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Só quero

O Peso da Eternidade

O ar no quarto parecia subitamente rarefeito, como se as paredes de veludo estivessem se fechando sobre Clara. O confronto com Tom horas antes a deixara fisicamente exausta, mas havia algo mais — uma pressão latejante na base do seu crânio, uma náusea que subia em ondas, fazendo o mundo girar em tons de cinza e prata. Ela tentou se levantar da poltrona, mas suas pernas, geralmente tão firmes apesar de sua silhueta arredondada, cederam como se fossem feitas de papel.

— Tom... — sussurrou ela, a voz mal saindo pela garganta seca.

Ela sabia que ele a estava vigiando. Ele sempre estava. Mesmo quando não estava fisicamente presente, a magia dele pulsava nas paredes, no teto, no próprio ar que ela respirava. Clara cambaleou em direção à porta, o coração batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado tentando quebrar as próprias asas. A visão dela começou a escurecer nas bordas, e o som do vento lá fora parecia um rugido distante.

A porta se abriu antes que ela pudesse tocá-la. Tom estava lá, a expressão de frieza autoritária transformando-se instantaneamente em puro pânico quando ele viu o estado dela. Ele a amparou antes que ela atingisse o chão, seus braços fortes e frios envolvendo-a com uma urgência desesperada.

— Clara! O que está acontecendo? — A voz dele, geralmente tão controlada, falhou.

— Tom, meu amor... por favor, eu não tô bem... — Ela tentou focar nos olhos dele, naqueles olhos que ela amava e temia em igual medida. — Acho que vou des...

As palavras morreram em seus lábios. O corpo de Clara relaxou completamente nos braços dele, a cabeça pendendo para trás. O mundo para ela simplesmente apagou, mas para Tom Riddle, o tempo pareceu parar de uma forma que nem mesmo sua magia mais sombria poderia replicar.

Ele a carregou para a cama, deitando-a com uma reverência trêmula. Ele era o Lorde das Trevas, o bruxo que havia dividido a própria alma para enganar a morte, o homem que fazia nações bruxas tremerem apenas com a menção de seu título oculto. Mas ali, olhando para o rosto pálido de Clara, ele parecia apenas um jovem de vinte e dois anos enfrentando seu maior medo: o vazio de uma existência sem a sua âncora.

— Acorde, Clara. Isso é uma ordem! — sibilou ele, a varinha de teixo já em punho, traçando arcos complexos sobre o corpo dela.

Feitiços de diagnóstico brilharam em cores vibrantes — azul, roxo, um vermelho alarmante perto do coração dela. Tom sentiu o suor frio escorrer por suas costas. Não havia veneno. Não havia feitiço externo. O que ele via era o colapso de um sistema que fora mantido artificialmente jovem por tempo demais. A magia que ele usara para impedir o envelhecimento de Clara era poderosa, mas a alma humana e o corpo físico tinham limites que a natureza começava a cobrar.

— Mestre? — A voz estridente de um elfo doméstico ecoou na porta. — O Mestre chamou?

— Traga a Poção de Vigor e a Essência de Ditamno! Agora! — rugiu Tom, sem desviar os olhos de Clara. — E se você demorar mais de dez segundos, eu o farei desejar nunca ter nascido!

O elfo desapareceu com um estalo. Tom pegou a mão de Clara, apertando-a. Pela primeira vez em décadas, ele sentiu a fragilidade dela. Ele a mantivera gordinha, macia e corada, uma imagem eterna da saúde que ela tinha em 1943. Mas por baixo daquela máscara mágica, o tempo estava tentando recuperar o que lhe fora roubado.

— Você não vai me deixar — murmurou ele, a voz carregada de uma possessividade maníaca. — Eu não permito. Eu destruirei o próprio tempo se ele tentar levar você.

Clara soltou um gemido baixo, as pálpebras tremendo. O diagnóstico vermelho sobre o peito dela começou a pulsar mais devagar. Tom percebeu, com um horror crescente, que o choque de descobrir a verdade sobre a guerra e sobre quem ele realmente era tinha sido o gatilho. O coração dela, puro e despreparado para a escuridão, estava falhando sob o peso da realidade que ele tanto tentara esconder.

O elfo voltou com os frascos. Tom administrou as poções com precisão cirúrgica. Ele usou sua própria magia para forçar o sangue dela a circular, para compelir os pulmões a inflarem. Ele era um mestre da vida e da morte, mas a vida de Clara era o único fio que ele não conseguia simplesmente amarrar de volta se partisse.

Minutos que pareceram séculos se passaram até que Clara finalmente abriu os olhos. Eles estavam nublados, sem o brilho habitual, mas ela estava lá.

— Tom? — sussurrou ela, a voz rouca.

— Estou aqui, minha querida. Estou aqui. Você teve um desmaio. O calor, talvez... — Ele tentou sorrir, mas a máscara de beleza estava tensa, quase rachando.

— Não minta mais — disse ela, afastando a mão dele com uma fraqueza que doeu mais do que qualquer maldição. — Eu senti... eu senti o tempo tentando me puxar, Tom. Eu vi o que você fez. Eu não tenho vinte e dois anos, não é?

Tom desviou o olhar, as mandíbulas cerradas.

— A idade é um conceito irrelevante para nós, Clara. Nós somos eternos.

— Não, Tom. Você é eterno. Eu sou apenas uma prisioneira do seu medo de ficar sozinho — disse ela, conseguindo se sentar com dificuldade. — Você me manteve nesta casa, neste corpo que não muda, enquanto meus pais morriam e o mundo se transformava em cinzas. Você diz que faz tudo o que eu quero, mas você nunca me perguntou se eu queria viver para sempre em uma mentira.

Tom levantou-se e começou a andar pelo quarto, a túnica negra flutuando como fumaça.

— Você não entende! O que você chama de mentira, eu chamo de proteção. O que você chama de prisão, eu chamo de santuário. Você teria morrido na guerra trouxa, ou teria sido caçada pelos meus inimigos. Eu dei a você uma vida de paz!

— A paz de um cemitério! — rebateu ela, a voz ganhando força. — Eu vi aqueles jovens na floresta, Tom. O menino, Harry... ele tinha olhos de quem já viu o inferno. E você é o senhor desse inferno.

Tom parou e olhou para ela. Seus olhos brilharam em um vermelho escarlate por um segundo, a fachada humana vacilando sob a pressão de sua fúria.

— E se eu for? O que isso muda entre nós? Eu ainda sou o homem que colhe flores para você todas as manhãs. Eu ainda sou o homem que construiu este lugar para que nada de ruim jamais a tocasse.

— Muda tudo — disse Clara, as lágrimas escorrendo. — Porque agora, cada vez que você me toca, eu vejo o sangue nas suas mãos. Cada vez que você beija a nossa filha, eu me pergunto que tipo de monstro você está criando para ser como você.

Tom atravessou o quarto em um piscar de olhos, segurando o rosto dela com as duas mãos. Seu toque era possessivo, quase doloroso.

— Você me ama, Clara. Eu sinto isso. Eu sou a única coisa que você conhece há cinquenta anos. Você não tem para onde ir, não tem ninguém a quem recorrer. O mundo lá fora a odiaria por ser minha. Você está presa a mim, pela magia, pelo sangue e pelo tempo.

— Então você admite — sussurrou ela. — Eu sou apenas mais uma de suas Horcruxes. Um objeto para garantir que você nunca morra completamente.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Tom recuou, a expressão subitamente vazia, a máscara de mármore voltando ao lugar. Ele não respondeu. Ele não podia. A verdade era que Clara era muito mais do que uma Horcruxe; ela era a única parte de sua humanidade que ele não tinha conseguido arrancar de si mesmo, e por isso mesmo, ela era sua maior fraqueza.

— Descanse — disse ele, a voz agora desprovida de qualquer emoção. — Você ainda está fraca. Os elfos trarão seu jantar.

— Tom, espere! — chamou ela, mas ele já estava na porta. — O que você vai fazer com os jovens na floresta?

Tom parou, a mão na maçaneta. Ele não se virou.

— O que deve ser feito com invasores. Mas não se preocupe, minha querida. Você não ouvirá os gritos. Eu cuidarei para que o seu silêncio seja absoluto.

Ele saiu e a porta se trancou com um estalo metálico que ressoou como um tiro no quarto.

Clara desabou nos travesseiros, soluçando. Ela sentia a magia da casa pulsando ao seu redor, uma teia invisível que a mantinha viva e cativa ao mesmo tempo. Ela olhou para a sua mão — a pele lisa, sem manchas, sem a sabedoria das décadas. Ela sentia-se como uma boneca de porcelana guardada em uma caixa de veludo, enquanto o dono da caixa incendiava o museu.

Mas, enquanto chorava, sua mão tocou algo frio sob o travesseiro. Era o diário que ela começara a escrever em Hogwarts, o único objeto que Tom permitira que ela trouxesse. Ela o abriu em uma página em branco e, com um dedo trêmulo, começou a traçar runas que aprendera em segredo, observando Tom trabalhar em seu escritório durante as noites em que ele pensava que ela dormia.

Se ela era a âncora dele, se ela era a única coisa que o mantinha ligado a uma forma humana, então ela também era a única que poderia destruí-lo. Não com varinhas ou maldições de morte, mas com a única coisa que Lorde Voldemort nunca poderia controlar: a escolha de deixar de ser sua.

— Você diz que faz tudo o que eu quero, Tom — sussurrou ela para a escuridão do quarto. — Então você me deixará salvar aquele menino. Mesmo que isso signifique que eu tenha que envelhecer e morrer em um único dia.

Lá fora, na Mansão Riddle, as sombras pareciam sussurrar o nome de Voldemort, mas dentro do coração de Clara, o nome de Tom Riddle estava sendo apagado, letra por letra, pela luz fria da verdade. A guerra ainda não tinha chegado à porta principal, mas dentro do santuário mais sagrado do Lorde das Trevas, a primeira batalha já estava perdida.

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