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Sob o peso das estrelas

A Reclassificação da Alma

O escritório de Albus Dumbledore era um lugar onde o tempo parecia se dobrar sobre si mesmo, repleto de instrumentos de prata que giravam silenciosamente e o suave farfalhar das penas de Fawkes. Jhe estava sentada diante da mesa de carvalho, as mãos entrelaçadas sobre o colo, mantendo a postura firme. Ela passara as últimas duas horas destrinchando argumentos, usando uma mistura de lógica fria e uma vulnerabilidade calculada que faria qualquer mestre da persuasão sentir inveja.

— Diretor, o senhor sempre pregou que são nossas escolhas que definem quem somos — disse ela, a voz calma, mas carregada de uma intensidade vibrante. — A menina de onze anos que colocou aquele chapéu não existe mais. Eu mudei. Meus objetivos, minhas ambições e a forma como vejo o mundo... nada disso pertence mais à Torre da Grifinória.

Dumbledore a observava por cima dos óculos de meia-lua, os olhos azuis brilhando com uma curiosidade insondável. Ele parecia ver através dela, para a alma que viajara décadas para estar ali.

— É um pedido sem precedentes, Senhorita Potter — comentou ele, entrelaçando os dedos longos. — A reclassificação é um evento raríssimo, geralmente reservado para casos de trauma extremo ou mudanças mágicas fundamentais.

— E quem pode dizer que não passei por uma mudança fundamental? — Jhe rebateu, sustentando o olhar. — Sinto que estou vivendo uma mentira. E mentir para si mesmo é a forma mais perigosa de traição.

Após um longo silêncio, Dumbledore suspirou e buscou o velho chapéu remendado em uma prateleira alta. Quando o tecido gasto tocou a cabeça de Jhe, ela sentiu uma presença familiar e invasiva em sua mente.

— Ora, ora... — a voz do Chapéu Seletor ecoou em sua consciência. — O que temos aqui? Uma Potter que retornou? Não... há algo diferente. Você cheira a poeira de retratos e a um desejo que queima mais que o fogo de dragão. Eu me lembro de você, mas a mente que encontro agora é vasta, estratégica... quase predatória em sua lealdade.

— Você sabe para onde eu devo ir — pensou Jhe, com uma força de vontade inabalável.

— Sim, eu vejo. A coragem ainda está lá, mas ela não é mais o seu motor. Você busca o poder de mudar o destino, a astúcia para enganar a morte e a ambição de salvar uma alma que o mundo já deu como perdida. Curioso... muito curioso. Se eu não soubesse que você é a mesma menina, diria que você é uma impostora de si mesma.

O Chapéu abriu uma fenda que servia de boca e gritou para o escritório silencioso:

— SONSERINA!

Dumbledore não pareceu surpreso, apenas melancólico. Jhe retirou o chapéu, sentindo um peso imenso sair de seus ombros. Ela não era mais apenas a irmã de James; ela era agora uma infiltrada no ninho das serpentes.

A notícia se espalhou pelo castelo como Fogos de Artifício Dr. Filibusteiro. Quando Jhe entrou no Salão Principal naquela noite, suas vestes já haviam mudado magicamente. Onde antes brilhava o escarlate, agora havia o verde profundo das águas do lago; o dourado fora substituído pela prata fria e elegante.

O silêncio que caiu sobre as mesas foi ensurdecedor. James Potter levantou-se tão abruptamente que seu banco tombou para trás. O rosto dele estava lívido, uma máscara de choque e fúria.

— JHE! O que é isso? Que tipo de brincadeira de mau gosto é essa? — gritou ele, a voz ecoando pelas vigas do teto.

Jhe não parou. Ela caminhou com a cabeça erguida, ignorando os olhares de nojo dos grifinórios e o escárnio confuso dos sonserinos.

— Não é uma brincadeira, James — disse ela, passando por ele sem diminuir o passo. — É quem eu sou agora.

— Você é uma traidora! — Sirius exclamou, embora seus olhos estivessem cheios de uma dor que ele tentava mascarar com raiva. — Você enlouqueceu? Aquela casa destruiu a minha família, e você entra nela por vontade própria?

Jhe parou e olhou para Sirius.

— Talvez — disse ela, em um tom que apenas os dois pudessem ouvir — eu esteja indo para onde as pessoas que eu amo realmente precisam de mim.

Ela seguiu para a mesa da Sonserina e sentou-se no único lugar vago: bem na frente de Regulus Black.

Regulus estava paralisado. Ele segurava um cálice de suco de abóbora, mas seus dedos tremiam levemente. Seus olhos cinzentos escaneavam o novo uniforme de Jhe, o brasão da serpente repousando sobre o coração dela. Por dentro, um sentimento de triunfo e pavor lutava por espaço. Ela estava perto. Ela estava em seu território.

— Você é absolutamente insana, Potter — murmurou ele, embora houvesse um brilho de admiração genuína em seu olhar.

— Eu disse que ficaria bem de verde, não disse? — Jhe piscou para ele, pegando uma travessa de batatas como se nada tivesse acontecido.

Devido à natureza excepcional de sua transferência e ao fato de que os dormitórios femininos das outras séries estavam lotados, Dumbledore concedeu a Jhe um quarto individual em uma das alas mais antigas das masmorras, perto da sala comunal, mas isolado o suficiente para garantir sua segurança.

Naquela noite, após uma recepção fria e cercada de sussurros venenosos dos outros sonserinos, Jhe finalmente se retirou para seus novos aposentos. O quarto era úmido e frio, com paredes de pedra nua e uma janela subaquática que mostrava as águas escuras e ondulantes do Lago Negro. No entanto, para ela, parecia um santuário.

Ela se despiu e vestiu uma camisola de seda, sentindo o silêncio das masmorras envolvê-la. Jhe sentou-se na beira da cama, observando o reflexo da luz verde da água dançando no teto. Ela conseguira. Estava no coração do inimigo, a um corredor de distância de Regulus.

Enquanto isso, em seu próprio dormitório, Regulus Black não conseguia dormir. Ele estava deitado de costas, os braços atrás da cabeça, ouvindo a respiração rítmica de seus colegas de quarto. Sua mente era um turbilhão.

"Ela está aqui", ele pensou, e a ideia era tão inebriante quanto perigosa.

Regulus fechou os olhos e a imagem de Jhe com o uniforme da Sonserina queimou em sua retina. Havia algo nela que o desafiava, que o puxava para fora de sua apatia aristocrática. Ele pensou no modo como ela o enfrentara no escritório de Dumbledore, na coragem necessária para abandonar a própria família e a reputação para se juntar à casa mais odiada de Hogwarts.

Sua mente começou a vagar por caminhos que ele sabia serem perigosos. Ele imaginou Jhe sozinha em seu novo quarto, a poucos metros dali. Imaginou o contraste da pele clara dela contra os lençóis de cetim verde. Lembrou-se do toque das mãos dela em sua febre, da força daquele abraço na Torre de Astronomia.

— Controle-se, Black — sussurrou para si mesmo, sentindo o calor subir pelo pescoço.

Mas era impossível. Jhe Potter era uma força da natureza que ele não conseguia mais conter. Ela não era apenas uma "Potter" agora; ela era uma sonserina. Ela era dele, em certo sentido. Pertenciam à mesma escuridão, ao mesmo segredo.

Ele se levantou, incapaz de ficar parado, e caminhou até a janela que dava para o lago. Ele se perguntou se ela também estaria acordada, olhando para as mesmas águas.

No quarto de Jhe, a porta se abriu com um rangido quase imperceptível. Ela não se assustou; de alguma forma, ela sabia que ele viria.

Regulus parou na soleira, a luz verde das águas iluminando sua silhueta alta e elegante. Ele não usava a capa, apenas a camisa branca com os primeiros botões abertos e a calça do uniforme. Ele parecia um príncipe das sombras, jovem e atormentado.

— Você não deveria estar aqui, Regulus — disse Jhe, embora não houvesse nenhuma repreensão em sua voz.

— Eu não deveria fazer muitas coisas, Jhe — ele respondeu, fechando a porta atrás de si e caminhando lentamente em direção a ela. — Mas você mudou as regras do jogo. Reclassificação? Você tem noção do escândalo que causou? James parece pronto para incendiar as masmorras.

— Deixe que incendeie — Jhe levantou-se, a camisola de seda roçando em suas pernas. — Eu fiz o que precisava ser feito. Eu não podia mais ficar lá em cima, fingindo que a minha lealdade era com uma cor, quando na verdade ela é com uma pessoa.

Regulus parou diante dela. A tensão entre eles era palpável, um fio invisível que se esticava até quase arrebentar. Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo dela, enrolando-a nos dedos.

— Por que eu? — ele perguntou, a voz falhando por um momento. — Existem tantos outros caminhos, tantas outras pessoas... Por que você arriscaria tudo por um Black que já está marcado pela escuridão?

Jhe deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre eles até que seus corpos quase se tocassem. Ela olhou nos olhos cinzentos dele, vendo ali toda a dor, o orgulho e a esperança que ele tentava esconder.

— Porque eu vi o seu fim, Regulus — ela sussurrou, a verdade escapando por entre seus lábios antes que pudesse conter. — E eu me recuso a deixar que ele aconteça. Você não é a escuridão. Você é a pessoa que carrega a luz para que os outros não precisem se queimar.

Regulus franziu a testa, confuso com as palavras dela sobre "ver o seu fim", mas a intensidade do sentimento dela o calou. Ele soltou o cabelo dela e deslizou a mão para a nuca de Jhe, puxando-a para mais perto.

— Você é um enigma irritante, Jhe Potter — murmurou ele, o rosto a centímetros do dela.

— E você é um teimoso orgulhoso, Regulus Black.

Desta vez, não houve beijo na testa. Regulus inclinou-se e capturou os lábios dela em um beijo que era uma mistura de desespero, posse e uma fome contida por tempo demais. Jhe respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para os ombros dele, puxando-o para si como se ele fosse o seu único porto seguro naquele mar de incertezas.

O beijo tinha gosto de hortelã e perigo. Era a união de dois mundos que nunca deveriam ter se cruzado, de duas casas que se odiavam, de dois destinos que ela estava reescrevendo com as próprias mãos.

Regulus a empurrou suavemente em direção à cama, e eles caíram sobre os lençóis verdes. Ele se afastou por um segundo, olhando para ela com uma vulnerabilidade que a desarmou.

— Se eu me perder — sussurrou ele, a voz rouca contra a pele do pescoço dela —, você promete que vai me encontrar?

— Eu já encontrei você, Regulus — ela respondeu, puxando-o para um novo abraço. — E eu nunca mais vou soltar.

Naquela noite, sob as águas escuras de Hogwarts, a irmã de James Potter e o herdeiro da casa Black selaram um pacto que ia além da magia das casas. Jhe sabia que a batalha final ainda estava por vir, que Lord Voldemort exigiria o braço de Regulus e que James provavelmente nunca a perdoaria. Mas enquanto ela sentia o peso de Regulus contra o seu corpo e o calor de sua respiração, ela soube que a Sonserina não era uma prisão. Era o campo de batalha onde ela ganharia a guerra.

Ela olhou para a janela, onde uma lula gigante passava preguiçosamente pelas águas. O futuro era incerto, mas pela primeira vez, ela não era apenas uma espectadora da história. Ela era a autora. E ela não permitiria que Regulus Black fosse apenas um retrato triste em uma parede mofada. Ela o transformaria em um homem vivo, livre e, acima de tudo, dela.

— Durma, Reg — ela murmurou, enquanto ele escondia o rosto na curva de seu ombro. — O amanhã pertence a nós.

E no silêncio das masmorras, o ouro e a prata finalmente se fundiram, criando algo novo, indestrutível e infinitamente mais perigoso do que qualquer tradição de sangue-puro. Jhe Potter era agora uma serpente, e ela estava pronta para dar o bote no próprio destino.