Sombras
O Beijo da Viúva e o Gosto do Arrependimento
O ar na garagem estava tão parado que Wandinha podia ouvir o som da própria pulsação, um metrônomo irritante que insistia em lembrá-la de que, apesar de toda a sua dedicação à estética da morte, ela ainda estava biologicamente viva. O silêncio que se seguiu à partida de Tyler não era o silêncio pacífico de um túmulo recém-cavado; era o silêncio tenso de uma corda de violoncelo prestes a se romper sob a pressão de um arco descontrolado.
Ela caminhou até a bancada de ferramentas, onde alguns frascos de reagentes químicos ainda repousavam. Seus dedos tocaram a superfície fria do metal. Ela sentia a ausência dele como uma mudança brusca na pressão atmosférica. Tyler não era apenas um acessório em seus planos; ele se tornara a variável que ela não conseguia mais isolar em suas equações.
— Sentimentalismo — murmurou ela para as sombras, a palavra soando como um insulto em seus lábios. — O câncer da razão.
Ela sabia que o havia ferido. Não com a precisão de uma lâmina, mas com a brutalidade de uma negação. Ao compará-lo a um objeto, a uma ferramenta de seu arsenal, ela tentara restabelecer as fronteiras que haviam sido borradas na noite do "batismo". Mas, ao olhar para a porta fechada, Wandinha percebeu que as fronteiras não existiam mais. Não se pode cercar o abismo depois de já ter caído nele.
A noite caiu sobre Jericho com uma rapidez predatória. Wandinha não voltou para a Academia Nunca Mais. Em vez disso, ela permaneceu na penumbra da garagem, sentada na cadeira de madeira, observando a luz da lua desenhar padrões esqueléticos no chão. Ela estava esperando. Sabia que a natureza do Hyde, agora fundida com a consciência de Tyler, não suportaria o isolamento por muito tempo.
Perto da meia-noite, o som de passos pesados e erráticos ecoou do lado de fora. A porta da garagem não foi aberta com a delicadeza de um homem, mas com a força bruta de algo que não conhecia limites. Tyler entrou. Suas roupas estavam rasgadas, e havia vestígios de folhagens e terra em seu cabelo. Seus olhos, no entanto, eram o que mais chamava a atenção: as pupilas estavam dilatadas, oscilando entre o azul humano e o dourado do predador.
— Você ainda está aqui — disse ele, a voz soando como o rosnar de uma tempestade distante.
— Eu não deixo meus assuntos inacabados, Tyler — respondeu Wandinha, levantando-se com uma calma que desafiava a energia caótica que ele emanava. — E você parece ter passado as últimas horas tentando, sem sucesso, fugir de si mesmo na floresta.
Tyler aproximou-se, parando a poucos centímetros dela. O calor que emanava dele era opressor, um contraste gritante com a frieza habitual de Wandinha.
— Eu tentei — admitiu ele, os dedos se fechando e abrindo, as unhas arranhando as palmas das mãos. — Mas o cheiro de ozônio e tinta não sai da minha mente. Você me marcou, Wandinha. Mais do que a Laurel. Ela me deu a dor, mas você... você me deu a consciência da minha própria solidão.
— A solidão é o estado natural dos seres superiores — retrucou ela, embora sua voz não tivesse a convicção de costume.
— Não minta para mim! — Tyler rugiu, agarrando os ombros dela com uma força que teria feito qualquer outra pessoa gritar de dor. — Você não é um vazio. Se fosse, não teria me olhado daquele jeito no cemitério. Se fosse, não estaria aqui agora, esperando por um monstro que você mesma disse ser apenas uma ferramenta.
Wandinha olhou para as mãos dele em seus ombros e depois subiu o olhar para o rosto atormentado de Tyler. Ela viu a luta interna, a agonia de um homem que fora quebrado e reconstruído por mãos que não sabiam como curar.
— Você quer que eu admita a derrota, Tyler? — perguntou ela, a voz baixa e perigosa. — Quer que eu confesse que a sua presença altera a minha percepção da realidade de uma forma que eu não consigo controlar?
— Eu quero que você seja humana! — exclamou ele, sacudindo-a levemente. — Apenas por um segundo. Sem planos, sem estratégias, sem o Círculo de Sangue. Apenas você e eu.
Wandinha sentiu um latejar em sua têmpora. A lógica ditava que ela deveria usar o Mão para incapacitá-lo ou usar um dos sedativos na bancada. Mas a lógica fora a primeira vítima daquela noite.
— A humanidade é uma fraqueza que eu desprezo — disse ela, aproximando-se ainda mais, até que suas respirações se misturassem. — Mas admito que a sua existência é uma anomalia que eu não desejo corrigir.
Sem aviso, ela levou as mãos ao pescoço dele, puxando-o para baixo. O beijo não foi um ato de carinho; foi uma colisão. Havia o gosto de sangue e desespero, uma tentativa desesperada de cada um reivindicar o controle sobre o outro. Tyler gemeu contra os lábios dela, suas mãos descendo dos ombros para a cintura de Wandinha, puxando-a contra o seu corpo com uma urgência que beirava a violência.
— Você é um veneno — sussurrou ele entre os beijos, a voz rouca de desejo e ódio.
— E você é o vício que eu escolhi cultivar — respondeu ela, suas unhas cravando-se na nuca dele.
Eles se moveram em direção à cama, tropeçando em ferramentas e detritos pelo caminho. O ato que se seguiu foi desprovido da reverência sagrada da primeira vez. Foi visceral, uma batalha de vontades onde os corpos eram o campo de guerra. Tyler movia-se com uma ferocidade que testava os limites da resistência de Wandinha, e ela respondia com uma intensidade sombria, guiando-o através do labirinto de suas próprias sombras.
Para Tyler, cada toque dela era como uma queimadura que purificava. Ele não era mais o escravo de Laurel ou o peão do Círculo. Ele era o Hyde de Wandinha, e naquele caos físico, ele encontrava a única redenção que fazia sentido: a submissão total a alguém que não o temia, mas que o desafiava a ser mais do que apenas uma besta.
Quando o ápice chegou, foi um colapso de sentidos que deixou ambos exaustos e trêmulos. Eles ficaram deitados emaranhados, o suor esfriando em suas peles enquanto a respiração voltava ao normal. O silêncio agora era diferente; era carregado de uma cumplicidade pesada.
— Você ainda vai para Vermont? — perguntou Tyler depois de um longo tempo, sua voz voltando ao tom humano, embora carregada de exaustão.
Wandinha olhou para o teto, sua mente já reconstruindo as paredes que haviam caído.
— Sim — respondeu ela. — Mas você virá comigo. Não como uma ferramenta, Tyler. Mas como o meu igual na escuridão.
Tyler virou-se para olhá-la. Ele viu a determinação nos olhos dela, mas também viu algo que ela nunca admitiria: uma necessidade.
— Você percebe que isso significa que nunca teremos paz, não é? — perguntou ele, estendendo a mão para traçar o contorno da mandíbula dela. — Onde quer que formos, o sangue nos seguirá.
— Paz é o sonho dos medíocres — declarou Wandinha, fechando os olhos sob o toque dele. — Eu prefiro a glória do caos ao lado de alguém que saiba como sobreviver a ele.
Ela se levantou, vestindo sua camisa preta com a mesma eficiência ritualística de sempre. Tyler observou-a, sentindo a mudança no ar. A vulnerabilidade do momento havia passado, substituída pela frieza estratégica que definia Wandinha Addams. Mas agora, ele sabia o que existia por trás daquela máscara.
— O Xerife Galpin será removido amanhã de manhã — disse ela, voltando ao modo operacional. — Enid já começou a espalhar os boatos necessários. Temos quatro horas antes de partirmos. Sugiro que você limpe este lugar. Não quero deixar vestígios da nossa presença para os subordinados da prefeitura.
Tyler levantou-se, sentindo a força do Avatar pulsando em suas veias, agora em harmonia com sua vontade.
— Sim, Wandinha — disse ele. — Eu cuido disso.
Enquanto ele começava a organizar a garagem, Wandinha parou na porta, olhando para a floresta de Jericho uma última vez. Ela sentia o peso do diário de Hester em sua mente e o gosto de Tyler em seus lábios. Ela sabia que a jornada para Vermont seria apenas o começo de uma descida ainda mais profunda ao abismo.
— Tyler — chamou ela, sem se virar.
— O que foi?
— No cemitério... quando eu disse que você era meu... — Ela fez uma pausa, as palavras parecendo lutar para sair. — Eu não estava falando apenas de posse.
Ela saiu antes que ele pudesse responder, desaparecendo na névoa que subia do solo. Tyler ficou parado no centro da garagem, um sorriso lento e perigoso surgindo em seu rosto. Ele sabia o quanto aquela admissão havia custado a ela. E sabia que, a partir daquele momento, o mundo inteiro deveria ter medo.
Porque não havia nada mais perigoso do que um monstro que encontrara algo pelo qual valia a pena lutar, e uma Addams que decidira que o amor era apenas uma forma mais intensa de possessão.
A estrada para Vermont os esperava, pavimentada com as cinzas de Jericho e as promessas de um futuro escrito em preto e vermelho. E enquanto a luz da manhã começava a surgir, o eco do vazio que Wandinha sentira fora preenchido por algo muito mais sombrio e satisfatório: a certeza de que, no fim de todas as coisas, eles estariam juntos, observando o mundo queimar.