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Sob o peso das estrelas

O Delírio das Chamas e das Sombras

O dia amanheceu cinzento, com uma névoa espessa que parecia ter se infiltrado pelas frestas das janelas de Hogwarts, mas para Regulus Black, o problema não era o clima. Era o silêncio. No café da manhã, ele manteve os olhos fixos em seu prato, esperando a habitual e barulhenta chegada de Jhe Potter. Ele esperava o som da cadeira sendo arrastada ao seu lado na mesa da Sonserina, o cheiro de baunilha que ela exalava e aquela voz irritantemente otimista que o forçava a sair de sua concha aristocrática.

Mas ela não veio.

No primeiro período, Poções com o professor Slughorn, o caldeirão ao lado do seu permaneceu vazio. Regulus sentiu uma pontada de inquietação que atribuiu à falta de alguém para ele corrigir as medidas de ingredientes. No almoço, ele viu James Potter e Sirius Black discutindo em voz baixa, ambos com expressões sombrias, mas Jhe não estava entre eles. Na biblioteca, à tarde, o nicho onde ela costumava se esconder com seus livros de Aritmancia estava ocupado por um aluno do segundo ano que ele expulsou com um único olhar gélido.

O alívio que ele deveria sentir pela ausência daquela "praga grifinória" simplesmente não existia. Em seu lugar, havia um vazio incômodo, uma ansiedade que subia por sua espinha como gelo. Ele passou o dia inteiro olhando pelos cantos, observando os corredores, esperando que ela pulasse de trás de uma armadura para assustá-lo. Nada.

Ao cair da noite, a paciência de Regulus se esgotou. Ele não era um homem de impulsos, mas a incerteza era uma tortura que ele não estava disposto a suportar. No corredor que levava ao Salão Principal, ele avistou Mary Macdonald, uma das amigas mais próximas de Jhe. Sem pensar duas vezes, ele a interceptou, encurralando-a contra uma tapeçaria de unicórnios.

— Onde ela está? — perguntou Regulus, a voz como uma lâmina afiada.

Mary tremeu visivelmente, os olhos arregalados de pavor diante do herdeiro da casa Black, cuja reputação de frieza era lendária.

— Eu... eu não sei do que você está falando, Black! — gaguejou ela, apertando os livros contra o peito.

— Não teste a minha paciência, Macdonald. Jhe Potter. Ela não apareceu o dia todo. Onde ela está? — Ele deu um passo à frente, a aura de autoridade pura emanando de seus ombros.

— Ela está doente! — Mary disparou, a voz subindo uma oitava. — Pegou uma gripe mágica fortíssima, ou talvez seja exaustão... Madame Pomfrey disse que ela precisa de repouso absoluto. Ela está no dormitório da Grifinória desde ontem à noite, queimando em febre.

Regulus sentiu um solavanco no peito. Doente. Aquela garota, que parecia ter a energia de um sol pequeno, estava prostrada.

— A senha — ordenou ele, curto e grosso.

— O quê? Eu não posso te dar a senha! O Sirius me mataria, o James me transformaria em um bule de chá!

Regulus inclinou a cabeça, os olhos cinzentos brilhando com uma intensidade perigosa.

— E o que você acha que eu farei se você não me der? — sussurrou ele, a voz suave demais para ser amigável. — Eu sou um Black, Mary. Eu não preciso de varinhas para tornar a sua vida um inferno acadêmico. A senha. Agora.

— *Mimbulus Mimbletonia*! — ela exclamou, quase chorando. — Por favor, não me azare!

Regulus a soltou e, sem dizer mais nada, caminhou em direção à Torre da Grifinória. Ele sabia que o que estava prestes a fazer era uma loucura. Um sonserino invadindo o território dos leões era um convite para um duelo ou uma expulsão, mas ele não conseguia se importar. A imagem de Jhe, vulnerável e sofrendo, apagava qualquer senso de autopreservação.

Ao chegar ao retrato da Mulher Gorda, ele recitou a senha com um nojo mal disfarçado. O retrato se abriu, revelando um salão comunal repleto de vermelho e dourado que agrediu seus sentidos. Alguns alunos que estavam ali se levantaram, boquiabertos.

— O que um Black faz aqui? — perguntou um quintanista, mas Regulus nem sequer o olhou.

— O quarto de Jhe Potter. Indiquem o caminho ou saiam da frente — disse ele, a mão repousando casualmente no cabo da varinha dentro das vestes.

A presença dele era tão deslocada e tão imponente que ninguém ousou desafiá-lo. Duas garotas do terceiro ano, tremendo de medo, apontaram para a escada em espiral que levava aos dormitórios femininos. Regulus subiu os degraus dois a dois, ignorando os protestos abafados que vinham de trás dele.

Ele parou diante da porta de madeira e, sem bater, entrou.

O quarto estava mergulhado em uma penumbra suave, iluminada apenas pelas brasas de uma pequena lareira. Havia quatro camas, mas apenas uma estava ocupada. Jhe estava ali, uma pequena montanha de cobertores vermelhos. O som da respiração dela era pesado, interrompido por tremores ocasionais.

Regulus aproximou-se lentamente, o coração martelando contra as costelas. Ele nunca estivera em um dormitório feminino, muito menos no da Grifinória, mas o ambiente parecia menos estranho por causa dela. Ele se sentou na beira da cama, observando o rosto de Jhe. Ela estava pálida, com manchas avermelhadas nas maçãs do rosto devido à febre, e fios de cabelo grudados na testa pelo suor.

— Potter? — chamou ele, a voz perdendo toda a aspereza e tornando-se um sussurro rouco.

Jhe gemeu baixinho e abriu os olhos devagar. Suas pupilas estavam dilatadas, o olhar nublado pelo delírio da febre. Quando ela focou no rosto dele, um sorriso fraco e trêmulo surgiu em seus lábios.

— Regulus? — A voz dela era apenas um sopro. — Eu devo estar morrendo... ou sonhando muito alto. Você nunca viria até aqui. As cores... elas machucariam seus olhos.

— Shhh — ele disse, esticando a mão para afastar o cabelo do rosto dela. A pele dela queimava sob seus dedos frios. — Você é uma idiota por ficar doente desse jeito. Eu passei o dia inteiro sem ninguém para me irritar. Foi deplorável.

Jhe soltou uma risadinha que terminou em um acesso de tosse. Regulus imediatamente pegou um copo de água que estava na mesa de cabeceira e, passando o braço por trás das costas dela, ajudou-a a se levantar levemente para beber.

— Você veio mesmo — murmurou ela, encostando a cabeça no ombro dele após beber a água. — Você cheira a hortelã e a livros velhos. É o melhor sonho que eu já tive.

— Não é um sonho, Jhe — disse ele, a voz carregada de uma ternura que o assustava. — Eu estou aqui.

— Por que você se importa? — perguntou ela, fechando os olhos novamente, o calor do corpo dela atravessando as vestes dele. — Eu sou apenas a irmã barulhenta do James. Eu sou o sol que você diz que odeia.

Regulus ficou em silêncio por um longo tempo, sentindo o peso dela contra si. Ele olhou para as sombras na parede, pensando em como sua vida era uma sucessão de deveres frios e expectativas sombrias até que ela apareceu.

— Porque o sol é a única coisa que impede o mundo de congelar, Potter — ele admitiu, as palavras saindo com dificuldade. — E eu descobri hoje que não gosto do frio tanto quanto eu pensava.

Jhe esticou a mão trêmula e tocou o rosto dele, os dedos traçando a linha de sua mandíbula.

— Eu não vou deixar você congelar, Reg — sussurrou ela, o delírio voltando a tomar conta de sua mente. — Eu vim de tão longe para te buscar... você não faz ideia. Eu vi você em um quadro... você estava tão triste. Eu prometi que ia te tirar de lá.

Regulus franziu a testa, sem entender as palavras dela sobre quadros e viagens, mas sentiu a sinceridade avassaladora em seu toque. Ele segurou a mão dela e a beijou suavemente nos nós dos dedos.

— Descanse, Jhe. Eu não vou a lugar nenhum.

— Promete? — perguntou ela, os olhos já se fechando novamente.

— Prometo.

Ele a acomodou de volta nos travesseiros e permaneceu ali, sentado no escuro, guardando o sono da única pessoa que tivera a audácia de amá-lo sem pedir nada em troca. Horas se passaram. O silêncio do castelo era absoluto, até que o som de passos pesados e vozes familiares ecoou no corredor do lado de fora.

— Eu estou te dizendo, Pontas, se ela não melhorar amanhã, eu vou sequestrar a Pomfrey e trazê-la para cá! — A voz de Sirius era carregada de preocupação.

— Ela vai ficar bem, Almofadinhas. Jhe é mais forte do que nós dois juntos — respondeu James, abrindo a porta do dormitório.

Ambos pararam como se tivessem batido em uma parede invisível. A luz do corredor iluminou a cena: Regulus Black, o herdeiro da Sonserina, sentado na cama da irmã deles, segurando a mão dela com uma expressão de vigilância feroz.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? — James gritou, a varinha já na mão.

Sirius estava pálido de choque, sua boca abrindo e fechando sem emitir som.

Regulus levantou-se lentamente, sem soltar a mão de Jhe até o último segundo. Ele encarou o irmão e James com um olhar que não continha medo, apenas um desprezo gelado por terem interrompido a paz dela.

— Falem baixo — ordenou Regulus, o tom de comando fazendo ambos hesitarem por um microssegundo. — Ela finalmente conseguiu dormir. Se vocês a acordarem com essa gritaria patética, eu farei questão de que se arrependam.

— Você invadiu o dormitório da minha irmã, Black! — James deu um passo à frente, os olhos brilhando de raiva. — Saia de perto dela agora!

— Eu não invadi nada — respondeu Regulus, cruzando os braços. — Eu vim ver como ela estava. Algo que, pelo visto, vocês estavam ocupados demais fazendo barulho para realizar com eficiência.

— Regulus... — Sirius finalmente falou, a voz tremendo. — Como você entrou aqui? O que você quer com ela?

— O que eu quero com ela não é da sua conta, Sirius — retrucou Regulus, voltando o olhar para o irmão. — Você a deixou sozinha. Você e o Potter estão tão envoltos em sua própria glória que nem perceberam que ela estava definhando de cansaço tentando manter a paz entre vocês e o resto do mundo.

— Isso não é verdade! — protestou James, mas havia uma sombra de culpa em seu rosto.

— É verdade — disse Regulus. — Jhe Potter é a única pessoa nesta escola que vê além das cores das vestes. E enquanto vocês a tratam como uma criança que precisa de proteção, ela é quem está protegendo todos vocês.

O clima no quarto era de uma tensão elétrica. James e Sirius pareciam prontos para atacar, mas a presença de Regulus ali, tão firme e tão estranhamente protetor, os confundia.

— Saia, Regulus — disse Sirius, a voz mais baixa, mas não menos firme. — Antes que isso termine mal para você.

Regulus olhou para Jhe uma última vez. Ela parecia mais calma agora, a respiração mais regular. Ele sabia que não podia ficar, mas a mensagem fora entregue.

— Eu vou sair — disse ele, passando por James e Sirius com a cabeça erguida. — Mas saibam de uma coisa: eu não vou parar de vê-la. E se vocês tentarem impedi-la de falar comigo, estarão apenas provando que são tão intolerantes quanto as pessoas que dizem combater.

Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, parou e olhou para Sirius por cima do ombro.

— Ela disse que eu parecia triste em um quadro, Sirius. Talvez você devesse começar a olhar para as pessoas reais antes que elas se tornem apenas pinturas na parede.

Regulus saiu, deixando o silêncio pesado para trás. James correu para a beira da cama da irmã, verificando seu pulso, enquanto Sirius ficou parado na porta, olhando para o corredor vazio onde o irmão acabara de desaparecer.

— Ele estava segurando a mão dela, Pontas... — sussurrou Sirius, a voz cheia de uma confusão dolorosa. — Ele estava cuidando dela.

James não respondeu. Ele olhou para o rosto de Jhe e viu o leve sorriso que ainda permanecia em seus lábios, mesmo no sono. Pela primeira vez, o capitão da Grifinória sentiu que havia uma batalha acontecendo bem debaixo do seu nariz, uma que ele não podia vencer com quadribol ou duelos.

Nas masmorras, horas depois, Regulus Black deitou-se em sua cama de dossel verde. Ele ainda sentia o calor da pele de Jhe em seus dedos e o cheiro de baunilha em suas vestes. Ele sabia que o que fizera naquela noite mudaria tudo. O segredo fora revelado, a guerra com seu irmão e com James Potter estava declarada.

Mas, ao fechar os olhos, a única coisa que ele via era o sorriso delírio de Jhe e a promessa que ela fizera: "Eu não vou deixar você congelar".

Pela primeira vez em dezesseis anos, Regulus Black não se sentiu sozinho. Ele tinha uma missão, e ela não envolvia marcas negras ou linhagens puras. Envolvia uma garota grifinória que acreditava no impossível. E ele, contra toda a sua lógica e criação, estava começando a acreditar também.