Sob o peso das estrelas
Ouro Verde e as Sombras de Esmeralda
A recuperação de Jhe Potter foi rápida, quase como se sua própria determinação em não perder um único dia daquela nova vida servisse como combustível para seu sistema imunológico. Madame Pomfrey ainda resmungava sobre "jovens imprudentes que acham que poções substituem o descanso", mas Jhe já estava de volta aos corredores, com as bochechas coradas e os olhos brilhando com uma vivacidade renovada.
Para James e Sirius, a volta de Jhe à rotina trouxe um alívio misturado com uma tensão insuportável. Eles a vigiavam como falcões, mas Jhe era uma Potter; ela conhecia todas as passagens secretas, todos os atalhos e, acima de tudo, sabia exatamente como distrair o irmão com uma pergunta sobre Lily Evans ou uma provocação sobre sua técnica de apanhador.
E assim, ela voltou a orbitar Regulus Black.
Não era mais uma perseguição unilateral. Onde quer que Regulus estivesse — fosse no canto mais isolado da biblioteca ou sob a sombra da mesma árvore próxima ao Lago Negro — Jhe eventualmente aparecia. O que mudara, no entanto, era a reação dele. Regulus não fechava mais os livros com estrondo quando a via chegar. Ele não lançava olhares gélidos que prometiam maldições imperdoáveis. Ele simplesmente... abria espaço.
— Você está atrasada três minutos — comentou Regulus, sem tirar os olhos de um pergaminho de Aritmancia, enquanto Jhe se sentava ao lado dele em um banco de pedra nos jardins.
— Sinto muito, senhor Pontualidade — Jhe riu, largando sua bolsa de couro no chão. — Sirius resolveu fazer um interrogatório sobre por que eu estou usando tanto perfume de baunilha ultimamente. Eu disse que era para atrair trasgos, e ele acreditou.
Regulus soltou um som que, para qualquer outra pessoa, seria apenas um suspiro, mas que Jhe já sabia identificar como uma risada contida.
— Seu irmão é um idiota — disse ele, finalmente olhando para ela. — Mas ele tem razão em uma coisa. Você exala esse cheiro por todo o castelo. É um milagre que os Marotos ainda não tenham mapeado seus movimentos apenas pelo olfato.
— Eles estão ocupados demais tentando descobrir como eu entro e saio do Salão Comunal sem que eles percebam — Jhe deu de ombros, pegando uma maçã da bolsa e oferecendo a ele.
Regulus aceitou a fruta, seus dedos roçando os dela por um segundo a mais do que o necessário. Ele não recuou. Na verdade, ele parecia estranhamente confortável. Para Regulus, Jhe Potter havia se tornado a única exceção em sua vida de regras rígidas e expectativas sufocantes. Ela era a única Potter que valia a pena, a única pessoa que não o olhava como um herdeiro, um traidor ou um futuro soldado das trevas. Ela o olhava apenas como Regulus.
Alguns dias depois, o sol de outono dourava as copas das árvores na Orla da Floresta Proibida. Jhe estava parada perto de um dos pilares da ponte suspensa, olhando para o horizonte com uma expressão que Regulus nunca vira nela: uma melancolia profunda e pensativa. Ela parecia distante, como se estivesse tentando enxergar algo que estava além do alcance do tempo.
Regulus aproximou-se em silêncio, seus passos amortecidos pela grama. Ele a observou por um momento, a luz do sol brincando nos fios castanhos do cabelo dela, e sentiu um impulso súbito de quebrar aquele transe.
Ele se aproximou por trás, movendo-se como uma sombra, e inclinou-se perto do ouvido dela.
— Planejando sua fuga de Hogwarts, Potter? — sussurrou ele, a voz carregada de um sarcasmo suave.
Jhe deu um salto, soltando um grito curto de susto, e girou rapidamente, acertando um tapa inofensivo no braço dele enquanto soltava uma gargalhada genuína.
— Pelas barbas de Merlin, Regulus! — exclamou ela, tentando recuperar o fôlego. — Você quer me matar do coração? Eu juro que vou enfeitiçar seus sapatos para que eles gritem toda vez que você der um passo.
— Seria uma melhoria em relação ao silêncio ensurdecedor dos seus pensamentos — ele retrucou, encostando-se no pilar de pedra e cruzando os braços, observando-a com curiosidade. — No que você estava pensando com tanto empenho? Parecia que estava tentando resolver os mistérios do universo ou, no mínimo, decidindo qual seria a próxima pegadinha do seu irmão.
Jhe parou de rir aos poucos. Ela se virou novamente para o horizonte, mas desta vez não parecia mais tão distante. Ela olhou para Regulus, e a seriedade em seus olhos o fez ficar alerta.
— Eu estava pensando em casas, Reg — disse ela, a voz baixa.
— Casas? — Regulus arqueou uma sobrancelha. — Se estiver falando sobre a mansão dos seus pais, Sirius já me contou o suficiente sobre como é "um paraíso de luz e alegria" para me fazer querer vomitar.
— Não, não casas de família — ela balançou a cabeça. — Casas de Hogwarts.
Regulus franziu a testa, confuso.
— O que tem elas? Você é uma Grifinória clássica, Jhe. Barulhenta, impulsiva, teimosa até o último fio de cabelo e tem essa necessidade patológica de salvar todo mundo. O Chapéu Seletor não deve ter levado nem dois segundos para decidir o seu destino.
Jhe soltou um suspiro longo e olhou para as próprias mãos, que descansavam no parapeito de pedra.
— Sabe, Regulus... às vezes eu sinto que o Chapéu cometeu um erro terrível comigo.
Regulus soltou uma risada seca, achando que era uma piada.
— Um erro? James Potter morreria se ouvisse isso. Ele provavelmente tentaria processar o Chapéu.
— Eu estou falando sério — ela disse, virando-se para encará-lo de frente. — Eu ando sentindo algo estranho. Como se eu estivesse no lugar errado, vestindo as cores erradas. Eu sinto que, na verdade, eu deveria pertencer à Sonserina.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que Regulus sentiu que poderia cortá-lo com um feitiço. Ele a encarou, procurando qualquer sinal de deboche ou ironia em seu rosto, mas encontrou apenas uma honestidade crua e vulnerável.
— Sonserina? — ele repetiu, a palavra soando estranha saindo de seus lábios naquele contexto. — Você? Uma Potter na casa das cobras? Jhe, você tem noção do que está dizendo?
— Tenho — ela afirmou, dando um passo em direção a ele. — Pense bem, Reg. Eu sou determinada, não sou? Eu sou ambiciosa à minha maneira. Eu cruzei fronteiras que ninguém mais cruzaria. Eu sou leal, sim, mas sou seletiva com a minha lealdade. Eu não sigo regras apenas por seguir; eu as questiono, eu as manipulo quando preciso para alcançar o que eu quero. E o que eu quero agora... o que eu mais desejo... exige uma astúcia que a maioria dos Grifinórios nem entende.
Regulus a observou, processando as palavras dela. Ele pensou no modo como ela o abordara, na persistência quase predatória com que ela rompera suas defesas, na inteligência estratégica que ela usava para mantê-lo por perto sem alertar totalmente os Marotos. Havia, de fato, uma sombra de esmeralda sob o ouro daquela garota.
— Você está dizendo que é ambiciosa? — ele perguntou, a voz mais suave.
— Eu atravessei o tempo e o espaço por um único objetivo, Regulus — ela disse, as palavras carregadas de um significado que ele ainda não podia compreender totalmente. — Se isso não é ambição e determinação puras, eu não sei o que é. Eu não sou apenas corajosa. Eu sou estratégica. E eu faria qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para proteger o que é meu.
Regulus sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia uma intensidade no olhar de Jhe que ele só vira em membros de sua própria família, mas nela, aquela chama não era destrutiva; era protetora.
— Uma Potter na Sonserina... — Regulus murmurou, um sorriso de canto de boca começando a surgir. — Salazar Sonserina provavelmente teria um ataque cardíaco, ou então ficaria fascinado. Você seria um pesadelo para os monitores, Jhe.
— Eu seria a melhor Sonserina que aquela casa já viu — ela brincou, embora seus olhos ainda brilhassem com seriedade. — Eu entendo vocês, Reg. Eu entendo a necessidade de autopreservação, o peso do legado, a busca pela grandeza. Eu sinto que me encaixaria melhor nas masmorras do que naquela torre barulhenta e cheia de gente que acha que heroísmo é apenas pular na frente de um feitiço sem pensar.
Regulus deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele estendeu a mão e tocou levemente o brasão da Grifinória no peito dela.
— As cores podem ser diferentes — disse ele, a voz rouca —, mas você tem razão. Você tem a astúcia de uma serpente, Potter. O modo como você me desarmou... o modo como você se infiltrou na minha vida sem que eu pudesse impedir... foi digno de um mestre da Sonserina.
Jhe sorriu, e desta vez o sorriso tinha um toque de malícia que ele adorou.
— Então você admite? Eu ficaria bem de verde e prata?
Regulus percorreu o rosto dela com o olhar, imaginando-a com as cores de sua casa. O contraste seria magnífico. O calor da personalidade dela iluminando a frieza das masmorras.
— Ficaria — ele admitiu, a voz baixa. — Mas acho que o mundo não está pronto para uma Potter que saiba usar a ambição. James e Sirius entrariam em colapso. Meus pais provavelmente achariam que é algum tipo de conspiração de sangue-puro.
— Deixe que eles entrem em colapso — Jhe deu de ombros, aproximando-se ainda mais, até que seus sapatos se tocassem. — Eu não me importo com o que eles pensam. Eu só me importo com o que é real. E o que é real é que eu me sinto mais em casa quando estou com você, nas sombras, do que quando estou sob os holofotes do meu irmão.
Regulus sentiu o peso daquelas palavras. Para alguém como ele, que passara a vida sendo uma peça em um tabuleiro de xadrez, ouvir que era o "lar" de alguém era avassalador. Ele olhou para Jhe e, pela primeira vez, não viu apenas a garota que o perseguia; viu uma igual. Uma alma que, independentemente da casa em que fora colocada, possuía a mesma essência complexa e sombria que a dele.
— Talvez — disse Regulus, sua mão subindo para acariciar o rosto dela — o Chapéu não tenha errado a sua casa. Talvez ele tenha colocado você na Grifinória apenas para que você tivesse a coragem de vir até a Sonserina me buscar.
Jhe sentiu o coração disparar. Ela cobriu a mão dele com a sua, inclinando o rosto contra a palma fria.
— Se for isso, então foi o único acerto dele — ela sussurrou.
— Você é perigosa, Jhe Potter — murmurou Regulus, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem. — Você me faz questionar tudo o que eu achava que era imutável.
— Ótimo — respondeu ela, fechando os olhos. — O imutável é chato. Eu prefiro o impossível.
Naquele momento, na orla da floresta, as divisões de Hogwarts pareceram desaparecer. Não havia Grifinória, não havia Sonserina, não havia a guerra iminente ou as marcas que o destino tentava impor. Havia apenas dois jovens que se encontraram através do tempo e das sombras, descobrindo que, às vezes, o lugar ao qual pertencemos não é definido por um chapéu de couro velho, mas pelo batimento cardíaco da pessoa que segura a nossa mão.
Regulus se inclinou e, em um gesto que selou sua rendição silenciosa, beijou a testa de Jhe. Foi um toque suave, mas carregado de uma promessa que ele ainda não sabia se poderia cumprir, mas que Jhe estava determinada a garantir.
— Se você realmente fosse da Sonserina — ele disse, com um brilho divertido nos olhos ao se afastar apenas o suficiente para olhá-la —, eu teria que passar o resto da vida protegendo meu lugar como o aluno mais brilhante da casa. Você seria uma competição irritante.
— "Seria"? — Jhe arqueou uma sobrancelha, recuperando seu tom desafiador. — Eu já sou, Black. Você só ainda não percebeu que eu já ganhei o jogo.
Regulus riu, uma risada aberta e clara que ecoou pelos jardins, um som que Hogwarts raramente ouvia vindo dele.
— Você é impossível, Potter.
— Eu sou uma Sonserina de coração, Regulus. Nós sempre conseguimos o que queremos.
E enquanto caminhavam de volta para o castelo, lado a lado, Jhe sentiu que, embora estivesse vestindo vermelho e dourado, sua alma brilhava em um verde profundo. Ela estava mudando a história, um passo de cada vez, e Regulus Black estava, finalmente, começando a caminhar em direção à luz que ela trouxera do futuro.