Sob o peso das estrelas
O Sangue do Tempo e a Promessa das Sombras
A luz esverdeada do Lago Negro filtrava-se pelas janelas subaquáticas do quarto de Jhe, projetando padrões ondulantes e fantasmagóricos sobre o dossel da cama. No silêncio das masmorras, o tempo parecia não existir. Ali, entre lençóis de seda e o frio das paredes de pedra, o mundo exterior — as brigas com James, o desprezo de Sirius, a sombra crescente de Voldemort — parecia uma ilusão distante.
Regulus estava deitado ao lado dela, a respiração calma, um braço passado protetoramente pela cintura de Jhe. Nos últimos meses, a relação entre eles havia se transformado em algo que nenhum dicionário bruxo poderia definir. Eles nunca haviam trocado promessas formais ou rótulos, mas o vínculo era inegável. Eles se tocavam com uma familiaridade que assustava os outros alunos; ela sentava-se ao lado dele na mesa da Sonserina, às vezes repousando a cabeça em seu ombro enquanto ele lia, e ele, o herdeiro gélido dos Black, permitia-se sorrir apenas para ela, segurando sua mão sob a mesa com um aperto que dizia tudo o que seu orgulho aristocrático calava.
Mas naquela noite, a paz foi estilhaçada.
Jhe acordou sufocada, um grito mudo preso na garganta. Em seu sonho, ela vira a caverna. Sentira o cheiro de salitre e estagnação, ouvira o lamento das águas negras e vira, com uma clareza aterrorizante, os braços pálidos e esqueléticos dos Inferi puxando Regulus para as profundezas. O rosto dele, distorcido pelo horror e pela sede causada pela poção do desespero, era a última imagem antes de ela despertar em um sobressalto, o corpo coberto de suor frio.
— Jhe? O que houve? — A voz de Regulus era rouca de sono, mas ele se sentou instantaneamente, os olhos cinzentos cheios de alerta.
Ela não conseguiu responder de imediato. Apenas se jogou nos braços dele, soluçando contra seu peito nu. Regulus a envolveu com força, acariciando seus cabelos com uma urgência que traía sua própria preocupação.
— Foi apenas um pesadelo... — ele sussurrou, encostando o queixo no topo da cabeça dela. — Eu estou aqui. Estou seguro. Nada vai me levar.
Jhe se afastou um pouco, as mãos trêmulas segurando o rosto dele. Ela o olhou como se estivesse tentando memorizar cada traço, cada detalhe daquele jovem que o futuro pretendia apagar.
— Eu não posso mais esconder isso, Regulus — disse ela, a voz falhando. — Eu não posso mais viver nessa mentira enquanto o tempo corre contra nós.
Regulus franziu a testa, a confusão nublando seu olhar.
— Do que você está falando? Você é uma Potter, Jhe. Uma Sonserina agora, mas ainda a minha Potter. Que mentira poderia ser tão grande a ponto de te deixar assim?
Jhe respirou fundo, sentindo o peso de décadas de história sobre seus ombros. Ela se sentou na beira da cama, encarando as águas escuras além do vidro antes de voltar-se para ele.
— Eu não sou quem você pensa que eu sou — começou ela, as palavras saindo devagar. — Eu não nasci nesta época. Eu não sou, originalmente, a irmã de James Potter.
Regulus soltou uma risada curta e nervosa, procurando algum sinal de que aquilo era uma piada de mau gosto.
— Jhe, a febre do pesadelo ainda deve estar na sua cabeça. Você está falando coisas sem sentido.
— Escute-me, por favor — ela implorou, segurando as mãos dele com força. — Eu venho de um futuro que fica a muitos anos de distância daqui. No meu tempo, você é apenas uma lembrança. Um herói trágico que morreu sozinho em uma caverna, tentando fazer a coisa certa tarde demais. Eu vi o seu retrato na Mansão Black, Regulus. Eu vi a melancolia nos seus olhos e senti uma conexão que eu não conseguia explicar.
Regulus empalideceu. Ele tentou puxar as mãos de volta, mas ela não permitiu.
— Eu fiz um pedido — continuou Jhe, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu desejei, com toda a minha alma, poder te salvar. E o mundo... a magia... ela me ouviu. Eu acordei aqui, neste corpo, nesta vida, com a missão de impedir que você se torne aquele cadáver no fundo do lago. Tudo o que eu fiz, desde o primeiro momento em que te segui nos corredores, foi para te resgatar.
O silêncio que se seguiu foi pesado como o chumbo. Regulus a encarava como se ela fosse uma estranha, uma criatura de outro mundo que habitava a pele da mulher que ele amava.
— Você está me dizendo... — ele começou, a voz gélida e cortante — que tudo isso foi um plano? Que cada beijo, cada toque, cada vez que você disse que se importava, era apenas parte de uma missão de salvamento? Eu sou um projeto para você, Potter? Uma curiosidade histórica que você decidiu colecionar?
— Não! — gritou ela, desesperada. — No começo, sim, eu admito. Eu vim por compaixão, por indignação. Eu queria mudar o destino porque achava injusto que um garoto como você fosse abandonado à própria sorte. Mas convivendo com você, Regulus... conhecendo o seu sarcasmo, a sua gentileza escondida, o modo como você cuida de quem ama mesmo quando finge que não se importa... eu me apaixonei.
Ela se aproximou, tentando tocar o rosto dele, mas ele recuou.
— Eu amo você, Regulus Black. Não o herói do retrato, não o mártir da caverna. Eu amo o garoto que está aqui, agora. E mesmo que você me odeie por ter mentido, mesmo que você nunca mais queira olhar na minha cara, eu ainda vou te salvar. Eu morreria para garantir que você tenha um futuro, mesmo que eu não faça parte dele.
Regulus levantou-se da cama, caminhando de um lado para o outro no pequeno quarto. Ele parecia uma fera encurralada.
— Você fala de mortes, de cavernas, de retratos... — ele parou, encarando-a com uma fúria que escondia uma dor profunda. — Você tem noção do que é ouvir que a sua vida já foi escrita? Que eu sou apenas um fantasma esperando para acontecer? Você tirou a minha agência, Jhe! Você me tratou como uma criança que não sabe atravessar a rua!
— Eu te tratei como alguém que merece viver! — rebateu ela, levantando-se também. — Você ia aceitar a Marca Negra, Regulus! Você ia se tornar um escravo de um monstro para agradar pais que nunca te amaram como você merecia! Eu vi o que acontece se você seguir esse caminho. Eu vi o sofrimento do Sirius por décadas, eu vi a destruição da sua linhagem. Eu não podia ficar parada!
Regulus parou diante dela, a respiração ofegante. O conflito em seus olhos era quase físico.
— E o que acontece no seu futuro? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa. — O Lorde das Trevas vence?
— Não — disse Jhe, aproximando-se cautelosamente. — Ele é derrotado, mas o preço é alto demais. James morre. Lily morre. Sirius passa doze anos em Azkaban por um crime que não cometeu. E você... você morre no escuro, sem que ninguém saiba da sua coragem por anos.
Regulus fechou os olhos, processando a avalanche de informações. A ideia de que sua morte era um fato histórico o preenchia com um niilismo sufocante, mas a presença vibrante de Jhe ali, desafiando as leis do tempo por ele, era uma âncora de realidade.
— Por que me contar agora? — ele perguntou, abrindo os olhos. Eles não estavam mais cheios de fúria, mas de uma exaustão infinita.
— Porque o tempo está acabando. O convite para a marca vai chegar logo. E eu precisava que você soubesse quem eu sou de verdade antes de pedirmos ajuda ao Sirius e ao James. Nós não podemos fazer isso sozinhos, Regulus. Precisamos mudar o rumo da guerra.
Regulus soltou uma risada amarga.
— Sirius e James? Eles me odeiam. Eles nunca acreditariam em uma história de viagem no tempo vinda de um Sonserino e de uma "Potter" reclassificada.
— Eles acreditariam em mim — afirmou Jhe, segurando a mão dele. Desta vez, ele não a afastou, embora seus dedos estivessem frios. — E eles amam você, mesmo que o orgulho deles não permita dizer. Sirius sente sua falta todos os dias, Regulus. Eu vi o Sirius do futuro. Ele nunca se perdoou por ter te deixado para trás.
Regulus olhou para as mãos entrelaçadas deles. O contraste entre a pele dela e a dele parecia, naquele momento, representar a ponte entre dois tempos diferentes.
— Você disse que me ama — ele murmurou, voltando o olhar para ela. — Como pode amar alguém que você considera um caso perdido?
— Você nunca foi um caso perdido para mim — Jhe sorriu tristemente, levando a mão dele até o seu coração. — Você foi a razão pela qual eu atravessei o impossível. Eu te amo porque você é a alma mais nobre que eu já conheci, mesmo que você passe o dia inteiro tentando provar o contrário.
Regulus suspirou, o corpo finalmente relaxando. Ele a puxou para perto, escondendo o rosto no pescoço dela. O cheiro de baunilha e poções que sempre a acompanhava o acalmava, trazendo-o de volta do abismo de seus próprios medos.
— Eu não sei se acredito plenamente em tudo isso — confessou ele, a voz abafada. — É loucura demais, mesmo para o mundo bruxo. Mas eu acredito em você, Jhe. Eu sinto que, desde que você chegou, algo em mim mudou. O peso no meu peito... ele parece mais leve quando você está por perto.
Jhe o abraçou com força, sentindo uma onda de alívio que quase a fez perder os sentidos.
— Então você me perdoa? — sussurrou ela.
Regulus se afastou apenas o suficiente para olhar no fundo dos olhos dela. Ele estendeu a mão e traçou o contorno dos lábios dela com o polegar.
— Eu não sei se perdoo a mentira ainda — admitiu ele, com um rastro de seu antigo sarcasmo —, mas eu perdoo a intenção. E se você realmente veio do futuro para me salvar... acho que o mínimo que eu posso fazer é tentar não morrer. Seria um desperdício de magia, não acha?
Jhe riu entre as lágrimas, beijando a palma da mão dele.
— O maior desperdício de todos.
— Mas escute bem, Potter — disse ele, a expressão tornando-se séria novamente. — Se vamos fazer isso, se vamos desafiar o Lorde das Trevas e a minha família... não faremos porque você "sabe o que vai acontecer". Faremos porque é o que decidimos agora. Eu não sou um fantasma, e você não é uma vidente. Somos apenas nós dois.
— Apenas nós dois — concordou ela.
Regulus a puxou para um beijo, mas desta vez foi diferente. Não havia a urgência desesperada de antes, mas uma promessa silenciosa e profunda. Era o beijo de dois aliados, de dois amantes que haviam acabado de declarar guerra ao próprio destino.
— Amanhã — disse Regulus, quando se separaram — falaremos com o meu irmão. Vou precisar de muita cerveja amanteigada para aguentar a cara de choque do Sirius.
— Eu estarei lá com você — prometeu Jhe. — O tempo todo.
Eles se deitaram novamente, mas o sono não veio de imediato. Ficaram ali, observando as águas do lago, planejando o impossível. Jhe sabia que a estrada à frente seria sangrenta e incerta. Ela sabia que mudar o passado teria consequências que ela sequer podia imaginar. Mas ao sentir o calor de Regulus ao seu lado, a firmeza de sua mão na dela, ela soube que o retrato na Mansão Black nunca mais seria o mesmo.
A história estava sendo reescrita em tinta esmeralda e prata, e pela primeira vez, o final não seria uma caverna escura e silenciosa. Seria a luz de um novo dia que eles construiriam juntos, tijolo por tijolo, escolha por escolha.
— Jhe? — chamou Regulus, já quase pegando no sono.
— Sim?
— Obrigado. Por ter me visto naquele quadro.
— Eu sempre veria você, Regulus. Em qualquer tempo. Em qualquer vida.
O silêncio das masmorras voltou a reinar, mas agora não era mais um silêncio de segredos e medo. Era o silêncio de uma promessa que nem mesmo o tempo ousaria quebrar. A missão de Jhe deixara de ser um resgate para se tornar uma existência. E Regulus Black, o menino que fora destinado a morrer, finalmente começara a aprender como viver.