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Sombras

O Eco do Vazio

A poeira dançava nos feixes de luz que filtravam pelas janelas altas da garagem, mas o ar entre os dois era denso, carregado de uma estática que nem mesmo o ronco dos motores ou o cheiro de graxa conseguia dissipar. Wandinha estava parada junto à bancada de ferramentas, organizando seus frascos de veneno com uma precisão que beirava o insulto. Ela não olhava para Tyler, mas sentia o olhar dele queimando em suas costas, uma presença física que exigia uma atenção que ela não estava disposta a ceder.

— Você está fazendo isso de novo — disse Tyler. A voz dele estava baixa, mas havia uma vibração nela, um tremor contido que sugeria que o Hyde não estava tão adormecido quanto as correntes de Wandinha exigiam.

Wandinha não parou o que estava fazendo. Ela apenas ajustou a tampa de um frasco de beladona.

— Fazer "isso" é um termo vago, Tyler. Seja específico ou permaneça em silêncio. A imprecisão linguística é um vício que eu não tolero.

Tyler deu um passo à frente. O som de suas botas no concreto ecoou como um tiro.

— O distanciamento. A frieza. Essa parede de gelo que você levantou no momento em que o sol nasceu. — Ele soltou uma risada seca, sem humor. — Passamos por uma guerra. Nós nos tornamos um só naquela cama, Wandinha. Eu senti você. Eu senti a sua guarda baixar. Mas agora, você age como se eu fosse apenas mais um espécime em uma placa de Petri.

Finalmente, ela se virou. Seus olhos escuros estavam tão planos e ilegíveis quanto o fundo de um poço seco.

— Você é um espécime, Tyler. Um espécime fascinante, perigoso e, no momento, excessivamente emocional. O que aconteceu entre nós foi uma transação de poder e uma purificação necessária. Eu fui clara sobre os meus objetivos.

— Uma transação? — Tyler repetiu a palavra como se ela fosse veneno em sua boca. Ele se aproximou mais, invadindo o espaço pessoal dela, forçando-a a olhar para cima para manter o contato visual. — Foi isso que aquela noite significou para você? Um ritual de exorcismo para tirar a Laurel da minha cabeça? Eu pensei... eu realmente pensei que você tivesse sentido algo. Pela primeira vez na sua vida, algo real.

Wandinha inclinou a cabeça levemente para o lado, observando-o com uma curiosidade clínica que o enfurecia.

— Sentimentos são flutuações químicas irrelevantes que nublam o julgamento. Eu usei a proximidade física para ancorar sua psique e garantir sua lealdade. Se você interpretou isso como um convite para o sentimentalismo burguês, o erro de cálculo foi seu, não meu.

Tyler sentiu o peito arder. A dor era mais aguda do que qualquer corte que ele já tivesse recebido em sua forma de Hyde. Ele queria gritar, queria quebrar as ferramentas na bancada, mas, acima de tudo, queria que ela admitisse que ele não era apenas uma ferramenta.

— Você mentiu para mim? — ele perguntou, a voz falhando por um breve segundo antes de endurecer. — Quando você disse que eu era seu, que você me reivindicava... foi apenas para garantir que o monstro não se voltasse contra você?

— Eu nunca minto, Tyler. Você é meu. Mas a posse não implica afeto. Eu possuo muitas coisas: este kit de embalsamamento, meu violoncelo, uma coleção de adagas raras. Eu cuido delas, eu as protejo, mas eu não sinto "amor" por elas. Você é minha arma mais letal. Por que eu a corromperia com emoções efêmeras?

— Eu não sou uma adaga, Wandinha! — Tyler explodiu, sua mão batendo na mesa de metal, fazendo os frascos tilintarem. — Eu sou um homem que matou por você, que sangrou por você, que entregou cada pedaço da alma que me restava nas suas mãos! Eu vi o brilho nos seus olhos naquela noite. Eu senti o seu coração acelerar contra o meu peito. Você não pode me dizer que aquilo foi apenas "manutenção de equipamento".

Wandinha deu um passo à frente, sem recuar diante da raiva dele. Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, bem acima do coração, mas não era um carinho. Era uma pressão fria e firme.

— Meu coração acelera diante da perspectiva de um crime perfeito ou de uma sinfonia fúnebre bem executada. A fisiologia é traidora, Tyler. Ela reage ao estímulo, não à intenção. O que você busca em mim não existe. Eu sou um vazio. E se você continuar tentando preencher esse vazio com suas carências românticas, acabará sendo consumido por ele.

Tyler olhou para a mão dela em seu peito e depois para o rosto dela. Ele buscou desesperadamente por uma rachadura na máscara, um sinal de que ela estava apenas tentando se proteger da própria vulnerabilidade. Mas não encontrou nada. Apenas o preto infinito de suas pupilas.

— Então é isso? — ele sussurrou. — Eu sou apenas o seu Hyde. Um investimento. Um cão de guarda que você ocasionalmente permite entrar na sua cama para manter a coleira apertada.

— Se você precisa de rótulos para processar a realidade, esses servem — respondeu ela, retirando a mão e voltando-se para seus frascos. — Agora, se terminamos com esse interlúdio melodramático, temos trabalho a fazer em Vermont. O Círculo de Sangue não vai se destruir sozinho.

O silêncio que se seguiu foi pior do que a discussão. Foi o som de algo se quebrando irremediavelmente. Tyler ficou parado por um longo tempo, observando as costas de Wandinha, a postura impecável, as tranças perfeitas, a completa indiferença à dor que ele exalava.

Ele sentiu o Hyde arranhar o fundo de sua mente, rindo dele. *Ela não nos ama, pequeno Tyler. Ela nos usa. Ela é como a outra, mas com facas mais bonitas e palavras mais frias.*

— Você é pior do que a Laurel — disse Tyler, a voz agora mortalmente calma.

Wandinha parou o movimento de suas mãos. Aquilo, pela primeira vez, pareceu atingir um nervo, embora ela não tenha demonstrado.

— Laurel queria me usar como uma boneca — continuou ele, caminhando em direção à porta da garagem. — Ela queria me quebrar para que eu servisse aos planos dela. Mas você... você me deixou pensar que eu era humano de novo. Você me deu esperança só para me mostrar que, para você, eu continuo sendo um objeto. Ela queria o meu corpo. Você quer a minha alma, mas não quer ter o trabalho de cuidar dela.

Ele parou junto à porta e a abriu com um solavanco. A luz ofuscante do lado de fora invadiu a penumbra da garagem, fazendo Wandinha piscar.

— Saia — ordenou ele.

Wandinha virou-se lentamente, as sobrancelhas levemente franzidas.

— Temos um cronograma, Tyler. A partida para Vermont está marcada para...

— Eu não dou a mínima para Vermont — ele a cortou, apontando para a saída. — Eu preciso que você saia. Agora. Antes que eu decida que não quero mais ser a sua arma.

Wandinha observou-o. Ela viu a tensão em seus ombros, a forma como suas mãos tremiam, o brilho selvagem em seus olhos. Ela reconheceu o ponto de ruptura. Como um estrategista experiente, ela sabia quando recuar para evitar uma perda total de ativos.

— Sua instabilidade é decepcionante — disse ela, pegando sua maleta e caminhando em direção à porta com uma dignidade imperturbável. — Vou dar-lhe vinte e quatro horas para processar sua frustração. Espero que, após esse período, sua lógica supere seu temperamento.

Ela passou por ele sem tocá-lo, sem olhá-lo. O aroma de ozônio e tinta que sempre a acompanhava flutuou por ele, um lembrete torturante da proximidade que haviam compartilhado.

Tyler esperou até que ela estivesse no meio do pátio antes de falar uma última vez.

— Wandinha?

Ela parou, mas não se virou.

— Você disse que a dor é o batismo da realidade — disse ele, a voz embargada. — Parabéns. Você me batizou de novo hoje. Mas não espere que eu agradeça por isso.

Ele fechou a porta da garagem com um estrondo que pareceu sacudir os alicerces de Jericho.

Wandinha permaneceu imóvel sob o sol pálido. Por um milésimo de segundo, ela sentiu um peso estranho em seu estômago, uma sensação que não conseguia classificar como fome ou náusea. Ela olhou para a porta fechada, para a madeira gasta que agora a separava de seu Hyde.

— Emoções — sussurrou ela para si mesma, suas palavras se perdendo no vento. — São realmente o veneno mais eficiente de todos.

Ela apertou a alça de sua maleta e começou a caminhar em direção à Academia Nunca Mais. Seus passos eram firmes, seu rosto era uma máscara de mármore, e sua mente já estava calculando como consertar a ferramenta que ela acabara de danificar. Mas, no fundo de seu peito, o vazio que ela tanto se orgulhava de possuir parecia, pela primeira vez, um pouco vasto demais.

Lá dentro, Tyler desabou contra a porta fechada. Ele cobriu o rosto com as mãos, sentindo o calor das lágrimas que se recusavam a cair. Ele era o mestre de sua própria escuridão agora, como ela havia dito. Mas a escuridão era um lugar muito solitário quando a única pessoa que conhecia o caminho para entrar decidia trancar a porta pelo lado de fora.

O silêncio na garagem era absoluto. O perfume de lírios podres de Laurel Gates havia sumido, substituído pelo cheiro de Wandinha. E era esse cheiro, doce e perigoso como o próprio destino, que agora o sufocava.

Ele olhou para a cama no canto, para os lençóis que ainda guardavam o rastro do sangue dela e da entrega dele. Ele percebeu que Wandinha Addams não o havia salvado do passado. Ela apenas o havia levado para um tipo diferente de inferno. Um inferno onde o fogo era frio e o demônio tinha tranças e olhos que nunca piscavam.

— Você vai voltar — ele sussurrou para a sala vazia, uma promessa e uma maldição. — Porque você não consegue viver sem o monstro. E eu não consigo viver sem a minha dona.

Mas, enquanto o sol subia no horizonte, Tyler Galpin sabia que nada nunca mais seria como naquela noite. O pacto de sangue ainda existia, mas o coração que ele tentara oferecer havia sido devolvido com a ponta de uma lâmina. E em Jericho, onde os segredos nunca morrem, aquela era a ferida mais profunda de todas.