Sombras
O Eclipse da Alma e a Alquimia do Destino
A manhã que se seguiu ao massacre nas ruínas da igreja não trouxe o perdão, mas uma claridade cruel que expunha cada mancha de sangue seco e cada segredo desenterrado. Wandinha Addams estava sentada na varanda de sua torre na Academia Nunca Mais, observando os primeiros raios de sol tocarem as copas das árvores da floresta de Jericho. O ar estava carregado com o cheiro de terra úmida e o eco persistente do rugido do Avatar.
Em seu colo, o diário de Hester Galpin permanecia aberto. Ela traçava os diagramas alquímicos com a ponta dos dedos, sentindo uma vibração residual que parecia conectar seu próprio sangue àquela história macabra. Ela não sentia remorso; os Addams sempre tiveram uma afinidade natural com o encerramento definitivo de linhagens problemáticas.
— Você não dormiu — a voz de Tyler surgiu das sombras do quarto, baixa e rouca.
Ele estava encostado no batente da janela, vestindo roupas que Enid provavelmente consideraria "aceitáveis", mas que nele pareciam apenas um disfarce mal ajustado para a fera que agora habitava cada uma de suas células com uma consciência renovada. Ele não era mais apenas Tyler Galpin, o barista; ele era a culminação de um experimento centenário, e seus olhos ainda guardavam um lampejo do carmesim da lua de sangue.
— O sono é um substituto pálido para a análise pós-morte — respondeu Wandinha, sem se virar. — Além disso, as almas dos que eliminamos ontem ainda estão muito próximas da superfície. Seria falta de educação ignorar sua transição para o esquecimento.
Tyler caminhou até ela, seus movimentos agora possuindo uma fluidez predatória que ele não tentava mais esconder. Ele se sentou no chão ao lado da cadeira dela, apoiando a cabeça em seu joelho, um gesto de submissão voluntária que teria horrorizado qualquer um que conhecesse a natureza indomável do Hyde.
— Eu sinto a diferença, Wandinha — sussurrou ele, fechando os olhos sob o toque da mão dela, que pousou em seus cabelos com uma possessividade clínica. — Não é mais como um borrão ou um acesso de raiva controlado por outra pessoa. Eu sinto tudo. Cada fibra, cada pensamento... eu sinto você, mesmo quando não estamos no mesmo ambiente.
— A essência original estabilizou a ponte — explicou ela, finalmente desviando os olhos do diário para olhar para ele. — Você não é mais uma ferramenta de gatilho. Você é o mestre da sua própria escuridão. O que significa que, de agora em diante, cada atrocidade que você cometer será inteiramente sua responsabilidade.
Tyler deu um sorriso sombrio, revelando dentes que pareciam um pouco mais afiados do que o normal.
— Isso soa como um elogio vindo de você.
— É uma constatação de fato — retrucou ela. — Mas temos um problema logístico. Seu pai está em um estado de catatonia emocional e a prefeitura de Jericho está, tecnicamente, sem liderança. O vácuo de poder atrai oportunistas, e eu detesto ter que lidar com amadores.
— O que você sugere? — perguntou Tyler, levantando o olhar para ela. — Que eu assuma o cargo de prefeito?
Wandinha soltou um som que, em qualquer outra pessoa, seria uma risada, mas nela era apenas uma expiração mais brusca.
— A política institucional é um tédio mortal. Não, Tyler. Nós vamos deixar Jericho apodrecer em sua própria mediocridade por um tempo. Mas antes, precisamos garantir que o Círculo de Sangue não tenha ramificações externas. O diário de Hester menciona uma "Central de Custódia" em Vermont.
— Mais experimentos? — O corpo de Tyler tencionou sob o toque dela.
— Mais respostas — corrigiu Wandinha. — E, possivelmente, mais alvos.
A porta do quarto se abriu com um estrondo característico. Enid Sinclair entrou, parando bruscamente ao ver Tyler no chão do quarto. Suas garras saltaram instintivamente, e seus olhos brilharam com um azul defensivo.
— Wandinha! O que... o que ele está fazendo aqui? — Enid apontou para Tyler como se ele fosse uma bomba relógio prestes a explodir. — O Mão me disse que houve uma confusão na floresta, mas ele não mencionou que o "Projeto Monstro" estava tomando café da manhã no nosso quarto!
— Acalme-se, Enid — disse Wandinha, mantendo a voz plana. — Tyler está sob minha supervisão direta. Ele é, para todos os efeitos, meu assistente de pesquisa agora.
— Assistente de pesquisa? — Enid exclamou, aproximando-se com cautela. — Ele quase destruiu a escola no semestre passado! E ele está... ele está cheirando a enxofre e morte! Mais do que o normal!
Tyler se levantou, sua estatura agora parecendo muito mais imponente do que Enid se lembrava. Ele deu um passo em direção à lobisomem, que recuou um centímetro, mas ele apenas inclinou a cabeça em um cumprimento irônico.
— Bom dia para você também, Enid — disse ele, a voz vibrando com um poder que fez os pelos dos braços dela se arrepiarem. — Não se preocupe. Eu só mordo sob comando agora.
— Isso não ajuda em nada! — Enid gritou, olhando para Wandinha em busca de sanidade, um erro estratégico comum.
— Enid, preciso que você use suas redes sociais e aquele blog deplorável que você mantém — ordenou Wandinha, ignorando o pânico da colega. — Espalhe o boato de que a prefeita e seus associados fugiram da cidade após a descoberta de um escândalo financeiro massivo. Use as fotos que o Mão tirou dos documentos no cofre do Xerife.
— Você quer que eu faça fake news? — Enid piscou, confusa.
— Quero que você molde a percepção pública para evitar uma investigação federal — esclareceu Wandinha. — Jericho precisa de uma explicação mundana para o desaparecimento de sua elite. Corrupção é muito mais fácil de digerir do que rituais de sangue e avatares de destruição.
Enid suspirou, recolhendo as garras e pegando o celular.
— Às vezes eu esqueço que você é um gênio do mal. Tá bom, eu cuido disso. Mas se ele tentar comer o Mão, eu não vou ajudar a esconder o corpo.
— O Mão é indigesto — comentou Tyler, ganhando um olhar de aprovação de Wandinha.
Após Enid sair, ainda resmungando sobre "padrões de segurança doméstica", Wandinha voltou sua atenção para Tyler.
— Temos pouco tempo. A Diretora Weems é inteligente o suficiente para saber que o que aconteceu na clareira não foi um acerto de contas comum. Ela vai tentar intervir.
— Deixe que tente — disse Tyler, seus olhos brilhando carmesim por um segundo. — Eu não tenho mais medo dela.
— Não é questão de medo, Tyler. É questão de conveniência. Weems é uma aliada útil, desde que ela acredite que está no controle. Mas agora, você e eu operamos fora da jurisdição de Nunca Mais.
Wandinha levantou-se e caminhou até sua máquina de escrever, inserindo uma nova folha de papel.
— Vou escrever para meus pais. Eles possuem contatos em Vermont que podem nos dar acesso à Central de Custódia sem levantar suspeitas. Meu tio Chico tem uma dívida de gratidão com um arquivista de lá após um incidente envolvendo dinamite e um museu de cera.
— E quanto ao meu pai? — perguntou Tyler, a sombra da culpa cruzando seu rosto novamente.
— O Xerife Galpin precisa ser removido de Jericho — afirmou Wandinha. — Ele sabe demais e é emocionalmente instável. Sugiro que ele seja enviado para uma "clínica de repouso" da família Addams. É um lugar onde o tempo não faz sentido e as enfermeiras não fazem perguntas. Ele estará seguro, e nós estaremos livres de sua vigilância.
Tyler assentiu. Ele sabia que aquela era a solução mais misericordiosa que Wandinha poderia oferecer.
— O que somos agora, Wandinha? — ele perguntou, aproximando-se por trás dela, suas mãos pairando sobre os ombros da menina sem tocá-la, respeitando seu espaço, mas ansiando pela conexão. — Não somos mais a garota e o monstro da profecia. Nem a mestre e o escravo de Laurel.
Wandinha parou de digitar. Ela olhou para o reflexo dos dois na janela — a figura pequena e sombria dela ao lado da presença vasta e perigosa dele.
— Somos a antítese do que este mundo espera — disse ela, sua voz soando como um veredito final. — Somos o eclipse da alma. Onde a luz e a sombra se fundem para criar algo que não pode ser nomeado. Você é o meu Hyde, e eu sou a sua vontade. Juntos, somos a única verdade em uma cidade construída sobre mentiras.
Ela se virou, e pela primeira vez, não houve hesitação ou cálculo. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, sentindo o calor da pele que ela agora conhecia tão bem.
— Você disse que queria que eu sentisse cada segundo — sussurrou ela. — Pois bem. Sinta isso.
O beijo que se seguiu não foi um choque térmico ou uma invasão, como os anteriores. Foi um reconhecimento mútuo de poder. Foi a fusão de duas escuridões que haviam encontrado sua própria forma de luz. Tyler a envolveu em seus braços, sentindo a força inquebrável daquela garota que desafiara deuses e monstros para possuí-lo.
Lá fora, o vento soprava através das árvores de Jericho, carregando as cinzas do passado. Mas dentro da torre, um novo destino estava sendo forjado.
Horas depois, Wandinha estava pronta. Ela vestia seu uniforme de gala preto, mas em vez da mochila escolar, carregava uma maleta de couro contendo o diário de Hester, os frascos de essência e uma seleção de lâminas de prata.
Tyler a esperava no pátio, ao lado de uma motocicleta antiga que ele havia restaurado durante suas noites de insônia na garagem. Ele parecia um príncipe das sombras, pronto para cavalgar para o apocalipse.
— Pronta para o próximo movimento? — perguntou ele, entregando-lhe um capacete preto fosco.
— O próximo movimento não é apenas um jogo, Tyler — respondeu ela, subindo na garupa e envolvendo a cintura dele com uma firmeza que dizia mais do que mil palavras. — É uma conquista. E eu não pretendo parar até que cada segredo desta linhagem maldita seja queimado e espalhado pelo vento.
Tyler acelerou o motor, o som ecoando pelas paredes de pedra da Academia Nunca Mais como um grito de guerra.
— Para Vermont, então?
— Para Vermont — confirmou Wandinha. — E depois, para onde quer que a escuridão nos chame.
Enquanto a motocicleta rasgava a estrada, deixando Jericho para trás, Wandinha sentiu uma satisfação profunda. Ela havia transformado um trauma em uma arma, um monstro em um parceiro e uma profecia em um legado de sua própria autoria.
Ela era Wandinha Addams, e o mundo estava prestes a descobrir que, quando um Addams encontra algo que vale a pena reivindicar, nem o céu nem o inferno podem detê-los.
A lua de sangue havia passado, mas o rastro que ela deixara nas almas de Wandinha e Tyler era eterno. Eles eram o novo Círculo. Eles eram a nova Ordem. E a dança das lâminas estava apenas começando.
Nas sombras da floresta, o Mão observava a partida deles, acenando um adeus silencioso. Ele sabia, melhor do que ninguém, que aquela não era uma fuga. Era uma invasão planejada. O mundo exterior de Jericho sempre fora cruel com os excluídos, mas agora, os excluídos estavam levando consigo o predador supremo.
Wandinha apertou o peito contra as costas de Tyler, sentindo a vibração do motor e a pulsação do Hyde. Ela fechou os olhos por um momento, permitindo-se apreciar a simetria perfeita do caos que haviam criado.
— Tyler — chamou ela, sua voz quase perdida no vento.
— Sim, Wandinha?
— Tente não matar ninguém nos próximos cem quilômetros. Preciso que estejamos discretos até cruzarmos a fronteira.
Tyler riu, um som rico e genuíno que espantaria qualquer fantasma de Laurel Gates que ainda tentasse assombrá-lo.
— Vou tentar, mestre. Mas não prometo nada se alguém olhar torto para você.
— Justo — respondeu ela, um pequeno e perigoso sorriso surgindo em seus lábios.
E assim, sob o sol pálido de uma manhã que não pertencia a ninguém além deles, Wandinha Addams e seu Hyde desapareceram no horizonte, prontos para reescrever a história com o sangue de quem ousasse ficar em seu caminho. O mistério de Jericho fora resolvido, mas o mistério de Wandinha e Tyler estava apenas começando a se desdobrar, vasto e terrível como o próprio abismo.