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Sombras

O Veneno da Linhagem e a Dança das Lâminas

A névoa matinal de Jericho não era apenas um fenômeno meteorológico; para Wandinha Addams, era um sudário que envolvia a cidade em uma cumplicidade silenciosa. Enquanto caminhava de volta para a Academia Nunca Mais, o peso do frasco de essência alquímica em seu bolso parecia pulsar contra sua coxa, um lembrete vítreo de que a guerra que ela iniciara ao reivindicar Tyler estava apenas mudando de fase.

Ao entrar em seu dormitório, o silêncio foi imediatamente estilhaçado pelo som de Enid soltando um suspiro de alívio tão dramático que poderia ter sido ouvido nas catacumbas da escola.

— Wandinha! Você sumiu a noite toda! — Enid correu em sua direção, parando abruptamente ao notar as manchas escuras no sobretudo da colega. — Isso é... barro? Ou algo que requer um chamado para a perícia criminal?

— É a assinatura de uma noite produtiva, Enid — respondeu Wandinha, retirando o casaco com uma calma glacial. — O Círculo de Sangue de Jericho tentou fazer uma colheita antecipada. Eu apenas apliquei algumas técnicas de poda agressiva.

Wandinha caminhou até sua mesa e colocou o frasco sobre a madeira escura. O líquido negro em seu interior parecia absorver a pouca luz que filtrava pela janela. Enid aproximou-se, os olhos arregalados.

— O que é isso? Parece o tipo de coisa que, se você beber, ganha superpoderes ou morre de uma forma esteticamente desagradável.

— É o protótipo do Hyde — explicou Wandinha, seus dedos traçando o contorno do vidro. — A prova de que a monstruosidade de Tyler não foi um acidente genético, mas um projeto deliberado de puristas que odeiam o que não podem controlar. Eles queriam o sangue dele para alimentar este veneno.

— E o Tyler? Ele está bem? — A voz de Enid suavizou, carregada de uma preocupação que Wandinha considerava irritante, porém genuína.

— Ele está lidando com as consequências de sua própria natureza. O Hyde provou ser um aliado eficiente, embora um tanto... bagunçado.

Wandinha sentou-se à sua máquina de escrever, mas seus dedos não tocaram as teclas imediatamente. Ela sentia a marca da noite anterior — não apenas o cansaço físico, mas a conexão metafísica que agora a ligava a Tyler. Ele era sua âncora, sim, mas ela era o capitão que decidia em quais águas turbulentas aquela âncora seria lançada.

A porta do quarto rangeu. O Mão saltou para cima da mesa, gesticulando freneticamente com os dedos, descrevendo um encontro suspeito nos corredores inferiores da academia.

— O Xerife Galpin está no escritório da Diretora Weems? — Wandinha traduziu, as sobrancelhas levemente arqueadas. — Interessante. Ele deve estar procurando por respostas que seu filho lhe deu com punhos em vez de palavras.

— O que você vai fazer? — perguntou Enid, já pegando seu celular, pronta para alertar o grupo de amigos que Wandinha insistia em não chamar de amigos.

— Vou fazer o que qualquer Addams faria diante de uma autoridade inquisidora — disse Wandinha, levantando-se. — Vou oferecer-lhe a corda para que ele se enforque sozinho.

A caminhada até o escritório da diretoria foi marcada por olhares curiosos dos outros alunos. Wandinha ignorava a todos, sua mente focada na fotografia que Tyler encontrara. A mulher ao lado de Laurel Gates... havia algo nela que a incomodava. Não era apenas a frieza; era o reconhecimento.

Ao chegar à porta, ela não bateu. Entrou com a autoridade de quem é dono do ar que os outros respiram. O Xerife Galpin estava de pé, o rosto vermelho de raiva e exaustão, enquanto a Diretora Weems mantinha sua postura de elegância inabalável, embora houvesse uma tensão nova em seus olhos.

— Wandinha Addams — rosnou o Xerife, virando-se para ela. — Onde está o meu filho?

— Tyler é um adulto, Xerife — respondeu ela, aproximando-se da mesa de Weems. — A menos que o senhor tenha emitido um mandado de busca por ele estar fazendo o seu trabalho de mecânico, sua presença aqui é um desperdício de fundos públicos.

— Ele me atacou, Wandinha! — Galpin deu um passo à frente, mas parou diante do olhar gélido da menina. — Ele roubou arquivos que estavam sob minha custódia. Arquivos sobre a mãe dele.

— O senhor quer dizer arquivos que o senhor escondeu dele por anos? — Wandinha inclinou a cabeça, o tom de voz subindo apenas o suficiente para ser cortante. — Mentiras são como tumores, Xerife. Eventualmente, elas metastatizam e matam o hospedeiro. Tyler apenas realizou uma cirurgia necessária.

— Chega! — Weems interveio, sua voz de comando preenchendo a sala. — Wandinha, se você sabe do paradeiro de Tyler, deve informar. A segurança da escola e da cidade está em jogo.

— A segurança de Jericho foi comprometida no momento em que os seus fundadores decidiram que o ódio era uma herança familiar — disse Wandinha, retirando a fotografia do bolso e colocando-a sobre a mesa de mogno. — Xerife, quem é a mulher ao lado de Laurel Gates?

Galpin olhou para a foto e, por um momento, toda a cor fugiu de seu rosto. Ele se apoiou na cadeira, a respiração ficando curta.

— Onde você conseguiu isso? — sussurrou ele.

— No mesmo lugar onde Tyler encontrou a verdade. Na cripta dos segredos que o senhor jurou proteger. Quem é ela?

— É a minha mãe — a voz não veio do Xerife, mas da porta.

Tyler estava parado ali, as roupas trocadas, mas o olhar ainda carregado das sombras do cemitério. Ele ignorou o pai e caminhou direto para o lado de Wandinha, uma posição que agora parecia natural e absoluta.

— Não a Laurel — continuou Tyler, apontando para a outra mulher na foto. — A mulher ao lado dela. A avó que eu nunca conheci. A pessoa que financiou o laboratório de Laurel.

O Xerife Galpin soltou um suspiro derrotado.

— O nome dela era Hester Galpin. Ela fazia parte do Círculo. Quando Francoise se transformou, Hester viu uma oportunidade, não uma tragédia. Ela ajudou Laurel a encontrar o gatilho para o Hyde de Tyler porque queria ver se o sangue Galpin era forte o suficiente para dominar a essência original.

— Então o senhor sabia — disse Wandinha, sua voz um sussurro letal. — O senhor sabia que seu filho estava sendo moldado como uma arma e decidiu que o silêncio era a melhor política.

— Eu tentei protegê-lo! — gritou o Xerife, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de sua frustração. — Eu achei que, se Laurel morresse, o plano morreria com ela.

— Planos baseados em fanatismo nunca morrem, Xerife — disse Wandinha. — Eles apenas mudam de mãos. A prefeita da cidade vizinha e seus amigos encapuzados provaram isso ontem à noite no cemitério.

O silêncio que se seguiu foi denso. Weems olhou de Wandinha para Tyler, reconhecendo a mudança na dinâmica entre os dois. Não era mais uma investigação escolar; era uma aliança de sangue.

— O que você pretende fazer, Wandinha? — perguntou a diretora, sua voz agora tingida de uma cautela respeitosa.

— Vou terminar o que os Gates e os Galpin começaram — declarou Wandinha. — Mas não da forma que eles esperam. Eles queriam um monstro controlado pela ordem. Eu vou dar a eles um monstro guiado pela vingança. Xerife, o senhor vai nos dar acesso total aos registros do Círculo. Ou eu farei questão de que a próxima coisa que o senhor esconda seja a sua própria insígnia, após eu revelar a cumplicidade da polícia de Jericho em décadas de experimentos humanos.

Galpin olhou para Tyler, buscando algum traço de misericórdia. Encontrou apenas o reflexo da determinação de Wandinha.

— Tudo bem — disse o Xerife, a voz quebrada. — Venham comigo.

Eles saíram do escritório, deixando uma Weems pensativa para trás. Enquanto caminhavam pelo corredor, Tyler tocou levemente o ombro de Wandinha.

— Você não precisava fazer isso — sussurrou ele. — Poderíamos ter fugido.

— Fugir é para os culpados e para os covardes, Tyler — respondeu ela, sem olhar para ele, mas permitindo que seus dedos se roçassem por um breve segundo. — Nós somos os proprietários deste caos. E um Addams nunca abandona sua propriedade antes de garantir que o terreno esteja devidamente limpo... e possivelmente assombrado.

Eles chegaram à delegacia de Jericho sob o olhar atento dos cidadãos que ainda viam Tyler como o "bom garoto do café". No porão da delegacia, atrás de uma estante de metal repleta de evidências de crimes triviais, Galpin abriu um cofre antigo.

Dentro, pilhas de documentos, gravações em fita magnética e mais frascos.

— Aqui está tudo — disse o Xerife, afastando-se. — O legado de Hester. O veneno da nossa linhagem.

Wandinha começou a folhear os documentos com uma velocidade prodigiosa. Ela buscava nomes, datas, conexões. Tyler observava os frascos, sua mão tremendo levemente.

— Wandinha — chamou ele, apontando para um diário específico, encapado em couro humano, um detalhe que Wandinha apreciou instantaneamente. — Olhe a data desta entrada. É o dia em que minha mãe morreu.

Wandinha leu o texto em voz alta, sua voz soando como um encantamento fúnebre:

— "A cobaia 01 falhou em conter a essência pura. O colapso celular foi inevitável. No entanto, o descendente masculino mostra uma compatibilidade de 98%. O Hyde dele não será apenas uma transformação física, mas uma ponte. Se o sangue for misturado com a essência original sob a lua de sangue, o hospedeiro deixará de ser humano ou Hyde. Ele se tornará o Avatar de Crackstone."

— Eles não queriam um escravo — concluiu Wandinha, fechando o diário com um estrondo. — Eles queriam um deus de destruição para limpar a terra. E a lua de sangue é amanhã à noite.

— Isso explica por que eles estavam no cemitério — disse Tyler, o pânico começando a subir. — Eles não queriam apenas o frasco. Eles precisavam de mim lá, no momento certo.

— E eles ainda precisam — disse Wandinha, um plano maligno e brilhante se formando em sua mente. — Xerife, o senhor vai convocar uma reunião de emergência com os membros remanescentes do Círculo. Diga a eles que você capturou Tyler e que está pronto para entregar a "peça final" para o ritual.

— Você enlouqueceu? — Galpin exclamou. — Isso é suicídio!

— Para eles, talvez — retrucou Wandinha. — Para nós, é uma armadilha. Eles esperam um sacrifício. Eu vou dar a eles um massacre.

Tyler olhou para Wandinha, e pela primeira vez, ele não viu apenas a garota que o salvara ou a mestre que o reivindicara. Ele viu a arquiteta de seu destino.

— Eu topo — disse ele, um sorriso predador surgindo em seus lábios. — Vamos dar a eles o deus que eles tanto desejam. Mas ele não vai seguir as ordens deles.

A noite seguinte chegou com uma lua que parecia ter sido mergulhada em vinho tinto. O ar em Jericho estava carregado, a pressão atmosférica caindo como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.

O local escolhido pelo Círculo era uma clareira profunda na floresta, onde as ruínas de uma antiga igreja de peregrinos serviam como um altar macabro. Doze figuras encapuzadas estavam em círculo, entoando cânticos em uma língua que soava como dentes rangendo.

No centro, Tyler estava amarrado a um poste de pedra, fingindo inconsciência. O Xerife Galpin estava ao lado dele, a mão no coldre, o rosto uma máscara de terror e arrependimento.

A prefeita, que sobrevivera ao encontro no cemitério por um milagre de covardia, aproximou-se com o frasco de essência original.

— O momento chegou — disse ela, sua voz ecoando pelas ruínas. — Pelo sangue de Crackstone, pela pureza da terra, desperte o Avatar!

Ela derramou o líquido negro sobre o peito de Tyler e começou a recitar a invocação final. O corpo de Tyler começou a convulsionar, os músculos se expandindo sob a pele, os olhos brilhando com uma luz carmesim que rivalizava com a lua.

— Agora, Xerife! — gritou a prefeita. — O sangue do pai para selar o pacto!

Galpin hesitou, mas antes que pudesse se mover, uma flecha de ponta de prata zuniu pela escuridão, cravando-se no ombro da prefeita.

— Sinto interromper a liturgia — a voz de Wandinha veio do topo de uma das paredes da ruína. Ela estava lá, segurando um arco preto, sua silhueta recortada contra a lua de sangue. — Mas eu sempre achei que rituais de sacrifício careciam de um elemento essencial: a resistência da vítima.

— Matem-na! — gritou a prefeita, caindo de joelhos.

Mas era tarde demais. As cordas que prendiam Tyler não eram cordas comuns; eram fios de seda de aranha reforçados, projetados para se soltarem ao menor comando. Tyler libertou-se com um rugido que abalou as estruturas da igreja.

A transformação não foi como as outras. Alimentado pela essência original e pela lua de sangue, o Hyde que emergiu era maior, mais aterrorizante, com escamas que brilhavam como obsidiana e garras que emitiam um calor fumegante.

— Ele é... magnífico — sussurrou um dos encapuzados, antes de ser decapitado por um único golpe de Tyler.

Wandinha saltou da parede, sua adaga em mãos, movendo-se entre os membros do Círculo como um borrão de sombra. Ela não precisava de poderes sobrenaturais; sua técnica era fruto de anos de obsessão pela morte e pelo combate.

O Xerife Galpin, em um momento de redenção tardia, sacou sua arma e começou a disparar contra os encapuzados que tentavam fugir.

A batalha foi visceral. O Círculo de Sangue, composto por burocratas e fanáticos que acreditavam ser superiores, descobriu que o verdadeiro poder não vinha de linhagens ou rituais, mas da disposição de abraçar o abismo.

Tyler, em sua forma de Avatar, era uma força da natureza. Ele não apenas matava; ele apagava a existência de seus inimigos. A prefeita tentou rastejar para longe, mas Wandinha a interceptou, colocando a ponta da adaga em sua garganta.

— Você falou sobre o monstro pertencer a quem o criou — disse Wandinha, seus olhos refletindo o caos ao redor. — Você estava errada. O monstro pertence a quem tem a coragem de amá-lo em sua forma mais pura e destrutiva. E eu sou uma criadora muito mais exigente do que você jamais poderia ser.

Com um movimento rápido, Wandinha encerrou a linhagem de influência dos Gates em Jericho.

Quando o último membro do Círculo caiu, o silêncio retornou, quebrado apenas pelo som da respiração pesada de Tyler. Ele se aproximou de Wandinha, sua forma monstruosa diminuindo lentamente, a essência negra sendo absorvida por seus poros.

Ele voltou à forma humana, nu e coberto de sangue, mas seus olhos mantinham um rastro do brilho carmesim. Ele olhou para Wandinha, e nela encontrou a única paz que conheceria.

— Acabou? — perguntou ele, a voz rouca.

Wandinha olhou para as ruínas, para o Xerife Galpin que chorava silenciosamente sobre os destroços de seu passado, e para a lua que começava a empalidecer.

— O Círculo foi quebrado — disse ela, aproximando-se e cobrindo-o com seu sobretudo. — Mas as sombras que criamos hoje viverão em Jericho por gerações. Nós não apenas sobrevivemos, Tyler. Nós nos tornamos a lenda que os pais contarão aos filhos para que eles tenham medo do escuro.

Tyler a puxou para perto, beijando-lhe a testa com uma reverência sagrada.

— E para onde vamos agora?

Wandinha olhou para a floresta, para a Academia Nunca Mais e para o futuro que se estendia diante deles como uma estrada pavimentada com ossos e segredos.

— Para onde quisermos — respondeu ela. — O mundo é um lugar vasto e cheio de tragédias esperando para acontecer. E eu acho que o mundo ainda não está pronto para o que nós dois podemos realizar juntos.

Enquanto caminhavam para fora da floresta, deixando para trás o rastro de sua justiça sombria, Wandinha sentiu uma satisfação gélida. Laurel Gates, Hester Galpin e o Círculo de Sangue eram agora apenas notas de rodapé em sua biografia. Ela era Wandinha Addams, e ao seu lado caminhava o Hyde que ela moldara com dor, prazer e uma vontade inquebrável.

Jericho nunca mais seria a mesma. E Wandinha não teria outra maneira.