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Sombras

O Delírio do Ferro e do Gelo

A viagem até a fronteira de Vermont foi uma sinfonia de asfalto molhado e silêncios cortantes. A motocicleta de Tyler cortava a neblina como uma lâmina de barbear através de seda cinzenta, mas a proximidade física exigida pelo veículo — o corpo de Wandinha pressionado contra as costas dele, as mãos dela segurando sua cintura com uma firmeza possessiva — parecia apenas enfatizar o abismo emocional que se abrira após o confronto na garagem.

Eles chegaram a uma pequena cidade de beira de estrada, um lugar cujas luzes de neon piscavam com a melancolia de um olho moribundo. O apartamento que Wandinha alugara sob um pseudônimo era um espaço exíguo acima de uma lavanderia desativada. O ar ali dentro cheirava a mofo, poeira e ao metal frio de uma cidade que esquecera como sorrir.

Wandinha chutou a porta para fechar e soltou sua maleta no chão de madeira rangente. Ela varreu o ambiente com um olhar crítico, parando abruptamente quando seus olhos encontraram o único móvel de descanso no quarto conjugado.

— Inaceitável — sentenciou ela, a voz soando como o bater de uma tampa de caixão.

Tyler, que estava retirando sua jaqueta de couro encharcada, parou o movimento. Ele olhou para a cama de casal estreita, coberta por uma colcha de retalhos desbotada que parecia ter sido costurada com os restos de esperanças perdidas.

— O que foi agora, Wandinha? — A voz dele estava rouca, carregada pelo cansaço da viagem e pela tensão residual do Hyde que ainda arranhava as paredes de sua consciência.

— O erro logístico é evidente — disse ela, cruzando os braços sobre o peito. — Há apenas uma unidade de repouso. Eu não compartilho meu espaço de inconsciência com ninguém, muito menos com um espécime cujas flutuações hormonais e transformações moleculares são tão imprevisíveis quanto o clima de Vermont.

Tyler soltou um suspiro pesado, um som que beirava o rosnar. Ele se aproximou da janela, onde a chuva batia contra o vidro com uma violência rítmica, como se o céu estivesse tentando entrar à força.

— Estamos fugitivos, Wandinha. Não estamos em um hotel cinco estrelas em Paris. É o que temos para hoje.

— O pragmatismo não justifica a promiscuidade espacial — retrucou ela, os olhos fixos nele com uma intensidade gélida. — Você pode ocupar o chão. A rigidez da madeira deve ser benéfica para a sua postura, já que você insiste em carregar o peso do mundo nos ombros de forma tão dramática.

Tyler virou-se lentamente. Seus olhos tinham um brilho perigoso, um âmbar que começava a vazar pelas bordas de suas pupilas humanas. A exaustão emocional dos últimos dias, a dor da rejeição dela e a pressão constante de ser o "Avatar" de algo que ele mal compreendia finalmente atingiram o ponto de ebulição.

— Eu não sou seu animal de estimação, Wandinha — disse ele, cada palavra saindo como um estalo de chicote. — Eu não sou o seu cão de guarda que dorme no tapete enquanto você descansa em seu trono de indiferença.

— Você é o que eu decidi que você é — respondeu ela, sem recuar um milímetro. — E no momento, você é uma inconveniência que ocupa o meu campo visual.

Tyler não respondeu. Ele não gritou, não quebrou nada, nem deixou o Hyde assumir o controle para rasgar as paredes. Houve algo pior: um silêncio absoluto. Ele apenas pegou sua jaqueta úmida, abriu a porta do apartamento e saiu.

Wandinha permaneceu imóvel. Ela ouviu os passos dele descendo a escada de metal externa, o som sendo engolido pelo rugido da tempestade lá fora. Ela esperou que ele voltasse após alguns minutos de birra masculina, mas o relógio na parede, que marcava o tempo com um tique-taque irritante, continuou sua marcha solitária.

Dez minutos se passaram. Vinte. Trinta.

A chuva intensificou-se, transformando o mundo exterior em uma massa informe de água e sombras. Wandinha tentou se concentrar no diário de Hester, mas as palavras pareciam borradas. Uma sensação estranha começou a rastejar por sua espinha — não era medo, era uma irritação profunda por ter sua "propriedade" agindo de forma ilógica.

Ela caminhou até a janela embaçada e limpou um pequeno círculo no vidro com a manga da camisa.

Lá embaixo, do outro lado da rua estreita, havia um banco de ferro forjado sob a luz fraca de um poste de iluminação pública. Tyler estava lá. Ele não estava procurando abrigo. Ele estava deitado no banco, os braços cruzados sobre o peito, o rosto voltado para o céu tempestuoso, permitindo que a enxurrada fria o lavasse completamente.

— Idiota — sussurrou Wandinha.

Ela observou-o por mais alguns minutos. Ele não se movia. Parecia uma estátua de mármore abandonada em um jardim esquecido. A temperatura lá fora estava caindo rapidamente; a chuva de Vermont no outono era conhecida por carregar o hálito do inverno.

Wandinha sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de preocupação. Era, segundo sua mente analítica, uma questão de preservação de ativos. Se Tyler morresse de hipotermia ou pneumonia, o investimento dela seria desperdiçado.

Ela pegou seu guarda-chuva preto e desceu as escadas.

Ao abrir a porta de metal da rua, o frio a atingiu como um tapa. Ela atravessou a rua, seus sapatos chapinhando nas poças profundas. Quando chegou ao banco, parou e olhou para baixo.

Tyler estava pálido. Seus lábios tinham um tom levemente azulado e ele tremia de forma violenta, embora seus olhos estivessem fechados como se estivesse em um transe profundo. A jaqueta de couro estava saturada, pesando sobre ele como uma armadura de chumbo.

— Tyler — chamou ela, a voz sendo quase abafada pelo vento. — Levante-se. Sua tentativa de martírio é esteticamente medíocre e logisticamente desastrosa.

Ele não abriu os olhos. Apenas soltou um suspiro trêmulo que se transformou em uma pequena nuvem de vapor no ar gélido.

— Vá embora, Wandinha — sussurrou ele, a voz tão fraca que ela teve que se inclinar. — Deixe o objeto na chuva. Objetos não sentem frio.

Wandinha sentiu uma faísca de raiva. Ela fechou o guarda-chuva — que de nada servia contra o vento lateral — e segurou o braço dele.

— Chega de teatro. Você vai entrar. Agora.

Ela tentou puxá-lo, mas Tyler era pesado, uma massa de músculos e ossos que parecia ancorada ao ferro do banco. Foi então que ela sentiu o calor. Mesmo através da manga encharcada, a pele de Tyler irradiava um calor antinatural, um fogo febril que parecia estar tentando consumir o gelo da chuva.

— Você está queimando — disse ela, sua voz perdendo a aspereza habitual e assumindo um tom de curiosidade alarmada.

Ela tocou a testa dele. Estava escaldante. O contraste entre o frio da chuva e a febre dele era um paradoxo biológico. O Hyde estava tentando curar o corpo do estresse emocional e físico, mas a luta interna estava sobrecarregando o sistema imunológico de Tyler.

— Tyler, olhe para mim — ordenou ela, forçando-o a se sentar.

Quando ele finalmente abriu os olhos, Wandinha recuou um milímetro. As pupilas dele eram fendas verticais, e a esclera estava injetada de sangue. Ele estava em um estado de delírio, preso entre o homem e a besta, entre a febre e a realidade.

— Está doendo... — ele gemeu, a cabeça caindo no ombro dela. — O gelo... o gelo não apaga o fogo, Wandinha. Nada apaga.

Wandinha percebeu que não conseguiria convencê-lo a andar. Com uma força que surpreenderia qualquer um que visse sua estrutura pequena, ela passou o braço dele por cima de seus ombros e o içou. Ela o carregou através da rua, cada passo sendo uma batalha contra o peso dele e a força do vento.

Ao chegarem ao apartamento, ela o arrastou para dentro e o deixou cair sobre a cama que, minutos antes, ela se recusara a compartilhar.

Tyler desabou nos lençóis, sua respiração vindo em silvos curtos. Wandinha não perdeu tempo. Ela retirou a jaqueta pesada dele, as botas cheias de água e a camisa ensopada que grudava em seu peito como uma segunda pele. A pele de Tyler estava vermelha, e pequenas nuvens de vapor pareciam subir de seu corpo enquanto ele tremia incontrolavelmente.

Ela correu até o banheiro pequeno e trouxe toalhas secas, começando a esfregar o corpo dele com uma eficiência rítmica.

— Por que você é tão teimoso? — murmurou ela, enquanto secava o cabelo dele. — O Hyde pode ser indestrutível, mas o hospedeiro humano é irritantemente frágil.

Tyler estendeu a mão, seus dedos quentes e trêmulos fechando-se em volta do pulso de Wandinha.

— Você veio... — ele murmurou, os olhos focados nela com uma intensidade febril. — Por que você veio?

— Eu já disse — respondeu ela, tentando soltar o pulso, mas ele a segurava com uma força desesperada. — Você é um investimento. Eu não permito que meu patrimônio seja danificado por negligência climática.

— Mentira — Tyler soltou um riso quebrado, que se transformou em uma tosse seca. — Você odeia que eu tenha razão. Você odeia que eu saiba que você se importa.

Wandinha parou o movimento da toalha. Ela olhou para ele — para o monstro que ela reivindicara, para o homem que ela ferira. O rosto de Tyler estava marcado pelo sofrimento, e a febre parecia estar queimando as últimas barreiras de sua dignidade.

— A febre está afetando sua capacidade cognitiva — disse ela, sua voz soando estranhamente oca.

Ela pegou uma bacia com água fria e um pano, começando a aplicar compressas na testa dele para baixar a temperatura. Tyler soltou um suspiro de alívio quando o frio tocou sua pele, mas ele não soltou a mão dela.

— Fica — pediu ele, a voz sumindo. — Não me deixa sozinho no escuro, Wandinha. O Hyde... ele está com fome. E ele está com raiva de você.

— Deixe que ele sinta raiva — disse ela, sentando-se na beirada da cama. — Eu já domei feras mais perigosas do que o seu ressentimento.

As horas seguintes foram um borrão de cuidados e delírios. Wandinha permaneceu ao lado dele, trocando as compressas, observando o ritmo errático de seu coração. Em seus delírios, Tyler falava sobre Laurel, sobre o cheiro de menta, sobre o medo de nunca ser nada além de uma arma. E, ocasionalmente, ele chamava o nome de Wandinha com uma ternura que a fazia querer se esconder nas sombras mais profundas do quarto.

Perto da madrugada, a febre finalmente começou a ceder. O calor abrasador deu lugar a um suor frio, e a respiração de Tyler tornou-se profunda e regular. Ele ainda segurava a mão dela, mas o aperto agora era suave, uma âncora em um mar calmo.

Wandinha sentiu o peso da exaustão. Seus próprios cabelos estavam úmidos da chuva, e seu corpo doía pelo esforço de carregá-lo. Ela olhou para a cama. Tyler ocupava a maior parte do espaço, mas havia um lugar ao lado dele.

Ela hesitou. Sua mente gritava sobre princípios, sobre o isolamento que era sua marca registrada, sobre o perigo de permitir que um monstro se aproximasse tanto de seu núcleo. Mas então, ela olhou para a mão de Tyler, os dedos marcados por cicatrizes que ela conhecia a história de cada uma.

— Apenas por uma questão de monitoramento térmico — sussurrou ela para si mesma.

Ela deitou-se ao lado dele, por cima das cobertas, mantendo uma distância cautelosa. Mas Tyler, mesmo dormindo, pareceu sentir a presença dela. Ele se moveu, puxando-a para mais perto, o calor de seu corpo agindo como um sedativo para a mente sempre alerta de Wandinha.

Ela não se afastou. Contra todos os seus instintos de preservação, ela permitiu que a cabeça dele descansasse em seu ombro. O cheiro de chuva e ferro era forte, mas sob ele, havia o aroma de Tyler — algo selvagem, doce e perigosamente familiar.

— Você é uma criatura deplorável — murmurou ela, fechando os olhos enquanto o som da chuva lá fora finalmente começava a diminuir.

Naquela pequena sala em Vermont, cercados pelo cheiro de mofo e pelo peso de segredos de sangue, a Addams e o Hyde encontraram uma trégua temporária. Não era paz, e certamente não era cura. Era apenas o reconhecimento de que, no eclipse de suas almas, eles eram as únicas sombras que se encaixavam perfeitamente.

Quando o sol começou a nascer, pintando o quarto de um cinza pálido, Tyler abriu os olhos. A febre havia ido embora, deixando apenas uma fraqueza persistente. Ele sentiu o peso de Wandinha ao seu lado e o calor da mão dela, que agora repousava sobre o seu peito.

Ele não se moveu. Ele não queria quebrar o feitiço. Ele observou o rosto dela enquanto ela dormia — a máscara de mármore finalmente relaxada, as tranças levemente desfeitas. Ela parecia quase humana. Quase vulnerável.

— Eu sabia que você viria — sussurrou ele, um sorriso triste tocando seus lábios.

Wandinha despertou no instante em que ele falou. Seus olhos se abriram e, por um segundo, houve uma clareza absoluta entre eles. Não havia sarcasmo, não havia estratégias, não havia o Círculo de Sangue. Havia apenas dois monstros compartilhando uma cama de retalhos em uma cidade que não sabia seus nomes.

— Sua temperatura estabilizou — disse ela, sentando-se rapidamente e recompondo sua máscara habitual. — Sua tentativa de suicídio por exposição falhou miseravelmente.

— É — Tyler sentou-se com dificuldade, sentindo cada músculo protestar. — Você é péssima em me deixar morrer, Wandinha.

— É um hábito irritante que pretendo corrigir no futuro — mentiu ela, levantando-se e pegando sua maleta. — Agora, vista-se. Temos um arquivista em Vermont para interrogar e não pretendo perder mais tempo com suas crises existenciais climáticas.

Tyler observou-a caminhar até a porta, a postura impecável como se nunca tivesse passado a noite cuidando de um delírio febril. Ele olhou para o lugar onde ela estivera deitada, sentindo o calor que ainda permanecia ali.

— Wandinha?

Ela parou com a mão na maçaneta.

— Obrigado. Por me carregar.

— Eu apenas protegi meu investimento — respondeu ela, sem se virar. — Tente não se desvalorizar novamente. O chão de Vermont é muito duro para eu ter que carregá-lo uma segunda vez.

Ela saiu do quarto, o som de seus passos na escada de metal sendo o único sinal de sua partida. Tyler respirou fundo, sentindo o Hyde ronronar em seu peito, satisfeito por um motivo que ele não ousava admitir.

Eles ainda eram monstros. Eles ainda estavam em guerra com o mundo e consigo mesmos. Mas enquanto ele se vestia para enfrentar o que quer que Vermont escondesse, Tyler Galpin sabia que, não importava o quão frio ficasse lá fora, ele nunca mais teria que enfrentar a tempestade sozinho.

Afinal, Wandinha Addams não compartilhava sua cama com qualquer um. E ela certamente não salvava nada que não considerasse seu por direito de conquista. E para Tyler, naquele momento, ser uma propriedade dela era a única liberdade que realmente importava.