqui, Ichabod — sussurrou ela, embora seus olhos ainda estivessem fixos na madrasta. — Este lugar está podre. A terra está clamando por sangue, e eu não permitirei que o nosso seja derramado aqui.
— Você não vai a lugar nenhum! — gritou Lady Van Tassel, mas Katrina já estava puxando Ichabod em direção à porta lateral que levava aos jardins e, além deles, à floresta.
— Sarah! Chame os homens! — ordenou a madrasta, sua voz subindo em um tom de histeria. — Não deixem que eles saiam! Aquela coisa precisa ser arrancada dela!
Mas Katrina foi mais rápida. Antes de saírem, ela parou no limiar da porta e olhou para trás. Um vento súbito e frio soprou de fora, apagando metade das velas do salão e mergulhando Lady Van Tassel na penumbra.
— Reze, madrasta — disse Katrina, friamente. — Reze para que a névoa a proteja. Porque a partir de hoje, Sleepy Hollow saberá que o verdadeiro poder não vem da morte, mas da vida que vocês tentaram destruir.
Eles correram para a noite. A névoa os recebeu como velhos amigos, envolvendo-os em seu manto úmido e cinzento. Ichabod sentia o coração martelar contra as costelas, o medo ainda presente, mas agora acompanhado por uma esperança feroz. Eles atravessaram os jardins, fugindo dos gritos que vinham da mansão.
Quando finalmente pararam, sob a sombra protetora de uma árvore retorcida perto da Ponte de Hessian, Ichabod puxou Katrina para seus braços. Ele a abraçou com uma força desesperada, escondendo o rosto em seus cabelos loiros.
— Um filho, Katrina... — ele murmurou, a voz embargada. — Você tem certeza?
Ela se afastou o suficiente para olhar em seus olhos. A fúria havia desaparecido, substituída por uma ternura infinita. Ela pegou a mão dele e a colocou novamente sobre seu ventre, onde o calor parecia pulsar.
— Eu sinto, Ichabod. Desde a noite em que você estava com febre. A vida se agarrou a mim com a mesma força com que você se agarrou à sua razão. Ele é nosso.
Ichabod beijou a testa dela, sentindo as lágrimas escorrerem por seu rosto pálido.
— Eles vão nos caçar — disse ele, voltando à sua natureza cautelosa. — Sua madrasta não vai parar. Sarah vai espalhar boatos de bruxaria.
— Deixe que venham — respondeu Katrina, olhando para a escuridão da floresta, onde o Cavaleiro Sem Cabeça cavalgava. — Nós sobrevivemos ao sobrenatural, Ichabod. Sobreviveremos aos homens.
Naquela noite, sob a vigilância das estrelas ocultas e o sussurro das árvores, Ichabod Crane deixou de ser apenas um investigador de crimes. Ele tornou-se um guardião. E enquanto caminhavam em direção ao desconhecido, ele soube que nenhuma lógica no mundo poderia explicar o milagre que carregavam consigo. O bebê não era apenas um símbolo de amor; era a prova de que mesmo no lugar mais sombrio da terra, a luz ainda encontrava um caminho para florescer.